Hebreus 2: Significado, Devocional e Exegese

Hebreus 2

Hebreus 2 aprofunda o argumento iniciado no capítulo anterior, introduzindo uma exortação urgente: se Deus outrora falou por meio dos profetas e agora o fez por meio do Filho, negligenciar tal salvação é grave e trágico. Com isso, o autor inaugura o primeiro de vários parênteses exortativos que perpassam a epístola, fundindo teologia, pastoral e advertência. O foco desloca-se da revelação celestial ao drama histórico da salvação, enfatizando a necessidade da encarnação, sofrimento e morte do Filho. Se no capítulo 1 o Filho é apresentado em sua majestade divina, entronizado à direita da Majestade, agora ele é descrito em sua solidariedade com a humanidade, fazendo-se “um pouco menor que os anjos” e partilhando da carne e do sangue. A cristologia de Hebreus 2, portanto, não é apenas especulativa: é profundamente soteriológica. O Filho glorioso torna-se irmão, participante do sofrimento, sacerdote compassivo. Por isso, este capítulo constitui a ponte indispensável entre a teologia elevada da revelação e a praxis redentora da encarnação.

I. Estrutura e Estilo Literário

Hebreus 2 exibe uma notável variação estilística em relação ao capítulo anterior, mantendo, contudo, a coesão argumentativa que caracteriza toda a epístola. O capítulo inicia-se com uma exortação direta, construída com recursos retóricos típicos do gênero parenético, como a conjunção inferencial διὰ τοῦτο [dià toûto, “por isso”] e o uso do aoristo subjuntivo προσέχειν [prosékhein, “prestar atenção”], que introduz uma chamada à vigilância espiritual. A linguagem torna-se então argumentativa, com estrutura causal e condicional: a comparação entre a palavra anunciada pelos anjos e a proclamada pelo Filho é estabelecida por paralelismo e contraste. A seção seguinte, que compreende os versículos 5 a 9, apresenta uma citação extensa do Salmo 8, reinterpretada cristologicamente. A fórmula de introdução à citação, ἐμαρτύρησεν δέ που τις [emartýrēsen dé pou tis, “alguém, em algum lugar, testificou”], é tipicamente rabínica, refletindo um estilo midráshico deliberado. O autor não ignora a fonte — ela é sabida —, mas a remete ao status de Escritura viva. A terceira parte do capítulo (vv. 10–18) é profundamente hínica e doutrinal, utilizando paralelismos semânticos e metáforas cultuais (santificador/santificados, irmãos, sacerdote, sangue, libertação). A progressão lógica é marcada por conjunções consecutivas e causais, como ἐπρέπει γὰρ [epéprepen gàr, “pois convinha”] e ὅθεν [hóthen, “por isso”], o que reforça a coesão argumentativa. Há também um notável uso de inclusios e referências intercaladas ao Salmo 22 e Isaías 8. Em termos estilísticos, o capítulo alterna entre tom exortativo, hermenêutico e litúrgico, com passagens que antecipam as discussões sobre o sacerdócio (caps. 4–10) e a fé (caps. 11–12).

II. Hebraísmos no Texto Grego

A presença de hebraísmos em Hebreus 2 é sutil, mas constante, revelando a matriz judaica do pensamento do autor. A exortação inicial — Διὰ τοῦτο δεῖ περισσοτέρως προσέχειν [Dià toûto deî perissotérous prosékhein, “Por isso, é necessário prestar mais atenção”] — ecoa estruturas exortativas dos Provérbios e dos Salmos, onde o verbo שָׁמַר [shāmar, “guardar, atentar”] é frequentemente usado com intensificadores (cf. Provérbios 4:20: הַקְשִׁיבָה לְאִמְרֵי־פִי [haqshîvā leʾimrê-fî, “atenta às palavras da minha boca”]). O verbo προσέχειν [prosékhein] é comumente usado na LXX para traduzir esse sentido, e sua intensificação por περισσοτέρως [perissotérous, “ainda mais”] sugere a fórmula hebraica כִּי־אִם [kî-ʾim, “certamente, com mais razão”].

Outro hebraísmo aparece na forma genérica de citação: ἐμαρτύρησεν δέ που τις [emartýrēsen dé pou tis, “alguém testificou em algum lugar”] (v. 6), equivalente ao uso de fórmulas rabínicas como אָמַר רַבִּי פְּלוֹנִי [ʾāmar rabbî pelônî, “disse o rabino tal”] ou até mesmo ao anonimato respeitoso de textos sagrados. A citação do Salmo 8:5–7 aparece com forte adaptação semântica: ἠλάττωσας αὐτὸν βραχύ τι παρ᾽ ἀγγέλους [ēláttōsas autòn brakhý ti par' angélous, “fizeste-o por um pouco menor que os anjos”], vertendo o hebraico וַתְּחַסְּרֵהוּ מְעַט מֵאֱלֹהִים [vatĕḥasserêhû meʿaṭ mēʾĕlōhîm, “e tu o fizeste um pouco menor que Elohim”], onde אֱלֹהִים [ʾĕlōhîm] é interpretado aqui como ἄγγελοι [ángeloi, “anjos”], conforme o uso da LXX. Essa adaptação é teologicamente relevante e linguisticamente hebraizante, pois mantém a cadência e a lógica salmódica.

A linguagem cultual dos vv. 11–18 também está saturada de ecos hebraicos. A relação entre ὁ ἁγιάζων [ho hagiázōn, “o que santifica”] e οἱ ἁγιαζόμενοι [hoi hagiazómenoi, “os que são santificados”] remete à linguagem levítica de santificação, cujo correspondente hebraico קִדֵּשׁ [qiddēsh, “consagrar”] é central nas ordenanças de pureza. A imagem do diabo como aquele que tem “o poder da morte” — τὸ κράτος τοῦ θανάτου [to krátos tou thanátou] — é construída sobre a tradição de textos intertestamentários (como Sabedoria 2:24) e de concepções demonológicas hebraicas, associadas à serpente e ao Acusador (הַשָּׂטָן [haśśāṭān]).

III. Versículo-Chave

Hebreus 2:17 

Por isso convinha que ele fosse feito semelhante a seus irmãos em tudo, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus, a fim de fazer propiciação pelos pecados do povo.

Este versículo condensa a teologia encarnacional, sacerdotal e expiatória de Hebreus. O Filho, ao assumir a condição humana plenamente — “semelhante em tudo aos irmãos” —, qualifica-se como ἀρχιερεὺς [archieréus, “sumo sacerdote”], e não apenas como mediador, mas como aquele que realiza ἱλάσκεσθαι [hiláskesthai, “a propiciação”] dos pecados. O versículo introduz um dos vocábulos-chave de toda a epístola (ἱλασμός [hilasmós]), e antecipa toda a seção doutrinal posterior sobre o sacerdócio e o sacrifício (caps. 4–10). Ele está no coração da cristologia de Hebreus: o Verbo que se fez carne, para morrer, ressuscitar e interceder.

IV. Intertextualidade com o Antigo e o Novo Testamento

Hebreus 2 encontra-se profundamente enraizado nas Escrituras hebraicas, reinterpretando-as à luz da encarnação e da obra redentora de Cristo. A citação do Salmo 8:4–6 — “Que é o homem para que dele te lembres, e o filho do homem para que o visites?”] — é reinterpretada cristologicamente: o “homem” referido é agora o Cristo encarnado, glorificado por meio do sofrimento. A mudança de אֱלֹהִים [ʾĕlōhîm] para ἄγγελοι [ángeloi] na LXX, acolhida por Hebreus, reforça a tese da humilhação voluntária do Filho.

A expressão “ὁμοιωθῆναι τοῖς ἀδελφοῖς” [homoiōthênai toîs adelphoîs, “ser feito semelhante aos irmãos”] ecoa Gênesis 37Gênesis 50, onde José, figura do salvador sofredor, é reconhecido como “irmão” pelos que o traíram. Ao mesmo tempo, remete à profecia messiânica de Isaías 53:12: “וְהוּא חֵטְא־רַבִּים נָשָׂא” [vehû’ ḥeṭʾ-rabbîm nāśāʾ, “ele levou o pecado de muitos”], antecipando a propiciação. Os versículos 12 e 13 citam diretamente o Salmo 22:22 e Isaías 8:17–18, textos que expressam confiança em Deus em meio ao sofrimento e que agora são atribuídos a Cristo.

No Novo Testamento, Hebreus 2 dialoga com Filipenses 2:6–8, que descreve o esvaziamento (κένωσις [kénōsis]) do Filho, e com Romanos 8:29, onde Cristo é “o primogênito entre muitos irmãos”. A teologia da vitória sobre a morte, “anulando aquele que tinha o poder da morte” (v. 14), retoma 1 Coríntios 15:54–57, assim como João 1:14 fundamenta a ideia da encarnação plena. Cristo é o novo Adão, mas também o verdadeiro sumo sacerdote que sofre e intercede (cf. Hebreus 4:15; 5:1–10).

V. Lição Teológica Geral

Hebreus 2 ensina que a glória de Cristo não contradiz sua humanidade, mas a pressupõe. Aquele que é o resplendor da glória de Deus tornou-se semelhante aos homens em tudo — não apenas para ser exemplo, mas para ser mediador eficaz. A teologia da epístola aqui articula-se em três eixos: encarnação real, sofrimento redentor e sacerdócio compassivo. Em contraste com qualquer cristologia docética ou angelológica, Hebreus proclama um Cristo plenamente humano, que experimenta a morte para vencer a morte, que sofre para consolar os que sofrem, que é tentado para socorrer os tentados. A salvação não é apenas escatológica, mas presente, e consiste em ser conduzido por esse “pioneiro da salvação” à glória. O Deus que outrora falou agora se fez carne, e sua voz é também seu sangue, sua morte, sua mediação.

VI. Comentário de Hebreus 2

Hebreus 2 apresenta uma exortação solene para que os crentes não negligenciem a grande salvação anunciada pelo próprio Senhor, confirmada pelos que O ouviram e autenticada por Deus com sinais, prodígios e dons do Espírito. O autor contrasta a severidade da punição por desobediência à Lei, mediada por anjos, com a inescusabilidade de desprezar a mensagem do Filho, superior aos anjos e soberano sobre o mundo vindouro. Citando o Salmo 8, mostra que Jesus, o verdadeiro Filho do Homem, foi por pouco tempo feito menor que os anjos, experimentou a morte por todos e, em seguida, foi coroado de glória e honra, restaurando o destino perdido da humanidade. Como Autor da salvação, Cristo foi aperfeiçoado por meio de sofrimentos, identificou-se plenamente com os que santifica, chamou-os irmãos, destruiu o poder da morte e libertou os que estavam sujeitos à escravidão do medo. Feito em tudo semelhante aos homens, tornou-se o misericordioso e fiel sumo sacerdote que fez propiciação pelos pecados e, por ter sido tentado e sofrido, é poderoso para socorrer os que são tentados.

A. Uma Admoestação: A Inescusabilidade da Salvação (Hebreus 2:1-4)

Hebreus 2:1 Portanto, convém-nos atentar com mais diligência para as coisas que temos ouvido... (A partícula dia touto [“por isso”] estabelece ligação lógica com o capítulo anterior: visto que o Filho é infinitamente superior aos anjos — Hebreus 1:4-14 —, Sua mensagem exige atenção ainda maior. O verbo “convém-nos” traduz dei, que denota necessidade moral e obrigação inevitável, não mera sugestão. “Atentar” traduz prosechein, que no grego clássico significa “voltar a mente para, aplicar-se a, apegar-se a” e, no contexto náutico, “segurar firme a embarcação” [cf. Atos 8:6; 16:14]. A expressão “com mais diligência” — perissoterōs — é comparativo de intensidade, indicando zelo redobrado, urgência em não permitir distração. O autor assume o pronome “nós” (hēmas) para incluir a si mesmo no dever da vigilância espiritual, deixando claro que nenhum crente está imune ao perigo da deriva espiritual. A forma verbal “temos ouvido” — ēkousamen (aoristo) — aponta para o momento histórico específico em que a mensagem foi recebida, implicando que a responsabilidade permanece mesmo após o evento inicial. Essa construção reforça a continuidade da obrigação de guardar e praticar o que foi recebido [cf. 1 Coríntios 15:1-2; Colossenses 1:23.]) ...para que em tempo algum nos desviemos delas (A conjunção mēpote [“para que não”] introduz a finalidade negativa da exortação. O verbo “desviemos” traduz pararreō, termo náutico que significa “escorregar para o lado” ou “derivar sem âncora” e, figuradamente, “desviar-se gradualmente” [usado em Provérbios 3:21 LXX]. A imagem é de um navio que, solto da amarra, é arrastado lentamente pela corrente, ilustrando o perigo da negligência — não uma apostasia súbita, mas um afastamento quase imperceptível. No pano de fundo do judaísmo do Segundo Templo, esse conceito era facilmente entendido, pois a vida piedosa era vista como caminhar numa “senda” ou “caminho” [cf. Salmo 1:1; Provérbios 4:18-19] e desviar-se era seguir uma trajetória para longe de Deus. Jesus advertiu sobre a necessidade de permanecer vigilante [Mateus 24:42; Marcos 13:33] e Paulo exorta os crentes a “andar cuidadosamente” [Efésios 5:15].)

Hebreus 2:2 Porque, se a palavra falada por meio de anjos permaneceu firme... (O “porque” — gar — introduz o argumento do “menor para o maior”, característico do raciocínio rabínico (qal wahomer). A “palavra” aqui é a Lei mosaica, que segundo a tradição judaica foi promulgada “por meio de anjos” [Deuteronômio 33:2; Salmo 68:17 LXX; Atos 7:53; Gálatas 3:19]. O verbo “foi falada” — lalētheisa (aoristo passivo) — indica a ação completada no passado, mas cujos efeitos continuam. O adjetivo “firme” traduz bebaios, que no uso jurídico significa “validado, irrevogável” (cf. Hebreus 6:19; 2 Pedro 1:19). A ideia é que a revelação mediada por anjos foi juridicamente vinculante e não podia ser quebrada sem consequências.)...e toda transgressão e desobediência recebeu justa retribuição (O autor usa dois termos para descrever violações: parabasis — “transgressão”, ou seja, violar conscientemente um mandamento, como em Romanos 4:15 — e parakoē — “desobediência” no sentido de recusar-se a ouvir e atender, usada também em Romanos 5:19. A “justa retribuição” — misthapodosia — é termo técnico legal para a compensação ou penalidade proporcional à infração, seja punição ou recompensa (cf. Hebreus 10:35; Hebreus 11:26). Sob a antiga aliança, essa retribuição se manifestava em bênçãos e maldições temporais — Deuteronômio 28 até Deuteronômio 30 —, como também na disciplina divina — Hebreus 12:5-11; Provérbios 3:11-12.)

Hebreus 2:3 Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação... (A pergunta retórica assume resposta óbvia: não escaparemos. “Negligenciarmos” traduz amelēsantes, que significa “não se importar, tratar com desdém, desprezar por descuido”, usado em Mateus 22:5 para os convidados que “não se importaram” com o chamado do rei. Essa “tão grande salvação” não se refere aqui apenas à justificação (que já era revelada no Antigo Testamento — Gênesis 15:6; Habacuque 2:4), mas ao anúncio pleno do evangelho do Reino, iniciado por Cristo e confirmado pelos apóstolos, incluindo a promessa de reinar com Ele — Lucas 12:31-32; Lucas 22:29-30; 2 Timóteo 2:12; Apocalipse 3:21. Negligenciá-la implica não apenas perda de benefícios presentes, mas exclusão de privilégios futuros, mesmo para quem já crê.) ...a qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor (O aoristo “tendo sido anunciada” — laleisthai — enfatiza o ato histórico inicial da proclamação por Jesus, “o Senhor” (ho kyrios), que falou com autoridade divina — João 12:49-50. A prioridade temporal (“inicialmente”) confirma que Cristo é a fonte primária da mensagem, como em Marcos 1:14-15, Mateus 4:17.) ...foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram (O verbo bebaioō — “tornar firme, autenticar” — descreve a ação dos apóstolos e demais testemunhas oculares que receberam diretamente de Cristo e transmitiram à geração seguinte — Lucas 1:2; Atos 1:21-22. O aoristo passivo indica que a confirmação foi uma ação completa, reconhecida e validada por Deus. O autor se inclui entre os que receberam de segunda mão, sugerindo que nem ele nem seus leitores estavam no grupo original dos discípulos.)

Hebreus 2:4 Testificando Deus juntamente com eles, por sinais, prodígios e várias maravilhas... (O verbo “testificando” — synepimartyrountos — é um particípio presente ativo, indicando ação contínua: Deus constantemente confirmava a mensagem. Os “sinais” — sēmeia — são obras que apontam para verdades espirituais; os “prodígios” — terata — enfatizam o aspecto de maravilha e espanto; as “maravilhas” ou “atos de poder” — dynameis — destacam a eficácia da ação divina. Essa tríade aparece em Êxodo 7:3 LXX, Atos 2:22, 2 Coríntios 12:12, mostrando que os milagres no ministério de Jesus e dos apóstolos são a continuidade e o clímax do padrão veterotestamentário.)

...e dons do Espírito Santo, distribuídos segundo a sua vontade (O termo “dons” aqui é merismois, “divisões, distribuições”, indicando não apenas capacidades espirituais específicas como em 1 Coríntios 12:4-11, mas todas as manifestações da graça do Espírito — Efésios 4:7-12. A cláusula “segundo a sua vontade” — kata tēn autou thelēsin — sublinha a soberania divina na concessão, não dependendo de esforço humano, mas de propósito celestial — cf. Gálatas 3:5; 1 Coríntios 12:11. Assim como no Antigo Testamento Deus autenticava Seus servos com sinais (Êxodo 4:1-9; Juízes 6:17-21), no Novo Testamento o Espírito confirma a veracidade do evangelho e equipa a Igreja para sua missão.)

B. A Humilhação e a Coroação de Glória do Cristo (Hebreus 2:5-9)

Hebreus 2:5 Pois não foi a anjos que sujeitou o mundo que há de vir, do qual falamos (A conjunção gar [“pois”] conecta a afirmação ao argumento anterior: se negligenciar a mensagem do Filho traz juízo inevitável, é porque Ele é o soberano do “mundo que há de vir” (tēn oikoumenēn tēn mellousan). Essa expressão, comum no judaísmo do Segundo Templo, designava a era messiânica escatológica em que as promessas de Deus se cumpririam plenamente — cf. Isaías 65:17-25; Daniel 7:13-14; Daniel 12:2-3. No pensamento judaico, o “mundo vindouro” era reservado aos justos e caracterizado pela restauração de todas as coisas sob o governo do Messias. O autor enfatiza que Deus não confiou esse domínio aos anjos (contraste com Deuteronômio 32:8 LXX e a crença em administrações angelicais sobre as nações), mas ao Filho, como já declarado no Salmo 2:7-9 e Salmo 110:1-2. Assim, este versículo é a ponte que liga a advertência dos vv. 1-4 à exaltação messiânica que segue.)

Hebreus 2:6 Mas, em certo lugar, alguém deu testemunho, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites? (A introdução “em certo lugar” indica que o autor não foca no nome humano do salmista, mas na autoridade inspirada da Escritura. A citação é do Salmo 8:4-6, que medita sobre Gênesis 1:26-28: a dignidade e a vocação do homem (anthrōpos) como imagem de Deus. O termo “homem” — anthrōpos — enfatiza a humanidade em geral, enquanto “filho do homem” — huios anthrōpou — ressalta a condição frágil e mortal da raça humana. No pano de fundo messiânico, “Filho do Homem” também é título profético derivado de Daniel 7:13, associado à figura gloriosa que recebe domínio eterno. “Para que dele te lembres” — mimnēskē — evoca o cuidado pactual de Deus, lembrança ativa que implica ação; “para que o visites” — episkeptē — no hebraico (paqad) denota intervenção, inspeção, visitação para bênção ou juízo — cf. Lucas 1:68, 78.)

Hebreus 2:7 Tu o fizeste, por pouco tempo, menor do que os anjos... (No grego, ēlatōsas auton brachy ti par’ angelous pode ser entendido de duas formas, e o autor joga com as duas: a) aplicado à humanidade em geral, significa que, durante a existência terrena, o homem ocupa posição inferior aos anjos em glória, poder e imortalidade — cf. Salmo 103:20; b) aplicado a Cristo, refere-se à Sua humilhação voluntária na encarnação — Filipenses 2:6-8 —, em que assumiu a fraqueza humana e sujeitou-se à morte. A expressão brachy ti (“por pouco tempo”) indica a transitoriedade dessa inferioridade; é uma humilhação com prazo determinado, revertida na ressurreição e exaltação.) ...de glória e honra o coroaste (O verbo estephanōsas [“coroar”] refere-se tanto ao homem, coroado no Éden com autoridade sobre a criação — Gênesis 1:28 — quanto a Cristo, coroado após Sua vitória sobre a morte — Atos 2:33-36; Filipenses 2:9-11. A “glória” (doxa) e a “honra” (timē) são atributos reais concedidos pelo Pai, ecoando Apocalipse 5:12.)

Hebreus 2:8 Todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés (Citação direta do Salmo 8:6, ecoando o mandato régio de Gênesis 1:28. A expressão “todas as coisas” — ta panta — é inclusiva, abrangendo o universo criado, físico e espiritual — Colossenses 1:16. O verbo hupetaxas [“submeteste”] é usado também em 1 Coríntios 15:27 para descrever a sujeição universal a Cristo. O autor comenta: “Ora, havendo-lhe sujeitado todas as coisas, nada deixou fora do seu domínio” — enfatizando a abrangência absoluta dessa autoridade. ...agora, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas (A conjunção adversativa grega nyn de estabelece a tensão escatológica entre o “já” e o “ainda não” do Reino: Cristo já é Senhor de tudo — Mateus 28:18; Efésios 1:20-22 —, mas o exercício visível e total desse domínio ainda aguarda consumação — Apocalipse 11:15; Hebreus 10:13. A história ainda está no processo de colocar todos os inimigos debaixo de Seus pés — 1 Coríntios 15:25.)

Hebreus 2:9 Vemos, todavia, aquele que, por pouco tempo, foi feito menor do que os anjos, Jesus... (A partícula grega de aqui tem valor enfático: “contudo, vemos”. Pela primeira vez, o autor menciona o nome humano “Jesus” (Iēsous), sublinhando Sua encarnação e proximidade com a humanidade — Mateus 1:21; Hebreus 4:15. O uso de brachy ti retoma o v. 7, reforçando a breve duração da humilhação terrena.) ...por causa do sofrimento da morte, coroado de glória e honra (A expressão “sofrimento da morte” — pathēmati tou thanatou — indica que foi exatamente pelo caminho da morte que veio a exaltação — Lucas 24:26; Filipenses 2:8-9. A coroação aqui é pós-ressurreição, fruto de Sua obediência até o fim — Apocalipse 3:21.) ...para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos (O verbo “provar” — geusētai — significa experimentar plenamente, e não apenas de modo simbólico ou parcial — cf. Mateus 16:28; João 8:52. “Por todos” (hyper pantos) no contexto da carta indica todos os filhos que Deus está conduzindo à glória — Hebreus 2:10, 16 —, isto é, Seu povo redimido. Tudo isso é obra da “graça de Deus” (chariti theou), que toma a iniciativa na salvação — Romanos 5:8; Tito 2:11 — e cumpre a profecia de Isaías 53:4-6, 10-12.)

C. O Autor da Salvação e Sua Obra Sumo Sacerdotal (Hebreus 2:10-18)

Hebreus 2:10 Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e por meio de quem tudo existe... (O versículo começa com gar [“porque”], conectando-se logicamente ao v. 9: a morte de Cristo e Sua coroação não foram um acidente, mas algo que “convinha” — eprepen, “era adequado, apropriado” — ao caráter e ao plano de Deus. Ele é descrito como “para quem” — di’ hon ta panta — e “por meio de quem” — di’ hou ta panta — todas as coisas existem, expressando, como em Romanos 11:36 e 1 Coríntios 8:6, tanto a causa final (Deus como alvo de toda a criação) quanto a causa eficiente (Deus como agente de toda a criação). Isso estabelece que a salvação e o sofrimento de Cristo estão profundamente enraizados no propósito eterno de Deus, e não em um improviso histórico.) ...trazendo muitos filhos à glória (O particípio agagonta [“trazendo”] tem aspecto aorístico, indicando ação decisiva: Deus conduz à glória os “muitos filhos” que, pelo Filho, são adotados — Romanos 8:14-17, 29; Gálatas 4:4-7. Essa “glória” é tanto a honra escatológica no Reino vindouro — 2 Coríntios 4:17; Apocalipse 3:21 — quanto a restauração da dignidade perdida em Adão — Salmo 8, já citado. É a consumação da vocação régia e sacerdotal do homem, agora garantida no Messias.) ...aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles (O verbo “aperfeiçoasse” — teleiōsai — não implica imperfeição moral, mas “tornar plenamente qualificado” para a função. O “Autor” — archēgos — é o pioneiro, líder ou “capitão” que abre caminho para outros seguirem, como em Hebreus 12:2 e Atos 3:15; Atos 5:31. O caminho de Cristo à glória passou pelo sofrimento — Filipenses 2:8-9; Lucas 24:26 — e, assim, Ele se tornou apto a ser o perfeito Salvador, plenamente identificado com os que salva.)

Hebreus 2:11 Pois tanto o que santifica como os que são santificados vêm todos de um só... (O “que santifica” — ho hagiazōn — é Cristo, e “os que são santificados” — hoi hagiazomenoi — são os crentes, separados para Deus pelo Seu sacrifício [Hebreus 10:10, 14; 13:12]. A expressão “de um só” — ex henos — pode referir-se a Deus Pai como origem comum ou à mesma natureza humana compartilhada. Em ambos os casos, a ideia central é a união essencial entre Cristo e Seu povo, que fundamenta a seguinte afirmação.) ...por isso, não se envergonha de lhes chamar irmãos (O verbo “envergonhar-se” — epaischynetai — aqui é enfático: mesmo sendo o Senhor da glória, Cristo se identifica conosco como irmãos [João 20:17; Romanos 8:29], mostrando humildade e solidariedade absoluta.)

Hebreus 2:12 Anunciarei o teu nome a meus irmãos; no meio da congregação te louvarei (Citação de Salmo 22:22, que no contexto original é o clímax do salmo messiânico que começa com o lamento “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” — citado por Jesus na cruz em Mateus 27:46. Aqui, o versículo expressa a vitória do justo sofredor que, após ser liberto, proclama a fidelidade de Deus no meio da assembleia. Aplicado a Cristo, aponta para Sua ressurreição e para o louvor conjunto dos remidos [Romanos 15:9; Apocalipse 5:9-13.])

Hebreus 2:13 Porei nEle a minha confiança. E ainda: Eis aqui estou Eu e os filhos que Deus me deu (As citações são de Isaías 8:17-18, onde o profeta, em meio à rejeição nacional, confia plenamente em Deus e se apresenta com os filhos que lhe foram dados como sinais. O autor de Hebreus vê nisso um paralelo com Cristo, que confia no Pai [João 14:31] e Se apresenta com os filhos que Lhe foram dados pelo Pai [João 6:37, 39; João 17:6, 9] como parte do Seu povo redimido.)

Hebreus 2:14 Portanto, visto que os filhos têm participação comum de carne e sangue, também Ele, igualmente, participou das mesmas coisas... (O substantivo “carne e sangue” é uma expressão hebraica para a natureza humana [cf. Mateus 16:17; Gálatas 1:16]. O verbo “têm participação” — kekoinōnēken (perfeito) — indica condição permanente da humanidade; “participou” — meteschēken (aoristo) — mostra que Cristo assumiu voluntariamente essa condição. A razão dessa encarnação é dupla:) ...para que, por meio da morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo (O verbo “destruir” — katargēsē — significa “anular, tornar inoperante”. O diabo é descrito como tendo “o poder da morte” porque, ao incitar ao pecado [Gênesis 3; João 8:44], introduziu a morte como consequência — Romanos 5:12; 6:23. Sua autoridade, porém, é derivada e limitada por Deus [Jó 1:12; Lucas 22:31] e foi quebrada na cruz [Colossenses 2:15; 1 João 3:8], embora sua destruição final ocorra no juízo [Apocalipse 20:10.])

Hebreus 2:15 E libertasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida (O verbo “libertar” — apallaxē — denota remoção completa. O “pavor da morte” é usado por Satanás como instrumento de escravidão, mantendo os homens cativos ao pecado e à desesperança. A obra de Cristo removeu esse medo — João 11:25-26; 2 Timóteo 1:10 —, garantindo a ressurreição e a vida eterna [1 Coríntios 15:54-57.])

Hebreus 2:16 Pois, na verdade, Ele não socorre anjos, mas socorre a descendência de Abraão (O verbo “socorrer” — epilambanetai — significa “agarrar para ajudar”, usado em Mateus 14:31 para Jesus segurar Pedro. A “descendência de Abraão” é entendida tanto física quanto espiritualmente [Gálatas 3:7, 29], enfatizando que a encarnação visou redimir a humanidade, e não os anjos [cf. Hebreus 1:14.])

Hebreus 2:17 Por isso mesmo convinha que, em todas as coisas, fosse feito semelhante aos irmãos... (A semelhança é completa, exceto no pecado [Hebreus 4:15]. Essa identificação é necessária para a função sacerdotal, como se verá mais à frente [Hebreus 4:14-5:2].) ...para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus (Primeira menção explícita de Jesus como “sumo sacerdote” em Hebreus. “Misericordioso” — compassivo para com os fracos — e “fiel” — confiável no cumprimento de Sua missão — são qualidades que asseguram Sua perfeita mediação [cf. 1 Coríntios 1:9; 1 João 1:9].) ...para fazer propiciação pelos pecados do povo (O verbo “fazer propiciação” — hilaskesthai — no AT grego (LXX) descreve a ação sacerdotal no Dia da Expiação — Levítico 16. Em Cristo, essa propiciação é única e definitiva [Romanos 3:25; 1 João 2:2; Hebreus 9:26-28], satisfazendo a justiça divina e removendo a culpa.)

Hebreus 2:18 Pois, naquilo que Ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados (O verbo “sofreu” — peponthen (perfeito) — indica que a experiência de sofrimento de Cristo é permanente em seu valor e efeito. “Tendo sido tentado” — peirastheis — abrange todas as formas de provação [Mateus 4:1-11; Lucas 22:28], mas sem pecado [Hebreus 4:15]. O verbo “socorrer” — boēthēsai — é termo militar para “acudir ao chamado de socorro”, enfatizando a prontidão e eficácia de Cristo em ajudar Seus irmãos em suas lutas [1 Coríntios 10:13; Judas 24-25]. O último versículo do parágrafo novamente chama a atenção para os benefícios conferidos aos humanos, possibilitados pela plena identificação do Filho com os humanos. O versículo tem uma ligação particularmente clara com a afirmação de que o Filho se torna um sumo sacerdote misericordioso no versículo 17. Versões em inglês fornecem uma janela para a questão interpretativa central neste versículo: o autor está se referindo a “tentação” (NIV; ESV; NET; CSB) ou o “teste” (NLT; NRSV; NAB)? O verbo grego, que ocorre duas vezes no versículo (peirazō, “testar/provar/tentar”), pode significar ambos, assim como o substantivo cognato (peirasmos, “teste/prova/tentação”). O verbo ocorre três outras vezes em Hebreus: o significado é debatido em 4:15; duas vezes provavelmente significa “teste” (3:9; 11:17). A única ocorrência do substantivo significa “teste” (3:8). A conexão com o sofrimento neste versículo favorece uma referência à “prova”: é um pouco mais natural pensar em alguém sofrendo enquanto passa por uma prova do que enquanto é tentado. O “sofrimento da morte” de Jesus (v. 9), por ter resistido à prova, trouxe-lhe glória e honra. Ao mesmo tempo, seu sofrimento o capacitou a se identificar plenamente com outros que passavam por sofrimento semelhante, e esse foco na identificação favorece uma referência à tentação. Talvez não precisemos escolher entre essas opções: toda “prova” traz consigo uma “tentação” comparável. O autor pode ter seu público em mente aqui. Eles “suportaram um grande combate cheio de sofrimento” (10:32); precisam agora perseverar (10:36), o que podem fazer concentrando-se em Jesus, que “suportou a cruz, desprezando a sua vergonha” (12:2).)

VII. Devocional de Hebreus 2: A Tão Grande Salvação

Há perguntas na Bíblia que não servem para abrir debates, mas para fechar todas as saídas. Elas não foram escritas para estimular curiosidade, mas para produzir silêncio no coração e provocar exame profundo da alma. Entre elas está esta, que ecoa com urgência: “Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?”

Mas antes de chegarmos ao peso final dessa pergunta, precisamos considerar o seu início. O autor não começa falando do “escapar” nem mesmo da “negligência”; ele começa falando do que está em jogo: “tão grande salvação”. E é aqui que o Espírito Santo, através desse escritor, quer que fixemos primeiro o olhar, para que entendamos o valor imensurável daquilo que poderíamos negligenciar.

Quando ele diz “tão grande salvação”, não está enfeitando a frase com um adjetivo exagerado, como quem busca efeito literário; está constatando uma realidade indescritível. O “tão” aqui é um convite a parar e pensar, a tomar um fôlego profundo e meditar no que significa essa salvação.

E o que a torna tão grande? É grande pela profundidade da miséria da qual nos resgata. Não é apenas salvar-nos de problemas externos, de hábitos ruins ou de culpas subjetivas. É nos libertar da justa ira de Deus contra o pecado, da condenação eterna, do poder tirânico do diabo, do medo paralisante da morte. É tirar-nos da morte espiritual — “estando vós mortos em delitos e pecados” (Efésios 2:1) — e nos dar vida com Cristo. É grande porque o abismo de onde fomos tirados é mais fundo do que ousamos encarar.

É grande pela altura da glória à qual nos eleva. Essa salvação não nos coloca apenas de volta ao ponto inicial; ela nos leva muito além. É adoção como filhos de Deus (Romanos 8:17), conformidade à imagem de Cristo (Romanos 8:29), participação na glória que o Filho recebeu do Pai (João 17:22). É a esperança de um mundo onde “não haverá mais morte, nem pranto, nem dor” (Apocalipse 21:4), e onde veremos o Senhor face a face (1 João 3:2).

É grande pelo preço que foi pago para torná-la possível. Custou a encarnação do Filho eterno, o rebaixamento d’Aquele que é o resplendor da glória de Deus (Hebreus 1:3). Custou que Ele fosse feito, por um pouco, menor que os anjos, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos (Hebreus 2:9). Custou o suor como gotas de sangue no Getsêmani, a vergonha e a dor da cruz, o brado angustiado: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46). Esse preço é o sangue do Cordeiro sem defeito e sem mácula (1 Pedro 1:19).

É grande pelo amor eterno que a planejou. Não foi improviso diante de uma crise; foi propósito concebido “antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4). Deus sabia da nossa rebelião e, ainda assim, amou-nos, determinando não apenas nos livrar do juízo, mas nos unir a Si para sempre. É amor que não pode ser medido, que nos alcançou quando éramos inimigos (Romanos 5:8–10).

E é grande pela segurança absoluta que oferece. Não depende da instabilidade do nosso coração, mas da fidelidade do Deus que prometeu. “Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la” (Filipenses 1:6). Quem está em Cristo já passou da morte para a vida (João 5:24) e ninguém o arrebata das mãos do Senhor (João 10:28). É tão grande que sua consumação não é uma possibilidade, mas uma certeza selada pelo Espírito Santo, “o penhor da nossa herança” (Efésios 1:14).

Depois de mostrar a glória dessa salvação, o autor nos confronta com a segunda palavra: “negligenciarmos”.

Negligenciar não soa tão pesado quanto “rejeitar”, mas é justamente isso que a torna perigosa. É uma palavra que descreve o abandono lento, gradual, quase imperceptível. Não é a hostilidade aberta contra Cristo; é a indiferença que esfria o amor e rouba a prioridade. É como o navio que perde o porto não porque virou bruscamente, mas porque foi se deixando levar pela corrente.

Negligenciar é deixar de tratar a salvação como o tesouro que ela é. É o agricultor que planta e não rega; o marinheiro que larga o leme; o guardião que adormece no posto. O verso 1 usa a imagem de “desviar-se”, como um anel que escorrega do dedo sem que se perceba. Assim é a alma que, aos poucos, deixa de atentar às verdades que antes lhe eram vida.

O perigo é que a negligência é confortável. Permite que tudo na aparência continue igual: orações ainda são feitas, cultos frequentados, palavras cristãs proferidas. Mas o coração já não arde, e a obediência já não é fruto de amor, mas de costume. É o que Jesus denunciou em Éfeso: “Tenho contra ti que abandonaste o teu primeiro amor” (Apocalipse 2:4).

Ela pode infiltrar-se na vida pessoal, quando deixamos a Palavra e a oração perderem lugar. No lar, quando Cristo não é lembrado nas conversas e decisões. Na igreja, quando o serviço é mecânico e a comunhão, formalidade. No trabalho, quando a fé fica guardada na gaveta. Na vida social, quando o testemunho é abafado pelo medo da opinião alheia.

E é aqui que a terceira parte do versículo irrompe com toda a sua força: “Como escaparemos?”

Essa não é uma pergunta para ser respondida com otimismo; é uma sentença disfarçada de interrogação. A resposta implícita é: não escaparemos. Não escaparemos do Deus diante de quem tudo está nu e patente (Hebreus 4:13). Não escaparemos do juízo que Ele estabeleceu (Atos 17:31). Não escaparemos da condenação que pesa sobre todo aquele que está fora de Cristo (João 3:18).

Não escaparemos na vida pessoal, se vivermos como se essa salvação fosse opcional. Não escaparemos no lar, se nos envergonharmos de confessar Cristo diante dos nossos. Não escaparemos na igreja, se a tratarmos como clube e não como corpo de Cristo. Não escaparemos no trabalho, se vendermos a consciência. Não escaparemos na sociedade, se nos calarmos diante do mal.

E, no último dia, quando os mortos estiverem diante do grande trono branco (Apocalipse 20:11–12), não haverá apelação, não haverá fuga, não haverá outro refúgio. Nesse dia, a pergunta “Como escaparemos?” não será mais convite; será lamento.

Mas hoje, enquanto se diz “hoje” (Hebreus 3:13), essa pergunta ainda é convite à graça. É um chamado para que deixemos a negligência, abracemos essa tão grande salvação e nos refugiemos em Cristo. Porque o único modo de escapar é não fugir d’Ele, mas para Ele. “O nome do Senhor é torre forte; para ela corre o justo e está seguro” (Provérbios 18:10).

VIII. Contexto Histórico de Hebreus 2

O capítulo 2 de Hebreus abre com uma admoestação que mobiliza um recurso retórico amplamente reconhecido entre oradores antigos, retóricos e rabinos: o argumento do menor para o maior, o a fortiori (em termos rabínicos, qal va-ḥomer). O dispositivo estrutura 2:1–4: se uma norma vale em um cenário “menor”, com mais razão valerá — e com consequências mais graves — em um cenário “maior”. O ponto de partida, posto como algo com que a audiência certamente concordaria, é que a lei da antiga aliança era vinculante e a sua transgressão acarretava consequências negativas (2:2). Esse é o caso “menor”. O caso “maior” é a entrega da “palavra de salvação” por meio do Senhor Jesus, mensagem confirmada pelos apóstolos e pelo próprio Deus. A conclusão lógica é direta: se houve punição para o desprezo da lei, com maior razão haverá punição para o desprezo da palavra de salvação. O pano de fundo cultural é relevante: o mundo moderno ocidental mostra crescente incômodo com a noção de punição vinculada à religião, mas a revelação bíblica a trata como pedra angular, em relação direta com o problema do pecado e com o ímpeto humano de auto-legislação. Nessa colisão de cosmovisões, impõe-se a pergunta pastoral: como reagimos a esse conflito? Levamos a sério as consequências do pecado?

Nesse horizonte de gravidade, o autor exorta: “para que não nos desviemos” (2:1). A imagem do “desvio” é particularmente expressiva. O termo traduzido por “desviar-se” (pararyomai) podia descrever algo que escorrega e se perde de alguém — como um anel que, sem querer, sai do dedo —, ou ainda um movimento em direção errada, como um pedaço de alimento que, indo pela traqueia em vez de pelo esôfago, “se desvia” do caminho certo (Westcott, Hebrews, 36–37; Aristóteles, De partibus animalium 3.3; R. C. H. Lenski, The Interpretation of the Epistle to the Hebrews and the Epistle of James [Columbus, Ohio: Wartburg, 1946], p. 64). A metáfora náutica, porém, é ainda mais próxima da preocupação do autor, inclusive porque o verbo “prestar atenção” em 2:1 era usado tecnicamente para “atracar” um navio. Daí a leitura que vincula pararyomai ao perigo de um barco que perde o ponto de acostagem: sem “marcha à ré”, os grandes navios antigos dependiam de vela e remos; ao aproximar-se do cais, excesso de velocidade causava colisão, falta de velocidade fazia o casco “passar ao largo”, sendo arrastado por correntes e ventos (Lane, Hebrews 1–8, pp. 35, 37, seguindo P. Teodrico, “Metafore nautiche in Ebr. 2,1 e 6,19,” RB 6 [1958]: pp. 33–49; cf. Heródoto 2.150; 6.20; Estrabão 9.2.31). O risco espiritual, portanto, é “derivar” para fora do porto seguro do evangelho.

No coração do argumento do “menor” está a tradição de que “a mensagem falada por anjos” era vinculante (2:2). Entre judeus das sinagogas de língua grega no Mediterrâneo do século I, era comum crer que Deus dera a lei no Sinai “por meio de anjos”, em harmonia com a ampla testemunha veterotestamentária de que Deus frequentemente veicula mensagens por anjos. Josefo registra: “E nós aprendemos de Deus o mais excelente dos nossos ensinos, e a parte mais santa da nossa lei por anjos” (Ant. 15.5.5 §136). No Novo Testamento, Atos 7:38 e Gálatas 3:19 ecoam essa convicção. Como já observado em 1:7, anjos eram associados a elementos naturais como vento e relâmpago; não é improvável que as teofanias no Sinai, com esses elementos, tenham sido associadas por alguns a agências angélicas. O Salmo 68:17, ao mencionar os carros de Deus “com o Senhor” no Sinai, foi lido por alguns como indício de miríades angélicas no monte santo. Nesse contexto, a lei da antiga aliança era “vinculante” (bebaios), termo jurídico que denota garantia firme e inalterável; em documentos do século I, a família lexical referia-se a garantias legais (Deissmann, Bible Studies, 107–9). Filo pode chamar a lei de Moisés de “firme” (bebaios), inabalável e imutável, plantada para durar para sempre (Filo, Moses 2.14). Logo, quem estava sob essa lei estava, juridicamente, obrigado a cumpri-la sob pena de punição. Exemplos codificados incluem homicídio (Números 35:16–21), adultério, incesto, bestialidade e sodomia (Números 35:16–21; Levítico 20:10; Deuteronômio 22:24; Levítico 20:11–14; Êxodo 22:19; Levítico 18:22; Levítico 20:13). O culpado recebia de Deus “segundo a sua obra”, sem escapar do juízo: Jó 34:11; Salmo 62:12; Provérbios 24:12; Ezequiel 7:3, 27; Jó 11:20; Provérbios 1:24–31; Jeremias 11:11.

A gravidade aumenta no “maior”: “esta salvação” foi “primeiro anunciada pelo Senhor” e “confirmada” pelos que a ouviram, e “Deus também deu testemunho” (2:3–4). O vocabulário aqui é forense: a mesma raiz de bebaios descreve a “confirmação” que autentica algo juridicamente, garantindo-o “além de qualquer dúvida”. Logo, as primeiras testemunhas não comunicaram mero boato: “confirmaram” a veracidade da palavra de salvação de modo absolutamente confiável. Nesse quadro, vale lembrar o campo semântico de “salvação”. No mundo greco-romano, salus/sōtēria podia significar livramento de perigos extremos — guerra, naufrágio, travessias de deserto; Plutarco relata, por exemplo, uma jovem “salva” no mar por um golfinho. O uso mais comum, porém, é médico: salva-se da doença grave; remédios e médicos podem ser chamados “salvadores”. Nas Escrituras, o termo, quando teológico, comunica o que Deus fez, faz e fará em favor do seu povo. No Antigo Testamento, Deus salva da opressão e do desastre, sobretudo no Êxodo do Egito (Deuteronômio 26:5–9). No Novo Testamento, salva do perigo físico e espiritual, especialmente da ira de Deus e do dia do juízo. O “anúncio” (Hebreus 2:3) de Jesus aponta para a libertação das consequências do pecado por sua obra, e sua pregação é caracterizada como “boas-novas de salvação” (Mateus 9:35). Em Hebreus, essa sōtēria assume imagética sacerdotal: Cristo é simultaneamente sumo sacerdote e sacrifício. “Deus também testemunhou” com “sinais, prodígios e vários milagres, e dons do Espírito Santo”: o próprio Deus entra na “sala do tribunal” da história como co-testemunha das primeiras testemunhas, adicionando seu selo de validação à pregação (Atos 2:22; Romanos 15:19; 2 Coríntios 12:12).

De 2:5 a 2:9, o autor transita da exaltação do Filho (cap. 1) à encarnação, e o faz mediante o Salmo 8:4–6, que traz conjuntamente exaltação (“coroado de glória e honra”) e encarnação (“um pouco menor do que os anjos”). A proximidade com o Salmo 110:1 (Hebreus 1:13) provém da analogia verbal rabínica: ambos os textos aludem a “submeter debaixo dos pés”. Essa justaposição também aparece em 1 Coríntios 15:25–27 para afirmar a autoridade do Messias. A tradição judaica ensinava que anjos ocupavam ofícios de governo sobre as nações — uma leitura associada à forma grega de Deuteronômio 32:8, onde os limites dos povos são “segundo o número dos anjos de Deus”; em Daniel 10:20–21 e 12:1, anjos são “príncipes” de Pérsia e Grécia, e Miguel é “o grande príncipe” sobre o povo de Deus. Na exaltação, porém, Cristo está acima de principados e potestades (por exemplo, Efésios 1:20–23), governo que se revelará plenamente no fim. É a ele, portanto, que o “mundo vindouro” foi sujeito.

Essa linguagem de coroação é culturalmente densa. Na bacia mediterrânea, coroas simbolizavam autoridade real; literatura e arte atestam o símbolo. O Salmo 8, em seu contexto original, celebrava a dignidade da humanidade e sua vocação na criação; a igreja primitiva, articulando-o com o Salmo 110:1, viu nele testemunho da exaltação de Cristo, destacando os tons régios. O gesto de coroar um governante era familiar aos primeiros leitores de Hebreus: a moeda imperial frequentemente trazia César coroado. Moedas do governo de Nero — provavelmente reinante quando Hebreus foi escrito — o mostram com coroas radiantes, identificando-o com deuses como Apolo e Hércules (Stephens, The New Testament World in Pictures, p. 24). Ainda assim, “ainda não vemos” tudo sujeito a Cristo (2:8). O leitor percebe o “tempo” diverso dos dois salmos: Salmo 110:1 projeta a sujeição dos inimigos para o futuro (“até que eu ponha…”), enquanto Salmo 8 declara a sujeição de “todas as coisas” como fato consumado (“e puseste tudo…”). Em fino estilo rabínico, o autor dissipa o aparente conflito: à luz do Salmo 8, “todas as coisas” foram efetivamente colocadas sob os pés do Messias (2:8); o “até que” do Salmo 110:1 significa que ainda não vemos presentemente essa sujeição em sua plenitude (2:8–9). Os inimigos estão derrotados; a plena realização da vitória é futura — palavra de consolo a leitores que sofriam perseguição por um governo maligno.

No nível devocional, as fontes lembram que é desalentador enfrentar provações que pareçam fora do alcance ou do cuidado de Deus. Orações por cura ou livramento podem parecer “não passar do teto”. Contudo, a confiança não se ancora nas circunstâncias, mas no que Deus nos mostrou ser verdade nas Escrituras: só ele tem perspectiva perfeita sobre todas as dinâmicas das nossas circunstâncias presentes. Por isso, é preciso lembrar de Jesus — que também sofreu quando esteve na terra — e olhar para ele como Senhor exaltado, que porá todas as coisas em seus devidos lugares “a seu tempo”.

A partir de 2:10–18, o propósito da encarnação é exposto. Cristo é chamado “autor” da salvação, termo que nos autores antigos cobre um leque semântico amplo: fundador (de família, cidade, povo, nação, do universo ou da humanidade), herói/heroína, príncipe, chefe, capitão, líder, batedor/explorador. Várias nuances cabem aqui: Jesus é certamente “fundador” ou “originador” da salvação; pode ser visto como “líder” e “desbravador” que abre caminho para a glória; e a nuance de “campeão” é igualmente pertinente, pois liberta cativos (2:14–15). Hércules é chamado archēgos e “salvador” em inscrições, moedas e literatura (Attridge, Hebrews, oo. 87–88; Lane, Hebrews 1–8, pp. 56–57). “Perfeito” nesse contexto não significa “sem defeito” — embora isso também seja verdadeiro de Jesus (4:15) —, mas “levado à plena capacitação/completude”. Na LXX, substantivo e verbo do campo de “perfeição” designam a “preparação/consagração” dos sacerdotes levíticos para o serviço (Êxodo 29:9, 29, 33, 35; Levítico 8:33; 16:32; Números 3:3). Assim, archēgos em 2:10 se harmoniza com o “ser aperfeiçoado” para o ministério sumo-sacerdotal: Jesus se torna o fundador de nossa salvação porque, por meio do sofrimento na cruz, foi plenamente preparado para servir como nosso sumo sacerdote.

Para fundamentar a solidariedade do Filho com os crentes, o autor cita dois textos veterotestamentários: Salmo 22 e Isaías 8. O Salmo 22 foi recebido na igreja antiga como profecia densa das aflições de Cristo. O versículo 1 está na origem do brado da cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46). Os versículos 7–8 registram a zombaria dos ímpios contra o justo: “Ele confia em Deus; que Deus o livre”, ecoada junto à cruz (Mateus 27:43). Os versículos 16–18 falam do traspassar das mãos e dos pés, da integridade dos ossos e do lançar sortes sobre as vestes (Mateus 27:35; João 19:23, 31–36). Em 22:22 (Hebreus 2:12), o tom muda para louvor do justo por ter sido socorrido: “Anunciarei o teu nome aos meus irmãos”, linguagem que, para o autor, articula humanidade, sofrimento e solidariedade com os “irmãos” e, com a expressão “no meio da congregação”, alude à encarnação. Em 2:13, Isaías 8:17–18 reforça a mesma tese. No contexto, 8:14 descreve o Senhor como “pedra de tropeço e rocha de escândalo”, texto que o Novo Testamento aplica ao Messias (Romanos 9:33; 1 Pedro 2:8). “Porei nele a minha confiança”, declaração de fé do profeta diante da crise assíria, é aplicada em Hebreus à confiança do Filho no Pai. A frase “Eis-me aqui, e os filhos que Deus me deu” localiza o Filho “entre” os homens e numa relação familiar com os “filhos” de Deus.

Em 2:14, o “diabo” é enquadrado na tradição que o associa à morte: desde Gênesis 3:1–7, e de modo explícito em Sabedoria 2:24 (“por inveja do diabo, a morte entrou no mundo, e os que lhe pertencem experimentam-na”, NRSV). O Novo Testamento, por sua vez, afirma que Cristo destruiu o diabo e suas obras (1 João 3:8). Em 2:15, a obra de Cristo liberta os que viviam “sujeitos à escravidão, pelo temor da morte”. Autores greco-romanos como Eurípides, Cícero, Sêneca e Epicteto reconhecem a força paralisante desse temor. Epicteto pergunta: “E para onde posso ir a fim de escapar da morte? Mostra-me o país, mostra-me o povo a quem eu possa ir, sobre os quais a morte não venha; mostra-me um feitiço contra ela. Se eu não o tenho, o que queres que eu faça? Não posso evitar a morte.” A cultura material lembra ainda um “RECIBO DE ENTREGA DE UM ESCRAVO”, escrito num caco de cerâmica (ostracon) descoberto no Egito, indício documental da escravidão como instituição. Contemporâneo de Cícero, Lucrécio escreveu o poema didático On The Nature of Things (De Kerum Natura) sob a perspectiva epicurista. Os epicuristas afirmavam que toda a realidade é material e negavam a vida após a morte. Lucrécio buscava libertar as pessoas do medo da morte proclamando que depois dela o ser humano deixa de existir e não precisa temer punição eterna (1.102–26). Assim, nas literaturas grega e romana, o medo da morte associa-se às ideias de juízo e punição. Filo, embora com outra cosmovisão, converge na observação: “Nada é tão talhado para escravizar a mente quanto temer a morte pelo desejo de viver” (Good Person 22). Em contraste, a morte de Cristo — que destrói a obra do diabo — liberta os membros da nova aliança desse temor paralisante, provendo perdão dos pecados e removendo a ameaça de punição.

As notas históricas e exegéticas se adensam com apontamentos específicos de 2:2 a 2:17. Em 2:2, “a mensagem falada por anjos”: a tradição judaica sustentava que Deus dera sua lei por meio de anjos (cf. também Atos 7:53; Gálatas 3:19; Deuteronômio 33:2, especialmente na Septuaginta). Em 2:3, “negligenciar tão grande salvação”: a lei — e, portanto, a tradição judaica — punia mais severamente os atos deliberados do que os involuntários (Números 15:27–31); alguns mestres judeus viam a rejeição deliberada da lei como imperdoável. Trata-se, mais uma vez, do argumento qal va-ḥomer: se negligenciar a lei mediada “por anjos” atrai juízo (v. 2), “quanto mais” negligenciar a palavra de Cristo, superior aos anjos (1:1–14). Em 2:5, “não foi a anjos que sujeitou o mundo vindouro”: alguns judeus do século II, para conciliar a unicidade divina e a elevação de Jesus, chegaram a retratá-lo como “anjo principal”; se essa tentação já rondava os leitores de Hebreus (cf. Gálatas 1:8; 4:14), a resposta é peremptória: Cristo é divino, fez-se humano, e nunca foi anjo. Em 2:5, o Antigo Testamento e o ensino judaico garantem que o povo de Deus reinará com Ele no mundo por vir, como Adão e Eva foram designados para reinar no princípio; o autor prova o ponto pelo Salmo 8:4–6, em estilo midráshico.

Em 2:6–7, a fórmula “alguém, em certo lugar, testificou” (NASB) não indica esquecimento, mas uma maneira de enfatizar que o essencial é a autoria divina das Escrituras; Filo usa fórmulas semelhantes. O autor introduz Salmo 8:4–6 por gezerah shavah, ligando textos por palavras-chave repetidas, como “debaixo dos pés” (cf. 1:13). O Salmo 8 declara que, embora o ser humano nada seja em si, Deus o nomeou regente de sua criação, logo abaixo de si (alusão a Gênesis 1:26–27). A Septuaginta verte “um pouco menor do que Deus” por “um pouco menor do que os anjos” (o termo hebraico ʾelohim às vezes significa “anjos”). Que os anjos sejam mais poderosos que os homens neste século é verdade, mas o autor de Hebreus fará outro ponto: ele expõe a versão conhecida de seu público, aplicando-a a Jesus. “Filho do Homem”, aqui, é semitismo para “ser humano”; o autor não explora além disso — embora pudesse tê-lo feito, já que aplica o texto inteiro a Cristo. Alguns estudiosos tentaram conectar essa passagem à ʿAqedah (ligação de Isaque), mas as evidências sugeridas são escassas e tardias para sustentar os paralelos. Em 2:8, seguindo prática exegética judaica, estabelece-se primeiro o que o texto “não pode significar apenas” pela leitura imediata: como a criação não está, de fato, sujeita ao ser humano agora, conclui-se que a intenção original em Adão se cumprirá para os justos “na era vindoura” (2:5) — doutrina consensual no judaísmo; e acrescenta-se que um representante já avançou “à frente” por toda a humanidade, como “novo Adão” (2:9). Em 2:9, na mentalidade judaica, anjos governam as nações “neste século”; Jesus foi feito “menor do que Deus e os anjos”, mas, após a morte, foi coroado de glória (1:13); logo o Salmo 8 é verdadeiro do Adão passado, do povo de Deus no futuro e, ora, cumprido em Cristo. O autor pode ler “um pouco menor” como “por um pouco de tempo menor”, leitura aceitável da LXX de Salmo 8; distingue também “um pouco menor” de “coroado de honra”, ainda que as linhas sejam paralelas no hebraico. Intérpretes antigos liam-se os textos do modo que melhor servisse à tese que defendiam.

Em 2:10, o rebaixamento e a exaltação do Cristo fazem dele o precursor dos justos que herdarão o mundo vindouro (1:14; 2:5). O termo archēgos é traduzido por “pioneiro” (NIV/NRSV), “líder” (cf. GNT), “fundador” ou “campeão”; designava heróis humanos e divinos, fundadores de escolas e os que “abrem trilhas” recompensados por exaltação. A fórmula “por quem e para quem são todas as coisas” era usada por estoicos para descrever a divindade suprema, mas ajusta-se também ao pensamento judaico sobre Deus e a Sabedoria divina, sendo corrente entre judeus da diáspora, inclusive em Paulo (1 Coríntios 8:6). A Septuaginta aplica o verbo de “aperfeiçoar” (teleioō) à consagração sacerdotal; alguns textos judaicos contemporâneos chamam a vida do justo coroada por martírio de “aperfeiçoada”. Em 2:11, o ponto é o cumprimento primeiro em Jesus, “primogênito” (1:6), e depois nos irmãos; em 2:12, prova-se a tese de 2:11 com Salmo 22:22 — salmo do justo sofredor, aplicado às aflições de Cristo nos Evangelhos (por exemplo, Mateus 27:43; Marcos 15:29, 34; João 19:24). Em 2:13, Isaías 8:17–18 é citado: 8:17 retrata o Senhor como santuário para os justos e pedra de tropeço para os demais (8:14–15), texto que, por gezerah shavah com outras “pedras” (Isaías 28:16; Salmo 118:22), aplica-se ao Messias (Romanos 9:32–33; 1 Pedro 2:6–8). Em 8:18, os filhos de Isaías trazem nomes-sinal para Israel; o autor cita porque o texto segue imediatamente 8:17, a redação ajusta-se ao seu ponto (ver 2:12) e porque um dos filhos aponta para Emanuel (Isaías 7:14–16; 8:1–4; cf. 9:6–7). Em 2:14–15, Jesus tornou-se humano, como em Salmo 8:4–6, para ser “novo Adão” e libertar do terror da morte — tema recorrente na literatura antiga, mesmo quando filósofos clamavam transcendê-lo. A literatura judaica, especialmente Sabedoria 2:23–24, vincula diabo e morte; textos posteriores chegam a identificar Satanás com o “anjo da morte”. À maneira de Hércules na tradição grega e, talvez, do próprio Deus guerreiro nas tradições judaicas (cf. Isaías 26:19–21; 44:24–26), Jesus é o “campeão” (cf. 2:10) que livra o seu povo. Em 2:16, ainda expondo Salmo 8:4–6, o autor lembra que Cristo age como precursor do mundo por vir para o povo de Deus — “a semente de Abraão” (cf. Isaías 41:8–9?) —, não para anjos. O Antigo Testamento chama a descendência eleita de Abraão de “filhos de Deus” (por exemplo, Deuteronômio 32:19; Oséias 11:1); o autor escreve a cristãos judeus, gente que há muito crê em um grande destino futuro. Cristo já está exaltado acima dos anjos (2:7, 9), como seu povo estará “na era vindoura” (2:5). Em 2:17–18, dá-se a razão para a encarnação redentora: uma identificação que caracterizaria um “sumo sacerdote” (ver 5:1–3). A imagem tem apelo no mundo antigo, onde as agendas do povo raramente entravam na pauta das aristocracias urbanas, mantidas por pão e jogos. Sobre “fiel”, ver 3:2 e 5.

Na moldura histórica-exegética de 2:1–4, “o que ouvimos” (2:1) alude à mensagem inicial do evangelho pregada à audiência. “Desviar-se” (2:1) evoca âncora que não segura, barco que sai do rumo ou anel que escorrega do dedo. “Falada por anjos” (2:2) remete aos comentários de 1:4. “Sinais e prodígios… dons do Espírito Santo” (2:4) lembram os sinais que acompanharam a lei no Sinai e o êxodo; os milagres atestam a divindade de Jesus; aqui, a alusão é a Pentecostes e seus sinais (Atos 2). Em 2:1–4, uma leitura judaica comum ensinava que qualquer israelita que, deliberadamente, rejeitasse a lei seria excluído do “mundo vindouro”; alguns mestres chegavam a considerar esse pecado “imperdoável”. Na tradição amplamente reconhecida, Deus dera a lei “por meio de anjos” (Atos 7:53; Gálatas 3:19; Josefo, Antiguidades Judaicas 15.136; Jubileus 1:27). Os rabinos preferiam enfatizar a mediação de Moisés e a multidão de anjos presentes com Israel. A tradição pode ter base no intercâmbio entre Deus e “seu anjo” em Êxodo (cf. Êxodo 3:2), na associação do Salmo 68:17 com Sinai e, especialmente, em Deuteronômio 33:2 (ainda mais na LXX, que declara que “seus anjos” estavam com Ele à sua direita). Porque Cristo é maior que os anjos (Hebreus 1:1–14), rejeitar sua palavra é ofensa mais grave que rejeitar a palavra mediada pelos anjos (2:2): é o qal va-ḥomer natural — se o ponto “menor” vale, quanto mais o “maior”. Alguns estudiosos sugerem que 2:1 evoca imagem náutica (um navio à deriva) e que 2:2–4 emprega linguagem jurídica densa.

No desenvolvimento de 2:5–9, o autor sublinha que Jesus é “suprahumano”, mas não “anjo”, respondendo a correntes que, no século II, para não ferir colegas judeus zelosos da unidade de Deus, retratavam Jesus como “anjo principal”. Se tal tentação já rondava a comunidade de Hebreus (cf. Gálatas 1:8; 4:14), a advertência é firme: Cristo é divino, fez-se humano, não anjo. O “mundo” (oikoumenē) em 2:5 pode significar “o mundo habitado”, ao passo que o “mundo por vir” abrange toda a criação, inclusive o âmbito celeste; Hebreus usa kosmos para o mundo presente (4:3; 9:26; 10:5; 11:7, 38). “Filho do homem” (2:6) muito provavelmente designa “ser humano” (cf. Salmo 144:3; Ezequiel 2:1, 3, 6). “Coroado” (2:9) remete tanto ao rei quanto ao atleta vencedor (1 Coríntios 9:25; 2 Timóteo 2:5). “Provar a morte” (2:9) é semitismo para experimentá-la plenamente. “Sofreu a morte” (2:9) relaciona-se a 12:2. Em 2:10–18, “trazer muitos filhos e filhas” (2:10) evoca o êxodo; “glória” (2:10) remete a Salmo 8:5 e ao destino glorioso da humanidade (Romanos 8:17; 1 Coríntios 15:43; Filipenses 3:21; Colossenses 3:4; cf. Hebreus 1:3). “Convinha a Deus” (2:10) harmoniza-se com Filo, para quem convinha a Deus jurar por si mesmo (Filo, Allegorical Interpretation 3.203), e com filósofos gregos que consideravam próprio aos deuses dirigirem o universo (Platão, Leis 10). “Fonte”/“Autor” da salvação (2:10) traduz archēgos, usado para pioneiro, fundador de cidade ou escola, líder ou batedor de exército (cf. LXX Números 10:4; 13:2–3; Juízes 5:15 [B]; 9:44 [B]; 11:6, 11 [B]); pode igualmente designar “campeão”, como Hércules. “Perfeito” (2:10) verte teleioō, que na LXX marca a consagração sacerdotal; em Hebreus, “perfeição” liga-se ao acesso a Deus e ao cumprimento cabal do desígnio divino. “Santificados” (2:11): só Deus torna seu povo santo (Êxodo 31:13; Levítico 20:8; 21:15; 22:9, 16, 32; Ezequiel 20:12; 37:28); consagração e purificação eram funções essenciais do sacerdócio levítico (Êxodo 29:44; Levítico 21:8). “Jesus não se envergonha” (2:11) ressoa um mundo em que honra se busca e vergonha se evita; possivelmente alude a Marcos 8:38; Lucas 9:26. “Os filhos que Deus me deu” (2:13): em Isaías 8:18, os filhos de Isaías são sinais da fidelidade de Deus; é a única passagem no NT onde os crentes são chamados “filhos de Jesus”. “Diabo” (2:14) traduz diabolos, “caluniador/acusador” (cf. Marcos 3:20–29; Lucas 11:17–23); Hebreus bebe do tema veterotestamentário do Guerreiro Divino (Êxodo 15:1–18; Isaías 42:13; 49:24–26). “Sujeitos pela vida toda ao temor da morte” (2:15): no pensamento greco-romano, o medo da morte era visto como forma de escravidão (Eurípides, Orestes; Plutarco, Moralia). “Fiel” (2:17): em 1 Samuel 2:35, Deus promete levantar um sacerdote fiel, em contraste com Eli e, sobretudo, com seus filhos. “Sumo sacerdote” (2:17): devia descender de Eleazar, filho de Arão (Números 20:25–28); os sacerdotes precisavam ser cerimonialmente puros (Levítico 21:1–4, 7–8) e sem defeito (Levítico 21:16–23; cf. Levítico 10:6; 21:5–6). Só em Hebreus Jesus é chamado “sumo sacerdote”. “Fazer propiciação/expiação” (2:17) será desenvolvido em 9:7. “Sofreu, sendo tentado” (2:18) provavelmente alude à agonia no Getsêmani (Mateus 26:36–46; Marcos 14:32–42; Lucas 22:39–46), sem excluir eco das tentações no deserto.

Por fim, algumas precisões de método e linguagem dentro do dossiê histórico de Hebreus 2 consolidam o quadro. “Segundo pensamento judaico comum”, quem rejeitava deliberadamente a lei era excluído do “mundo vindouro”; para alguns, tal pecado era “imperdoável”. O costumeiro qal va-ḥomer — se negligenciar a lei mediada por anjos atrai juízo, quanto mais negligenciar a palavra do Cristo superior a anjos — estrutura 2:1–4. O vocabulário técnico-jurídico de 2:2–4 e a imagética náutica de 2:1 são observados por diversos estudiosos. Em 2:6, a fórmula “há um lugar em que alguém testificou” (NASB) sublinha a autoria divina mais que a humana; Filo emprega fórmulas semelhantes. A conexão entre Salmo 110:1 (“escabelo de seus pés”) e Salmo 8:4–6 (“todas as coisas debaixo dos pés”) é uma aplicação clássica de gezerah shavah. Em 2:8, estabelece-se que o texto não descreve a situação presente — “não vemos” a sujeição universal —, mas a intenção original de Deus, que se cumprirá na era por vir; já agora, porém, “vemos Jesus” (2:9) coroado, “representante” e “novo Adão”. E, ao longo de 2:10–18, archēgos (“pioneiro/fundador/campeão”), “por quem e para quem são todas as coisas” (fórmula filosófica aplicada por escritores da diáspora e por Paulo), teleioō (consagração sacerdotal), a santificação que só Deus opera, a honra/vergónha do mundo mediterrânico, diabolos como acusador, o medo da morte como escravidão, o modelo do sacerdote fiel e o exclusivo título de “sumo sacerdote” para Jesus em Hebreus — tudo isso compõe a tessitura histórico-cultural e intertextual que sustenta a exposição do capítulo.

Esse é o panorama histórico de Hebreus 2 conforme as suas fontes: um entrelaçamento de retórica antiga (a fortiori/qal va-ḥomer), tradições judaicas sobre anjos e Sinai (Atos 7:38; 7:53; Gálatas 3:19; Josefo, Ant. 15.136; Jub. 1:27; Deuteronômio 33:2 LXX; Salmo 68:17), linguagem jurídica de garantias (bebaios), imagens náuticas e forenses, confirmações apostólicas e testemunho divino por “sinais, prodígios e vários milagres” (Atos 2:22; Romanos 15:19; 2 Coríntios 12:12), exegese rabínica por analogia verbal (Salmo 8 e Salmo 110:1; 1 Coríntios 15:25–27), crítica cultural de coroas e moedas de Nero (Stephens, The New Testament World in Pictures, 24), o dossiê do justo sofredor (Salmo 22; Mateus 27:35, 43, 46; João 19:23, 31–36), a pedra de tropeço (Isaías 8:14–15; Romanos 9:33; 1 Pedro 2:8), a vitória sobre o diabo e o medo da morte (Gênesis 3:1–7; Sabedoria 2:24; 1 João 3:8; Epicteto; o ostracon egípcio de um recibo de escravo; Lucrécio, De Kerum Natura 1.102–26; Filo, Good Person 22), e a teologia do archēgos/teleioō em chave sacerdotal (Êxodo 29; Levítico 8; 16; Números 3; 20; 21; Hebreus 3:2; 5; 9). Tudo converge para a proclamação central: se a antiga palavra foi vinculante e sua rejeição punida, “quanto mais” a palavra de salvação, entregue pelo Filho, confirmada pelos que a ouviram e autentificada por Deus, exige atenção — para que não “derivemos” — e fé perseverante no Cristo que, feito “por pouco tempo menor que os anjos”, agora está coroado de glória e honra, conduzindo “muitos filhos e filhas” à glória.

IX. Concordância Bíblica Comentada

A força causal do “por isso” no início de Hb 2:1 se vê imediatamente nas referências internas do livro. Hebreus 1:1–2 estabelece o fundamento: Deus, que outrora falou de muitos modos pelos profetas, agora falou “em Filho” — isto é, pela revelação final e climática do herdeiro, mediador da criação e irradiação da glória. É exatamente por ter sido assim que Deus falou que Hebreus 2:1 exige atenção redobrada: a qualidade do Locutor e do Mediador determina a seriedade da nossa escuta. Em Hebreus 2:2–4, o autor explicita a lógica do “quanto mais”: se a palavra comunicada por anjos (a legislação sinaítica) se mostrou firme e acompanhada de penalidade para transgressores, “como escaparemos” se negligenciarmos tão grande salvação anunciada pelo próprio Senhor, confirmada pelos que a ouviram e autenticada por Deus por sinais, prodígios e dons do Espírito? O “por isso” de 2:1, portanto, não é um truque retórico; ele prepara a comparação do menor para o maior que domina 2:2–4, tornando a negligência não apenas imprudente, mas culposa. E Hebreus 12:25–26 volta a essa mesma nervura: “Vede que não rejeiteis ao que fala”, contrastando quem recusou a voz no Sinai com quem ousaria recusar agora Aquele que fala do céu; a menção ao abalo do Sinai e ao abalo escatológico “ainda uma vez” intensifica a conclusão de 2:1: se a voz divina foi tremenda então, agora é irrevogável — e, justamente por isso, “atenção maior” é a única resposta adequada.

Quando o texto diz “com mais diligência ainda”, ele se insere no rio caudal de exortações de Deuteronômio, Josué, Crônicas, Salmos, Provérbios e dos Evangelhos, todas insistindo em guardar, fixar no coração, não esquecer. Deuteronômio 4:9 adverte: “Somente guarda-te a ti mesmo e guarda bem a tua alma, para que não te esqueças” (Hb.: raq hiššāmēr leḵā ûšmōr napšekā meʾōd, pen‑tiškaḥ — “somente acautela-te e guarda diligentemente a tua alma, para que não te esqueças”); a dupla de verbos “guardar/lembrar” faz o par conceitual de prosechein em Hebreus 2:1, pois atenção não é curiosidade momentânea, mas custódia perseverante do que Deus falou. Deuteronômio 4:23 repete o alarme contra o esquecimento da aliança; Deuteronômio 32:46–47 manda “pôr no coração” todas as palavras, acrescentando que “não é palavra vã para vós, mas é a vossa vida” — exatamente a gravidade que Hebreus invoca quando fala de “tão grande salvação”. Josué 23:11–12 ecoa o mesmo zelo de guarda: amar o Senhor implica vigiar o coração para não se misturar com o que o afasta dele; 1 Crônicas 22:13 vincula prosperidade a “guardar” a lei do Senhor. Salmo 119:9 ensina que o jovem purifica o caminho “observando-o segundo a tua palavra”, o que traduz com perfeição o prosechein de Hebreus: dar-se à palavra molda o viver. Em Provérbios, o pai da sabedoria tateia os mesmos nervos: Provérbios 2:1–6 descreve a receptividade ativa — receber palavras, guardar mandamentos, inclinar o coração — que culmina no dom do conhecimento de Deus; Provérbios 4:1–4 e 4:20–22 pedem que o filho retenha os mandamentos “no íntimo do coração”, porque “são vida” para quem os acha; Provérbios 7:1–2 conclama: “Guarda as minhas palavras… guarda os meus mandamentos, e vive”. Tudo isso se cola à expressão perissoterōs prosechein (“prestar ainda mais atenção”) de Hebreus 2:1: quem foi alcançado pela fala final de Deus em o Filho responde como o filho de Provérbios, colando-se à instrução com zelo. Note-se, ainda, que a própria imagem verbal de “não deixar escorregar” em Hebreus 2:1 encontra paralelo lexical na tradição grega de Provérbios 3:21, onde a versão grega adverte: “Filho meu, não deixes escapar” (Gr.: Huie, mē pararryōis... — “Filho, não deixes que [estas coisas] se escoem”), o mesmo verbo de “derivar/escorrer” de Hebreus, o que sugere que o autor bebeu na sabedoria bíblica para formular o perigo da distração que perde o essencial.

O Novo Testamento reforça esse “ainda mais” com a pedagogia do ouvir que guarda e frutifica. Lucas 8:15 descreve o “coração bom e reto” que ouve a palavra, “retém-na” e frutifica com perseverança; Lucas 9:44 traz a incomum injunção: “Ponde vós nos vossos ouvidos estas palavras” (Gr.: Théste hymeis eis ta ōta hymōn tous logous toutous — “colocai… nos vossos ouvidos estas palavras”), que é praticamente uma paráfrase vívida do prosechein hebreuano. A intencionalidade da escuta é o antídoto contra o “derivar”.

O trecho “devemos” (KJ) torna explícito que a atenção maior não é natural, precisa ser reavivada pela memória espiritual. Hebreus 12:5 censura: “estais esquecidos da exortação” — esquecer é a antessala do desvio de 2:1, e o remédio é a lembrança vigilante. As perguntas de Jesus em Mateus 16:9 e Marcos 8:18 — “ainda não compreendeis?… tendo ouvidos, não ouvis?” — não visam humilhar discípulos, mas expor o mecanismo do “escorrer”: fatos e palavras de Cristo estiveram diante deles, mas não foram “fixados”, e assim “passaram” por eles. É por isso que 2 Pedro 1:12–13 e 1:15 insiste em “despertar com lembranças” e “proporcionar que, depois da minha partida, conserveis sempre memória destas coisas”, e 2 Pedro 3:1 retoma: “desperto, com recordações, a vossa mente sincera”. A pastoral petrina é a pedagogia do autor de Hebreus: manter a palavra “no ouvido” do povo de Deus, para que não “derivem”.

Quando o autor diz “deixando-as escapar” (KJ; lit: “correr para fora, como vasos com vazamento”) ilumina o núcleo semântico de pararyōmen. O verbo descreve o perigo silencioso: não é a rebelião declarada, mas a perda gradual — como água que, sem alarde, se esvai de um recipiente com fissura, ou como um barco que, por não estar amarrado, passa da enseada segura. Em termos proféticos, essa dinâmica aparece quando Habacuque diagnostica o colapso moral de quem “se embriaga” e “se enche de vergonha” (Habacuque 2:16), sinal de que a glória escorreu; e, no registro da história de Israel, cada momento em que o povo “não dá ouvidos” inicia a deriva que culmina em juízo — exatamente a lógica de Hebreus 2:2–3, onde “transgressão e desobediência” encontram retribuição. A imagem é deliberadamente antitética ao “guardar” de Deuteronômio e Provérbios: ou se vigia o coração para reter, ou tudo vai se esvaindo.

Por fim, muitos outros textos dialogam e mostram que o apelo de Hebreus 2:1 é o refrão da Escritura inteira: levantar-se para estar diante de Deus logo cedo (Gênesis 19:27) revela um ritmo de vida que não permite que a voz divina “passe”; as memórias memoriais e instruções guardadas (Êxodo 16:32) ensinam a fixar no coração as obras de Deus; a falta de “dar atenção” de Jeú (2 Reis 10:31) exemplifica a deriva prática de quem até começa obedecendo, mas “deixa escapar” o todo; a leitura em que o povo “tinha os ouvidos atentos” (Neemias 8:3) encarna o prosechein que Hebreus exige. Jó 21:2 (“escutai as minhas palavras”) e Salmo 39:1 (“porei guarda à minha boca”) mostram que atenção e guarda caminham juntas. Isaías 1:20 condiciona a bênção à “escuta obediente” e adverte contra o “recusar”, a mesma antítese de Hebreus 12:25; Isaías 21:7 retrata o atalaia que “escuta atentamente, com grande atenção”, modelo de prosechein. Jeremias 17:21 (“guardai a vós mesmos”) e Ezequiel 3:19; 33:5, com a teologia do atalaia, ensinam que ouvir e guardar decide vida e morte — se ouviu e não se guardou, perece; se ouviu e se guardou, livrou a alma. Jesus retoma esse fio em Mateus 6:1 (“guardai-vos de praticar a justiça diante dos homens”), mostra na parábola do semeador que a palavra sem entendida é “arrebatada” (Mateus 13:19; Marcos 4:15) e multiplica apelos como “Quem tem ouvidos, ouça” (Marcos 4:3) e “Vede o que ouvis” (Marcos 4:24), culminando na voz do Pai: “A ele ouvi” (Mateus 17:5; Marcos 9:7) — a própria essência de Hebreus 1–2. Lucas 8:5 e 8:18 repetem a mesma dinâmica: sementes que se perdem por falta de retenção, e a injunção: “Vede, pois, como ouvis”. Pedro aplica Deuteronômio 18:15 em Atos 3:22 (“a ele ouvireis”), e Paulo condensa Hebreus 2:1 em 1 Coríntios 15:2: “pelo qual também sois salvos, se retiverdes a palavra que vos anunciei” (Gr.: katechete ton logon — “se mantiverdes firme a palavra”); o zelo (spoudē) que consola (2 Coríntios 7:7) contrasta com a apatia que deriva. O próprio autor de Hebreus repisa o refrão: “vede… para que não haja em vós perverso coração de incredulidade” (Hebreus 3:12); “temamos, portanto…” (Hebreus 4:1); “retenhamos firmemente a confissão” (Hebreus 4:14; Gr.: kratōmen tēn homologian — “seguremos com força a confissão”); “atentando diligentemente para que ninguém se prive da graça de Deus” (Hebreus 12:15); “suportai a palavra de exortação” (Hebreus 13:22). João resume com precisão o positivo de Hebreus 2:1: “Permaneça em vós o que ouvistes desde o princípio” (1 João 2:24); e o Ressuscitado dita a terapia contra o “escorrer”: “Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido; guarda-o” (Apocalipse 3:3; Gr.: mnēmoneue… kai tērēson — “lembra-te… e guarda”).

Assim, cada referência citada converge para o mesmo nexo com Hebreus 2:1. A revelação final “em Filho” torna indeclinável o “por isso”: a voz que agora fala exige prosechein “ainda mais”. A tradição de Deuteronômio, Josué, Salmos e Provérbios delineia o modo dessa atenção: guardar no coração, lembrar, inclinar o ouvido, reter; os Evangelhos e as epístolas explicitam o seu conteúdo: ouvir o Filho, manter firme a palavra, despertar a memória; e a metáfora do “escorrer/derivar” denuncia o perigo não dramático, porém mortal, da negligência. O versículo é, portanto, o funil por onde passa a pedagogia inteira da Escritura: Deus falou; por isso, nós guardamos — e guardamos mais, para não derivarmos jamais.

Hebreus 2:2 afirma: “se a palavra falada por meio de anjos se tornou firme, e toda transgressão e desobediência recebeu justa retribuição”. O argumento se ergue sobre três pilares semânticos e históricos: a mediação angélica da revelação mosaica (di’ angelōn, “por meio de anjos”), a confiabilidade dessa palavra (bebaios, “firme, validada, confirmada”) e a inevitável retribuição jurídica (endikon misthapodosian, “recompensa/retribuição justa”). O autor evoca o passado de Israel para construir o “quanto mais” do Evangelho: se sob a administração mosaica cada passo fora do limite (parabasis, “transgressão, ultrapassar um marco”) e cada recusa em ouvir (parakoē, “desobediência, ‘falta de escuta’”) recebiam o que era devido, quanto mais agora, quando Deus falou “em Filho”, a negligência será indesculpável. É à luz desses três eixos que as referências citadas dialogam, uma a uma, com Hebreus 2:2.

Quando o versículo fala da “palavra falada”, ele mira a própria natureza da revelação. Deuteronômio 32:2 descreve o ensino de Moisés “gotejando como chuva” e “destilando como orvalho”, imagem de autoridade suave e, ao mesmo tempo, irresistível. A palavra que forma o povo não é espuma retórica; ela cai, penetra, fecunda e, por isso, “se torna firme” — linguagem que se coaduna com egeneto bebaios (“tornou-se validada/confirmada”) em Hebreus 2:2. Salmo 68:17 convoca o cenário teofânico do Sinai com as “miríades de carros de Deus”: o Senhor “entre eles”, figura imemorial da comitiva celeste. Essa moldura ajuda a compreender por que a tradição bíblica fala da lei como mediada por anjos: o Sinai não foi apenas fogo e voz, mas corte celestial em assembleia. Atos 7:53 torna explícita essa mediação ao dizer que Israel “recebeu a lei por ordenação de anjos”, assim como Gálatas 3:19 registra que a lei “foi adicionada… ordenada por anjos, na mão de um mediador”. A dupla de testemunhas apostólicas dá o substrato histórico-teológico de ho di’ angelōn laleitheis logos (“a palavra que foi falada por meio de anjos”): o que “se tornou firme” não é uma tradição humana, mas a legislação recebida no ápice teofânico da história de Israel. Hebreus, ao apelar a essa mediação, não rebaixa a lei; justamente porque ela veio com tão alta solenidade, o autor pode argumentar a fortiori: se até essa palavra — tão majestosa — exigiu e obteve obediência com sanções, que dizer da fala final de Deus no Filho?

A cláusula “toda transgressão e desobediência recebeu justa retribuição” é demonstrada, quase caso a caso, no registro veterotestamentário listado. Êxodo 32:27–28 narra a consequência do bezerro de ouro: a ordem de executar os idólatras cai como sentença que não pode ser adiada; ali vemos parabasis (“ultrapassar o limite do primeiro mandamento”) recebendo misthapodosia (“retribuição, ‘pagamento’ devido”). Levítico 10:1–2, com Nadabe e Abiú, mostra a outra metade do dístico de Hebreus: parakoē (“não ouvir a ordem cultual”) é fogo estranho e fogo estranho recebe fogo do Senhor — retribuição medida ao desvio. Levítico 24:14–16, ao prescrever a pena para a blasfêmia, reforça que a comunidade inteira reconhece a “justiça da paga” (endikos, “segundo o direito”) porque a palavra é bebaios (“firme”) e a transgressão é objetiva. Números 11:33 registra que a murmuração cobiçosa é atingida por uma praga “ainda a carne estava entre os dentes”: a imediatidade da resposta divina sublinha o “recebeu” de Hebreus 2:2 (elaben, “recebeu, obteve”), aoristo que olha para trás e recolhe um padrão histórico. Em Números 14:28–37, a incredulidade dos espias é paradigma de parakoē (“desobediência, falta de escuta”): ouvir “más notícias” em vez da voz de Deus é “não escutar”, e a “restituição” é o perecer no deserto — o texto até usa linguagem de “retribuição segundo as vossas palavras”. Números 15:30–36 distingue entre pecado “de mão levantada” e inadvertência e narra o apedrejamento do violador do sábado: a teologia de Hebreus 2:2 está precisamente aqui — o estatuto é claro, bebaios (“firme”); a ação, parabasis (“transgressão”); a sanção, endikos misthapodosia (“retribuição justa”). Números 16:31–35 (a fenda que engole Corá, Datã e Abirão) e 16:49 (a mortandade que ceifa quatorze mil e setecentos) põem em relevo que tanto a rebelião institucionalizada quanto a “simpatia” pelo erro têm retribuição; Hebreus condensará isso em “toda transgressão e desobediência”, sem exceções. Números 20:11–12 expõe que nem Moisés é imune: o golpe na rocha é parabasis (“transgressão”) que colhe misthapodosia (“paga/retribuição”) — não entrar na terra — de maneira “justa”, porque proporcionada à gravidade simbólica do ato. Números 21:6, com as serpentes ardentes, retrata o padrão pedagógico da aliança: recusar a palavra é abrir-se à ferroada do justo juízo; Números 25:9 (Baal-Peor) elucida Deuteronômio 4:3–4, onde Moisés lembra que “os que se apegaram ao Senhor” ficaram vivos, ao passo que os que se “ajuntaram” a Baal pereceram — exatamente a antítese entre prosechein (“prestar atenção, reter”) e pararyein (“deixar escorrer”) cujo fruto, agora em 2:2, é a retribuição.

A própria lei, como código, prevê e exige isso: Deuteronômio 17:2, 5, 12 estabelece sanções capitais para idolatria e para a desobediência contumaz à decisão sacerdotal-judicial. Deuteronômio 27:26 sela com maldição quem não confirmar as “palavras desta lei” — a palavra é bebaios (“firme”) porque a comunidade a ratifica e Deus a sustenta; transgredi-la é entrar no raio da endikos misthapodosia (“retribuição justa”). Quando Paulo, em 1 Coríntios 10:5–12, repassa os episódios do deserto, ele faz exatamente o mesmo movimento que Hebreus: “essas coisas aconteceram como exemplos… para que não cobicemos… nem sejamos idólatras… nem tentemos o Senhor… nem murmuremos”. O apóstolo conclui: “quem pensa estar em pé, veja que não caia”, que é a paráfrase pastoral do “tornou-se firme… recebeu retribuição”: a firmeza da palavra não torna a comunidade displicente, mas vigilante. Judas 1:5 confirma o aoristo de Hebreus (“o Senhor… destruiu os que não creram”): a retribuição não é hipótese; é histórico-jurídica.

Quando Hebreus 2:2 usa a família lexical de misthos (“salário, paga”) em misthapodosia (“pagamento de salário; recompensa/retribuição”), ele aciona uma ponte com outras passagens da própria carta que o seu elenco categoriza como “recompense”. Em Hebreus 10:35, o autor exorta a não lançar fora a confiança, “a qual tem grande recompensa” (misthapodosia, “grande retribuição/paga”): o mesmo termo é reaproveitado positivamente — sob o Evangelho, há paga graciosa para a perseverança, assim como, sob a lei, havia paga justa para a transgressão; em ambos os casos, a ideia é de ordem moral objetiva governada por Deus. Em Hebreus 11:6, Deus é chamado de “galardoador” (misthapodotēs, “aquele que retribui/remunera”), e 11:26 diz que Moisés “olhava para a recompensa” (misthapodosia, “recompensa/paga”): a alternância do campo semântico nas duas direções (punição justa e prêmio justo) mostra que endikos (“conforme o direito, segundo a justiça”) em 2:2 é uma qualificação jurídica, não emocional: a retribuição é “segundo o direito” da aliança. Hebreus 2:2, portanto, prepara os capítulos 10–11 ao mostrar que o Deus da antiga aliança já governava a história por retribuição justa; a nova aliança não dissolve esse princípio, mas o consuma na cruz e na perseverança dos santos.

O amplo bloco “recíproco” densifica esse retrato. Êxodo 35:2 estabelece pena para quem profanar o sábado; Levítico 24:23 mostra a execução conforme o estatuto; Números 19:13 trata da impureza não tratada com o devido rito: em todos os casos, a “paga” é proporcional ao tipo de parabasis (“transgressão”) e parakoē (“desobediência”); isso é a ilustração viva do “toda transgressão… recebeu”. Deuteronômio 33:2, ao descrever o Senhor vindo do Sinai “do meio de miríades de santos”, reforça a matriz da mediação angélica já evocada por Salmo 68:17, consolidando o elo entre “falada por anjos” e a teofania mosaica. Jó 34:33 introduz a pergunta moral: “Acaso há de Deus retribuir segundo o teu critério, e não segundo o dele?” — ecoando endikos (“segundo o direito”) em Hebreus: a retribuição é “segundo o direito” de Deus. Salmo 91:8 promete que os justos “verão a retribuição dos ímpios”, o que confirma que a “paga” é um dado da ordem moral divina, não um acaso histórico. Provérbios 12:14, ao dizer que cada um “será retribuído” pelo fruto de suas mãos, traduz em sabedoria cotidiana a mesma lei de misthos (“salário, paga”). Mateus 21:44 adverte que quem “cair sobre esta pedra será despedaçado; e aquele sobre quem ela cair, será reduzido a pó”: rejeitar o Filho é parabasis (“transgressão”) qualitativamente mais grave, por isso Hebreus move do Sinai ao Filho para estabelecer o “quanto mais” de 2:3–4. João 8:28, com Jesus anunciando que, quando for levantado, “sabereis que Eu Sou”, amarra o sinal maior que autentica a palavra do Filho; se a palavra mosaica foi bebaios (“firme”) por sinais e juízos, quanto mais a do Filho, exibida na crucificação–exaltação. Atos 7:35 e 7:38 recordam que Moisés recebeu “oráculos vivos” no deserto “com o anjo” que lhe falava no Sinai: novamente, mediação angélica e firmeza da palavra caminham juntas, a serviço do raciocínio de Hebreus 2:2. Romanos 11:9 fala da mesa que se torna laço, de retribuição que recai sobre a obstinação — princípio idêntico ao “recebeu justa paga”. Colossenses 3:25 é quase um comentário direto: “aquele que faz injustiça receberá em troca a injustiça que fez, e não há acepção de pessoas” — a sintaxe do “receber” (komizetai, “receber de volta”) conversa diretamente com elaben (“recebeu”) e com misthapodosia (“retribuição/paga”). Hebreus 12:15, ao exortar que se vigie “para que ninguém se prive da graça de Deus”, insinua que a graça não abole a ordem de retribuição; ela a transfigura, mas permanece o campo de causas e consequências morais. 1 Pedro 4:17 conclui que “é tempo de começar o juízo pela casa de Deus”, exatamente a seriedade que Hebreus pede que se recupere; 2 Pedro 2:13, por fim, fala dos ímpios “recebendo o salário da injustiça” (misthon adikias, “paga da injustiça”), expressão irmã de misthapodosia e, portanto, reforço da tese de Hebreus.

Tudo isso volta e prende-se a Hebreus 2:2 com firmeza. A palavra dada no Sinai, mediada por anjos, “tornou-se firme” porque foi autenticada por Deus no ato teofânico e na história subsequente do povo; por isso, toda violação objetiva do seu limite (parabasis, “transgressão”) e toda recusa subjetiva de ouvi-la (parakoē, “desobediência, falta de escuta”) “recebeu paga justa” (endikos misthapodosia, “retribuição conforme o direito”). O autor de Hebreus mobiliza esse consenso das Escrituras para erigir seu argumento: se assim foi sob aquela palavra, cuja origem e sanções ninguém discute, agora — quando Deus falou de modo supremo no Filho — negligenciar não é apenas escorregar; é desafiar a justiça de Deus que, ontem e hoje, retribui com equidade.

Hebreus 2:3 ergue a pergunta que constrange a consciência: “Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo tido começo de ser anunciada pelo Senhor, foi depois confirmada a nós pelos que a ouviram”. O enunciado se desdobra em três linhas inseparáveis: a impossibilidade de fuga diante do juízo divino — pōs hēmeis ekpheuxometha (“como escaparemos nós”) —, a gravidade do pecado específico de descuido — amelēsantes (“negligenciando”) — em face de um dom inigualável — tēlikautēs sōtērias (“tão grande salvação”) —, e a solidez histórica dessa mensagem — archēn labousa laleisthai dia tou Kyriou (“tendo recebido início de ser falada por meio do Senhor”) e ebebaiōthē hypo tōn akousantōn eis hēmas (“foi confirmada pelos que ouviram, para nós”). É sob essas três luzes que cada referência do seu elenco dialoga com Hebreus 2:3.

A primeira luz é a do “como escaparemos?”, que aponta à certeza do juízo quando a graça é desprezada. Hebreus 4:1 convoca santo temor para que “não pareça que algum de vós tenha falhado” de entrar no descanso; trata-se de traduzir pōs hēmeis ekpheuxometha (“como escaparemos nós”) em phobēthōmen oun (“temamos, pois”), a atitude antagônica à negligência. Hebreus 4:11, pedindo diligência para entrar no descanso “a fim de que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência”, mostra que a fuga do juízo passa por combater o descuido; quem não combate o descuido confirma a pergunta de Hebreus 2:3. Hebreus 10:28–29 sustenta o argumento a fortiori: se quem violou Moisés “morreu sem misericórdia”, “de quanto mais severo castigo” será digno quem “pisar o Filho de Deus”; assim, o “como escaparemos?” ganha a sua resposta implícita: não escaparemos se a negligência for contra o Filho. Hebreus 12:25 ordena: “Vede que não rejeiteis ao que fala”, e a comparação com os que recusaram no Sinai confirma que a recusa do falar do céu sela a impossibilidade de fuga; o “como escaparemos?” é o eco pastoral dessa admoestação. Isaías 20:6, em meio à falsa esperança no Egito, expõe a ironia do que desespera tarde demais: “Como escaparemos nós?” — é a pergunta implícita de Judá ao ver que o braço humano não salva; negligenciar a salvação “tão grande” para buscar muletas políticas repõe a miséria de Isaías 20. Ezequiel 17:15, 18 registra a quebra de aliança por buscar socorro no Egito e jurar falsamente; ali a lógica é a de Hebreus 2:3: quem despreza a via que Deus estabeleceu — então a aliança com o rei davídico, agora o Evangelho do Filho — não tem por onde sair. Mateus 23:33 põe nos lábios do Senhor a forma direta: “Como escapareis da condenação do inferno?”, traduzindo em linguagem profética o pōs ekpheuxometha (“como escaparemos”) de Hebreus. Romanos 2:3 humilha a presunção religiosa: “Tu, ó homem… pensas que escaparás do juízo de Deus?”; Hebreus 2:3 toma essa pergunta e a dirige não a pagãos, mas a gente à beira do cansaço: negligenciar não é opção segura, é caminho certo para o juízo. 1 Tessalonicenses 5:3 sentencia: “de modo nenhum escaparão”, amarrando a inescapabilidade ao falso senso de segurança; é exatamente o que acontece quando alguém diz “paz e segurança” enquanto descuida da “tão grande salvação”. 1 Pedro 4:17–18 coloca o juízo começando pela casa de Deus e questiona “onde aparecerá o ímpio?”; Hebreus 2:3 internaliza isso: se o crente negligencia, não escapará, pois a prova começa em casa. Apocalipse 6:16–17 pergunta “quem pode suster-se?” diante da ira do Cordeiro; a cena apocalíptica é a moldura última do ekpheuxometha (“escaparemos”) de Hebreus: fora do Cordeiro, não há fuga.

A segunda luz é a do “tão grande salvação”, que mede a gravidade da negligência pelo valor do que é desprezado. Hebreus 5:9 chama Cristo de “autor da salvação eterna”, alargando tēlikautēs sōtērias (“tão grande salvação”): desprezar o que é eterno é incorrer em culpa qualitativamente maior. Hebreus 7:25 diz que Ele “pode salvar completamente”, e 7:26 descreve o Sumo Sacerdote santo e exaltado; a magnitude do ofício sacerdotal do Filho explica por que a salvação é “tão grande”, e por que negligenciá-la é tão sério. Isaías 12:2 confessa: “Deus é a minha salvação”; Isaías 51:5 afirma que a sua salvação “está perto” e 51:8 que “será para sempre”; Isaías 62:11 anuncia: “Eis que vem a tua salvação”. Hebreus 2:3 se alimenta dessa linha: a salvação que os profetas viram aproximar-se chegou no Filho — desprezá-la é virar as costas à fidelidade secular de Deus. Lucas 1:69 celebra “um chifre de salvação” levantado na casa de Davi; esse “chifre” realiza-se no Cristo que Hebreus exalta, e por isso a negligência ecoa a ingratidão de quem despreza o consolo prometido desde os pais. João 3:16–18 põe a antítese: quem crê não é condenado; quem não crê “já está condenado”; Hebreus 2:3, ao perguntar “como escaparemos?”, aplica essa antítese ao pecado específico de negligenciar o que o Pai tanto amou que deu. Atos 4:12 declara que “em nenhum outro há salvação”; o exclusivo do nome de Jesus é o nervo de Hebreus 2:3: rejeitar o único é fechar a última porta de escape. 1 Timóteo 1:15 resume o evangelho: “Cristo Jesus veio salvar pecadores”; Tito 2:11 anuncia a graça que “trouxe salvação a todos”; Apocalipse 7:10 canta: “A salvação pertence ao nosso Deus e ao Cordeiro”. Essas vozes convergem em tēlikautēs sōtērias (“tão grande salvação”): não se trata de alívio moral, mas da intervenção decisiva de Deus no Filho; negligenciar isso é recusar a própria mão que nos retira do abismo.

A terceira luz é a historicidade pública dessa salvação: “tendo tido começo de ser anunciada pelo Senhor”. Hebreus 1:2 já estabelecera o dia tou Huiou (“em [o] Filho”) como a estação final da fala de Deus; Hebreus 2:3 especifica: foi o próprio Senhor que iniciou o anúncio — archēn labousa laleisthai dia tou Kyriou (“tendo recebido início de ser falada por meio do Senhor”). Mateus 4:17 marca a virada: “Desde então Jesus começou a pregar”; Marcos 1:14 mostra Jesus proclamando o evangelho de Deus; Lucas 24:19 o descreve “poderoso em obras e palavras”. Atos 2:22 acrescenta que Deus autenticou essa palavra por “milagres, prodígios e sinais”. O ponto de contato com Hebreus 2:3 é que a salvação não começou em tradições tardias; começou na boca e nas mãos do próprio Cristo, o que torna a negligência mais grave: despreza-se o que foi inaugurado pelo Senhor da glória.

E, “depois, foi confirmada a nós pelos que a ouviram”. A segunda geração recebe um evangelho que não é rumor, mas testemunho de primeira mão — ebebaiōthē hypo tōn akousantōn eis hēmas (“foi confirmada pelos que ouviram, para nós”). Marcos 16:15–19 registra a comissão e associa a proclamação a sinais; Lucas 1:2 fala de “testemunhas oculares e ministros da palavra”, que bebaioun (“confirmam”) com a sua memoria fiel; Lucas 24:47–48 põe a missão nas bocas dos “vós sois testemunhas destas coisas”; João 15:27 reforça que os apóstolos testemunham “porque têm estado com [Ele] desde o princípio”; Atos 1:22 fixa o critério: do batismo de João até a ascensão, para que o eleito se torne “testemunha da ressurreição”; Atos 10:40–42 descreve os “testemunhos escolhidos” que comeram e beberam com o Ressuscitado e foram enviados “a pregar e testemunhar”. Tudo isso é a moldura apostólica de Hebreus 2:3: quem negligencia agora não despreza boatos, mas um evangelho firmado por testemunhas qualificadas, comissionadas e autenticadas.

O extenso elenco recíproco, longe de ser tangencial, costura a urdidura ética dessa pergunta. Gênesis 19:17 manda “escapar por tua vida” de Sodoma; Hebreus 2:3 retoma a seriedade: há um fogo a fugir, e a rota é a salvação anunciada por Cristo. Êxodo 32:28, Êxodo 35:2 e Levítico 24:23 mostram que a aliança antiga não brincava com o pecado; se ali não houve escape para o desprezo da palavra, a negligência agora não será tratada com leviandade. Números 9:13 e 19:13 ensinam que desprezar prescrições de purificação exclui o homem do povo; Hebreus 2:3, em chave cristológica, avisa que negligenciar o único sangue purificador fecha a porta de entrada. Deuteronômio 4:9 volta ao “guarda a tua alma” que Hebreus havia evocado no 2:1 e que aqui é a antítese prática de amelēsantes (“negligenciando”): guardar é a maneira de não perder a única via de escape. Deuteronômio 18:19 ameaça quem não ouvir o profeta como Moisés; Atos 3:23 reaplicará isso a Cristo, e Hebreus 2:3 está dizendo o mesmo: desprezar o Profeta escatológico é perder a saída. 1 Samuel 19:5 lembra obras salvíficas de Davi para mostrar culpa em retribuir o bem com mal; a lógica reaparece aqui: o Filho operou salvação; tratá-la com indiferença é agravar a culpa. Jó 11:20 e 36:18 falam da esperança do ímpio que “perecerá” e de resgates que não livram “na indignação”; Hebreus 2:3 dá nome a esse resgate falso: toda alternativa à salvação em Cristo é fuga que não escapa. Salmo 50:3 retrata Deus vindo com fogo devorador; a pergunta “como escaparemos?” aponta para a única sombra de Sua asa: a salvação do Cordeiro. Provérbios 8:36 declara que quem peca contra a Sabedoria “ama a morte”; negligenciar a salvação é pecar contra a Sabedoria encarnada. Isaías 55:6 exorta a buscar o Senhor “enquanto se pode achar”; Hebreus 2:3 adverte que adiar é flertar com o dia em que já não haverá como fugir. Jeremias 4:30 e 44:14 mostram a inutilidade de ornamentos e estratégias quando Deus decreta o juízo; Hebreus 2:3 chama isso pelo nome: negligência confiante em cosméticos espirituais. Ezequiel 33:9 fixa a responsabilidade: o atalaia livra a sua alma se dá o aviso; quem não escuta “morrerá na sua iniquidade”; o autor de Hebreus fala como atalaia, e a pergunta “como escaparemos?” é o toque de trombeta. Daniel 10:14 lembra um “tempo determinado para o teu povo”; Atos 17:26 fala de tempos e limites estabelecidos; Hebreus 2:3 insinua que também há tempo para ouvir — negligenciar é zombar do tempo de visitação. Miqueias 5:8 e Zacarias 11:6 descrevem juízos em que “ninguém escapará” porque Deus “não terá piedade”; não há como substituir o refúgio da salvação por blindagens humanas. Sofonias 1:6 acusa os que “se desviam do Senhor” e “não o buscam”; é o retrato de amelēsantes (“negligenciando”), a quem a pergunta de Hebreus se dirige.

Jesus confirma essa ordem moral. Mateus 11:22 e 21:41–44 avisam que o juízo será mais tolerável para cidades pagãs do que para quem rejeita o Filho e que o dono “fará perecer os maus”; Hebreus 2:3 toma esse ensino e o aplica ao pecado de indiferença. Mateus 13:37 identifica o Filho do Homem como o semeador; rejeitar Seu ensino é colocar-se no campo de joio que será colhido. Mateus 22:5 expõe a banalização do convite real — foram “um para o seu campo, outro para o seu negócio” —; a negligência em Hebreus 2:3 tem exatamente essa cara cotidiana. Lucas 9:2 mostra a missão de “pregar o reino e curar”; Lucas 9:35 traz a voz do Pai: “A ele ouvi”; ignorar esse mandamento é responder mal a Hebreus 2:3. Lucas 14:21 convida os pobres para o banquete; a negligência, por contraste, é recusar cadeira posta. João 3:18 e 3:36 repetem a alternativa vida/ira; João 8:24 adverte que, se não crerem, “morrereis nos vossos pecados”; João 8:28, 10:25 e 12:48 lembram que obras e palavras de Jesus já julgam o coração — a negligência não é neutra, é já um veredito. João 15:24 acentua a gravidade: “não teriam pecado” como têm, “mas agora viram e odiaram”; a negligência após tanta luz é culpa agravada. João 19:35 reforça a confiabilidade ocular do testemunho — a mesma ebebaiōthē (“foi confirmada”) de Hebreus 2:3 —, e, portanto, desprezá-lo é desprezar prova irrefutável.

Os Atos e as epístolas amarram o fio. Atos 3:23 reaplica Deuteronômio 18: quem não ouvir “será exterminado do povo”; Atos 4:20 e 5:32 insistem que as testemunhas “não podem deixar de falar” e que o Espírito testifica; Atos 13:31 retoma o coro de testemunhas ressurrecionais; Atos 13:40 avisa: “Vede que não venha sobre vós o que está dito nos profetas” — a mesma vigilância de Hebreus. Atos 17:26 lembra tempos determinados, e Atos 20:24 define o ministério como “testificar o evangelho da graça de Deus”; quem negligencia não despreza um conselho, mas um testemunho sob juramento. 1 Coríntios 1:6 observa que “o testemunho de Cristo foi confirmado em vós” — eco da bebaiōsis (“confirmação”) que Hebreus 2:3 invoca. 2 Coríntios 13:8 afirma que nada podemos contra a verdade; negligenciar a verdade não a enfraquece, apenas nos expõe. Efésios 1:13 fala de ouvir o evangelho e “ser selado”, movimento oposto à negligência. 1 Tessalonicenses 1:5 lembra a chegada do evangelho “em poder e no Espírito Santo e em plena convicção”, o mesmo cenário de confirmação que Hebreus 2:3 pressupõe. 2 Tessalonicenses 1:8 fala de fogo vingador “contra os que não obedecem ao evangelho”, e Tiago 1:21 manda “receber com mansidão a palavra implantada, que pode salvar”; negligenciar é recusar o implante. Hebreus 6:9 conforta com “coisas melhores e que acompanham a salvação”, mostrando que o antídoto da negligência é frutificar; Hebreus 10:15 recorda o testemunho do Espírito, e 10:27 fala de “expectação horrível de juízo” — o destino de quem responde mal à pergunta “como escaparemos?”. Hebreus 11:1 define fé como “substância” do que se espera; fé substantiva é o oposto de negligência amorfa. 2 Pedro 2:13 volta à “paga da injustiça”, reafirmando a ordem moral que torna a negligência culposa. 1 João 5:7 (em sua forma recebida nas traduções tradicionais) reforça o eixo do testemunho, e Apocalipse 20:15 pinta o fim: quem não está no livro da vida “foi lançado no lago de fogo”; ali o “como escaparemos?” deixa de ser pergunta e torna-se lamento.

No fim, Hebreus 2:3 não é um enigma, é um espelho: a pergunta pōs hēmeis ekpheuxometha (“como escaparemos nós”) não admite bravatas, somente a honestidade de quem se vê em risco se amelēsantes (“negligenciando”) o que é tēlikautēs sōtērias (“tão grande salvação”). E porque essa salvação archēn labousa laleisthai dia tou Kyriou (“teve início de ser falada pelo Senhor”) e ebebaiōthē hypo tōn akousantōn eis hēmas (“foi confirmada pelos que ouviram, para nós”), desprezá-la já não é ignorância: é rejeição de um anúncio público, profético, apostólico e selado por Deus. A única resposta sábia à pergunta é a antítese prática de 2:1–3: não negligenciar, mas ouvir, apegar-se, e assim “escapar” não fugindo de Deus, e sim correndo para Ele.

Hebreus 2:4 amarra o argumento de 2:1–3 mostrando que a mensagem da “tão grande salvação” não é rumor devoto, mas fato público autenticado pelo próprio Deus: synepimartyrountos tou theou sēmeiois te kai terasin kai poikilais dynameisin kai pneumatos hagiou merismois kata tēn autou thelēsin (“Deus co‑testificando com sinais e prodígios e variadas potências [milagres] e distribuições do Espírito Santo, segundo a sua vontade”). Cada termo aqui pavimenta a mesma estrada: Deus entra na história para assinar o evangelho com atos visíveis, e o faz não por capricho, mas por livre determinação soberana; por isso, negligenciar (2:3) não é apenas feio, é culposo, porque rejeita uma palavra que Deus mesmo firmou.

A linha “Deus co‑testificando” encontra eco imediato no final do Evangelho: Marcos 16:20 descreve os apóstolos saindo a pregar enquanto o Senhor “cooperava com eles” e confirmava a palavra “com os sinais que a acompanhavam”. É a glosa narrativa do que Hebreus 2:4 condensa: a confirmação divina não é subjetiva; ela se dá por sēmeia (“sinais”) e por terata (“prodígios”). Jesus já havia prometido esse eixo do testemunho quando anunciou o Consolador: em João 15:26 o Espírito “testemunhará” dele, e Hebreus 2:4 chama esse testemunho de pneumatos hagiou merismois (“distribuições do Espírito Santo”), isto é, doações do Espírito em vista do testemunho de Cristo. No Pentecostes, Pedro articula exatamente essa lógica: “A este Jesus, Deus o ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas” (Atos 2:32), e o Ressuscitado, exaltado à direita do Pai, “derramou isto que vedes e ouvis” (Atos 2:33). O derramamento visível do Espírito é o modo como Deus “co‑testifica” a ressurreição: não é uma tese; é um fato que se ouve e se vê. A cura do coxo em Atos 3:15–16 explicita que a eficácia está “no nome” do Autor da vida, por meio da fé que vem dele: o milagre é dynamis (“poder”), e dynameis (“potências, milagres”) é precisamente um dos termos de Hebreus 2:4; assim, cada cura apostólica é uma nota no mesmo selo divino. Em Atos 4:10, Pedro afirma que o homem está são “em nome de Jesus”, e em Atos 14:3 o Senhor “confirmava a palavra da sua graça, concedendo que por suas mãos se fizessem sinais e prodígios” — a própria sintaxe de Hebreus 2:4 em forma de história. O mesmo padrão se repete em Atos 19:11–12, quando Deus faz “milagres extraordinários pelas mãos de Paulo”, até lenços e aventais servirem de veículos da compaixão de Deus; é a synepimartyria (“co‑testemunho”) divina tornando o evangelho um acontecimento público. Paulo, por sua vez, interpreta seu ministério nessa chave: não ousa falar “senão das coisas que Cristo fez por seu intermédio”, “por força de sinais e prodígios, na potência do Espírito de Deus” (Romanos 15:18–19), isto é, exatamente aquilo que Hebreus 2:4 chama de terata… dynameis… pneumatos hagiou merismois (“prodígios… potências… distribuições do Espírito Santo”).

Quando o autor fala em “distribuições do Espírito”, ele não descreve apenas milagres pontuais, mas a variedade de dons derramados para que a igreja testemunhe o Cristo. 1 Coríntios 12:4–11 desenvolve isso de modo magistral: “há diversidade de dons, mas o mesmo Espírito… e a cada um é dada a manifestação do Espírito para o que for útil… mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo particularmente a cada um como quer”. Essa última cláusula é uma paráfrase inspirada de pneumatos hagiou merismois kata tēn autou thelēsin (“distribuições do Espírito Santo segundo a sua vontade”): o Espírito é o agente, a igreja é o campo, e a finalidade é o testemunho útil — o que Hebreus chama de “co‑testificar”. Efésios 4:8–11 desloca o foco do “como” para o “quem”: o Cristo exaltado “deu dons aos homens” e, entre esses dons, pessoas‑dom (apóstolos, profetas, evangelistas, pastores‑mestres) para edificar e, por isso mesmo, atestar com vida e palavra o senhorio de Jesus. Quando, em Hebreus 6:4, o autor fala de “terem sido feitos participantes do Espírito Santo”, e em Hebreus 10:15 lembra que “o Espírito Santo também nos testemunha”, está percorrendo o mesmo trilho semântico de 2:4: o Pai autentica o evangelho no Filho, e o Espírito o aplica e o assina na igreja por distribuições multiformes.

A expressão “segundo a sua vontade” é decisiva, porque afasta a ideia de que sinais e dons sejam acionados por desejo humano. Daniel 4:35 declara que Deus “faz segundo a sua vontade… e ninguém pode deter a sua mão”, e Hebreus 2:4 toma esse atributo para descrevê‑lo como o árbitro livre de sua própria autocomprovação: Deus testemunha quando quer, como quer e por quem quiser. Efésios 1:5 e 1:9 colocam a história da salvação sob o mesmo dossel: o Pai nos predestinou “segundo o beneplácito de sua vontade” e fez “conhecer o mistério de sua vontade”. Quando Hebreus 2:4 diz kata tēn autou thelēsin (“conforme a sua vontade”), não está apenas descrevendo o modo dos sinais; está reconectando a autenticação histórica do evangelho ao beneplácito eterno que já vinha de 1:2 (“em Filho”). Até o modo como o Espírito reparte os dons em 1 Coríntios 12:11 — “como quer” — ecoa esse mesmo thelein (“querer”) soberano.

O vasto coro “recíproco” ilumina cada faceta dessa co‑testemunha divina. Salmo 74:9 lamenta um tempo sem “sinais”; Hebreus 2:4 responde mostrando a estação oposta, em que Deus cumulou de sēmeia (“sinais”) a confirmação do evangelho. Salmo 86:10 confessa que Deus “faz maravilhas”, categoria dos terata (“prodígios”) que Hebreus invoca. Ezequiel 4:3 apresenta o próprio profeta como “sinal” para a casa de Israel: a lógica é a mesma, Deus autentica a sua palavra por atos visíveis, às vezes até performativos. Daniel 6:27 louva o Deus que “faz sinais e maravilhas”, e Zacarias 9:14 vê o Senhor “aparecendo sobre eles”, linguagem teofânica que, no Novo Testamento, se traduz em presença atestada por obras de Cristo e dos seus. Lucas 9:2 mostra Jesus comissionando a “pregar o reino de Deus e curar os enfermos”: proclamação e poder caminham juntos porque Deus synepimartyrē (“co‑testifica”). Lucas 14:34 adverte que o sal pode “tornar‑se insípido”: a igreja sem poder santo perde sua função de sinal; Hebreus 2:4 explica por quê — não por ausência de recursos, mas por faltar submissão à vontade (thelēma) de Deus, que distribui o que quer para edificação e testemunho. Lucas 24:48 declara “vós sois testemunhas destas coisas”, e Atos 4:33 acrescenta que eles davam testemunho “com grande poder”: a vocação de ser “testemunhas” é o lado humano do que Hebreus chama de “Deus co‑testificando”.

O Evangelho de João costura a noção de testemunha e obras com rara densidade. Quando pedem um “sinal” (João 6:30), Jesus aponta para as obras que o Pai lhe deu a realizar; Hebreus 2:4 confirma: Deus sēmeiois… dynameisin (“com sinais… potências”) testifica. Em João 8:18, o Filho afirma: “Eu testifico de mim mesmo e o Pai… testifica de mim”, e 14:11 convoca: “crede… ao menos por causa das próprias obras”; é a doutrina da co‑testemunha que Hebreus resume em uma linha. João 14:26 explica a função do Espírito: ensinar e lembrar; é uma distribuição do Espírito para sustentar o testemunho apostólico, exatamente o que Hebreus 2:4 chama de merismoi (“distribuições”). João 15:24 relembra que as obras vistas agravaram a culpa de quem rejeitou; por isso 2:4, depois de 2:3, não é adorno: quanto maior o selo, maior a responsabilidade de quem o ignora. João 19:35 registra o “testemunho” do que viu o sangue e a água: a autenticidade ocular faz par com a autenticidade poderosa de sinais; as duas são formas de Deus dizer “é verdade”.

Atos e as cartas apostólicas ampliam o refrão. Em Atos 2:11 as línguas publicam “as grandezas de Deus” — sinal que aponta para o conteúdo; Atos 2:22 chama Jesus de “aprovado por Deus entre vós com milagres, prodígios e sinais”, linguagem gêmea de Hebreus 2:4; Atos 4:20 sela que as testemunhas “não podem deixar de falar” do que viram e ouviram porque o Deus que opera sinais quer que o mundo saiba. Atos 5:12 relata “muitos sinais e prodígios… pelas mãos dos apóstolos”, e Atos 8:7 mostra libertações e curas que levam a cidade à alegria — não pirotecnia, mas misericórdia poderosa que autentica a Palavra. Atos 13:31, 15:8 e 20:24 insistem no estatuto público do testemunho: há quem viu o Ressuscitado; há o Deus que “deu testemunho” aos gentios “dando‑lhes o Espírito Santo”; há um ministério que existe “para testemunhar o evangelho da graça”. 1 Coríntios 1:6 diz que “o testemunho de Cristo foi confirmado” entre eles — ebebaiōthē (“foi confirmado”), o mesmo verbo de Hebreus 2:3, agora sustentado pelos dynameis (“poderes”) de 2:4 e pelos dons de 1 Coríntios 12:10–11 (operações de poderes, distribuição “como [o Espírito] quer”). 2 Coríntios 6:7 fala do “poder de Deus” na missão, e 13:8 lembra que nada prevalece “contra a verdade” — porque Deus mesmo a assina. Gálatas 3:2 pergunta se receberam o Espírito “pelas obras da lei” ou “pela pregação da fé”; Hebreus 2:4 responderia: receberam porque Deus quis merizein (“distribuir”) o Espírito como co‑testemunha do evangelho. 1 Tessalonicenses 1:5 descreve a chegada da Palavra “em poder e no Espírito Santo e em plena convicção”; 1 Pedro 1:12 mostra o evangelho sendo anunciado “pelo Espírito Santo enviado do céu”; e 1 João 5:9 conclui: “o testemunho de Deus é maior”. Tudo converge: onde o Pai decide, o Filho é proclamado, o Espírito distribui dons — e a Palavra é confirmada.

Por contraste, os pedidos por “sinais” sem fé (João 6:30) e a recusa das obras de Jesus (João 15:24) revelam por que Hebreus 2:4 está colado à pergunta de 2:3: quanto mais Deus co‑testifica, mais grave é fazer de conta que nada aconteceu. E quando 1 Pedro 4:17 lembra que o juízo começa “pela casa de Deus”, ele toca o nervo ético do texto: dons e sinais não são brinquedos espirituais, são compromissos — quem os recebe e quem os vê é chamado a responder com fé obediente.

Assim, Hebreus 2:4 não é um apêndice apologético, mas a conclusão natural do parágrafo: Deus mesmo entrou como fiador, synepimartyrōn (“co‑testificando”) por sēmeia, terata, dynameis (“sinais, prodígios, potências”) e por merismoi (“distribuições”) do Espírito, e tudo isso kata tēn autou thelēsin (“segundo a sua vontade”). A consequência é dupla. Para quem teme negligenciar, há consolo: Deus não nos deixou às cegas; Ele firma a Palavra e reparte o que a igreja precisa para crer, viver e anunciar. Para quem flerta com a indiferença, há advertência: não se despreza impunemente uma mensagem que o próprio Deus assinou com obras do Filho e do Espírito. A resposta fiel, então, é a antítese de 2:3: não negligenciar, mas acolher a Palavra confirmada e andar como testemunhas pelas quais Deus continua, hoje, a co‑testificar.

Hebreus 2:5 declara que “não foi a anjos que Deus sujeitou o mundo vindouro, de que estamos falando”. O texto grego, em transliteração, diz: ou gar angelois hypetaxen tēn oikoumenēn tēn mellousan peri hēs laloumen (“pois não a anjos sujeitou o mundo habitado vindouro, acerca do qual estamos falando”). Cada termo é decisivo: angelois (“anjos”) recorda a função deles na antiga economia; hypetaxen (“sujeitou”) aciona a teologia do Salmo 8 que virá nos versículos 6–8; oikoumenē (“mundo habitado”) delimita uma ordem histórica concreta, não uma abstração mística; mellousan (“vindouro, que está para vir”) aponta para a fase escatológica inaugurada por Cristo. Assim, 2:5 funciona como dobradiça: saímos da advertência (2:1–4) para a cristologia régia e antropológica (2:5–9). Vistas por essa lente, as referências dialogam diretamente com a afirmação de que a ordem final não será governada por anjos, mas pelo Filho — e, nele, pelo humano restaurado.

Quando Hebreus nomeia o “mundo vindouro”, ele aproxima o nosso olhar do que a própria carta mais adiante chama de “poderes do mundo por vir”. Em Hebreus 6:5, o autor fala de terem provado “os poderes do século vindouro”, em grego dynameis mellontos aiōnos (“poderes do século vindouro”). A escolha de vocabulário é irmã de 2:5: lá é aiōn (“século, era”), aqui oikoumenē (“mundo habitado”); juntas, as expressões dizem que não se trata de uma “era interior” sem efeitos na história, mas de um regime real em que o Cristo entronizado submete tudo. Se em 6:5 alguns já provaram as “potências” dessa nova ordem, em 2:5 se esclarece a quem essa ordem está sujeita — e não está: não a anjos, mas ao Filho que, como homem, cumpre o Salmo 8. Isso abre a ponte para 2 Pedro 3:13: ali, a promessa é de “novos céus e nova terra”, em grego kainous ouranous kai gēn kainēn (“novos céus e terra nova”), “nos quais habita justiça”. Hebreus 2:5 é o lado institucional dessa promessa: a renovação cósmica tem governo, e esse governo não pertence à hierarquia angélica, mas ao Messias humano-divino; por isso, já não olhamos para anjos como administradores da economia final, e sim para Aquele que é “Filho” e “irmão” (2:11), debaixo de cujos pés tudo é posto (2:8). O clímax apocalíptico em Apocalipse 11:15 torna isso explícito: “o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo”, em grego hē basileia tou kosmou egeneto tou Kyriou hēmōn kai tou Christou autou (“o reino do mundo tornou-se do nosso Senhor e do seu Cristo”), e Ele “reinará pelos séculos dos séculos”. Hebreus 2:5 antecipa exatamente esse movimento: o “mundo” (a ordem histórica que virá) não é confiado a anjos, mas ao Cristo.

Essa afirmação também é a lógica consequência de como Hebreus já contrastou a antiga e a nova economia. Em Gálatas 3:19, Paulo afirma que a lei foi “ordenada por anjos, na mão de um mediador”, em grego diatageis di’ angelōn en cheiri mesitou (“promulgada por meio de anjos, pela mão de um mediador”). Hebreus 2:5 parte desse pano de fundo: se na antiga administração os anjos aparecem como servos ministeriais na entrega da lei, isso não lhes confere o governo da fase final; pelo contrário, já em Hebreus 1 os anjos foram situados como “espíritos ministradores” (pneumata leitourgika, “espíritos de serviço”) enquanto o Filho é entronizado. É por isso que “o mundo vindouro” não lhes é sujeito: sua função é de assistência, não de soberania, e ela pertence ao Filho. Em Gálatas 1:4, Paulo fala deste “presente século mau”, em grego tou aiōnos tou enestōtos ponērou (“deste século presente, mau”). Hebreus 2:5 marca a fronteira com esse século: não estamos falando do “presente mau”, onde os poderes angelicais frequentemente aparecem nos bastidores de nações e impérios, mas da fase resultante da exaltação do Cristo, o que impede qualquer nostalgia de uma regência angélica. O eixo volta a firmar-se em Efésios 1:21, quando Paulo diz que Cristo foi exaltado “muito acima de todo principado e autoridade”, não apenas “neste século”, mas também “no vindouro”, em grego ouk monon en tō aiōni toutō alla kai en tō mellonti (“não só neste século, mas também no vindouro”). Hebreus 2:5 é o mesmo pensamento com outro vocábulo: o “mundo habitado vindouro” é o teatro no qual essa superioridade de Cristo se manifestará universalmente.

O versículo seguinte de Hebreus amarra a gramática dessa sujeição citando o Salmo 8. Em Hebreus 2:8, lemos que Deus “sujeitou todas as coisas debaixo dos pés” do homem; a frase ecoa o grego panta hypotetaktai hyppo tous podas (“todas as coisas foram sujeitas debaixo dos pés”). O ponto de Hebreus 2:5 é preparar essa aplicação: quem governa o “mundo vindouro” segundo o Salmo 8? Não anjos; é o humano em sua vocação original, agora restaurado e coroado no “Filho do Homem”, Jesus. Ou seja, 2:5 funciona como um “não… mas…”, ainda que a segunda parte só apareça em 2:6–9: não anjos… mas o Filho como homem, em favor de muitos filhos. Esse deslocamento do foco de anjos para o homem‑no‑Filho é também o que Hebreus 9:10 insinua quando descreve as ordenanças antigas como impostas “até o tempo da correção”, em grego mechri kairou diorthōseōs (“até o tempo da reforma/retificação”). O “mundo vindouro” é justamente o tempo e o espaço dessa diorthōsis (“reforma”), quando a criação e o culto são reordenados em torno do Sumo Sacerdote‑Rei; logo, não caberia aos anjos — vinculados ao serviço da antiga ordem — administrar a plenitude do que o Filho inaugurou.

Ao juntar essas vozes, a afirmação de Hebreus 2:5 se torna uma pregação viva. A igreja não é chamada a voltar‑se para anjos em busca de governo, direção ou sustentação final; é chamada a erguer os olhos para o Cristo entronizado, de quem e por quem é o “mundo vindouro”. Se alguns, como em Hebreus 6:5, já provaram “poderes do século vindouro” (dynameis mellontos aiōnos, “poderes do século vindouro”), isso não é um convite a angelolatria, mas a cristocentrismo: os dons, sinais e arras do Espírito são antecipações da ordem presidida pelo Filho. Se 2 Pedro 3:13 promete “novos céus e nova terra” (kainous ouranous kai gēn kainēn, “novos céus e terra nova”) onde a justiça “habita”, Hebreus 2:5 lembra quem é o Senhor dessa habitação. Se Apocalipse 11:15 proclama que “o reino do mundo tornou‑se do nosso Senhor e do seu Cristo” (hē basileia tou kosmou egeneto tou Kyriou hēmōn kai tou Christou autou, “o reino do mundo tornou-se do nosso Senhor e do seu Cristo”), Hebreus 2:5 explica por que anjos não são os titulares desse reino: eles servem; quem reina é o Cordeiro como homem exaltado.

Por fim, as referências recíprocas cimentam o contraste entre economias. Em Gálatas 3:19, a lei como “promulgada por anjos” (diatageis di’ angelōn, “ordenada por anjos”) mostra a dignidade, mas também o limite, do ministério angélico; não lhes convém a coroa do século vindouro. Em Efésios 1:21, a dupla temporal — “neste século” e “no vindouro” (en tō aiōni toutō… en tō mellonti, “neste século… no vindouro”) — enfatiza que a supremacia de Cristo é vigente e será manifesta; Hebreus 2:5 localiza essa manifestação no “mundo habitado” (oikoumenē, “mundo habitado”), o que afasta qualquer espiritualização desencarnada. Em Hebreus 2:8, a citação do Salmo 8 garante que a sujeição universal é humana‑em‑Cristo, não angélica; e Hebreus 9:10, com o “tempo da reforma” (kairos diorthōseōs, “tempo de correção/ajuste”), diz que a história já está em transição da ordem antiga (onde anjos ministram) para a nova (onde o Filho reina e nos conduz à glória). A grande lição homilética, então, é dupla: não nos curvemos a poderes secundários, por excelsos que sejam; e não apequenemos a esperança, porque o “mundo vindouro” já está determinado por Deus, não a anjos, mas ao Filho — e, nEle, à humanidade redimida.

Hebreus 2:6 abre a porta de uma cristologia “em chave de Salmo 8”, citando: “Que é o homem para que dele te lembres? ou o filho do homem para que o visites?”. A forma como o autor introduz a citação já é teologicamente carregada: diemartyrato de pou tis legōn (“alguém em algum lugar testificou, dizendo”). Essa fórmula não é desleixo erudito, mas a maneira hebreana de sublinhar que, quando a Escritura fala, é Deus quem fala. É o mesmo procedimento em Hebreus 4:4 (“ele disse em certo lugar”) e Hebreus 5:6 (“ele diz em outro lugar”), e converge com 1 Pedro 1:11, onde o “Espírito de Cristo” testifica antecipadamente nos profetas. Assim, antes mesmo de ouvirmos o texto de Salmo 8, Hebreus 2:6 nos ensina a escutar a Escritura como testemunho vivo, divino, que atinge seu ápice no Filho.

Quando a citação se ergue — ti estin anthrōpos hoti mimnēskē autou; ē huios anthrōpou hoti episkeptē auton (“que é o homem para que te lembres dele? e o filho do homem para que o visites?”) — ela condensa dois verbos decisivos: mimnēskō (“lembrar‑se, ter em mente”) e episkeptomai (“visitar, cuidar, intervir com compaixão”). O primeiro termo acende, no Antigo Testamento, o espanto do pó diante do Infinito; o segundo abre a porta da graça que entra de fora para dentro na história humana. Jó 7:17–18 faz ressoar exatamente esse espanto: “Que é o homem, para que tanto o engrandeças, e ponhas nele o teu coração; e cada manhã o visites, e a cada momento o proves?”. Jó se vê pequeno e assediado, e sua pergunta amarga prepara a do Salmo 8 sem resolvê‑la. Jó 15:14 avança um passo e lembra a impureza intrínseca do mortal; Jó 25:6 chega a chamar o homem de “verme”. Isaías 40:17, pondo as nações como “nada” diante de Deus, aumenta o contraste. Nesse pano de fundo, a pergunta de Hebreus 2:6 se acende: se o homem é tão frágil, por que Deus mimnēsketai (“se lembra”) e episkeptetai (“visita”)? A resposta não está no homem em si, mas na dignidade que Deus lhe deu desde o princípio e que o Filho veio restaurar.

É por isso que o centro intertextual de Hebreus 2:6 é o Salmo 8:4–8. Ali, a pergunta “que é o homem?” desemboca no assombro da vocação: Deus o coroou de glória e honra e lhe deu domínio sobre as obras de Suas mãos. Hebreus vai citar e desenvolver essa linha nos versos seguintes (2:7–8), mas já aqui, no 2:6, o autor põe o holofote no ponto de partida: toda a dignidade humana nasce de Deus mimnēskomenos (“lembrando‑se”) e Deus episkeptomenos (“visitando”). Salmo 144:3 revisita a mesma pergunta para a geração de Davi: “Que é o homem, para dele tomares conhecimento?”. A pergunta repetida ao longo da Escritura é pedagógica: nos abaixa para que vejamos que a única resposta está na lembrança e na visitação de Deus — verbos que, em Hebreus, vão encontrar seu clímax no Filho feito “por um pouco menor do que os anjos” (2:7), justamente para nos elevar.

A segunda metade do hemistíquio (“o filho do homem”) aprofunda o ponto. Em Salmo 8, “filho do homem” é paralelo poético de “homem”, sublinhando a humanidade em sua coletividade. As referências bíblicas empurram o leitor para a precariedade desse “filho do homem”: Salmo 146:3–4 adverte a não confiar em príncipes “filho de Adão, em quem não há salvação”; Isaías 51:12 contrasta “homem que é erva” com o “Eu” consolador de Deus. Hebreus 2:6 assume esses fios: o “filho do homem” é, por natureza, inconsistente; e é precisamente por isso que a graça da visitação é necessária. Aqui já se ouve, à distância, o título messiânico “Filho do Homem” nos Evangelhos, mas Hebreus faz o caminho certo: começa na humanidade comum do Salmo 8 para, então, mostrar como ela se cumpre e se reergue no “Filho do Homem” Jesus (2:9). Quando Hebreus 2:5 acabara de dizer que o “mundo vindouro” não foi submetido a anjos, 2:6–8 explicará “a quem”, retomando Gênesis 1:26 (“façamos o homem… e tenha ele domínio”) e mostrando que essa vocação, que falhou em Adão, é refeita em Cristo.

A palavra “visitar” é a ponte quente entre o Salmo 8 e a economia da nova aliança. O verbo grego da citação é episkeptomai (“visitar com cuidado”), e o Antigo Testamento já havia dado a forma dessa visita: quando José morre, diz aos irmãos que Deus “vos visitará certamente” (Gênesis 50:24). A promessa se cumpre no Êxodo — a linguagem da “visitação” reaparece em Êxodo 3:16, quando Deus declara ter “visitado” Israel no Egito — e no cântico de Zacarias: “Bendito o Senhor… porque visitou e remiu o seu povo” (Lucas 1:68). Logo adiante, Zacarias fala das “entranhas de misericórdia de nosso Deus, pelas quais nos visitará o Sol nascente do alto” (Lucas 1:78), e, quando Jesus ressuscita o jovem de Naim, o povo exclama: “Deus visitou o seu povo” (Lucas 7:16). Tudo isso joga luz direta sobre Hebreus 2:6: a visita divina que o Salmo 8 entrevê como cuidado providente assume, nos Evangelhos, a face do Verbo encarnado. Em termos de Hebreus, Deus epeskepsato (“visitou”) a humanidade indo até o fundo da sua fraqueza por meio do Filho, para, então, coroá‑la (2:9). “Visitar” não é uma inspeção burocrática; é descer, tomar sobre si, elevar — exatamente a curva de 2:6–9.

O domínio confiado ao homem em Salmo 8 remete, por sua vez, à criação: “façamos o homem… e tenha domínio” (Gênesis 1:26). Hebreus 2:6, preparando a citação do Salmo, aponta para essa vocação original. O Novo Testamento oferece cenas‑sinal desse domínio sendo recapitulado em Cristo: quando Jesus manda lançar a rede ao lado direito e os peixes obedecem (João 21:6), vemos a criação escutando o seu Rei humano; ali há um eco do Salmo 8 que Hebreus lê cristologicamente. E quando Paulo confessa que “há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus” (1 Timóteo 2:5), ele nos dá a chave de leitura de Hebreus 2:6: o “homem” de Salmo 8 é finalmente medido pelo “homem Cristo Jesus”, por cujo “lembrar” e “visitar” divinos nossa humanidade é reentronizada. É por isso que, na sequência (2:7–8), toda a linguagem de sujeição “debaixo dos pés” será aplicada a Jesus, o que não anula, mas realiza, a vocação humana.

A estrutura interna de Hebreus 2:6 também ensina como ler as referências que contrastam a miséria humana com a grandeza divina. Quando Jó, Salmos e Isaías perguntam “que é o homem?”, não estão negando a dignidade entregue por Deus, mas removendo os falsos apoios do “filho de Adão” (como em Salmo 146:3–4) para que resplandeça a dignidade que vem de Deus mimnēskomenos (“lembrando‑se”) e episkeptomenos (“visitando”). Hebreus 2:6 captura essa pedagogia e, em seguida, mostrará a sua encarnação: o Filho, “por um pouco, menor do que os anjos”, assume a nossa condição e, por meio da morte, nos conduz à glória (2:9–10). A pergunta, portanto, é o prelúdio necessário da resposta; a visita, o acontecimento que altera o curso da pergunta.

Pastoralmente, o versículo nos chama a duas atitudes. Primeiro, humildade: o “o que é o homem?” de Jó, de Davi e de Isaías nos livra da tentação de imaginar que a glória humana nasça do humano. Segundo, esperança robusta: porque Deus mimnēsketai (“se lembra”) e episkeptetai (“visita”), a pergunta não degenera em cinismo; ela desemboca em coroa. E quem personifica essa lembrança e visitação é o Filho — o “Filho do Homem” por excelência —, em quem a criação volta a obedecer, a morte é vencida e a dignidade de Gênesis 1:26 é recolocada no seu trono.

Assim, cada referência bíblica não é periférica, mas um fio que Hebreus 2:6 entrelaça: as confissões da pequenez (Jó 7; Salmo 144; Isaías 40) afinam o nosso ouvido para a pergunta do Salmo 8; as advertências sobre a fragilidade do “filho de Adão” (Jó 25; Salmo 146; Isaías 51) quebram a confiança carnal e nos empurram para Deus; as promessas e aclamações de visitação (Gênesis 50; Lucas 1; Lucas 7) revelam que episkeptesthai (“visitar”) tem rosto e mãos em Jesus; e as molduras de criação e mediação (Gênesis 1; João 21; 1 Timóteo 2:5) mostram para onde Hebreus vai levar a citação: do assombro à coroação — do “o que é o homem?” ao “vemos Jesus”.

Hebreus 2:7 é a citação, em chave cristológica, do coração do Salmo 8. O autor escreve: “Fizeste-o, por um pouco, menor do que os anjos; de glória e honra o coroaste”. No fluxo grego de Hebreus, a estrutura vem assim: ēlatōsas auton brachy ti par’ angelous (“fizeste‑o, por um pouco/por um pouco [tempo], menor do que os anjos”) e doxē kai timē estephanōsas auton (“de glória e honra o coroaste”). O movimento é duplo: primeiro, rebaixamento real e temporal; depois, coroação efetiva. O versículo, porém, não paira isolado: ele é a engrenagem que prende a vocação humana de Gênesis 1 e Salmo 8 à humilhação e exaltação do “Filho do Homem” Jesus, e por isso dialoga com cada referência bíblica.

O primeiro hemistíquio — ēlatōsas… brachy ti par’ angelous (“fizeste‑o, por um pouco, menor do que os anjos”) — carrega uma ambiguidade deliberada em brachy ti: pode significar “um pouco em grau” ou “por um pouco em tempo”. Hebreus 2:9 resolverá a ambiguidade, sem eliminar nenhuma nuance, quando disser que vemos Jesus “brachy ti” (“por um pouco/por breve tempo”) “abaixo dos anjos” “por causa do sofrimento da morte” — dia to pathēma tou thanatou (“por causa do sofrimento da morte”) — e já “doxē kai timē estephanōmenon” (“coroado de glória e honra”). Ou seja, 2:7 anuncia o arco; 2:9 o nomeia em Jesus. Essa leitura temporal é confirmada por Efésios 4:9, ao falar da descida de Cristo “às partes mais baixas da terra” — eis ta katōtera tēs gēs (“às regiões inferiores da terra”): o “por um pouco” de Hebreus é o tempo histórico da encarnação e da paixão. Ao mesmo tempo, a leitura “em grau” não se perde, pois o rebaixamento envolve assumir condição humana sujeita à dor e à morte, experiência que os anjos não têm.

O segundo hemistíquio — doxē kai timē estephanōsas auton (“de glória e honra o coroaste”) — transporta a imagem régia do Salmo 8 para Cristo, mas não apagando o homem; pelo contrário, é nele que a dignidade humana é restaurada. Salmo 65:11 oferece um eco do verbo “coroar” em linguagem de colheita; Provérbios 4:9 mostra a sabedoria “coroando” o discípulo; Zacarias 6:13 introduz o “Renovo” que “trará majestade e se assentará e dominará no seu trono” — kai hypsōsei majestan, kai kathieitai kai arxei epi tou thronou autou (“e trará majestade, e se assentará e reinará em seu trono”): todos esses fios convergem na coroação de glória e honra do Filho depois da humilhação. Hebreus 12:2 explicitará o princípio: por causa da alegria proposta, ele “suportou a cruz” e “se assentou” — ekathisen (“sentou‑se”) — “à destra do trono de Deus”, o que é, em termos do Salmo 8, a coroa posta na cabeça do homem em Cristo.

É justamente porque Hebreus 2:7 cita o Salmo 8 que as passagens paralelas desse salmo afloram. Salmo 8:5–6 (hebraico 8:6–7) é a fonte textual: “Tu o coroaste de glória e honra; puseste todas as coisas debaixo de seus pés”. Hebreus adere à forma grega do salmo (que diz “anjos” onde o hebraico diz “Deus/’elohim”) para reforçar a própria tese do capítulo 1: os anjos são “espíritos ministradores” — pneumata leitourgika (“espíritos de serviço”) —; o Filho, por sua vez, é o herdeiro coroado. Ao ler 2:7, portanto, você deve enxergar 2:5 (“não a anjos sujeitou o mundo vindouro”) preparando o terreno e 2:8–9 aplicando o Salmo 8 ao Cristo encarnado‑exaltado.

A moldura criacional dá a 2:7 seu horizonte: Gênesis 1:26 (“façamos o homem… e tenha domínio”) é o pano de fundo do Salmo 8; por isso as referências “recíprocas” apontam para domínio e autoridade no ministério de Jesus mesmo durante o “por um pouco”. Mateus 17:27, com a moeda na boca do peixe, e Marcos 11:3, com “o Senhor precisa dele” sobre o jumentinho, são vitrines discretas da autoridade real que lampeja na humilhação: a criação e as circunstâncias obedecem ao Rei‑servo, sinalizando que o rebaixamento não anula a investidura, apenas a encobre por um tempo. João 5:27, por sua vez, declara que o Pai “deu autoridade para exercer juízo, porque é o Filho do Homem” — exousian edōken… hoti huios anthrōpou estin (“deu autoridade… porque é o Filho do Homem”): aí está a ponte direta entre o “homem/filho do homem” do Salmo 8 e a autoridade judicial do Cristo, que culminará na coroação de 2:7 e na sujeição universal de 2:8.

A linha do “visitar” (introduzida no v. 6) continua a iluminar 2:7. Êxodo 3:16 registra: “visitei-vos” — epeskeptomēn hymas (“visitei vocês”) —, linguagem que Lucas reaprende em chave messiânica: “Deus visitou o seu povo” — epeskepsato ho theos ton laon autou (“Deus visitou o seu povo”, Lucas 7:16). A visita se torna humilhação e, da humilhação, coroação: é a própria forma de Hebreus 2:7. Quando, então, Hebreus 2:9 disser que Jesus “por causa do sofrimento da morte” foi “coroado de glória e honra” — dia to pathēma tou thanatou doxē kai timē estephanōmenon (“por causa do sofrimento da morte, coroado de glória e honra”) —, entenderemos que a visita divina (2:6) desemboca na coroa (2:7) por meio da cruz.

As passagens sapiencial e régia que falam de “coroa” aprofundam a semântica de estephanōsas (“coroaste”). Provérbios 4:9 pinta a sabedoria como “diadema formoso” que põe “coroa de glória”, prenunciando que a verdadeira sabedoria — o Cristo — será coroada justamente onde o mundo vê desonra. Zacarias 6:13, ao combinar trono e sacerdócio no “Renovo”, prepara a leitura hebreana de que a coroa de 2:7 é de Rei‑Sacerdote, o que se adensará quando Hebreus falar de Melquisedeque. E, do lado atlético, 2 Timóteo 2:5 lembra que “não é coroado” — ou stephanoutai (“não recebe coroa”) — “se não competir legitimamente”: a metáfora sublinha que a coroa vem após a carreira aprovada; é esse o “por um pouco” de 2:7 que desemboca na coroa de 2:9 e no assento de 12:2.

As referências neotestamentárias ainda mostram como, mesmo no “por um pouco”, lampeja o domínio prometido em Salmo 8. Em Mateus 17:27, a ordem de lançar o anzol e achar a moeda no peixe sinaliza a submissão da criação ao Rei; em Marcos 11:3, a autoridade régia de Cristo sobre o jumentinho prepara a entrada triunfal que antecipa a coroação. Essas cenas não negam o rebaixamento; antes, denunciam sua finalidade: a humilhação é caminho para a entronização. Quando Hebreus 12:2 diz que Ele “suportou a cruz… e assentou‑se”, temos a síntese do versículo: brachy ti (“por um pouco”) abaixo, depois estephanōsas (“coroaste”) acima.

Finalmente, tudo retorna ao Salmo 8, que Hebreus 2:7 traz para dentro do seu argumento como prova de que a vocação humana — rebaixada pelo pecado — foi retomada e levada ao fim pelo “Filho do Homem”. Em 2:8, o autor continuará: “todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés” — panta hypotaxas hypokato tōn podōn autou (“sujeitaste todas as coisas debaixo dos seus pés”), e em 2:9 ele mostrará que já vemos isso “em Jesus”. A coroa, portanto, não é apenas dele por ser Deus; é dele como homem por nós, e, nele, de novo nossa. O “por um pouco” explica a cruz; a “coroa de glória e honra” explica o trono; e o caminho do Salmo 8 — lembrança, visita, rebaixamento, coroa — é o próprio evangelho que Hebreus proclama.

Hebreus 2:8 declara que Deus sujeitou todas as coisas debaixo dos pés de Cristo, usando a expressão grega “panta hypetaxas” (“todas as coisas sujeitaste”) para evocar a totalidade absoluta do domínio concedido ao Filho. A lista de referências bíblicas relacionadas amplia o sentido dessa afirmação, mostrando como o tema da sujeição universal perpassa as Escrituras, não como uma ideia isolada, mas como cumprimento progressivo do plano divino.

A conexão com Hebreus 2:5 e Hebreus 1:13 é imediata, pois ambas as passagens falam da autoridade messiânica recebida do Pai. Em Hebreus 1:13, citando o Salmo 110:1, Deus diz ao Filho: “Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés”, antecipando o mesmo princípio que, em 2:8, é explicitado como já estabelecido em promessa, mas ainda não plenamente visível na história. O Salmo 2:6 também se harmoniza com isso, quando Deus declara: “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte Sião”. Aqui, a entronização davídica, no seu sentido pleno, encontra seu cumprimento escatológico em Cristo, que não reina apenas sobre Israel, mas sobre toda a criação.

Daniel 7:14 reforça a universalidade dessa autoridade, descrevendo o Filho do Homem recebendo “domínio, e glória, e reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará”. É esta mesma realidade que o autor de Hebreus reconhece em 2:8, ao afirmar que todas as coisas lhe estão sujeitas, embora reconheça que “agora, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas”. Em Mateus 28:18, Cristo ressuscitado declara: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra”, mostrando que a exaltação e a concessão dessa autoridade são já realidades presentes, ainda que o seu exercício total seja futuro.

O Evangelho de João reforça essa ideia. Em João 3:35, “O Pai ama o Filho e entregou tudo nas suas mãos”, e em João 13:3, “Jesus sabia que o Pai tinha colocado todas as coisas em suas mãos”, antecipando o sentido pleno de “panta hypetaxas” em Hebreus 2:8. Essa mesma entrega total é exposta de maneira mais sistemática por Paulo em 1 Coríntios 15:27: “Pois ele sujeitou todas as coisas debaixo de seus pés” — aqui, Paulo cita o Salmo 8 e ecoa a linguagem de Hebreus, enfatizando que a sujeição é obra do Pai, ainda que destinada ao Filho. Efésios 1:21-22 amplia isso, mostrando que Cristo foi exaltado “muito acima de todo governo, autoridade, poder e domínio, e de todo nome que se possa nomear, não só neste século, mas também no vindouro. Ele colocou todas as coisas debaixo dos seus pés e o constituiu cabeça sobre todas as coisas para a igreja”. Filipenses 2:9-11 conclui o raciocínio paulino: Deus exaltou Jesus sobremaneira e lhe deu “o nome que está acima de todo nome”, para que toda a criação se dobre diante dele, o que se harmoniza perfeitamente com o argumento de Hebreus de que esta autoridade é universal e inescapável.

A epístola de Pedro (1 Pedro 3:22) confirma essa posição, apresentando Cristo à direita de Deus, com anjos, autoridades e poderes sujeitos a Ele, repetindo em termos práticos o que Hebreus 2:8 afirma em termos teológicos. Apocalipse 1:5 apresenta Cristo como “o soberano dos reis da terra”, e Apocalipse 1:18 reforça seu poder sobre a vida e a morte ao declarar: “Tenho as chaves da morte e do inferno”. A cena apoteótica de Apocalipse 5:11-13 mostra todas as criaturas, no céu, na terra e no mar, rendendo louvor ao Cordeiro, que é digno de receber “poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor” — a realização litúrgica e cósmica da sujeição universal prevista em Hebreus 2:8.

O contraste indicado pelo “mas” (“agora, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas”) encontra eco em textos como Jó 30:1-12, onde a ordem e o respeito à autoridade são subvertidos, e em Jó 41, onde a força da criação (simbolizada pelo leviatã) parece indomável. Essas imagens servem para lembrar que, embora a autoridade de Cristo seja já concedida e efetiva nos céus, o seu pleno exercício histórico ainda aguarda o cumprimento escatológico. Paulo também alude a essa tensão em 1 Coríntios 15:24-25, ao falar do momento em que Cristo entregará o reino ao Pai, após ter destruído todo domínio, autoridade e poder, pois é necessário que Ele reine “até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés”.

Portanto, Hebreus 2:8, em diálogo com esse conjunto de referências, afirma uma realidade presente — a autoridade universal de Cristo concedida pelo Pai — e uma expectativa futura — a manifestação plena dessa autoridade sobre todas as coisas, sem exceção. Esse versículo não está isolado, mas enraizado numa cadeia intertextual que começa nas promessas messiânicas do Antigo Testamento, é confirmada na entronização e ressurreição de Cristo, e se estende até a consumação final, quando não haverá mais nenhum aspecto da criação fora da sujeição perfeita ao Filho. É a visão do governo messiânico em sua totalidade: já inaugurado, mas ainda não plenamente consumado.

Hebreus 2:9 é o ponto em que a citação do Salmo 8, aplicada à humanidade, se concentra numa única face: “vemos, porém, a Jesus”. O autor sai do “ainda não vemos… todas as coisas a ele sujeitas” para a visão que governa a fé: blepomen de Iēsoun (“vemos, porém, a Jesus”). E o que vemos? Vemos “aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos”. Cada expressão densíssima aqui faz ponte com toda a Escritura e com as referências bíblica.

“Vemos Jesus.” O nome próprio sinaliza a encarnação concreta do Filho. Toda a linha profética converge aqui: Gênesis 3:15 prometera a semente que esmagaria a serpente; Isaías 7:14 anunciara o ‘Emmanuel’ (“Deus conosco”) encarnado no ventre de uma virgem; Isaías 11:1 mostrara o “rebento do tronco de Jessé”; Isaías 53:2–10 traçara o Servo que “tomou sobre si as nossas dores”. Paulo interpreta esse movimento com precisão quando diz que Deus enviou “o seu próprio Filho em semelhança de carne do pecado” — en homoiōmati sarkos hamartias (“em semelhança de carne do pecado”, Romanos 8:3) — e que, “vindo a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher” — genomenon ek gynaikos (“nascido de mulher”, Gálatas 4:4). Hebreus 10:5 coloca na boca do Messias: “corpo me preparaste” — sōma de katērtisō moi (“um corpo preparaste para mim”) — porque, como a própria carta dirá, “todo sumo sacerdote é constituído para oferecer dons e sacrifícios” (Hebreus 8:3); logo, o Filho assume corpo para oferecer‑se. Filipenses 2 explicita a curva: Ele “esvaziou‑se” — heauton ekenōsen (“esvaziou‑se a si mesmo”), tomando “forma de servo” — morphēn doulou (“forma de servo”), humilhando‑se até à morte, e o Pai “o exaltou sobremaneira” — hyperypsōsen (“exaltou sobremaneira”, Filipenses 2:7–9). É exatamente esse arco que Hebreus 2:9 nos faz “ver”.

“Por um pouco, feito menor do que os anjos.” A frase grega brachy ti par’ angelous ēlatōmenon (“por um pouco, abaixo dos anjos, feito [menor]”) carrega a dupla nuance temporal e ontológica. Por um breve tempo — brachy ti (“por um pouco/por breve tempo”) — o Filho assumiu a nossa condição mortal; em grau, experimentou a fraqueza e a morte que os anjos não conhecem. Filipenses 2:7–8 e Efésios 4:9 (“desceu às regiões inferiores da terra” — eis ta katōtera tēs gēs, “às partes inferiores da terra”) explicam essa descida. No contexto de Hebreus, é o desenvolvimento natural do Salmo 8: o verdadeiro Homem, representante de todos, passa pela via baixa para restaurar a vocação humana.

“Por causa do sofrimento da morte.” Aqui está a razão histórica do rebaixamento: dia to pathēma tou thanatou (“por causa do sofrimento da morte”). Isaías 53 não é apêndice, é roteiro: “traspassado pelas nossas transgressões”, “moído pelas nossas iniquidades”. Jesus mesmo interpretou sua morte como a semente que cai na terra: “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” — ean mē apothanē (“se não morrer…”, João 12:24). Paulo amarra o sentido substitutivo: “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós” — hamartian epoiēsen hyper hēmōn (“fez pecado por nós”, 2 Coríntios 5:21). Hebreus 10:5–10 lembrará que essa morte é sacrifício voluntário no corpo preparado; e 2:9 diz que esse sofrimento foi o portal da coroação.

“Coroado de glória e honra.” A expressão doxē kai timē estephanōmenon (“coroado de glória e honra”) retoma o Salmo 8 e o cumpre em Cristo. O Salmo 21:3–5 já unira rei, coroa e glória; agora, o Crucificado é o Exaltado. Pedro proclama que Ele, “exaltado pela destra de Deus” — tē dexia… hypsōtheis (“exaltado à direita”), “derramou o que vedes e ouvis” (Atos 2:33): a exaltação é pública e eficaz. O Apocalipse O descreve com “muitos diademas” — diadēmata polla (“muitos diademas”, Apocalipse 19:12). Tudo isso ecoa a sequência imediata de Hebreus: o caminho é rebaixamento → morte → coroa; a coroa é a prova de que o Salmo 8 não fracassou em Adão, mas se cumpriu no “Filho do Homem”.

“Para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos.” O propósito vem com a partícula de finalidade: hopōs chariti theou (“para que, pela graça de Deus”). Não foi acaso nem mero martírio; foi graça em ação. João 3:16 é a moldura afetiva: “Porque Deus amou o mundo” — houtōs gar ēgapēsen ho theos ton kosmon (“assim amou Deus o mundo”); Romanos 5:8 mostra o amor provado “sendo nós ainda pecadores”; Romanos 8:32 fala do Pai que “a si mesmo não poupou o seu Filho, antes por todos nós o entregou” — paredōken auton hyper pantōn hēmōn (“entregou‑o por todos nós”). 1 João 4:9–10 chama isso de “amor” em que Deus enviou o Filho “como propiciação pelos nossos pecados” — hilasmon peri tōn hamartiōn hēmōn (“propiciação pelos nossos pecados”). Hebreus 2:9 traduz esse amor em finalidade: foi “para que…”.

“Provasse a morte.” O verbo é o de experiência real: geusētai thanatou (“provasse a morte”). Nos sinóticos, a expressão “não provar a morte” — mē geusōntai thanatou (“não provarão a morte”) — aparece em Marcos 9:1 e Lucas 9:27 (e no paralelo de Mateus 16:28), e em João 8:52 os líderes dizem: “Abraão morreu, e dizes: se alguém guardar a minha palavra, jamais provará a morte?” — ou mē geusētai thanatou eis ton aiōna (“de modo nenhum provará a morte para sempre”). Hebreus 2:9 dá a contrapartida: Ele provou a morte no nosso lugar. Não é metáfora: é imersão total sob a sentença que nos cabia, para arrancar o aguilhão da morte. Por isso, Apocalipse 1:18 o mostra com as chaves da morte e do Hades.

“Por todos.” A abrangência é deliberada: hyper pantos (“por todo [homem]”). João 1:29 aponta para o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”; João 12:32 promete: “quando eu for levantado… pantas helkysō pros emauton” (“atrairei a todos a mim mesmo”). Paulo diz que Ele “morreu por todos” — hyper pantōn apethanen (“morreu por todos”, 2 Coríntios 5:15) — e que “se deu a si mesmo em resgate por todos” — antilutron hyper pantōn (“resgate por todos”, 1 Timóteo 2:6). João fala dele como “propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro” — peri holou tou kosmou (“de todo o mundo”, 1 João 2:2). O cântico do Cordeiro celebra que Ele comprou para Deus gente “de toda tribo, língua, povo e nação” (Apocalipse 5:9). Hebreus 2:9 não discute extensão em termos de aplicação final; proclama a suficiência real e a intenção graciosa do sacrifício: o caminho de salvação aberto é amplo como o mundo.

Quando costuramos as “recíprocas”, percebemos que tudo já estava sendo ensaiado nas coroações e investiduras do Antigo Testamento. O ouro e a glória do vestuário sacerdotal (Êxodo 28:2), as coroas postas em reis (2 Reis 11:12; 2 Crônicas 23:11; 1 Crônicas 29:25), as visões de Zacarias sobre coroa e trono unidos no “Renovo” (Zacarias 3:5; 6:11), os salmos régios que falam de exaltação (Salmo 89:19; 110:7) — tudo isso era sombra de doxē kai timē estephanōmenon (“coroado de glória e honra”) após o pathēma (“sofrimento”). No Novo Testamento, Jesus sabe que o Pai “pôs todas as coisas em suas mãos” — edōken panta en tē cheiri autou (“deu todas as coisas nas suas mãos”, João 13:3), ama o Filho e por isso lhe dá tudo (João 3:35), e declara que tem autoridade para dar a vida e torná‑la a tomar — exousian echō theinai autēn kai exousian echō palin labein autēn (“tenho autoridade para depô‑la e para retomá‑la”, João 10:17–18). A ressurreição e a ascensão confirmam a coroa: Deus “o glorificou” — edōken doxan (“deu glória”, 1 Pedro 1:21), “assentou‑o à sua direita” — ekathisen en dexia (“sentou à direita”, Efésios 1:20), e “o exaltou” — hyperypsōsen (“exaltou”, Filipenses 2:9). É por isso que Hebreus pode dizer: “vemos Jesus… coroado”.

No todo, Hebreus 2:9 é evangelho puro em cinco passos: vemos a Pessoa (Jesus), vemos a descida (brachy ti par’ angelous ēlatōmenon, “por um pouco, feito menor que os anjos”), vemos a cruz (dia to pathēma tou thanatou, “por causa do sofrimento da morte”), vemos a coroa (doxē kai timē estephanōmenon, “coroado de glória e honra”) e vemos o propósito gracioso (hopōs chariti theou, “para que, pela graça de Deus”), eficaz e amplo (hyper pantos, “por todos”), com uma morte realmente experimentada (geusētai thanatou, “provasse a morte”). Tudo o que os profetas prometeram, o que os salmos cantaram e o que os apóstolos testificaram está compactado nesse versículo. E é por isso que, no meio do “ainda não vemos” do versículo anterior, a igreja pode caminhar com o “vemos Jesus” do presente: o Homem que provou a morte é o mesmo que agora, coroado, faz valer para nós a graça de Deus.

A dignidade do caminho escolhido por Deus é o ponto de partida de Hebreus 2:10. Hebreus 7:26 descreve o nosso Sumo Sacerdote como “santo, inculpável, imaculado, separado dos pecadores e exaltado acima dos céus”; se o archēgos foi “aperfeiçoado” (teleiōtheis, “qualificado”) pelos sofrimentos, não é por falta moral, mas porque a sua santidade intrínseca precisava ser posta em ofício sacerdotal por um percurso histórico de obediência. Gênesis 18:25, quando Abraão interpela: “Não faria justiça o Juiz de toda a terra?”, explica a força de eprépen: o método da cruz não é capricho; é o que convém à justiça e à misericórdia do Juiz. O cântico dos anjos em Lucas 2:14 — glória nas alturas e paz na terra — anuncia a harmonia entre a glória de Deus e o bem eterno dos “filhos” que Ele conduz, e essa paz entra no mundo precisamente pela via do sofrimento redentor que Hebreus 2:10 explicita. É por isso que o Ressuscitado, em Lucas 24:26, pergunta se não “era necessário” — edei (“era preciso segundo o plano”) — que o Cristo padecesse e entrasse na glória: a necessidade de pathēmata (“sofrimentos”) antes de dóxa (“glória”) é o esqueleto do versículo de Hebreus. Lucas 24:46 repete que “assim está escrito”: não há glória sem Páscoa, não há condução de filhos sem a estrada de sangue do Capitão. Romanos 3:25 chama a cruz de “propiciação”, hilastērion (“meio de expiação”), mostrando que “conduzir muitos filhos” exige que a justiça seja exibida e satisfeita; e Romanos 3:26, ao dizer que Deus é “justo e justificador”, sela a gramática de eprépen: convinha a Deus salvar sem renunciar ao seu ser. Efésios 1:6–8 eleva a lente: tudo é “para o louvor da glória de sua graça”; o que Hebreus chama de levar “filhos à glória” é a face filial dessa mesma graça derramada com sophia kai phronēsis (“sabedoria e entendimento”). Efésios 2:7 projeta a cena aos séculos vindouros — uma pedagogia eterna da graça —, e Efésios 3:10 revela que a igreja, ajuntada por esse Capitão, é o palco onde a “multiforme sabedoria” é exposta aos poderes celestes. 1 Pedro 1:12, ao dizer que até anjos desejam perscrutar, confirma que o que “convinha” a Deus é tão belo que o céu inteiro se inclina para ver.

Quando o versículo proclama “por quem” e “por meio de quem” são todas as coisas, ele finca a salvação no próprio fundamento da realidade. Provérbios 16:4 afirma que o Senhor fez tudo “para os seus fins”: a teleologia de di’ hon (“por quem/para quem”) não é retórica, é estrutura. Isaías 43:21 lembra que Deus formou um povo “para si”, para o seu louvor: os “muitos filhos” são essa nação messiânica cuja existência inteira é eis doxan (“para a glória”). Romanos 11:36 concentra: “dele, por meio dele e para ele” — ex autou, dia autou, eis auton (“de… por… para…”) — é a doxologia que Hebreus 2:10 transforma em carne e sangue na cruz do Filho. 1 Coríntios 8:6 traça o mapa trinitário dessa economia: um Deus “de quem” — ex hou — são todas as coisas, e um Senhor “por meio de quem” — di’ hou — tudo existe; é o mesmo par que Hebreus usa para ancorar o plano. 2 Coríntios 5:18 ensina que “todas as coisas são de Deus”, que nos reconciliou consigo: “conduzir” — agagein — filhos à glória é o desfecho da reconciliação. Colossenses 1:16–17 lembra que tudo foi criado “por meio dele” — di’ autou — e “para ele” — eis auton — e que “nele” — en autō — tudo subsiste; quem criou e sustenta é quem, agora, lidera como archēgos. Apocalipse 4:11, por fim, põe vinte e quatro anciãos prostrados: tudo existe “por tua vontade”, e é exatamente essa vontade que, em Hebreus, decidiu aperfeiçoar o Capitão por sofrimentos.

Chega, então, a multidão dos filhos. Oséias 8:10, com o povo disperso e disciplinado entre as nações, serve de pano de fundo dramático: o Deus que espalha é o Deus que ajunta de volta por um novo êxodo conduzido pelo archēgos. João 11:52 interpreta o sacrifício de Cristo como o grande ajuntamento: “reunir em um os filhos de Deus que andavam dispersos”; Hebreus 2:10 dá o passo seguinte e os chama de “muitos filhos” conduzidos “à glória”. Em Romanos 8:14–18, o Espírito testifica que somos “filhos”, “herdeiros com Cristo”, e, por isso, “se com ele sofremos” — sympaskhomen — “também com ele seremos glorificados” — syndoxasthōmen: o itinerário sofrimento-glória do Capitão se torna o nosso. Romanos 8:29–30 fala do primogênito entre “muitos irmãos” e da cadeia inquebrável que termina em “glorificou” — edoxasen —; é exatamente o “à glória” de Hebreus 2:10 em forma de decreto. Romanos 9:25–26 cita Oséias para dizer que os “não povo” serão chamados “filhos do Deus vivo”, alargando o “muitos” para além das fronteiras étnicas. 2 Coríntios 6:18 transforma promessa em relação: “serei Pai” e “sereis filhos e filhas”; Gálatas 3:26 resume: “todos sois filhos… pela fé”; Efésios 1:5 chama isso de “adoção” — huiothesia (“colocação como filhos”); 1 João 3:1–2 manda contemplar esse amor e promete que “seremos semelhantes a ele”; e Apocalipse 7:9 mostra o fim dessa promessa: uma multidão incontável, de todas as nações, já no ambiente da “glória” para onde Hebreus diz que estamos sendo levados.

Se o destino é glória, importa entender sua textura. Romanos 9:23 fala de “vasos de misericórdia que preparou de antemão para glória”: o que Hebreus chama de “conduzir à glória”, Paulo chama de “preparar para glória”. 1 Coríntios 2:7 diz que Deus destinou sua sabedoria “para nossa glória” — eis doxan hēmōn —, isto é, para a plenitude de comunhão e participação. 2 Coríntios 3:18 descreve o presente processo: “somos transformados de glória em glória” — apo doxēs eis doxan —, e 2 Coríntios 4:17 chama o peso eterno de glória de “super-excessivo” — kath’ hyperbolēn eis hyperbolēn: as thlipsseis (“aflições”) momentâneas participam do mesmo caminho “por sofrimentos” de Hebreus 2:10. Colossenses 3:4 promete que, quando Cristo se manifestar, “vós também sereis manifestados com ele em glória”; 2 Timóteo 2:10 mostra Paulo suportando tudo “por causa dos eleitos, para que obtenham a salvação… com glória eterna” — o ministério apostólico ecoa o do Capitão. 1 Pedro 5:1 se diz “coparticipante da glória que há de ser revelada”, e 1 Pedro 5:10 chama Deus de “Deus de toda graça” que “vos aperfeiçoará” — katartisei (“ajustará”), “confirmará, fortificará, firmará”: verbos que pontilham a estrada para dóxa.

Quem, então, abre essa estrada? Hebreus dá o título: archēgos. Hebreus 6:20 chama-o de “precursor” — prodromos (“o que vai adiante”) — que entrou por nós no Lugar Santíssimo: a liderança do Capitão é sacerdotal. Hebreus 12:2 o chama de “autor e consumador da fé” — archēgon kai teleiōtēn tēs pisteōs —, que, “pela alegria proposta”, suportou a cruz e se assentou: o padrão do 2:10 (sofrimentos → glória) vira pedagogia. Josué 5:14–15 apresenta o “Príncipe do exército do Senhor” diante de quem se descalçam sandálias; desde ali Israel sabe que sua marcha precisa de um Chefe que vem do céu. Isaías 55:4 descreve o Servo como “testemunha, líder e comandante” das nações: um archēgos prometido. Miqueias 2:13 pinta o “arrombador” que “sobe diante deles”, rompe as portas e os faz passar: o Cristo que rompe a morte e nos faz atravessar é exatamente o Capitão que Hebreus contempla. Em Atos 3:15, Pedro o chama de archēgos tēs zōēs (“Príncipe/Autor da vida”), e em Atos 5:31 de archēgon kai sōtēra (“Príncipe e Salvador”), exaltado “para dar arrependimento e perdão”: o Chefe não só abre caminho, ele dá tudo o que o caminho exige.

Mas Hebreus 2:10 insiste: o archēgos foi “aperfeiçoado” — teleiōsai — “por sofrimentos” — dia pathēmatōn. Hebreus 5:8–9 explica: “embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu; e, tendo sido aperfeiçoado” — teleiōtheis — “tornou-se autor de eterna salvação”: o aperfeiçoamento é consagração funcional, não correção moral. Lucas 13:32 registra a própria consciência de Jesus: “no terceiro dia sou consumado” — teleioumai, isto é, sua missão chega ao alvo. Lucas 24:26 e 24:46, que já ouvimos, colocam o “era necessário sofrer” como porta da glória; João 19:30 encerra com o brado tetelestai (“está consumado”), a forma perfeita do verbo “cumprir, completar”: o Capitão chegou à meta, e por isso pode conduzir outros.

As referências bíblicas revelam o pano de fundo sacerdotal e régio dessa perfeição pelo sofrimento. Levítico 4:25, 4:30 e 4:34 descrevem o sangue tocando os “chifres do altar” e sendo derramado ao pé do altar; Levítico 5:9 fala do sangue “aspergido” — a linguagem do sangue necessário para expiação grava no culto a pedagogia que, em Hebreus, se cumpre no sangue do Capitão. Em Levítico 8:23, Moisés toma do sangue e unge o lóbulo da orelha, o polegar e o artelho de Arão: consagração por sangue; é isso que teleiōsai implica quando Hebreus fala do Sumo Sacerdote perfeccionado na história. Levítico 9:9 registra os sacerdotes aplicando o sangue no altar; Números 7:15, nas ofertas de dedicação, mostra que o culto inteiro é estruturado em sacrifício; tudo isso é sombras da “consumação” que o archēgos realiza com seu próprio sangue. Deuteronômio 14:1, ao chamar Israel de “filhos do Senhor”, planta a semente semântica de huioi que Hebreus 2:10 faz florescer: agora são “muitos filhos” de toda nação. 1 Samuel 10:1 apresenta Saul ungido como “chefe” (naguîd, “príncipe”); 1 Samuel 13:14 promete um homem segundo o coração de Deus “por príncipe sobre o seu povo”; 1 Samuel 22:2 mostra Davi feito “chefe” de um bando de aflitos: a figura do líder ungido, que agrega e guia, prepara o ouvido para archēgos. 2 Samuel 5:2 recorda que Davi foi feito “pastor e príncipe” sobre Israel: é a sombra do Pastor-Príncipe que conduz “muitos filhos”. Em 2 Reis 20:5, a palavra enviada a Ezequias o chama de “chefe do meu povo”: a liderança reconhecida por Deus sempre é vicária; em Hebreus, a liderança do Cristo é perfeita e universal. 2 Crônicas 13:12 confessa: “Deus está conosco por cabeça” — o próprio Senhor como nosso archēgos. O Salmo 110:7, ao dizer que o Rei “beberá do ribeiro no caminho; por isso exaltará a cabeça”, condensa o padrão de Hebreus 2:10: humilhação no caminho, exaltação ao fim. Cântico dos Cânticos 5:10 chama o amado “distinto entre dez mil”: beleza régia que, no Cristo, se revela paradoxalmente na cruz antes da coroa. Ezequiel 34:24 promete “Davi, meu servo, príncipe no meio deles”: título messiânico para o Guia que apascenta e governa. Daniel 8:11 menciona o “Príncipe do exército” cujos direitos foram usurpados pelo pecado: é a tensão que o Capitão resolve, purificando o santuário com o próprio sangue.

Na boca do próprio Cristo, João 12:24 dá a lei do Capitão: “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dá muito fruto” — morrer para conduzir “muitos filhos”: o archēgos abre a vereda com a própria vida. Hebreus 2:14, ainda no mesmo contexto, explica por que sofreu como sofreu: “visto que os filhos” — ta tekna — “participam de sangue e carne, ele igualmente participou” — kekoinōnēken —, para, pela morte, destruir o que tinha o poder da morte: o sofrimento do Capitão não é só exemplar, é eficaz. Hebreus 7:28 encerra o contraste: a lei constituía sacerdotes fracos, “mas a palavra do juramento… constitui o Filho, aperfeiçoado” — teteleiōmenon (“consagrado, completo”) — “para sempre”: a mesma raiz de teleiōsai volta com selo eterno. 1 Pedro 2:21 lembra que Cristo padeceu “deixando exemplo” — hypogrammon (“modelo a ser copiado”): o caminho do Capitão vira caminho dos filhos. E, num contracanto cósmico, Apocalipse 12:7 mostra Miguel e seus anjos pelejando: mesmo quando arcanjos guerreiam, o título que Hebreus reserva a Jesus é único; não é archangelos (“arcanjo”), é archēgos (“Autor, Chefe, Pioneiro da salvação”). A batalha decisiva não foi vencida por espada de anjo, mas pela obediência sofredora do Filho que, “por meio de sofrimentos”, foi teleiōtheis e agora conduz sua multidão “à glória”.

Tudo, portanto, converge: a justiça que “convinha” (eprépen), o universo que existe “por quem” e “por meio de quem” (di’ hon… di’ hou), a família de “muitos filhos” (pollous huious), o destino “em glória” (eis dóxan), o Ofício do “Capitão” (archēgos) e a via da “perfeição” (teleiōsai) “por sofrimentos” (dia pathēmatōn). Não há peça solta, não há referência pendurada: cada versículo é um fio que, puxado, revela a mesma tapeçaria — o Deus que quis, planejou e executou um caminho em que o seu Filho desce, sofre, consagra-se em nosso lugar, e, coroado, volta-se para nós dizendo: “venham atrás de mim”. É assim que Hebreus 2:10 respira com toda a Escritura.

Hebreus 2:11 pousa o olhar exatamente no ponto em que a majestade de Cristo e a nossa pequenez se tocam: “tanto o que santifica como os que são santificados todos procedem de um; por isso, não se envergonha de os chamar irmãos”. O texto grego, em transliteração, condensa essa verdade num punhado de palavras de fogo: ho te hagiazōn kai hoi hagiazomenoi (“o que santifica e os que estão sendo santificados”), ex henos pantes (“todos de um [procedem]”), di’ hēn aitian ouk epaischynetai (“por essa razão não se envergonha”), adelphous autous kalein (“de chamá-los irmãos”). Três vias se cruzam aqui: quem santifica (Cristo), quem é santificado (nós), e a origem comum (ex henos, “de um só”) que torna legítima essa fraternidade; daí jorra a ousadia do Evangelho: o Filho chama pecadores de “irmãos” — e não cora por isso.

A primeira via — “o que santifica” — reaparece com toda a densidade no corpo da carta. Em Hebreus 10:10, a obra é dita com a limpidez do altar: fomos hēgiasmenoi (“santificados”) dia tēs prosphoras tou sōmatos Iēsou Christou ephapax (“pela oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas”). Lá está o mesmo verbo de 2:11 — hagiazō (“santificar”) — agora aplicado a nós como resultado da entrega única do corpo do Filho. Em Hebreus 10:14, a sentença ganha tempo verbal e alcance: com “uma só oferta”, Ele teteleiōken (“aperfeiçoou”) tous hagiazomenous (“os que estão sendo santificados”); o que 2:11 afirma como identidade — santificador e santificados — 10:14 descreve como processo que parte do sacrifício do hō hagiazōn (“o que santifica”) e alcança, no tempo, os hagiazomenoi (“os santificados”). Em Hebreus 13:12, o caminho é o sangue: Jesus “padeceu fora da porta” hina hagiasē dia tou idiou haimatos ton laon (“para santificar o povo por meio do seu próprio sangue”); aqui se vê que a santificação é consagração objetiva, feita pelo sangue da aliança. E quando o próprio Senhor, orando, declara: hyper autōn egō hagiazō emauton (“por eles eu me santifico”, João 17:19), Ele revela a raiz sacerdotal de Hebreus 2:11: o Santificador separa-se para Deus — hagiazō emauton (“santifico a mim mesmo”) — a fim de que um povo seja de fato santo. Por isso, quando a carta diz ho te hagiazōn (“o que santifica”), não está lidando com um inspirador moral, mas com o Sacerdote que consagra um povo com seu próprio sangue.

A segunda via — “os que são santificados” — só é possível porque o Santificador “entrou” na nossa carne. Dois versículos adiante, a carta dirá: “visto que os filhos participam de sangue e carne, Ele, de modo semelhante, participou das mesmas coisas” — em língua do santuário: epei oun ta paidia kekoinōnēken haimatos kai sarkos, kai autos paraplēsiōs meteschen tōn autōn (Hebreus 2:14; “uma vez que os filhos participam de sangue e carne, Ele igualmente participou das mesmas coisas”). Esse é o nervo de ex henos pantes (“todos de um”): a comunhão de natureza e de destino que legitima a fraternidade. É o que Jesus pedira na véspera: hina pantes hen ōsin (“para que todos sejam um”, João 17:21), a unidade que brota do Pai para o Filho e do Filho para os que o Filho santifica. E a própria Escritura, no areópago, guarda a frase-chave: Deus fez ex henos (“de um só”) pan ethnos anthrōpōn (“todo povo humano”, Atos 17:26); Hebreus 2:11 dá a essa máxima uma precisão cristológica: do lado da criação, “de um só” Adão; do lado da redenção, “de um só” Deus e Pai, que gera uma nova família no Filho. É por isso que Gálatas 4:4 enfatiza: genomenon ek gynaikos, genomenon hupo nomon (“nascido de mulher, nascido sob a lei”): o Santificador não paira acima de nós; Ele entra sob nosso jugo, para de lá nos erguer à santidade.

A terceira via — a audácia de Jesus chamar-nos “irmãos” — se desdobra a partir dali. O pano de fundo afetivo está em Hebreus 11:16, que diz do povo peregrino: ouk epaischynetai theos (“Deus não se envergonha”) de ser chamado Deus deles; pois bem, em 2:11, o Filho ouk epaischynetai (“não se envergonha”) de nos chamar irmãos, e essa simetria narra a alegria do Pai e do Filho na adoção dos santos. Por contraste pedagógico, Marcos 8:38 e Lucas 9:26 advertem: hos an epaischunthē (“quem se envergonhar”) do Filho e das suas palavras, com esse o Filho do Homem epaischynthēsetai (“se envergonhará”) quando vier na glória. Se o Cristo não se envergonha de nós, o mínimo é que não nos envergonhemos dele; e esse não-vergonha é precisamente a prova de que fomos feitos “da mesma família”, ex henos pantes (“todos de um”).

Quando o Ressuscitado redefine família, a linguagem de Hebreus 2:11 ganha carne. Na cena de Mateus 12:48–50, Jesus aponta para os que fazem a vontade do Pai e diz: “Eis minha mãe e meus irmãos”; ali nasce, à vista, a fraternidade fundada na obediência. Em Mateus 25:40, Ele identifica os que sofrem como “meus irmãos” (adelphoi mou): o Rei une-se aos menores, e a fraternidade torna-se critério de juízo. Em Mateus 28:10 (manhã de Páscoa), o Crucificado vitorioso comissiona: “Ide dizer a meus irmãos” (apangeilate tois adelphois mou), ecoando literalmente o que Hebreus 2:11 tematiza. João 20:17 traz a pérola: “vai a meus irmãos e dize-lhes: ‘Subo para **meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus’” — poreuou pros tous adelphous mou… anabainō pros ton patera mou kai patera hymōn; é a declaração jurídica da nossa origem comum em Deus: ex henos pantes (“todos de um”). E Paulo, em Romanos 8:29, sela o estatuto: o Filho é prōtotokos en pollois adelphois (“primogênito entre muitos irmãos”); de novo, Hebreus 2:11: se o Primogênito chama os outros de irmãos, não é condescendência: é genealogia da graça.

Esse fio de ouro já cintila, com força messiânica, muito antes. José, em Gênesis 46:31 e 47:1, apresenta publicamente “meus irmãos” diante de Faraó: não se envergonha dos pastores vindos da fome, antes os exibe como família sob sua proteção; é a sombra régia daquele que, sendo Senhor, nos leva ao trono do Pai. A consagração sacerdotal em Levítico 8:30 — com o óleo e o sangue sobre Arão e os seus — dá a gramática do “santificar” como ato objetivo de Deus; e Levítico 16:18, no dia da expiação, fixa que o acesso dos “irmãos” depende de sangue sobre o altar. O instituto do resgate em Levítico 25:48 pressupõe um parente-redentor (go’el) que compra o irmão de volta; Rute 3:2 põe Boaz em cena como tal parente. Hebreus 2:11 respira esse ar: a fraternidade de Jesus é jurídica (Ele faz-se nosso parente para poder redimir), afetiva (Ele não se envergonha), e cultual (Ele nos santifica com sangue).

A realeza bíblica também aprendeu a chamar o povo de “irmãos”. Davi sobe e, em 1 Crônicas 28:2, saúda “meus irmãos” antes de erguer o templo: o rei não se aliena da assembleia; ele se sabe da mesma casa — e o Filho de Davi, em altura infinita, faz o mesmo, chamando pecadores de “irmãos”. E o salmista que Hebreus cita dois versos adiante já havia cantado a cena: “anunciarei o teu nome aos meus irmãos” — diēgēsomai to onoma sou tois adelphois mou (Salmo 22:22); é exatamente o texto que 2:12 porá nos lábios de Cristo, como quem diz: “no meio da assembleia, eu canto com eles”. Provérbios 17:17 dá a psicologia do parentesco: “o irmão nasce para a angústia”; Hebreus 2:11 recorda que o nosso Irmão nasceu para nossa angústia, e na nossa angústia “santifica-nos” (hagiazō), levando-nos a Deus. Até o Cântico, com sua linguagem esponsal, implora esse parentesco: “roubeste-me o coração, minha irmã, noiva minha” (4:9), e “ah, se fosses meu irmão” (8:1). A nova aliança transforma o desejo em decreto: no Filho, Deus nos faz irmãos e irmãs do Ungido — adelphoi e adelphai (“irmãos e irmãs”) de um Primogênito que não se envergonha de nós.

A cena sinótica de família reaparece triplamente para que não reste dúvida. Mateus 12:50 repete que o que faz a vontade do Pai é “irmão, irmã e mãe” de Jesus; Marcos 3:34 narra o gesto de circundar os discípulos e declarar: “eis minha mãe e meus irmãos”; Lucas 8:21 ancora: “minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a palavra e a praticam”. É a definição de família que Hebreus 2:11 assume como fundamento de santificação: os “santificados” são os que Deus separa para a obediência da fé, e o Santuário chama-os de irmãos.

O fundamento de toda essa fraternidade é a encarnação. João 1:14 grita o milagre: ho logos sarx egeneto (“o Verbo se fez carne”) e armou sua tenda entre nós. É assim que ex henos pantes (“todos de um”) deixa de ser slogan e vira corpo: o Filho compartilha a nossa carne para nos dar, no seu Espírito, a comunhão com o Pai. E essa comunhão tem herança, como Paulo diz em Atos 20:32: a “palavra da graça” tem poder para “dar herança entre os santificados” — dounai klēronomian en tois hēgiasmenois (“dar herança entre os santificados”); a mesma família santificada de Hebreus 2:11 é a assembleia herdeira. Por isso a igreja é saudada, em 1 Coríntios 1:2, como “santificados em Cristo Jesus” — hēgiasmenois en Christō Iēsou (“santificados em Cristo Jesus”) —, e lembrada, em 1 Coríntios 6:11, de que “fostes santificados” — hēgiasthēte (“fostes santificados”) —, “fostes justificados”, “fostes lavados”: a tríplice obra que nasce do Santificador. A oração final de 1 Tessalonicenses 5:23 roga que o “Deus da paz” vos santifique — hagiasai (“santifique”) — “inteiramente”: tudo o que o Pai opera em nós é expansão daquela frase de Hebreus: “o que santifica” e “os que são santificados”… todos de um.

Na abertura da carta, o Messias é ungido “com óleo de alegria mais do que os teus companheiros” — para tōn metochōn sou (Hebreus 1:9; “mais do que os teus companheiros”): é a corte do Rei que, ainda assim, Ele chama de companheiros — outra palavra para irmãos de trono. E, descendo de volta a Hebreus 2:17, ouvimos a razão última de 2:11: “importava que em tudo se tornasse semelhante aos irmãos” — homoioōthēnai tois adelphois kata panta (“ser feito semelhante aos irmãos em tudo”); a santificação em 2:11, a semelhança em 2:17 e o sangue em 13:12 são a mesma estrada vista de ângulos distintos. Tão séria é essa consagração que Hebreus 10:29 adverte contra “pisar o Filho de Deus” e “ter por comum o sangue da aliança com que foi santificado” — to haima tēs diathēkēs en hō hēgiasthe (“o sangue da aliança pelo qual foi santificado”): se o Santificador nos colocou nessa família com sangue, desonrar o sangue é cuspir no parentesco que Ele nos deu.

Voltemos, enfim, ao início: ho te hagiazōn kai hoi hagiazomenoi (“o que santifica e os que são santificados”), ex henos pantes (“todos de um”), ouk epaischynetai (“não se envergonha”), adelphous… kalein (“de chamá-los irmãos”). Hebreus 10:10, 10:14, 13:12 e João 17:19 mostraram como Ele santifica; Hebreus 2:14, João 17:21, Atos 17:26 e Gálatas 4:4 mostraram por que podemos dizer “todos de um”; Hebreus 11:16, Marcos 8:38 e Lucas 9:26 ensinaram o peso de Ele não se envergonhar (nem nós); Mateus 12, 25 e 28, João 20 e Romanos 8:29 revelaram a voz com que Ele nos chama “irmãos”; e todo o pano de fundo recíproco — José apresentando os irmãos, o sangue que consagra, o parente-redentor que resgata, Davi chamando “meus irmãos”, o Salmo 22 cantando “meus irmãos”, o amigo-irmão que nasce para a angústia, a linguagem nupcial que deseja parentesco, a igreja “santificada”, o Deus que “santifica inteiramente”, os “companheiros” do Ungido, o dever do Filho de “ser semelhante aos irmãos” e o perigo de desprezar o sangue que santifica — tudo isso é a tapeçaria na qual a frase de Hebreus 2:11 foi bordada. O Santificador não nos trata como estranhos; Ele entrou na nossa carne, deu-nos seu sangue, trouxe-nos para dentro da casa do Pai — e, diante de céu e terra, não tem vergonha de pronunciar nosso nome como o nome de irmãos.

Hebreus 2:12 coloca-nos dentro do culto do próprio Cristo: “dizendo: Anunciarei o teu nome a meus irmãos; no meio da assembleia cantar-te-ei louvores”. O texto grego em transliteração deixa o gesto visível: legō: apangelō to onoma sou tois adelphois mou, en mesō ekklēsias hymnēsō se (“dizendo: anunciarei o teu nome aos meus irmãos; no meio da assembleia te louvarei”). O Filho que, no versículo anterior, “não se envergonha de os chamar irmãos”, agora entra na assembleia, toma a dianteira, e faz duas coisas: torna conhecido o Nome do Pai e conduz o louvor em voz alta. É a voz do Messias ressuscitado inaugurando o culto da nova aliança.

O primeiro eco é o Salmo 22:22, matriz exata da citação. Depois da noite do abandono, o salmista irrompe: “Anunciarei o teu nome a meus irmãos; no meio da congregação te louvarei”. A leitura messiânica do salmo, assumida pelo autor de Hebreus, faz do “eu” do salmo a voz do Cristo que saiu do vale da morte para a praça do louvor. A forma verbal em Hebreus — apangelō to onoma sou (“anunciarei o teu nome”) — cola no coração do Salmo 22 o fato pascal: o Messias que sofreu agora anuncia quem o Pai é, e o faz entre irmãos. E porque a estrofe jubilosa do salmo se alonga alguns versículos adiante, Hebreus 2:12 também sorve o v. 25: “De ti vem o meu louvor na grande congregação”. A segunda linha da citação — en mesō ekklēsias hymnēsō se (“no meio da assembleia te louvarei”) — é a cristalização neotestamentária dessa “grande congregação” em que o Louvor do Justo sobrevivente vira escola de louvor para muitos. Se em Salmo 22:22 o Messias promete declarar, em 22:25 ele cumpre louvando “na grande congregação”; Hebreus 2:12 toma promessa e cumprimento e os põe na boca de Jesus ressuscitado diante da igreja.

A mesma toada ressoa no Salmo 40:10, quando o fiel diz: “Não ocultei a tua justiça no meio da grande congregação; proclamei a tua fidelidade e a tua salvação”. O verbo do salmista é o gesto do Cristo em Hebreus: apangelō to onoma sou (“anunciarei o teu nome”) é o reverso de “não ocultei”. Quem anuncia o Nome revela o coração do Pai. E porque a escola do louvor é pública, o Salmo 111:1 dá o cenário: “De todo o coração renderei graças ao Senhor, no conselho dos retos e na congregação”. Essa publicidade litúrgica é exatamente o que Hebreus 2:12 sublinha com en mesō ekklēsias (“no meio da assembleia”): o Filho não sussurra; ele dá o tom “no meio”, como primeiro cantor de um coral novo. O próprio Jesus, antes de sua paixão, já vivera assim: “Eu falei abertamente ao mundo; eu sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos se reúnem, e nada falei em oculto” — egō parrēsia lelalēka tō kosmō; egō pantote edidaxa en synagōgē kai en tō hierō… kai en kryptō elalēsa ouden (João 18:20, “eu falei com franqueza… sempre ensinei… nada em segredo”). A parrēsia (franqueza) de Jesus em vida desemboca na sua parrēsia pascal: o Ressuscitado anuncia o Nome do Pai e canta o louvor do Pai no meio do seu povo.

Essa centralidade do culto público corre como rio pelos “recíprocos”. Davi, em 1 Crônicas 28:2, ergue-se “na presença de toda a congregação” e a chama de “meus irmãos”: o rei fala aos irmãos no meio da assembleia — um esboço carnal do que o Filho de Davi realiza em plenitude quando, “no meio da ekklēsia”, abre a boca para louvar o Pai com os irmãos. O Salmo 26:12 confessa: “nas congregações bendirei o Senhor”; o Salmo 35:18 promete: “dar-te-ei graças na grande congregação”; o Salmo 40:9, gêmeo do v. 10, repete: “anunciei boas novas de justiça na grande congregação”; o Salmo 109:30: “em grande número de gente o louvarei”; o Salmo 149:1 convoca: “cantai ao Senhor um cântico novo; seu louvor na assembleia dos santos”. Em todos, a liturgia é pública e plural. Hebreus 2:12 afirma que aquele que faz essa liturgia ser possível é o próprio Cristo, pois é Ele quem diz: en mesō ekklēsias hymnēsō se (“no meio da assembleia te louvarei”). Não é só que a igreja louva a Deus por causa de Cristo; é que Cristo, como primogênito, puxa o louvor da igreja para o Pai.

Até a linguagem do afeto fraterno, tão acesa no versículo anterior, reaparece em imagens surpreendentes: “minha irmã, minha noiva” (Cântico 5:1), “ah, se fosses meu irmão” (Cântico 8:1). A poesia do amor conjugal e do desejo de parentesco dita, em figura, a proximidade que Hebreus 2:11 já estabelecera e que 2:12 agora transforma em coro: quem é “irmão” e “irmã” de Cristo canta com Cristo, porque Cristo canta com eles. Não por acaso, no meio da reunião Jesus redefine família: “Eis minha mãe e meus irmãos” (Marcos 3:34). O “meus irmãos” de Marcos volta literal no “meus irmãos” de Salmo 22:22, que volta literal na boca de Jesus em Hebreus 2:12: família e congregação são o mesmo povo sob a mesma voz.

Se a primeira linha de Hebreus 2:12 promete “anunciar o Nome”, os evangelhos nos mostram Jesus cumprindo: “manifestei o teu Nome aos homens que do mundo me deste” — ephanerōsa to onoma sou (João 17:6, “tornei visível o teu nome”). E ele diz que continuará: “dei a conhecer a eles o teu Nome e o darei a conhecer” — egnōrisa autois to onoma sou kai gnōrisō (João 17:26, “fiz conhecer… e farei conhecer”). As duas promessas do versículo — anunciar e louvar — são, portanto, o ministério pascal permanente do Cristo vivo: ele faz o Pai conhecido e ele lidera o louvor ao Pai. E quando os apóstolos dizem: “O que vimos e ouvimos anunciamos também a vós” — ho heōrakamen kai akēkoamen apangellomen kai hymin (1 João 1:3, “anunciamos”), usam o mesmo verbo da citação de Hebreus — apangelō (“anunciar”) — para dizer que a voz de Jesus continuou na voz da igreja. A cadeia é clara: o Filho anuncia o Nome ao círculo dos irmãos e canta no meio deles; os irmãos, ouvindo e vendo, anunciam ao mundo para que outros entrem no mesmo círculo e no mesmo canto.

O desenho, visto por inteiro, é pascal e eclesial. O Salmo 22 dá a virada do “Deus meu, por que me desamparaste?” para “no meio da congregação te louvarei”; Hebreus 2:12 coloca essa virada na boca de Jesus, o Ressuscitado, e mostra que a primeira coisa que ele faz ao sair da morte é juntar os irmãos e cantar com eles. O Salmo 40 e os demais salmos da “grande congregação” ensinam que a fidelidade de Deus deve ser proclamada publicamente; Hebreus diz: quem proclama é o próprio Cristo, em pessoa, no meio. João 18:20 garante que o seu ensino foi público do começo ao fim; João 17:6 e 17:26 garantem que a sua obra é fazer o Pai conhecido; 1 João 1:3 garante que a igreja continua esse anúncio. E, como num refrão, a palavra ekklēsia (“assembleia”) sobe e desce o texto: não é um auditório anônimo; é a família santificada do capítulo, aqueles que ele chamou de “irmãos” e que agora ele faz seus companheiros de louvor. Em suma, Hebreus 2:12 nos mostra o culto cristão em sua raiz: o Cristo vivo, centro da assembleia, abrindo a boca para anunciar o Pai e para louvar o Pai, e nós, como irmãos que participam de sua voz, aprendendo com Ele o Nome e o Cântico.

Hebreus 2:13 coloca na boca do Messias duas afirmações gêmeas que revelam, ao mesmo tempo, a sua fé filial e a sua solidariedade fraterna: kagō esomai pepoithōs ep’ autō (“e eu estarei confiando nele”) e idou egō kai ta paidia ha edōken moi ho theos (“eis-me aqui, eu e as crianças [filhos] que Deus me deu”). O autor recolhe essas linhas da Escritura para mostrar que o Filho, ao assumir nossa carne e nos chamar de irmãos, não age de cima para baixo como um estrangeiro: Ele vive a fé do justo e reúne ao redor de si os filhos que o Pai lhe confiou. Seguindo a ordem das referências bíblicas, dá para ver como cada versículo acende um ponto específico dessa dupla declaração.

Quando o Messias diz kagō esomai pepoithōs ep’ autō (“eu estarei confiando nele”), ele se coloca na fila dos que se refugiam em Deus. É exatamente a confissão de 2 Samuel 22:3: “meu Deus, meu rochedo, nele confiarei”. O rei perseguido encontra abrigo em Deus como única fortaleza; Hebreus 2:13 enxerga nessa postura a própria disposição do Cristo encarnado: o Filho, tendo assumido nossa condição, faz da confiança obediente o seu ar. O mesmo sopro percorre o Salmo 16:1: “guarda-me, Deus, porque em ti me refugio”. A palavra de refúgio do salmista é a carne da frase grega de Hebreus: pepoithōs (“confiando, estando confiante”). Se o Santificador caminha por fé, a santificação que Ele opera em nós será, necessariamente, vida de fé.

No Salmo 18:2, o justo acumula metáforas para a confiança: “o Senhor é minha rocha, minha cidadela, meu libertador”. Cada figura amplia a gramática de pepoithōs: confiar é habitar a fortaleza de Deus, e é com essa segurança que o Cristo vive e morre. Já no Salmo 36:7 (hebr. 36:8) o coração troca metáforas por intimidade: “os filhos dos homens se abrigam à sombra das tuas asas”. O versículo seguinte (Salmo 36:8; hebr. 36:9) fala de se fartar da gordura da casa de Deus e beber do rio dos seus prazeres: a confiança não é só abrigo na tempestade; é mesa posta. Hebreus 2:13, ao pôr “eu confiarei” nos lábios de Jesus, sugere que o Filho experimenta ambas as coisas: a asa que protege e a mesa que sustenta — e, como Primogênito, ensina seus “irmãos” a viverem assim.

O Salmo 91:2 condensa em forma de credo: “direi ao Senhor: meu refúgio e minha fortaleza, meu Deus, em quem confio”. É a forma declarativa do que Hebreus cita em forma de promessa: esomai pepoithōs (“eu estarei confiando”). Isaías 12:2 canta a mesma música com um avanço cristológico: “Eis Deus a minha salvação; confiarei e não temerei”. A salvação não é mais apenas socorro; é o próprio Deus presente. O Cristo de Hebreus 2:13, confiando, é o Deus-conosco encarnado, refazendo em nossa carne a fé que Adão perdeu. E quando Isaías 50:7–9 põe o Servo a dizer que “o Senhor Deus me ajuda; por isso não me envergonho… Quem contenderá comigo?… O Senhor Deus me justifica”, temos o conteúdo concreto da confiança: o Servo, humilhado e inocente, apoia sua face dura como pederneira, certo de que o Pai o vindicará. Hebreus 2:13 é exatamente isso: o Filho, feito nosso irmão, percorre a via da confiança até o fim, e por isso pode convidar os irmãos a segui-lo.

Chega, então, o uso maldoso da Escritura na boca dos zombadores em Mateus 27:43: “Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama”. O escárnio reconhece — e distorce — a verdade: Jesus realmente confiou; e o Pai realmente o livrou, não da cruz, mas por meio da ressurreição. Hebreus 2:13, ao citar “eu confiarei nele”, responde a esse escárnio: a confiança do Filho não ficou sem resposta; ela é o caminho pelo qual Ele se tornou o nosso Irmão e Capitão.

A segunda declaração, idou egō kai ta paidia ha edōken moi ho theos (“eis-me aqui, eu e os filhos que Deus me deu”), vem de Isaías 8:18. Ali, Isaías e seus filhos, com nomes simbólicos, são sinais para Israel. Hebreus, lendo a Escritura em chave messiânica, vê no Profeta um esboço do Cristo que se apresenta diante do Pai com a família que o Pai lhe confiou. “Eis-me aqui” — idou egō — é a frase de quem comparece no culto (o Servo de Isaías 6:8 já dissera: “eis-me aqui”). “E os filhos que Deus me deu” — ta paidia… edōken — explicita a origem: os irmãos não são “conquistas” do Filho; são dom do Pai. Isaías 53:10, dizendo que, após o sacrifício, o Servo “verá descendência” e “prolongará os dias”, explica como o Cristo pode dizer “eu e os filhos”: a sua prole é o fruto da sua oferta; a Igreja é a sua descendência viva. Hebreus 2:13 junta as pontas: confiança filial → entrega sacrificial → apresentação dos filhos.

As cenas familiares de Gênesis afinam nosso entendimento desse “dom”. Em Gênesis 33:5, Esaú pergunta: “Quem são estes contigo?”, e Jacó responde: “São os filhos que Deus graciosamente tem dado a teu servo”. É a mesma gramática de edōken… ho theos (“Deus deu”) que Hebreus 2:13 põe na boca do Cristo — só que agora em escala eterna. Em Gênesis 48:9, José diz a Jacó: “São filhos que Deus me deu aqui”; e Jacó os toma e os abençoa. O movimento é idêntico: o Pai dá, o primogênito apresenta, o patriarca abençoa — é a miniatura doméstica do que o Filho faz ao apresentar seus irmãos ao Pai. O Salmo 127:3 chama os filhos de “herança do Senhor”; Hebreus 2:13 eleva essa verdade: nós, filhos dados ao Filho, somos a herança que o Pai reserva ao Primogênito.

No Evangelho, essa noção de “dar” se torna cristalina. Jesus diz em João 10:29: “Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos”; ninguém arrebata as ovelhas de sua mão. O “dar” do Pai — ho dedōkōs moi (“o que me deu”) — é o fundamento da segurança dos filhos; por isso o Cristo pode dizer: “eu e os filhos que Deus me deu”. Em João 17:6–12, a oração sacerdotal repete o refrão: “eram teus e tu mos deste”; “os guardarei”; “nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição”. Hebreus 2:13 é como um resumo do capítulo 17: o Filho recebe, guarda e apresenta; e, ao apresentá-los, diz: “eis-me aqui com eles”. Paulo, em 1 Coríntios 4:15, entra na partitura como cooperador: “em Cristo Jesus eu vos gerei pelo Evangelho”. Os ministros “geram” porque o Filho, de fato, gera; os “pais” do Evangelho reconhecem que seus “filhos” pertencem primeiro ao Cristo, que os recebeu do Pai.

Até as referências chamadas “recíprocas” pulsam nesse mesmo compasso. Levítico 25:25 regula o resgate do parente: se um irmão cair, o resgatador o compra de volta. O Messias de Hebreus é esse Parente-Redentor que comparece diante de Deus dizendo: “eis-me aqui com os filhos resgatados”. O Salmo 21:7 exalta o rei que confia no Senhor e, por isso, não vacila: é o rei confiante que, em Hebreus 2:13, ensina a igreja a confiar. O Salmo 22:30 afirma que “uma semente o servirá; falar-se-á do Senhor às gerações”; essa semente é a descendência do Servo (Isaías 53:10) — os “filhos” que Ele apresenta com o “eis-me aqui”. Isaías 9:6 chama o Menino de “Pai da eternidade”: título paradoxal que, longe de confundir as Pessoas, sublinha o papel do Messias como Cabeça geradora de um povo — o que explica por que Ele pode dizer “eu e os filhos…”. E João 17:12, como já vimos, sela: “eu os guardei… nenhum se perdeu”: o Filho não apenas recebe; Ele preserva, e por isso pode apresentá-los vivos na assembleia celestial.

O todo, visto por dentro, é um só movimento. O Cristo, tendo assumido nossa carne, diz ao Pai com a coragem mansa dos salmos: kagō esomai pepoithōs ep’ autō (“eu estarei confiando nele”). Essa confiança atravessa a cruz e, do outro lado, ressoa: idou egō kai ta paidia ha edōken moi ho theos (“eis-me aqui, eu e os filhos que Deus me deu”). É a liturgia do Ressuscitado diante do Pai: fé de Filho, família de irmãos. E nós, contados entre “os filhos”, ouvimos nossa história nessa frase: fomos dados pelo Pai ao Filho, guardados pelo Filho para o Pai, e, por isso, aprendemos com o Primogênito a confiar — até o dia em que, com Ele, diremos também: “eis-nos aqui”.

Hebreus 2:14 abre o mistério com palavras que soam como marteladas num portão de ferro: “Visto, pois, que os filhos participaram de sangue e carne, também ele, semelhantemente, participou das mesmas coisas, para que, por meio da morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, isto é, o diabo”. Três verbos sustentam a arquitetura: kekoinōnēken (“têm participado em comum”), meteschen (“ele também participou”), katargēsē (“anular, tornar inoperante”); e dois substantivos dão corpo à batalha: haima kai sarx (“sangue e carne”) e kratos tou thanatou (“poder/força da morte”). Com essa gramática na mão, cada referência bíblica se acende como um farol a explicar, em detalhe, como o Filho encarnado atravessou a nossa condição para quebrar a tirania da morte e do diabo.

Quando o versículo fala dos “filhos”, ele aponta para o destino previsto dois versos antes: “conduzindo muitos filhos à glória” (Hebreus 2:10). O “filhos” de 2:10 é a razão de 2:14: porque são filhos — ta paidia — e porque participam (kekoinōnēken) de sangue e carne, o Filho entra por essa mesma porta, paraplēsiōs meteschen (“de modo semelhante, participou”), para fazer dos filhos não apenas herdeiros de glória, mas livres do medo da morte (que 2:15 explicará). A filiação redentiva de 2:10 exige a encarnação solidária de 2:14.

A expressão “sangue e carne” pede uma linha precisa sobre o limite da carne: “carne e sangue não podem herdar o reino de Deus” (1 Coríntios 15:50). Paulo não despreza a criação; ele delimita a condição adâmica. Hebreus 2:14 não diz que o Filho se fez “carne e sangue” para eternizar essa condição, mas para atravessá-la até o fim e quebrar o seu jugo: ele entra na mesma matéria — tōn autōn (“das mesmas coisas”) — para conduzi-la à Páscoa; e, ao fazer isso, mostra que o reino não é dado à carne como é, mas à carne assumida e transfigurada no Filho.

A linha “ele também participou” desdobra-se em toda a economia da carta. “Porque naquilo que ele mesmo padeceu, tendo sido tentado, pode socorrer os que são tentados” (Hb 2:18): o verbo peirazesthai (“ser tentado”) significa que a sua participação não foi teórica; ele enfrentou, na carne, a pressão do maligno. “Não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, antes um que, em tudo, foi tentado à nossa semelhança, sem pecado” (Hb 4:15): sympatheō (“sofrer junto”) explica por que 2:14 precisava dizer paraplēsiōs meteschen (“de modo semelhante participou”): a encarnação solidária é o caminho para a compaixão eficaz. E esse caminho, que começa no berço prometido, fora desenhado desde o Éden: “porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça” (Gênesis 3:15). A “semente da mulher” é a promessa de um nascimento humano que esmagará o tentador; Hebreus 2:14 mostra a hora do esmagamento: “por meio da morte” — dia tou thanatou — katargēsē (“anula, torna inoperante”) o detentor do poder da morte. Por isso Isaías aponta para um nascido de mulher: “a virgem conceberá e dará à luz um filho, e chamará o seu nome ’Imanu El” (Isa 7:14); é o “Deus conosco” entrando em haima kai sarx (“sangue e carne”) para derrotar o dragão de dentro da nossa condição.

“E o Verbo se fez carne” — ho logos sarx egeneto — “e armou sua tenda entre nós” (João 1:14): não há Hebreus 2:14 sem João 1:14; a tenda da carne humana torna-se o santuário onde Deus luta e vence. Paulo diz o mesmo em chave forense: “Deus, enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne do pecado — en homoiōmati sarkos hamartias — e por causa do pecado — peri hamartias — condenou o pecado na carne” (Romanos 8:3). O Filho assume semelhança (não pecado), para que, na própria arena da carne, o pecado seja condenado. “Vindo a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gálatas 4:4): a frase “nascido de mulher” é a ponte direta para “participou de sangue e carne”; a frase “sob a lei” explica como ele entrou sob o nosso jugo para nos resgatar. E assim se cumpre a kenose: “a si mesmo esvaziou — heauton ekenōsen —, tomando forma de servo — morphēn doulou —, tornando-se em semelhança de homens — en homoiōmati anthrōpōn —; e, achado em figura como homem, humilhou-se — etapeinōsen heauton — tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:7-8). A descida é total porque a vitória será total: dia tou thanatou (“por meio da morte”) ele fará o que nenhum anjo podia. “Grande é o mistério da piedade: manifestado em carne — ephanerōthē en sarki” (1 Timóteo 3:16): a manifestação na carne é o selo da verdade de 2:14.

No próprio ritmo da carta, aparece a locução de 2:14 — dia tou thanatou (“por meio da morte”) — como chave pactual: “por isso é mediador de uma nova aliança, para que, intervindo a morte — thanatou genomenou — para a redenção das transgressões sob a primeira aliança, os chamados recebam a herança eterna” (Hb 9:15). A morte de Cristo é meio, é ponte, é resgate: é o dia (“por meio de”) que Hebreus 2:14 repete com ênfase. Isaías 53:12 havia rabiscado essa linha séculos antes: “derramou a sua alma até à morte… e levou o pecado de muitos”; a morte vicária é o instrumento da anulação do tirano. Próximo da cruz, Jesus interpretou a si mesmo: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só; mas, se morrer, produz muito fruto” (João 12:24): 2:14 explica por que morrer era o caminho — para, por meio da morte, neutralizar o que tem o poder da morte. E ele declarou, no mesmo fluxo: “Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo… isto dizia, significando de que morte havia de morrer” (João 12:31-33). É a glosa direta: a sua morte julga o mundo e expulsa o príncipe; Hebreus diz “katargēsē” (“anula/torna inoperante”). Paulo canta a consequência: “para isto Cristo morreu e viveu de novo, para ser Senhor tanto de mortos como de vivos” (Rom 14:9). E descreve, com imagens militares, o que aconteceu na cruz: “despojando — apekdysamenos — os principados e as potestades, expôs-nos em espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz” (Col 2:15). Por isso o Ressuscitado pode dizer: “Eu sou o Vivente; estive morto, mas eis que vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do Hades” (Apocalipse 1:18): as chaves estão com quem desceu até a morte e voltou com vitória.

Quando o versículo afirma “para destruir”, não fala de aniquilar o ser do diabo, mas de anular seu poder. A Escritura inteira já cantava esse fim. “Ele aniquilará a morte para sempre” (Isaías 25:8): a promessa é que a morte será engolida pelo próprio Deus; Hebreus 2:14 mostra como: por meio da morte de Cristo. “Da mão do Sheol os remirei… ó morte, serei as tuas pragas” (Oseias 13:14): a morte é desarmada por um resgate ativo. Paulo traduz a profecia em vitória pascal: “Quando isto que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra: ‘tragada foi a morte pela vitória’” (1 Coríntios 15:54) e “onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Coríntios 15:55). A agulha foi arrancada porque, por meio da morte, o Filho katargēsē (“anulou”) o que tinha o poder de picar. E 2 Timóteo 1:10 resume numa linha: Cristo “aboliu — katargēsantos — a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho”: o mesmo verbo de Hebreus 2:14 — katargēsē — reaparece para dizer: a morte foi posta fora de ação.

O alvo explícito de 2:14 é “o diabo”. Seu fim está decretado: “o fogo eterno está preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41). E a razão da vinda do Filho é declarada sem rodeios: “para isto se manifestou o Filho de Deus: para desfazer — lysē — as obras do diabo” (1 João 3:8-10). As cartas do Apocalipse advertem que o diabo ainda investe (Apocalipse 2:10), mas sua queda já foi proclamada: “foi expulso o grande dragão… o sedutor do mundo inteiro” (Apocalipse 12:9), e será enfim “preso” (Apocalipse 20:2). Hebreus 2:14 não nega a atividade do acusador; ele afirma que o poder de morte que o diabo brandia foi neutralizado na cruz.

A liturgia “recíproca” espalhada por toda a Escritura dá cores e metáforas a esse ato. A água de aspersão em vaso de barro (Levítico 14:5) é o evangelho em miniatura: em “vaso de barro” — nossa “carne” — Deus opera limpeza real; as “vestes de linho” do sumo sacerdote no Dia da Expiação (Levítico 16:4) são a humildade do Cristo que, “em forma de servo” (morphē doulou), entra no Santo para nos representar. O resgatador de Levítico 25:25 prefigura o Parente que paga o preço; é isso que 2:14 realiza “por meio da morte”. O grito “somos teus ossos e carne” (Juízes 9:2; 2Sa 5:1) expressa a solidariedade que Hebreus celebra: para nos redimir, o Filho se fez “osso dos nossos ossos”. Do enigma de Sansão — “do devorador saiu comida” (Juízes 14:14) — até sua morte que mata mais do que sua vida (Juízes 16:30), a tipologia é clara: vida brotando da morte do campeão; em 2:14, o verdadeiro Campeão vence mor­rendo. Davi corta a cabeça do gigante com a própria espada do gigante (1 Samuel 17:51): Jesus, com a própria morte, desfaz o império da morte — a arma do inimigo volta-se contra ele. “Ele me livrou de meu inimigo forte” (Salmos 18:17): é o que 2:14 narra como ato objetivo. O Rei é “ungido com óleo de alegria acima dos companheiros” (Salmos 45:7): a exaltação pós-cruz é o selo de que a neutralização do diabo foi efetiva. “Ao Senhor pertence as saídas da morte” (Salmos 68:20): quem tem as “chaves da morte” (Apocalipse 1:18) pode abrir a porta da Páscoa. “A sua destra lhe alcançou salvação” (Salmos 98:1) e “empurraram-me, para eu cair, mas o Senhor me sustentou” (Salmos 118:13): a cruz empurra, a ressurreição sustenta.

O fio de Isaías já nos acompanhava: “Eis-me aqui, eu e os filhos que me deu o Senhor” (Isaías 8:18) encontra eco imediato em 2:13; “um Menino nos nasceu” (Isaías 9:6) explica como ele entrou em sangue e carne; “Eis que o Senhor virá com braço forte” (Isaías 40:10) é a mão que arranca o aguilhão; a missão do Servo “para abrir os olhos dos cegos e fazer sair da prisão o prisioneiro” (Isaías 42:7) é a versão pastoral do “neutralizar o que tem o poder da morte”. “Porventura, tirar-se-ia a presa ao valente?… Sim, assim diz o Senhor: do poderoso será tirada a presa” (Isaías 49:25): Hebreus responde: por meio da morte, o valente foi desarmado. “Olhei… e não houve quem ajudasse… o meu braço me trouxe salvação” (Isaías 63:5): ninguém podia, por isso ele mesmo entrou e venceu. Jeremias canta: “O Senhor resgatou Jacó e o livrou da mão do mais forte” (Jeremias 31:11). Daniel vê “um como Filho do Homem” (Daniel 7:13) recebendo o reino depois da batalha; Miqueias chama o Messias de “o que arromba” (Miqueias 2:13), que sobe à frente; Hebreus 2:14 é a batida de aríete: ele arromba a fortaleza da morte por dentro.

No evangelho, os sinais são inequívocos. Quarenta dias de jejum (Mateus 4:2) dizem que ele assumiu nossa fraqueza corporal e venceu onde Adão caiu. “Livra-nos do Maligno” (Mateus 6:13) é o clamor que 2:14 responde com um fato. Na confissão de Cesareia (Mateus 16:13), ele se revela como o Filho do Homem que veio para isso; e a questão de Davi (Mateus 22:45) lembra que o Messias é Senhor de Davi — logo, Senhor também da morte. Quando “entregou o espírito” (Mateus 27:50), o que parecia derrota era o golpe fatal na cabeça da serpente. “Ninguém pode saquear a casa do valente sem primeiro amarrá-lo” (Marcos 3:27): a cruz é esse amarrar; a ressurreição, o saque do cativeiro. Os demônios caem aos seus pés (Marcos 5:7; Lucas 4:34), e o geraseno “achou-se… em perfeito juízo” (Lucos 8:35): sinais de que o Império foi invadido. “Eu via Satanás caindo do céu como relâmpago” (Lucos 10:18): o que Hebreus chama de “neutralizar” é visto como queda. O pobre “foi levado pelos anjos” (Lucos 16:22): morte, que antes era algema, vira corredor para a casa do Pai. “Tenho autoridade para dar a vida, e autoridade para torná-la a tomar” (João 10:18): por isso 2:14 pode dizer dia tou thanatou (“por meio da morte”): a morte foi ato de autoridade. “Agora a minha alma está perturbada” (João 12:27): ele sentiu o peso real de nossa carne; “o príncipe deste mundo já está julgado” (João 16:11) explica a sentença de 2:14. “Tetelestai” (João 19:30, “está consumado”): a obra que anula o poder da morte está fechada.

A proclamação apostólica confirma: “Deus o ressuscitou, rompendo os laços da morte, porque não era possível que ela o retivesse” (Atos 2:24): a morte perdeu as algemas, e isso define katargēsē. “Jesus de Nazaré… curando todos os oprimidos do diabo” (Atos 10:38): o ministério público é o ensaio geral de 2:14. “Para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas à luz, e do poder de Satanás a Deus” (Atos 26:18): a missão apostólica aplica a vitória do Capitão. “Sabendo que Cristo, ressuscitado, já não morre; a morte não tem domínio sobre ele” (Romanos 6:9): se não domina o Cabeça, não dominará o Corpo. “O Deus da paz esmaga em breve Satanás debaixo dos vossos pés” (Romanos 16:20): o “debaixo dos seus pés” (Salmos 8) torna-se “debaixo dos nossos pés” por união com Cristo; 2:14 é a causa. “Se não há ressurreição…” (1 Coríntios 15:13), não há 2:14; mas há — e “o último inimigo a ser destruído é a morte” (1Co 15:26): o processo inaugurado na Páscoa será consumado na Parusia. “Revelar seu Filho em mim” (Gal 1:16) é a vitória de 2:14 se tornando experiência na igreja. “Não somos filhos da escrava, mas da livre” (Gal 4:31): libertados do jugo da morte. “Ele nos libertou do poder das trevas e nos transportou para o reino do Filho” (Col 1:13): 2:14 é o evento; Col 1:13, o translado. O próprio contexto de Hebreus volta: “o que santifica e os santificados, todos de um” (Heb 2:11); “importava que em tudo fosse feito semelhante aos irmãos” (Heb 2:17): é assim que paraplēsiōs meteschen (“participou de modo semelhante”) ganha densidade. “Nos dias de sua carne… com forte clamor e lágrimas… foi ouvido” (Heb 5:7): a carne foi real, e a morte também — por isso a vitória é real. “Corpo me preparaste” (Heb 10:5): a preparação do corpo é a preparação da espada que cortaria o nó górdio da morte.

A visão do Ressuscitado “como filho do homem” (Apocalipse 1:13) no meio dos candelabros mostra quem reina depois de 2:14; e a igreja “venceu por causa do sangue do Cordeiro” (Apocalipse 12:11): o sangue — haima — que ele assumiu em 2:14 é o sangue que nos dá vitória. O fim posto por Isaías 25 chega à última página: “não haverá mais morte” (Apocalipse 21:4): o que foi anulado na raiz em 2:14 será removido da paisagem na consumação.

Em suma: porque “os filhos” são de “sangue e carne”, o Filho, “de modo semelhante”, entrou no nosso barro — meteschen —, a fim de, por meio da morte — dia tou thanatou —, anular — katargēsē — o poder da morte — to kratos tou thanatou — e expor o diabo como o que já não tem as chaves. Toda passagem bíblica é uma janela para esse ato único: do Éden à cruz, da cruz ao trono, a história é a mesma — Deus vencendo o devorador por dentro daquilo que o devorador julgava seu território. E é por isso que, ao ouvir Hebreus 2:14, a igreja aprende a dizer sem tremer: o poder da morte foi neutralizado; o diabo, desarmado; e a nossa carne, assumida e conduzida pelo Filho à vida que não morre.

Hebreus 2:15 abre a consequência salvadora do que o versículo anterior proclamou: “e libertar quantos, pelo medo da morte, por toda a vida estavam sujeitos à escravidão”. Em grego transliterado: kai apallaxē (“e libertasse”), tōtous hosoi phobō thanatou (“todos os que pelo medo da morte”), dia pantos tou zēn (“ao longo de todo o viver”), enochoi ēsan douleias (“eram réus/sujeitos de escravidão”). O fio é claro: porque, em 2:14, o Filho entrou em nossa carne e, por meio da morte, neutralizou o que tinha o poder da morte, agora 2:15 mostra o para quê: arrancar do jugo do medo, dissolver a servidão, fazer nascer uma liberdade cultual.

A primeira palavra é “libertar”: os ecos começam longe, com Eliú descrevendo o homem às portas do abismo e Deus, compassivo, dizendo “Livra-o de descer à cova; achei resgate” (Jó 33:21–28). Essa cena é a pintura do apallaxē de Hebreus 2:15: um resgate que interrompe a queda e devolve o condenado à luz. O salmista implora e aprende que o Senhor “livra a alma da morte” (Salmo 33:19); e, em outra hora, confessa: “Tu livraste a minha alma da morte, os meus pés de tropeçar, para que eu ande diante de Deus na luz dos viventes” (Salmo 56:13). É exatamente o movimento do texto: da morte e do medo para a presença e para o culto. A pergunta dura do Salmo 89:48 (“Que homem viverá e não verá a morte? livrará ele a sua alma do poder do Sheol?”) expõe o impasse humano que 2:15 resolve: ninguém, por si, se livra; é o Cristo quem, tendo vencido a morte, livra. Zacarias, tomado pelo Espírito, canta que fomos libertos das mãos dos inimigos “para o servirmos sem temor” — aphobōs (“sem medo”) — “em santidade e justiça” (Lucas 1:74–75); essa frase é a irmã gêmea de Hebreus 2:15: libertação que põe fim ao medo e dá início ao serviço. E Paulo, provado de perto, resume o estilo de Deus: “Ele nos livrou de tão grande morte, e livrará; Nele esperamos que ainda nos livrará” (2 Coríntios 1:10): o apallaxē de Hebreus tem passado, presente e futuro.

Se 2:15 fala em “medo da morte”, Jó já havia desenhado o rosto desse pavor. “Terrores o espantam por todos os lados” (Jó 18:11); “arrancado é da sua tenda… e o levam ao rei dos terrores” (Jó 18:14): é a monarquia do medo sobre quem não tem esperança. “A treva é manhã para eles” (Jó 24:17): a noite se tornou casa; é isso que “dia pantos tou zēn” (“por toda a vida”) em Hebreus nomeia: um viver inteiro debaixo da sombra. O salmista, quando diz “o meu coração estremece… temor e pavor me sobrevêm” (Salmo 55:4), dá voz a esse cativeiro afetivo; e quando olha os ímpios e nota que “de repente são totalmente consumidos por terrores” (Salmo 73:19), mostra como o medo domina e, ao final, consome. O evangelho rasga esse véu quando declara que “o aguilhão da morte é o pecado” e que Deus “nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Coríntios 15:50–57): se o aguilhão foi arrancado, o medo perde dentes; se há vitória, a “escravidão” se desfaz.

Hebreus chama esse estado antigo de “escravidão”. Paulo liga os pontos quando contrasta “**espírito de escravidão outra vez para o medo” — pneuma douleias palin eis phobon (“espírito de servidão de novo para o medo”) — com “espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai” (Romanos 8:15, traduzindo cada termo). O que 2:15 chama de “enochoi… douleias” (“sujeitos à escravidão”) é o que Romanos chama de estar sob o “espírito” errado; e, quando Romanos 8:21 anuncia que a criação será “liberta da servidão da corrupção para a liberdade da glória”, ele amplia o alcance do que Hebreus enxerga nos “filhos”: liberdade que começa no coração e se estende à criação. Galátas 4:21 expõe um caminho falso: “quereis estar debaixo da lei?” — o jugo da lei, quando buscado como sistema de vida, reativa a servidão e, com ela, o medo. Por isso 2 Timóteo 1:7 coloca a vacina: “Deus não nos deu espírito de covardia (deilia, ‘timidez medrosa’), mas de poder, amor e equilíbrio”. Onde o Filho opera Hebreus 2:15, o Pai derrama esse outro “espírito”: o medo perde o trono.

O pano de fundo “recíproco” mostra que essa libertação sempre foi prometida e agora foi executada. No Éden, o primeiro evangelho disse que a “semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente” (Gênesis 3:15): em Hebreus 2:14–15, vemos como esse esmagamento liberta do medo da morte. Sansão, com seu enigma — “do devorador saiu comida” (Juízes 14:14) — e com a sua morte que matou mais inimigos do que toda a sua vida (Juízes 16:30), aponta para o paradoxo da cruz: vida jorrando da morte; libertação saindo do golpe que parecia derrota. Davi canta: “Ele me livrou do meu inimigo forte” (Salmo 18:17); “ao Senhor pertencem as saídas da morte” (Salmo 68:20); “a sua destra e seu braço santo lhe alcançaram vitória” (Salmo 98:1); “empurraram-me… mas o Senhor me sustentou” (Salmo 118:13). Cada verbete (“livrou”, “saídas da morte”, “braço santo”, “sustentou”) é um pedaço do mapa que Hebreus 2:15 desenha: o Deus que abre portas nas paredes do cemitério, que intervém com braço forte, que muda um empurrão em sustentação.

Isaías já havia prometido que Deus “aniquilará a morte para sempre” (Isaías 25:8) e enviado o Servo “para tirar da prisão os cativos” (Isaías 42:7). Quando pergunta: “poder-se-ia tirar a presa do valente?” (Isaías 49:25), responde: “tirarei a presa do valente”: é o anúncio de 2:15; e quando descreve o Servo como “homem de dores” (Isaías 53:3) e “derramando a alma até a morte” (Isaías 53:12), mostra o preço da nossa libertação do medo. “O meu braço me trouxe salvação” (Isaías 63:5): ninguém viria nos soltar; por isso o próprio Deus veio. Jeremias canta a execução: “O Senhor resgatou Jacó e o livrou da mão do mais forte” (Jeremias 31:11). Miqueias chama o Messias de “o que arromba” (Miqueias 2:13): ele quebra o portão da cadeia — exatamente o que 2:15 narra em termos de “apallaxē… douleias”.

Nos evangelhos, a oração “livra-nos do Maligno” (Mateus 6:13) encontra sua resposta histórica na cruz. O endemoninhado geraseno, vestido e “em perfeito juízo” (Lucas 8:35), é um ensaio da libertação integral: mente livre, corpo livre, culto restaurado. O Senhor diz: “tenho autoridade para dar a vida e autoridade para tomá-la de novo” (João 10:18): por isso 2:14 pôde dizer dia tou thanatou (“por meio da morte”), e 2:15 pode dizer apallaxē (“libertar”): a morte, obediente à sua ordem, torna-se instrumento da nossa liberdade. “Tetelestai” (João 19:30, “está consumado”) é o sino que anuncia: o medo perdeu o cativeiro legal. A síntese apostólica também é pastoral: Jesus “curando todos os oprimidos do diabo” (Atos 10:38) e a missão “converter das trevas à luz e do poder de Satanás a Deus” (Atos 26:18) mostram 2:15 aplicado na prática: libertação que vira vidas em pé. Porque Cristo, ressuscitado, “já não morre; a morte não tem domínio sobre Ele” (Romanos 6:9), a pergunta do homem exausto (“miserável, quem me livrará do corpo desta morte?”, Romanos 7:24) tem resposta firme: “graças a Deus por Jesus Cristo”. O Deus da paz “esmagará em breve a Satanás” (Romanos 16:20): onde o príncipe é esmagado, o medo é desalojado. Por isso, quando “a morte for tragada pela vitória” (1 Coríntios 15:54), o último traço do medo desaparecerá. Até nossa identidade muda: “não somos filhos da escrava, mas da livre” (Gálatas 4:31) — exatamente o que “enochoi… douleias” (Hebreus 2:15) nega e o Espírito confirma. E o evangelho põe a pedra de fecho: Cristo “aboliu — katargēsantos (“anulou”) — a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade” (2 Timóteo 1:10), o mesmo verbo de 2:14–15 aplicado agora ao próprio destino da morte. A igreja, então, “venceu por causa do sangue do Cordeiro” (Apocalipse 12:11), e na cidade vindoura “não haverá mais morte” (Apocalipse 21:4): o medo que escravizava não terá sequer sombra para viver.

Volto, por isso, à frase nervosa do nosso versículo: kai apallaxē… phobō thanatou… enochoi ēsan douleias. “Libertar”; “medo da morte”; “sujeitos à escravidão”. Todos os textos que percorremos dizem a mesma história com vozes diferentes: Deus quebra a vara do opressor por dentro da morte do Filho, e, porque o aguilhão foi arrancado, o medo perde o império e a escravidão se torna passado. O resultado é prático e pascal: “servirmos sem medo” (aphobōs) “em santidade e justiça” — exatamente o que Hebreus quer produzir em nós.

Hebreus 2:16 acerta o foco e remove qualquer ambiguidade: “pois, por certo, não toma (para ajudar) anjos, mas toma (pela mão, para socorrer) a descendência de Abraão”. No texto grego transliterado, a frase soa com nitidez: *ou gar dēpou aggelōn epilambanetai, alla *spermatos Abraam epilambanetai (“pois, de modo algum, toma/agarra/socorre anjos; mas da descendência de Abraão ele toma/agarra/socorre”). O advérbio dēpou (“por certo; evidentemente”) dá o tom de certeza; o verbo epilambanetai (“tomar firmemente; segurar; tomar pela mão; socorrer”) descreve o gesto salvífico; e spermatos Abraam (“descendência de Abraão”) define quem é recebido pela mão do Messias. Tudo o que o capítulo vem construindo desemboca aqui: tendo se feito “por um pouco” menor que os anjos, tendo “provado a morte” e “neutralizado” o poder da morte, o Filho declara a quem ele veio ajudar de fato: não às ordens angélicas, mas aos filhos de Abraão — primeiro Cristo, o Descendente prometido, e, nele, todos os que pertencem a ele.

Essa nota de certeza, embutida em dēpou, casa com a maneira como a própria carta fundamenta afirmações decisivas. Quando diz que “os homens juram por quem é maior e o juramento… é fim de toda contenda” (Hebreus 6:16), a lógica é a mesma do “por certo”: Deus dá garantia para fechar discussão. Em Hebreus 12:10, o contraste “na verdade, eles nos corrigiam por pouco tempo… mas Ele, para nosso proveito” aponta de novo para a pedagogia do “de fato”: há um “assim é” na disciplina divina, como há um “assim é” aqui — não anjos, mas a descendência. Romanos 2:25 usa a mesma cadência de precisão: “a circuncisão de fato é proveitosa, se guardares a lei…”, isto é, a graça de Deus tem endereço e forma; ela não é vaga. E 1 Pedro 1:20 sobe ao conselho eterno: Cristo foi proegnōsmenos (“pré-conhecido/planejado de antemão”) antes da fundação do mundo — tradução viva de dēpou: nada aqui é improviso; é o plano firme do Pai cumprido no Filho.

O coração do versículo, porém, está no duplo epilambanetai. O verbo implica um pegar pela mão — não um aceno distante. Hebreus já disse como o Filho se aproximou: “os filhos participam de sangue e carne, ele também, de modo semelhante, participou das mesmas coisas” (2:14). Agora diz para quem se estende essa mão: para a descendência de Abraão. A promessa, portanto, é o trilho por onde correm os acontecimentos. “Na tua descendência serão benditas todas as nações da terra” (Gênesis 22:18): aqui está a semente da frase spermatos Abraam epilambanetai. O evangelho abre o Primeiro Testamento e mostra Jesus como “filho de Abraão” logo na primeira linha da genealogia (Mateus 1:1–17): o Cristo entra na história como a própria semente prometida. Paulo explica que a herança é “segundo a graça” e, por isso, “firme para toda a descendência”, não só a da lei, mas “a que é da fé de Abraão” (Romanos 4:16–25): é esse povo, nascido da promessa, que o Filho “toma pela mão”. E quando Paulo afunila a promessa dizendo: “as promessas foram feitas a Abraão e ao seu Descendente; não diz: ‘e aos descendentes’, como falando de muitos, mas como de um só: ‘e ao teu Descendente’, que é Cristo” — kai tō spermati sou… hos estin Christos (“e à tua descendência… a saber, Cristo”, Gálatas 3:16) —, ele desenha a mecânica do versículo: primeiro o Descendente singular, Cristo; e, nele, os muitos. Daí o fecho: “se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão” — ara tou Abraam sperma este (“logo, descendência de Abraão sois”, Gálatas 3:29). Hebreus 2:16, portanto, não exclui o mundo; ele revela o caminho de Deus: Deus agarra a descendência de Abraão agarrando Cristo, e todos os que estão em Cristo são tomados pela mesma mão.

E por que “não toma anjos”? Todo o argumento de Hebreus 2 já respondeu: “não foi a anjos que sujeitou o mundo vindouro” (2:5); o Salmo 8 chama o Homem — em última análise, o Filho do Homem — ao governo; e, “por um pouco”, esse Homem foi feito “menor que os anjos”. O Salmo 8:5, que está por trás de todo o parágrafo, já preparava esse contraste: a vocação régia foi dada ao homem; anjos, por mais gloriosos, não são os destinatários da redenção. O gesto do Cristo é, portanto, coerente: ou gar dēpou aggelōn epilambanetai (“pois certamente não toma anjos”). E se alguém ainda hesita diante de tamanha condescendência, a cena do túmulo de Lázaro responde com lágrimas: “Jesus chorou” (João 11:35). O que chora no meio da nossa dor é o mesmo que “toma pela mão” a descendência de Abraão: chorando, ele revela que realmente entrou na nossa carne; tomando pela mão, ele revela que realmente nos conduz para fora do vale.

Assim, Hebreus 2:16 junta as pontas do capítulo e da Bíblia: com a nota firme de dēpou (“por certo”), proclama o alvo concreto do auxílio divino; com o verbo epilambanetai (“agarra; socorre; toma pela mão”), mostra que a salvação não é conceito, é toque; e com spermatos Abraam (“descendência de Abraão”), abre a porta pela qual a bênção prometida chega ao mundo. Primeiro Cristo, o Descendente; depois, todos os que são de Cristo — eis a família que o Filho não se envergonha de chamar de irmãos e que ele, agora, pega pela mão para conduzir à glória.

Hebreus 2:17 é a dobradiça que fecha tudo o que vimos (encarnação solidária, derrota da morte, adoção de “muitos filhos”) e abre a porta do sacerdócio de Cristo: “Por isso lhe convinha, em todas as coisas, ser feito semelhante aos irmãos, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel nas coisas referentes a Deus, a fim de fazer propiciação pelos pecados do povo.” 

A exigência de “ser feito semelhante aos irmãos” brota do que o próprio capítulo já afirmou. Em Hebreus 2:11, ouvimos que “o que santifica e os que são santificados todos são de um”; é a base ontológica de kata panta… homoiōthēnai (“em tudo ser feito semelhante”): o Santificador entra na nossa família para, a partir de dentro, consagrar uma família para Deus. Em Hebreus 2:14, o passo fica histórico: “visto que os filhos participaram de sangue e carne, ele igualmente participou” — paraplēsiōs meteschen (“participou de modo semelhante”): é a concretização de homoiōthēnai (“ser feito semelhante”). Paulo descreve essa descida como esvaziamento e obediência: “a si mesmo esvaziou — heauton ekenōsen (“esvaziou-se”) — tomando forma de servo — morphēn doulou — e, achado em figura como homem, humilhou-se — etapeinōsen heauton — tornando-se obediente até a morte” (Filipenses 2:7–8). Em resumo: o “devia” — ōpheilen (“convém/era necessário”) — de Hebreus 2:17 aponta para a obrigação de amor do Filho, que assumiu plenamente a nossa condição para ser, de fato, o nosso Sacerdote.

O propósito dessa semelhança é que Ele seja “misericordioso e fiel sumo sacerdote”. “Fiel” — pistos — ressoa quando a carta nos manda contemplar Jesus “fiel àquele que o constituiu” (Hebreus 3:2): a fidelidade filial dá a medida do pistos archiereus. Em Hebreus 3:5, Moisés é “fiel como servo”, mas o Filho é “sobre a casa”: a fidelidade de Cristo excede a de todos os tipos anteriores — exatamente o que o versículo chama de pistos. Já Hebreus 4:15 confessa a outra metade do título: “não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se” — sympatheō (“padecer-com, ter compaixão”) — “das nossas fraquezas, antes, um que, em tudo, foi tentado — peirasthenta — à nossa semelhança, sem pecado”; e Hebreus 4:16 nos convida a ir com ousadia ao trono da graça para “alcançar misericórdia” — eleos (“misericórdia”): aqui pulsa eleēmōn (“misericordioso”). Hebreus 5:1–2 explica por que o sacerdote tem de ser “dentre os homens”: para “compadecer-se moderadamente” — metriopathein (“tratar com mansidão compassiva”) — dos ignorantes e errados; é a definição funcional de eleēmōn. E Isaías 11:5, ao dizer que a “fidelidade — pistis (“fidelidade”) — será o cinturão dos seus lombos”, descreve a veste moral do Messias que Hebreus chama de pistos archiereus.

Mas para quê Deus deu a Cristo esse sacerdócio? Para “fazer propiciação pelos pecados do povo” — hilaskesthai. Toda a liturgia levítica ensinou Israel a traduzir essa palavra. Levítico 6:30 estabelece que o sacrifício pelo pecado cujo sangue é trazido ao santuário não se come: é todo de Deus — porque a expiação é um ato “nas coisas referentes a Deus” — ta pros ton theon. Em Levítico 8:15, Moisés toma do sangue, põe sobre os chifres do altar e faz expiação — kipper (“fazer propiciação”) — pelo altar: é a consagração do espaço onde hilaskesthai (propiciar) acontece. Em 2 Crônicas 29:24, os sacerdotes “fizeram expiação por todo Israel”: uma antecipação pálida do que o Sumo Sacerdote misericordioso e fiel realizaria “uma vez por todas”. Ezequiel 45:15, 45:17 e 45:20 projetam para o futuro a necessidade de “fazer expiação pela casa de Israel”: a visão do príncipe que provê sacrifícios aponta para o Príncipe-Sacerdote que viria cumprir hilaskesthai de modo definitivo. Daniel 9:24 diz que as setenta semanas visam “fazer expiação da iniquidade” — é a agenda profética sintetizada por Hebreus 2:17. No Novo Testamento, a palavra “reconciliação” finca a mesma estaca: “quando inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte do seu Filho” (Romanos 5:10); “tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo por meio de Cristo” (2 Coríntios 5:18), fazendo-o “pecado por nós” — hamartian epoiēsen hyper hēmōn (“fez pecado por nós”, 2 Coríntios 5:21) —, para que fôssemos feitos justiça de Deus nele: é hilaskesthai explicado em termos de substituição e reconciliação. Efésios 2:16 afirma que Ele “reconciliou ambos em um só corpo com Deus, por meio da cruz”, matando n’Ela a inimizade: o sacerdócio de Cristo atua na cruz. E Colossenses 1:21 descreve o milagre no singular: “agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, pela morte”. A palavra de Hebreus 2:17 — hilaskesthai (“fazer propiciação”) — é o coração sacrificial de todos esses textos.

As “recíprocas” completam a moldura com gestos e tons que definem esse Sacerdote. Gênesis 19:21 traz Deus dizendo a Ló “eis que te concedi também quanto a isto”: uma concessão misericordiosa; o sacerdote que eleēmōn (“é misericordioso”) representa esse coração. Êxodo 23:9 ordena empatia: “não oprimas o estrangeiro; vós conheceis a alma do estrangeiro”; é o princípio pastoral que Hebreus 4:15 traduz em Cristo: Ele sente nossas fraquezas. Êxodo 28:30 manda que o sumo sacerdote traga Urim e Tumim sobre o coração: ele leva, “sobre o coração”, as causas do povo diante de Deus — ta pros ton theon (“as coisas relativas a Deus”): é exatamente o ofício que 2:17 atribui a Cristo. Em Levítico 4:20, 9:15 e 16:15, a fórmula se repete: “o sacerdote fará expiação”; no Dia da Expiação (Levítico 16:15), o sangue é levado “para dentro” — figura do hilaskesthai pleno que Cristo cumpriu com o seu próprio sangue. Números 25:13 fala de “aliança de sacerdócio eterno” por causa do zelo de Fineias: a fidelidade — pistis — requerida do ofício prefigura a perfeição do “fiel sumo sacerdote” (pistos archiereus). Em 1 Samuel 2:35 ressoa a promessa: “**suscitarei um sacerdote fiel” — é Cristo, a quem Hebreus aponta. Isaías 42:3 descreve o Servo: “cana trilhada não quebrará”; o eleēmōn (“misericordioso”) de 2:17 é a mão que não quebra quem já está por um fio.

Nos Evangelhos, essa misericórdia é carne viva. Jesus “compadeceu-se” das multidões (Mateus 14:14; Marcos 6:34), dos cegos (Mateus 20:34; Marcos 10:49), do faminto (Marcos 8:2), da viúva (Lucas 7:13). Ele “estava” com fome (Marcos 11:12), “cansado da viagem” (João 4:6), “tentado” (Marcos 1:13), “no barco, no meio da nossa tempestade” (Marcos 4:38), “moveu-se de íntima compaixão” (Marcos 1:41), “chorou” (João 11:35), “suou sangue e foi fortalecido por um anjo” (Lucas 22:43). Tudo isso é kata panta… homoiōthēnai (“em todas as coisas, semelhante”): Ele viveu em nossa pele para ser eleēmōn (misericordioso) de verdade. E quando João aponta: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1:29), está dizendo que Ele é o sacerdote e o sacrifício: archiereus e hilaskesthai encontram-se na mesma Pessoa.

A trama apostólica fecha o círculo da “fidelidade”. “Deus é fiel” (1 Coríntios 1:9); a fidelidade do Pai sustenta o ofício do Filho, e a fidelidade do Filho modela a da igreja: “homens fiéis” (2 Timóteo 2:2), “ministro fiel” (Colossenses 1:7). E a fidelidade do Filho é sacerdotal: “tendo, pois, um grande sumo sacerdote” (Hebreus 4:14), “Cristo, sumo sacerdote dos bens vindouros” (Hebreus 9:11), “tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus” (Hebreus 10:21), somos chamados a aproximar-nos — exatamente porque Ele é pistos archiereus (“sumo sacerdote fiel”) que eleēmōn (“tem misericórdia”) e hilaskesthai (“faz propiciação”).

Coloque agora esses fios todos outra vez sobre a frase de Hebreus 2:17 e perceba como cada referência acende um ponto preciso. O “devia” — ōpheilen — foi o amor obediente do Filho (Filipenses 2:7–8). O “em tudo semelhante” — kata panta… homoiōthēnai — é a entrada real na nossa carne e história (Hebreus 2:11; 2:14), visível em sua fome, cansaço, lágrimas e tentações (Evangelhos). O “misericordioso e fiel” — eleēmōn… pistos — é a soma da sua compaixão pastoral (Isaías 42:3; Mateus 14:14 etc.) e da sua lealdade perfeita ao Pai (Hebreus 3:2; 3:5; Isaías 11:5). O “sumo sacerdote” — archiereus — é a figura que carrega, “sobre o coração”, as causas do povo “diante de Deus” — ta pros ton theon — (Êxodo 28:30; Hebreus 5:1–2), e que, por isso, pode “fazer propiciação” — hilaskesthai — não com sangue alheio, mas com o seu (Levítico; Ezequiel; Daniel; Romanos 5; 2 Coríntios 5; Efésios 2; Colossenses 1). Nada aqui é metáfora solta: é a vida do Filho alinhada à liturgia de Israel para que, agora, “misericordioso e fiel”, Ele traga nossos nomes no peito e seu sangue nas mãos — e, assim, nos apresente reconciliados diante de Deus.

Hebreus 2:18 dá o golpe final no argumento iniciado no capítulo: “pois, no que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, pode socorrer os que são tentados”. No grego transliterado, a linha soa com o peso de uma porta que se abre: en hō gar peponthen autos peirastheis, dynatai tois peirazomenois boēthēsai (“porque, naquilo em que sofreu, sendo tentado, é capaz de socorrer os que são tentados”). Os quatro verbos importam: peponthen (sofreu), peirastheis (sendo tentado), dynatai (é capaz), boēthēsai (socorrer, acudir). É com eles na mão que cada texto da sua lista acende, um a um, como brasas que alimentam a mesma chama.

O eco mais próximo está em Hebreus 4:15, onde o nosso Sumo Sacerdote é dito capaz de “compadecer-se das nossas fraquezas”, por ter sido “tentado em tudo, à nossa semelhança, sem pecado”. A palavra da compaixão aqui é a mesma que dá corpo ao socorro em 2:18: sympathein (em 4:15, subentendido na forma verbal “compadecer-se”, “sofrer com”), e o campo semântico de peirasmos (provação/tentação) é o mesmo de peirastheis em 2:18 — “sendo tentado”. Logo em seguida, Hebreus 4:16 coloca o desfecho prático da nossa frase: “cheguemos, pois, com ousadia ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna”. Aqui, a palavra para socorro é do mesmo tronco: boētheia (“socorro”); é como se 2:18 dissesse o porquê — Ele dynatai… boēthēsai (“é capaz de socorrer”) — e 4:16 mandasse fazer uso imediato desse socorro.

Ainda na mesma carta, Hebreus 5:2 explica o modo desse socorro: o sacerdote, “dentre os homens”, é chamado para “tratar com mansidão os ignorantes e errados”, porque “está rodeado de fraqueza”. O verbo técnico aqui é precioso: metriopathein (“sentir de forma medida, mansa”), a compaixão que não cede ao erro, mas não quebra quem já está por um fio. É o tom de 2:18 em ação. E Hebreus 5:7–9 recorda “os dias de sua carne”, com “forte clamor e lágrimas”; ali, o Filho “aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” e, “tendo sido aperfeiçoado”, tornou-se “autor de eterna salvação”. O peponthen (“sofreu”) de 2:18 encontra seu cenário; e o “aperfeiçoado” (teleiōtheis, “qualificado/consagrado”) explica por que o socorro dele não é teórico: foi forjado em obediência sofrida.

Quando voltamos ao início do ministério, Mateus 4:1–10 mostra a tentação no deserto. Ali, o Verbo encarnado suporta a pressão em três frentes e responde com a Escritura, vencendo onde Adão caiu. É a biografia concreta de peirastheis (“sendo tentado”) em 2:18. E, no Getsêmani, Mateus 26:37–39 o descreve “angustiado e aflito”, prostrado, pedindo que, “se possível”, o cálice passasse — mas rendendo-se à vontade do Pai. A sua tentação derradeira — fugir da cruz — é vencida com oração e submissão, para que o nosso “socorro” não seja palavra, mas fonte. Lucas 22:53 sela o momento com a frase sombria: “esta é a vossa hora e o poder das trevas” — hē hōra hymōn kai hē exousia tou skotous (“a vossa hora e a autoridade das trevas”): Ele entrou até o fundo da noite que nos assombra; por isso dynatai… boēthēsai (“pode socorrer”) quando a nossa hora escurece.

Se 2:18 proclama “Ele pode”, Hebreus 7:25 amplia a mesma capacidade ao tamanho da eternidade: Ele “pode salvar perfeitamente” — dynatai sōzein eis to panteles (“pode salvar até o fim”) — os que por Ele se chegam a Deus, “vivendo sempre para interceder”. É a mesma raiz verbal de 2:18 (dynatai, “é capaz”). Hebreus 7:26 lembra que esse Sumo Sacerdote é “santo, inculpável, imaculado”: a sua pureza não diminui o socorro; garante que seu socorro não é cúmplice do pecado, mas libertador. Em João 10:29, o Cristo fala da mão do Pai: “ninguém pode arrebatar” — oudeis dynatai harpazein (“ninguém é capaz de arrancar”) — as ovelhas da mão dele. A mesma dynamis (“capacidade/poder”) que nos guarda da perda nos guarda também no meio da tentação. Filipenses 3:21 fala do poder que transforma “o nosso corpo de humilhação” “conforme a energia” — kata tēn energeian (“segundo a energia”) — “pela qual pode sujeitar” — dynasthai… hypotaxai (“é capaz de subjugar”) — “todas as coisas a si”. O Cristo que pode transfigurar o corpo pode sustentar a alma no fogo da provação. 2 Timóteo 1:12 confessa: “sei em quem tenho crido e estou certo de que Ele é poderoso para guardar” — dynatos estin phylaxai (“é capaz de guardar”) — o meu depósito: o mesmo braço que guarda o depósito guarda o discípulo quando a tentação morde. E Judas 1:24 o chama de “Aquele que é poderoso para vos guardar de cair” — tō dynamenō phylaxai hymas aptaistous (“o que é capaz de guardar vocês sem tropeço”): é Hebreus 2:18 posto como doxologia — Ele pode mesmo.

Se perguntarmos “e nós?”, o Novo Testamento nos dá a experiência dos socorridos. Em 1 Coríntios 10:13, Paulo equaliza o campo: “não vos sobreveio tentação que não fosse humana; fiel é Deus, que não permitirá que sejais tentados além do que podeis, antes, com a tentação, proverá o escape” — tēn ekbasin (“a saída”) — “para que a possais suportar”. O boēthēsai (“socorrer”) de 2:18 tem, muitas vezes, forma de ekbasis (“saída”): Ele abre uma porta onde o corredor parecia cego. Em 2 Coríntios 12:7–10, Paulo pede alívio do “espinho”, e ouve: “a minha graça basta” — hē charis mou arkei (“a minha graça é suficiente”); “o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. O socorro, às vezes, não é retirar o espinho, mas derramar graça até que a fraqueza vire trono do poder de Cristo. 2 Pedro 2:9 resume o princípio em teologia simples: “o Senhor sabe livrar os piedosos da provação” — oiden kyrios eusebeis ek peirasmou rhysthai (“o Senhor sabe da provação arrancar os piedosos”). É a inteligência salvadora por trás do nosso versículo. E Apocalipse 3:10 promete: “porque guardaste a palavra da minha perseverança, eu te guardarei da hora da provação” — egō se tērēsō ek tēs hōras tou peirasmou (“eu te guardarei da hora do peirasmós”). Às vezes Ele dá ekbasis (“saída”); às vezes Ele dá tērēsis (“guarda”) dentro da hora. Em ambos os casos, é Hebreus 2:18 que se cumpre: Ele pode socorrer.

Os fios “recíprocos” mostram que esse socorro era prometido desde o início e praticado por todo o caminho. Gênesis 3:15, com a “semente da mulher” esmagando a cabeça da serpente, já dizia que o tentador seria ferido no próprio jogo que montou; é por isso que o socorro de 2:18 não é mero consolo — é vitória aplicada. Êxodo 23:9 manda Israel não oprimir o estrangeiro “pois vós conheceis a alma do estrangeiro”: o Deus que educou seu povo à empatia é o Deus que, em Cristo, “conhece por dentro” a nossa provação — e por isso socorre sem brutalidade. Isaías 42:3 descreve o Servo que “cana trilhada não quebrará” e “pavio que fumega não apagará”: é a delicadeza do boēthēsai de 2:18; Ele acode sem esmagar quem já está por um fio. Isaías 63:9 sobe ainda mais: “em toda a aflição deles, Ele foi aflito; e o anjo da sua presença os salvou; pelo seu amor e pela sua compaixão os remiu, e os carregou…”; é o anel veterotestamentário da frase “no que Ele mesmo sofreu (peponthen), sendo tentado (peirastheis), pode socorrer (boēthēsai)”: o Deus que sofre com, salva, redime e carrega — agora em carne e osso, no Filho. Jeremias 45:2–5 (a palavra a Baruque) parece pequeno, mas é medicinal: no meio do esgotamento e do medo, Deus promete preservação: “a tua vida te darei por despojo”. O socorro de 2:18, muitas vezes, tem a cara dessa promessa humilde: Ele guarda a vida quando tudo diz que não. Marcos 1:13 e Lucas 4:2 repetem a nota do deserto: “tentado” no meio das feras, “servido por anjos” — o Cristo entra na arena do peirasmós para sair de lá com o remédio. Lucas 22:28 honra os discípulos pelo que fizeram de melhor: “permanecestes comigo nas minhas tentações” — emeinate met’ emou en tois peirasmois (“ficastes comigo nas provações”): quem partilha as tentações do Mestre aprenderá o socorro do Mestre. João 14:18 traz a promessa em tom de casa: “não vos deixarei órfãos” — ouk aphēsō hymas orphanous (“não vos deixarei órfãos”): é o coração do boēthēsai (“socorrer”) dito como colo, não só como doutrina. E Hebreus 2:14, dois passos atrás, já explicara a base jurídica do socorro: ao neutralizar — katargēsai (“anular”) — o que tinha o poder da morte, Ele arrancou do tentador a arma que fazia do medo um cativeiro; daí o 2:18 não ser placebo, mas ação com sangue e sentença.

Juntando as vozes, ouvimos a mesma canção em todas as tonalidades: o Cristo sofreu (peponthen), foi tentado (peirastheis), e, exatamente por isso, é capaz (dynatai) de socorrer (boēthēsai). Hebreus 4:15–16 mostra a compaixão e manda ir ao trono; Hebreus 5:2 e 5:7–9 descrevem a mansidão e a obediência que forjaram esse auxílio; Mateus e Lucas narram as tentações em carne viva; Hebreus 7:25–26, João 10:29, Filipenses 3:21, 2 Timóteo 1:12 e Judas 1:24 repetem, de modos distintos, que Ele pode e guarda; 1 Coríntios 10:13, 2 Coríntios 12:7–10, 2 Pedro 2:9 e Apocalipse 3:10 mostram como o socorro chega — saída, graça suficiente, livramento, guarda; e todo o pano de fundo — da promessa de esmagar a serpente à delicadeza com a cana trilhada, da solidariedade de Deus nas nossas aflições à certeza de não ficarmos órfãos — diz que o socorro não é metáfora: é o próprio Cristo, experimentado em nossas dores, presente em nossas provações, poderoso para nos sustentar até o fim.

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