1 Coríntios 1: Significado, Explicação e Devocional

1 Coríntios 1

1 Coríntios 1 abre a carta com uma tensão deliberada entre graça e correção: Paulo se apresenta como klētos apostolos [“apóstolo chamado”] de Jesus Cristo, associa Sóstenes como “irmão”, e dirige-se “à igreja de Deus que está em Corinto”, qualificada como “santificados em Cristo Jesus, chamados santos” — isto é, uma comunidade cuja identidade nasce da iniciativa divina (klēsis, “chamado”) e se exprime publicamente na pertença à ekklēsia [“assembleia/igreja”]. O endereço já universaliza o horizonte: aos que “em todo lugar invocam o nome do Senhor”, sugerindo que os temas tratados em Corinto têm alcance católico. A bênção “graça e paz” (charis kai eirēnē) localiza toda a conversa na esfera da dádiva e da inteireza que Deus comunica, antes mesmo que as fraturas internas venham à tona.

A ação de graças (1:4–9) funciona como prólogo teológico ao restante da carta. Paulo reconhece que os coríntios foram enriquecidos “em toda palavra e todo conhecimento” (en panti logō kai pasē gnōsei) e que “não lhes falta dom” (mē enideisthai en mēdeni charismati), enquanto aguardam “a revelação” de Cristo. Ao prometer que Deus os “confirmará até o fim”, o apóstolo estabelece o fundamento pactual sobre o qual edificará admoestações severas: a fidelidade de Deus, e não o mérito humano, sustenta a igreja. Essa moldura evita dois extremos — nem lisonja cega, nem açoite impessoal — e prepara a virada pastoral: o mesmo Deus que concedeu dons e conhecimento é aquele que chama à comunhão (koinōnia) do Filho e, por isso mesmo, exige coesão, humildade e cruz no centro.

Daí o primeiro choque com a realidade coríntia: slogans partidários e facções (“eu sou de Paulo… de Apolo… de Cefas… de Cristo”) revelam um coração capturado por prestígio, eloquência e patronagem. Paulo desarma a lógica do clube religioso reancorando a missão no evangelho da cruz: “Cristo não me enviou para batizar, mas para evangelizar, não em sophia logou [“sabedoria de discurso”], para que não se esvazie a cruz de Cristo”. O programa teológico do capítulo (1:18–25) contrasta a sophia [“sabedoria”] deste século com o logos tou staurou [“palavra da cruz”], que aos olhos do mundo é mōria [“loucura”], mas para os chamados é dynamis theou [“poder de Deus”]. É aqui que 1 Coríntios encontra sua nervura: Deus escolhe o que é fraco para envergonhar o forte, desmantelando padrões de glória para que “ninguém se glorie diante dele”.

O fecho do capítulo (1:26–31) colhe essa tese em chave de vocação e identidade. “Não são muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres”: a composição sociológica da igreja é argumento teológico — a eleição do “pouco” manifesta o muito de Deus. O ápice vem na síntese cristológica do versículo 30: “É por ele que estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós sophia [“sabedoria”] da parte de Deus, dikaiosynē [“justiça”], hagiasmos [“santificação”] e apolytrōsis [“redenção”]”. Tudo converge para a reorientação do orgulho: “quem se gloria, glorie-se no Senhor” (ho kauchōmenos en Kyriō kauchasthō), citação de Jeremias 9:24 que sela a lógica do capítulo. Em termos literários, portanto, 1 Coríntios 1 articula saudação e ação de graças como base do pacto, denuncia as fissuras comunitárias, e apresenta a “loucura” poderosa da cruz como chave hermenêutica que julga retórica, status e performances espirituais; em termos teológicos, desloca a glória humana para a iniciativa divina “em Cristo”, convertendo a comunidade de consumidores de eloquência em povo convocado à koinōnia do Crucificado.

I. Estrutura e Estilo Literário

Em 1 Coríntios 1, a arquitetura literária combina a forma epistolar clássica com uma estratégia retórica que prepara, desde a primeira linha, a inversão teológica que dominará toda a carta. O capítulo se organiza em cinco painéis interligados: saudação (1:1–3), ação de graças programática (1:4–9), apelo contra facções (1:10–17), tese sobre a “loucura” poderosa da cruz (1:18–25) e releitura vocacional da comunidade (1:26–31). A saudação instaura o campo semântico de “chamado” (klēsis, “chamado”) e “santidade” (hagiasmos, “santificação”), ligando identidade e origem divina: Paulo se apresenta como klētos apostolos (“apóstolo chamado”) e a igreja como “chamados santos”, marcando uma inclusio com o fecho do capítulo, onde “gloriar-se no Senhor” substitui toda vanglória humana. A ação de graças, por sua vez, cumpre a função de captatio benevolentiae sem se tornar lisonja: ao agradecer pelos dons de “palavra” e “conhecimento”, Paulo valoriza aquilo que mais adiante será reordenado pela cruz, criando tensão deliberada entre carismas e caráter.

O estilo é epistolar-parenético com forte uso de contraste e antítese. O eixo retórico “não… mas…” aparece em 1:17 (“não… para batizar, mas… para evangelizar, não em sabedoria de discurso”), recurso que prepara a grande oposição entre sophia (“sabedoria”) e logos tou staurou (“palavra da cruz”) em 1:18–25. A sequência central avança em ritmo de diatribe, com interjeições e perguntas que desarmam o interlocutor: “Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o inquiridor deste século?”; a tríade aumenta a cadência e expõe a insuficiência dos padrões de prestígio. As citações bíblicas funcionam como pivôs argumentativos: Isaías 29:14 é convocado para anunciar a demolição da sabedoria autossuficiente, e Jeremias 9:24 fecha o capítulo para reorientar a “glória” no único lugar legítimo. Entre uma citação e outra, Paulo alterna antíteses compactas — “judeus pedem sinais, gregos buscam sabedoria… nós pregamos Cristo crucificado” — e pares lexicais de choque (mōria, “loucura”; skandalon, “escândalo”; dynamis theou, “poder de Deus”), convertendo o contraste em tese teológica.

Há um fio de coesão que percorre todo o capítulo: o vocabulário do chamado. Ele aparece na autoapresentação apostólica (1:1), no status da igreja (1:2), na fidelidade de Deus que chama à comunhão do Filho (1:9), na descrição dos destinatários do evangelho (1:24, “os chamados, tanto judeus como gregos”) e na sociologia reversa do povo de Deus (1:26, “vede a vossa vocação”). Esse campo semântico cria um “anel” temático: o Deus que chama é o mesmo que frustra a vanglória e redefine sabedoria; quem é chamado “em Cristo” aprende a medir tudo pela cruz. Outro fio de costura é o par “glória/gloriar-se” (doxa/kauchēsis): a retórica do mundo busca “glória” por eloquência e status; a retórica apostólica transfere a “glória” para Deus e prescreve “gloriar-se no Senhor”. Em termos de textura, Paulo alterna o plural exortativo (“rogo-vos… que digais todos a mesma coisa”) com o singular teológico (“Cristo não me enviou…”), aproximando ethos (o exemplo do mensageiro) e pathos (o apelo à comunidade).

A macrocomposição também explora paralelismos espelhados. O agradecimento por “toda palavra e todo conhecimento” no prólogo (1:5) encontra seu contrapeso quando “sabedoria” e “discurso” são relativizados pela cruz (1:17–20); a promessa de que Deus “confirmará até o fim” (1:8) reaparece, implicitamente, quando Paulo mostra como Deus “escolheu” o que é fraco e desprezado (1:27–28) para que a perseverança da igreja repouse na iniciativa divina e não na excelência retórica. O capítulo, assim, move-se do reconhecimento dos dons à sua purificação pela teologia da cruz, e daí a uma eclesiologia de reversão social: o que parecia capital simbólico (eloquência, nobreza, força) é deslocado, e o que parecia déficit (fraqueza, nada, desprezo) se torna palco do poder de Deus.

No plano estilístico, a densidade é aumentada por pares e tríades semânticas, por parataxe vigorosa e por ecos controlados. O uso de kenoō em 1:17 — hina mē kenōthē ho stauros tou Christou (“para que não se esvazie a cruz de Cristo”) — estabelece o perigo hermenêutico central: a forma de comunicar pode “esvaziar” o conteúdo se não estiver subordinada ao evento da cruz. Em seguida, a cadência anafórica de 1:26–29 (“não muitos sábios… não muitos poderosos… não muitos nobres… mas Deus escolheu… mas Deus escolheu…”) cria um efeito martelado que inculca a inversão do critério. Por fim, a conclusão cristológica de 1:30 condensa o programa em uma fórmula de quatro termos — sophia, dikaiosynē (“justiça”), hagiasmos (“santificação”) e apolytrōsis (“redenção”) — cuja justaposição funciona como doxologia e como chave hermenêutica: Cristo é, simultaneamente, a medida do conhecer, o ato jurídico de pôr em ordem, a transformação moral e a libertação definitiva; logo, nenhuma retórica pode reivindicar o centro.

Tudo isso faz de 1 Coríntios 1 um capítulo de abertura que é, ao mesmo tempo, manifesto literário: a forma epistolar acolhe, mas a retórica cruciforme subverte; a ação de graças aproxima, mas o apelo divide entre cruz e prestígio; a citação profética demole as pretensões da “sabedoria” e reconstrói o discurso no registro da graça. Estrutura e estilo convergem para um único efeito pastoral: deslocar a glória do eu para o “Senhor”, para que a koinōnia (“comunhão”) do Filho (1:9) se torne o princípio regulador de linguagem, poder e identidade comunitária.

II. Hebraísmos e o Texto Grego

Em 1 Coríntios 1, a fraseologia grega de Paulo é moldada por um pensamento semita que se deixa entrever tanto nas fórmulas quanto nas escolhas lexicais, as quais remetem a estruturas e glosas do Antigo Testamento. Logo na abertura, “igreja de Deus” (ekklēsia tou theou) verte a assembleia do Senhor, קָהָל (qāhāl, “assembleia”), expressão de pertença pactual que percorre a Torá e os Profetas (Deuteronômio 23:1–3; 1 Crônicas 28:8). Do mesmo modo, “santificados em Cristo Jesus, chamados santos” (hēgiasmenoi… klētoi hagioi) rearticula o campo da santidade veterotestamentária, קֹדֶשׁ/קָדוֹשׁ (qōdeš/qādōš, “santidade/santo”), agora definido pela união com Cristo; a lógica é a mesma de Levítico, onde o povo é separado porque o Senhor o separou (Levítico 20:7–8). A saudação “graça e paz” (charis kai eirēnē) condensa dois eixos bíblicos — ḥen e shalōm — que se cruzam na bênção sacerdotal: “o Senhor… te conceda paz” (Números 6:24–26). E quando Paulo universaliza o endereço “a todos os que, em todo lugar, invocam o nome do nosso Senhor” (epikaleisthai to onoma), ele pisa um sulco veterotestamentário nítido: “invocar o nome do Senhor” é marca de culto e lealdade desde Gênesis 4:26 e Gênesis 12:8 (cf. Joel 2:32).

A ação de graças (1:4–9) também respira Hebraísmo na forma e no conteúdo. Dizer que foram “enriquecidos em toda palavra e todo conhecimento” (en panti logō kai pasē gnōsei) e que “não lhes falta dom” enquanto aguardam a revelação de Cristo, ecoa a convicção sapiencial de que a “sabedoria e o conhecimento vêm do Senhor” (Provérbios 2:6) e a experiência litúrgica do “nada me faltará” (Salmos 23:1). A promessa de que Deus os “confirmará até o fim” (bebaiōsei heōs telous) remete à semântica de estabelecer e firmar típica da aliança: o Deus que “confirma” (hēqîm/ʿāmad na sua matriz hebraica) é o que mantém o que prometeu (2 Samuel 7:12–16; Isaías 22:23), e por isso é dito “o Deus fiel” (pistos ho theos), reflexão direta de Deuteronômio 7:9 (“o Deus fiel”, aquele que guarda a aliança).

Quando o apóstolo passa ao apelo contra as divisões (1:10–17), a sintaxe helenística carrega um nervo semita, perceptível tanto no pedido de unanimidade — “que digais todos a mesma coisa” — quanto no alvo teológico: “Cristo… não em sabedoria de discurso” (ou en sophia logou), “para que não se esvazie a cruz” (hina mē kenōthē ho stauros). Essa antítese “não… mas…” é um recurso frequente na diatribe paulina, mas a lógica de fundo é profética: a Palavra de Deus julga a técnica da palavra humana. Não é por acaso que, ao inserir a tese da cruz, Paulo convoca Isaías 29:14 (“destruirei a sabedoria dos sábios”), texto que no profeta já desmontava a autoconfiança intelectual de Jerusalém (Isaías 29:13–16). A “loucura” (mōria) e o “escândalo” (skandalon) do Messias crucificado repercutem, além disso, os tropeços de que falavam Isaías 8:14 (“pedra de tropeço”) e Isaías 28:16 (“eis que ponho em Sião uma pedra”), pois a eleição divina contraria expectativas religiosas e políticas.

O tríptico “judeus pedem sinais, gregos buscam sabedoria… nós, porém, pregamos Cristo crucificado” (1:22–23) tem sotaque bíblico. O anseio por sinais está no enredo de Israel (Êxodo 4:1–9; Juízes 6:36–40), mas os profetas já advertiam contra um coração que exige prova e se recusa a confiar (Isaías 7:10–13). De outro lado, a busca por sabedoria sem temor do Senhor é desautorizada pela própria tradição sapiencial: “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9:10). Quando Paulo afirma que a “palavra da cruz” (logos tou staurou) é “poder de Deus” (dynamis theou) para os que são salvos (1:18), ele pensa no mesmo registro que canta a “força” e o “braço estendido” com que o Senhor redime (Êxodo 6:6; Salmos 89:13; Isaías 40:10–11). A oposição, portanto, não é entre fé e razão, mas entre a autossuficiência humana e a revelação de Deus que age soberanamente por meios que humilham o orgulho.

O campo semântico de “chamar/ser chamado” organiza o capítulo de ponta a ponta e é marcadamente veterotestamentário. Paulo é “apóstolo chamado” (klētos apostolos), os destinatários são “chamados santos” (klētoi hagioi), Deus “chama à comunhão de seu Filho” (1:9), e a salvação alcança “os chamados” tanto dentre judeus quanto gregos (1:24). A moldura é a de קָרָא (qārāʾ, “chamar/convocar”), que cria um povo e o convoca pelo nome (Isaías 43:1; Isaías 49:1). O efeito é eclesiológico e doxológico: quem chama é Deus; quem responde, responde porque foi chamado. Nesse horizonte, também o verbo “invocar” — “os que invocam o nome do Senhor” — recolhe a promessa de Joel 2:32 e a prática do Saltério (Salmos 116:4, 13, 17), em que a vida do justo é marcada por clamor, voto e gratidão dirigidos ao Nome.

A crítica às hierarquias de prestígio em Corinto se apoia em uma sociologia de eleição já anunciada na aliança. O “vede a vossa vocação” (1:26) seguido de “não muitos sábios… poderosos… nobres” desemboca em três verbos densos: “Deus escolheu” (exelexato), “para envergonhar” (kataischunai) e “para reduzir a nada” (katargēsai). Neles ressoam a eleição de um povo “não por ser mais numeroso” (Deuteronômio 7:7–8), a vergonha de quem confia em poder e riqueza (Salmos 33:16–17; Jeremias 9:23) e a anulação dos fortes e dos ídolos, que “são nada” (Isaías 41:24; Isaías 44:9–20). A fórmula “as coisas que não são” contra “as que são” evoca a linguagem profética que chama de “nada” (כְּאַיִן, kĕʾayin, “como nada”) aquilo que o mundo estima (Isaías 41:12), e prepara o silêncio toda vez que a kāvōd (glória/peso) de Deus se impõe (Habacuque 2:14).

O par “glória/gloriar-se” é endireitado por uma citação programática. “Para que ninguém se glorie diante dele” (1:29) e “quem se gloria, glorie-se no Senhor” (1:31) retomam Jeremias 9:23–24, onde a proibição de gloriar-se em sabedoria, força e riqueza é substituída por gloriar-se “em me conhecer e saber que eu sou o Senhor”. A retórica do capítulo inteiro foi construída para conduzir o orgulho humano a esse ponto de conversão: de kauchēsis (jactância) antropocêntrica a kauchasthai en Kyriō (gloriar-se no Senhor), o mesmo movimento que o Saltério encena quando manda “gloriar-se no seu santo nome” (Salmos 105:3).

O clímax cristológico do versículo 30 — “é por ele que estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós sabedoria de Deus, justiça, santificação e redenção” — compacta, em grego, quatro fios grossos da Escritura. A “sabedoria” (sophia, sophia) é dádiva do Senhor (Provérbios 2:6) e, personificada, é mediação de vida (Provérbios 8). A “justiça” (dikaiosynē, dikaiosynē) retoma צֶדֶק/צְדָקָה (ṣedeq/ṣĕdāqāh, “justiça”), e encontra um paralelo ousado em Jeremias 23:6, onde o Nome messiânico é “O Senhor, Justiça Nossa”. A “santificação” (hagiasmos, hagiasmos) prolonga a fórmula levítica “eu sou o Senhor que vos santifica” (Levítico 20:8). E a “redenção” (apolytrōsis, apolytrōsis) verte a gramática do resgate, גְּאֻלָּה/פָּדָה (gĕʾullāh/pādāh, “redenção/resgatar”), eixo do Êxodo e da esperança profética (Êxodo 6:6; Salmos 130:7–8; Isaías 52:3). Ao reunir esses termos sob “em Cristo”, Paulo constrói uma cristologia que cumpre a aliança: o que o Antigo Testamento prometia como ato de Deus, o Evangelho anuncia como pessoa e obra do Messias crucificado.

Mesmo nos recursos de estilo, o cortes hebraico é audível. A anáfora e a parataxe martelada de 1:27–28 (“mas Deus escolheu… mas Deus escolheu… e as coisas que não são…”) lembram o paralelismo intensificador dos Salmos e dos oráculos proféticos (Salmos 29; Isaías 5:1–7). A tríade interrogativa “Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o inquiridor deste século?” (1:20) ecoa o modo como os profetas convocam e desautorizam os rivais de YHWH (Isaías 41:21–24; Isaías 44:7–8). E a preocupação de 1:17 — que a forma do discurso não “esvazie” a cruz — é, no fundo, a mesma do culto antigo: não trazer “fogo estranho” ao altar (Levítico 10:1–3), isto é, não permitir que o meio corrompa o coração do ato sagrado. A carta começa, portanto, como tradução fiel da teologia da aliança para o koiné: chamado que cria povo, santidade como pertença, graça e paz como bênção pactuada, sabedoria que nasce do temor, glória devolvida a Deus — e tudo isso concentrado “em Cristo”, onde a palavra da cruz se torna o critério que julga a eloquência e salva os humildes.

III. Esboço de 1 Coríntios 1

A. Saudação e identidade pactual (1:1–3)
Autor e comissão: Paulo, klētos apostolos (“apóstolo chamado”) pela vontade de Deus; Sósthenes como irmão (1:1).
Destinatários: “igreja de Deus” em Corinto; “santificados em Cristo Jesus, chamados santos”; horizonte católico: “a todos os que em todo lugar invocam o nome do nosso Senhor” (1:2).
Bênção pactuada: “graça e paz” (charis kai eirēnē) da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo (1:3).

B. Ação de graças programática (1:4–9)
Graça em Cristo: enriquecidos “em toda palavra e todo conhecimento” (1:4–5).
Dons e esperança: “nenhum dom” lhes falta enquanto aguardam a revelação de Cristo (1:6–7).
Firmeza e fidelidade: Deus os “confirmará até o fim” porque é “fiel” e os “chamou à comunhão” do Filho (1:8–9).

C. Apelo à unidade e denúncia das facções (1:10–17)
Exortação: “digais todos a mesma coisa”, sem schismata; “unidos no mesmo pensar e no mesmo parecer” (1:10).
Relato das divisões (casa de Cloé): slogans “de Paulo… de Apolo… de Cefas… de Cristo”; perguntas retóricas: “Cristo está dividido?” (1:11–13).
Batismo e missão: batismos recordados para desinflar partidarismo (1:14–16).
Comissão cruciforme: “não… para batizar, mas… para evangelizar; não em sophia logou (‘sabedoria de discurso’), para que não se esvazie a cruz” (1:17).

D. Tese central: a palavra da cruz versus a sabedoria do mundo (1:18–25)
Dois horizontes: “loucura” para os que perecem; “poder de Deus” para os que são salvos (1:18).
Juízo sobre a “sabedoria”: citação de Isaías 29:14; desafio tríplice — “onde está o sábio, o escriba, o inquiridor deste século?” (1:19–20).
Expectativas antagônicas: “judeus pedem sinais, gregos buscam sabedoria; nós pregamos Cristo crucificado” — skandalon e mōria, mas “poder e sabedoria de Deus” para os “chamados” (1:21–24).
Paradoxo teológico: “a loucura de Deus é mais sábia… a fraqueza de Deus é mais forte…” (1:25).

E. Vocação, reversão de status e glória no Senhor (1:26–31)
Considerai a vocação: “não muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres” (1:26).
Escolha divina em contramão: Deus escolheu “as coisas loucas… fracas… ignóbeis e desprezadas… as que não são” para envergonhar e “reduzir a nada” as que são (1:27–28).
Finalidade do desmonte: “para que ninguém se glorie diante dele” (1:29).

Síntese cristológica: “por ele estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós sophia de Deus, dikaiosynē (‘justiça’), hagiasmos (‘santificação’) e apolytrōsis (‘redenção’)”; citação de Jeremias 9:24: “quem se gloria, glorie-se no Senhor” (1:30–31).

IV. Versículo-Chave

1 Coríntios 1:30

É por ele que estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós sabedoria da parte de Deus, justiça, santificação e redenção.

Este versículo é o coração teológico do capítulo porque reúne, em uma única cadência, a origem, a esfera e os efeitos da salvação. A cláusula inicial, ex autou… en Christō Iēsou, estabelece a dupla âncora: a causa é Deus (“dele sois vós”) e a esfera é a união com Cristo (“em Cristo Jesus”). Não há mérito humano nem autonomia retórica em jogo; o ser da igreja está derivado da iniciativa divina e localizado existencialmente na comunhão com o Messias, amarrando o prólogo (“fiel é Deus… que vos chamou à comunhão de seu Filho”, 1:9) ao desmonte das vanglorias (1:26–29). O verbo egenēthē (“se tornou/foi feito”) é aoristo que afirma um ato decisivo e objetivo: Cristo é-nos dado por Deus como conteúdo e meio de toda a obra salvífica, e “da parte de Deus” (apo theou) explicita a procedência única dessa dádiva.

A sequência nominal funciona como um leque que se abre sob o termo-guarda-chuva “sabedoria”. Ao dizer que Cristo “se tornou para nós sophia”, Paulo responde à querela coríntia sobre sophia logou: a verdadeira sophia não é uma técnica de dizer, mas uma pessoa cuja cruz é critério de verdade (1:18–25). Em seguida, a tríade “dikaiosynēhagiasmosapolytrōsis” expande, em três eixos, o que essa sabedoria realiza: forense (justiça que nos coloca em retidão diante de Deus), transformacional (santificação que nos separa e conforma ao Santo) e libertador-êxodico (redenção que resgata e liberta). O uso de te kai entre dikaiosynē e hagiasmos (seguido do kai final) sugere encadeamento coordenado que evita hierarquias artificiais: não são etapas estanques, mas aspectos simultâneos do mesmo dom em Cristo. A justaposição evita reducionismos — nem um moralismo que veja só “santificação”, nem um legalismo que veja só “justiça”, nem um pragmatismo que veja apenas “redenção” como solução de circunstâncias — e, ao mesmo tempo, corrige o esteticismo eloquente coríntio: o evangelho não é ornamentação intelectual, mas intervenção real de Deus que declara, transforma e liberta.

Literariamente, 1:30 recolhe e resolve a tensão semântica do capítulo. Onde “sabedoria” do século pretendia o centro, Paulo desloca o foco para a sophia “da parte de Deus”; onde “força” e “sinal” eram critérios, Cristo crucificado aparece como dynamis theou e sophia theou (1:24), agora especificadas em “justiça, santificação e redenção”. Teologicamente, a frase liga-se à finalidade do versículo seguinte (1:31): ao fazer de Cristo o todo da nossa salvação, Deus impede que qualquer carne se glorie “diante dele” (1:29) e redireciona toda jactância para o único lugar legítimo: “quem se gloria, glorie-se no Senhor”. Assim, 1:30 é o ápice lógico do capítulo: a comunidade que fora seduzida por nomes, estilos e prestígios aprende que a sua vida “em Cristo” é inteiramente “de Deus” e que, nesse Cristo, já possui a sabedoria que julga os discursos, a justiça que absolve, a santificação que consagra e a redenção que liberta — de modo que toda glória retorna, inevitavelmente, ao Senhor.

V. Intertextualidade com o Antigo e o Novo Testamento

Em 1 Coríntios 1, cada avanço argumentativo de Paulo convoca fios antigos da Escritura e os relê “em Cristo”. Já no cabeçalho, “igreja de Deus” (ekklēsia tou theou, “assembleia/igreja de Deus”) traduz para o koiné a assembleia pactual do Antigo Testamento (קָהָל, “qāhāl”), que designa o povo convocado pelo Senhor (Deuteronômio 23:1–3; 1 Crônicas 28:8). A qualificação “santificados em Cristo Jesus, chamados santos” (hēgiasmenoi… klētoi hagioi) recolhe a gramática levítica da separação para Deus (Levítico 20:7–8), e a saudação “graça e paz” (charis kai eirēnē) condensa o favor imerecido e a inteireza pactuada da bênção aarônica: “o Senhor… te conceda paz” (Números 6:24–26). O horizonte católico do endereço — “a todos os que, em todo lugar, invocam o nome do nosso Senhor” — pisa trilha antiga: “invocar o nome do Senhor” (epikaleisthai to onoma) é marca de culto e lealdade desde Gênesis 4:26 e Gênesis 12:8 e reaparece como promessa missionária em Joel 2:32, que o Novo Testamento aplica à fé em Jesus (Atos 2:21; Romanos 10:12–13).

A ação de graças (1:4–9) afina-se com a sabedoria bíblica e com a teologia da fidelidade. Dizer que os coríntios foram “enriquecidos em toda palavra e todo conhecimento” (en panti logō kai pasē gnōsei) é ler seus dons à luz de Provérbios 2:6 (“o Senhor dá sabedoria; da sua boca procedem o conhecimento e o entendimento”) e de Daniel 1:17 (o Deus que concede ciência e entendimento). A promessa de que Deus os “confirmará até o fim” (bebaiōsei heōs telous) retoma a ação do Deus que firma e estabelece o que prometeu (2 Samuel 7:12–16; Isaías 22:23) e desemboca no título pactuai: “fiel é Deus” (pistos ho theos), eco direto de Deuteronômio 7:9 (o Deus fiel que guarda a aliança) e desenvolvido no Novo Testamento em 1 Tessalonicenses 5:24; 2 Tessalonicenses 3:3 e 1 Coríntios 10:13. O chamado à “comunhão de seu Filho” (koinōnia tou huiou autou) relê a convivência de aliança — a mesa e a presença do Deus que caminha com o seu povo (Êxodo 24:9–11; Amós 3:3) — agora concentradas no Messias.

Ao abrir a correção pastoral contra as facções (1:10–17), Paulo usa a diatribe com nervo profético. O apelo à unanimidade — “que digais todos a mesma coisa… unidos no mesmo pensar e no mesmo parecer” — remete à promessa do “um só coração” e “um só caminho” concedidos pela aliança renovada (Jeremias 32:39; Ezequiel 11:19) e converge com a intercessão de Jesus por unidade (João 17:21–23) e com o ideal apostólico de mesma mente (Romanos 15:5–6; Filipenses 2:2). Quando contrapõe sua comissão — “Cristo não me enviou para batizar, mas para evangelizar, não em sabedoria de palavra, para que não se esvazie a cruz” (ou en sophia logou… hina mē kenōthē ho stauros) — Paulo repete o gesto profético de Isaías 29:14 (“destruirei a sabedoria dos sábios”), texto que desarma a autoconfiança retórica de Sião (Isaías 29:13–16). O cuidado com a forma do dizer para não “esvaziar” o conteúdo salvífico encontra seu paralelo paulino em 2 Coríntios 2:1–5 e 2 Coríntios 4:2, onde a Palavra se oferece “em demonstração do Espírito e de poder”, não em artifício.

O coração do capítulo (1:18–25) contrapõe “sabedoria” e “palavra da cruz” em registro bíblico integral. Chamar a cruz de logos e “poder de Deus” (dynamis theou) convoca a memória do “braço estendido” que redime (Êxodo 6:6; Isaías 52:10; Salmos 89:13) e da “sabedoria” que procede do Senhor (Provérbios 2:6; Provérbios 8:22–31), agora reveladas no Crucificado. O tríptico retórico “Onde está o sábio? Onde o escriba? Onde o inquiridor deste século?” (1:20) ecoa as contendas de tribunal em Isaías 41:21–24 e 44:7–8, onde o Senhor convoca rivais, expõe sua vacuidade e frustra os intérpretes (Isaías 44:25). A descrição das expectativas — “judeus pedem sinais, gregos buscam sabedoria… nós, porém, pregamos Cristo crucificado” — recorta, de um lado, o anseio israelita por sinais (Êxodo 4:1–9) que, quando absolutizado, é corrigido (Isaías 7:10–13; Mateus 12:38–40), e, de outro, a sofisticação helênica que ignora o “temor do Senhor” (Provérbios 9:10). A mesma tese ganha seu desenvolvimento no Novo Testamento quando Paulo insiste que “a loucura de Deus é mais sábia… a fraqueza de Deus é mais forte” (1:25) e quando afirma que a eficácia do evangelho não repousa na performance (1 Tessalonicenses 1:5; 2 Coríntios 12:9).

A releitura vocacional da comunidade (1:26–31) apoia-se na sociologia da eleição. “Não muitos sábios… poderosos… nobres” reenquadra a história da escolha: não foi por grandeza que Israel foi amado, mas por amor livre do Senhor (Deuteronômio 7:7–8); Gideão, o menor, foi levantado (Juízes 6:15–16); Davi, o menor dos filhos, foi ungido (1 Samuel 16:6–13). A tríplice repetição “Deus escolheu… Deus escolheu… Deus escolheu” (exelexato ho theos) alinha-se à iniciativa unilateral da eleição, enquanto as finalidades — “para envergonhar” (kataischunai) e “para reduzir a nada” (katargēsai) — soam com o timbre profético que chama de “nada” aquilo que o mundo estima (Isaías 41:12; 41:24; 44:9–20). O Novo Testamento corrobora essa reversão: “Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé” (Tiago 2:5). O telos é doxológico: “para que ninguém se glorie diante dele” (1:29), passo que recolhe Jeremias 9:23–24 — “não se glorie o sábio na sua sabedoria… mas em me conhecer e saber que eu sou o Senhor” — e se harmoniza com o Saltério: “no Senhor se gloriará a minha alma” (Salmos 34:2).

Por fim, a síntese de 1:30 (“dele sois vós, em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós sabedoria da parte de Deus, justiça, santificação e redenção”) costura quatro fios grossos da teologia bíblica sob o nome de Cristo. “Sabedoria” (sophia) responde à querela coríntia relendo Provérbios: é dádiva de Deus, não técnica de brilhar (Provérbios 2:6; 8:22–31). “Justiça” (dikaiosynē) retoma צֶדֶק/צְדָקָה (ṣedeq/ṣĕdāqāh) e encontra, em Jeremias 23:6, a ousadia do Nome messiânico: “o Senhor, Justiça Nossa”. “Santificação” (hagiasmos) prolonga a fórmula “eu sou o Senhor que vos santifica” (Levítico 20:8), agora como participação na santidade do Filho. “Redenção” (apolytrōsis) verte o resgate de Êxodo 6:6 e a esperança dos Salmos e Isaías (Salmos 130:7–8; Isaías 52:3). O Novo Testamento confirma essa totalização quando fala do “tesouro da sabedoria e conhecimento” em Cristo (Colossenses 2:3), do “ser achados nele” (Filipenses 3:9) e do “ser santificados” na verdade que Ele é (João 17:17–19). A citação que sela o capítulo — “quem se gloria, glorie-se no Senhor” — não apenas cita Jeremias; ela impõe a forma canônica do orgulho convertido que o restante da carta buscará instaurar: toda eloquência, todo carisma, todo status, se legítimos, existirão como devolução de glória ao Deus que, “em Cristo”, se fez para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção.

VI. Visão Teológica Geral

Em 1 Coríntios 1, a visão teológica se organiza em torno de um único deslocamento: Deus recentra a existência da igreja na iniciativa soberana da graça e na forma da cruz, convertendo todo capital simbólico em doxologia. A identidade eclesial nasce “de Deus” e se situa “em Cristo”; por isso a carta abre nomeando a comunidade como “igreja de Deus” (ekklēsia tou theou, “igreja de Deus”), composta por “santificados em Cristo Jesus, chamados santos” (hēgiasmenoi… klētoi hagioi, “santificados… chamados santos”), e saudada com “graça e paz” (charis kai eirēnē, “graça e paz”). O movimento é vertical e anterior: antes de qualquer correção, Paulo reafirma que a igreja existe porque foi chamada; o chamamento define o ser e o agir. O próprio apóstolo se apresenta como “apóstolo chamado” (klētos apostolos, “apóstolo chamado”), e a comunidade é dita chamada à “comunhão do Filho” (koinōnia tou huiou, “comunhão do Filho”), de modo que vocação, santidade e comunhão não são metas humanas, mas efeitos da fidelidade divina. A teologia do chamado estrutura a ética da unidade: quem foi convocado pelo mesmo Senhor não se organiza por partidos nem por patronos, mas por pertença comum ao Cristo que reúne.

A centralidade do evangelho como “palavra da cruz” (logos tou staurou, “palavra da cruz”) estabelece o critério pelo qual Deus julga e reconstrói sabedoria, poder e glória. O capítulo confronta o fascínio coríntio por performances e estilos com a revelação paradoxal de um Messias crucificado: o que o mundo chama de “loucura” (mōria, “loucura”) e “escândalo” (skandalon, “tropeço”) é precisamente a “sabedoria de Deus” (sophia tou theou, “sabedoria de Deus”) e o “poder de Deus” (dynamis theou, “poder de Deus”) para salvar. A cruz não é ornamento retórico, mas forma de conhecimento; não é reforço para carisma pessoal, é juízo sobre todo expediente que pretenda “esvaziar” o evento redentor. Daqui brota uma epistemologia cruciforme: a verdade de Deus se impõe na fraqueza, a sabedoria se revela como obediência e a eficácia se mede pela fidelidade ao Cristo crucificado. Por isso Paulo se recusa a evangelizar “em sabedoria de palavra” (en sophia logou, “em sabedoria de discurso”), não por anti-intelectualismo, mas para que o conteúdo não seja neutralizado pela forma. O evangelho exige instrumentos que sirvam ao seu escândalo fecundo, não que o mascarem com brilho que reconduz a glória ao mensageiro.

A eleição do “nada” desarma a economia da vanglória e funda uma sociologia da graça. O apelo “considerai a vossa vocação” mostra que a composição real da igreja — “não muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres” — é argumento teológico: “Deus escolheu as coisas loucas… fracas… ignóbeis e desprezadas… as que não são” para “envergonhar” e “reduzir a nada” as que são. A inversão não romantiza ignorância nem fraqueza; ela desautoriza o uso teológico de prestígio, classe e eloquência como moedas de legitimidade espiritual. A comunidade é ensinada a reconhecer que, onde o mundo vê déficit, Deus escolhe palco para a sua potência; onde o mundo busca plataformas de exibição, Deus estabelece um povo cuja única capitalização é a graça. A finalidade é explícita e doxológica: “para que ninguém se glorie diante dele”. Toda a estratégia pastoral do capítulo converge para esse ponto, porque a unidade só floresce quando o princípio de honra foi transferido do eu para o Senhor.

No vértice dessa arquitetura, 1:30 resume a soteriologia paulina e o programa eclesial: “dele [de Deus] sois vós, em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós sabedoria da parte de Deus, justiça, santificação e redenção” (ex autou… en Christō Iēsou, hos egenēthē sophia hēmin apo theou, dikaiosynē te kai hagiasmos kai apolytrōsis, “dele… sois vós, em Cristo Jesus, o qual se fez para nós sabedoria da parte de Deus, justiça, santificação e redenção”). O primeiro binômio fixa a origem e a esfera: ex autou (“dele [de Deus]”) e en Christō (“em Cristo”) definem o “de onde” e o “onde” de toda vida cristã. Em seguida, Cristo é nomeado como o todo da salvação: “sabedoria” responde ao fetiche coríntio por sophia e estabelece que conhecer a Deus não é técnica de dizer, é participação no Crucificado; “justiça” (dikaiosynē, “justiça”) articula a absolvição forense que nos reconcilia com Deus; “santificação” (hagiasmos, “santificação”) descreve a transformação e separação contínuas que nos conformam ao Santo; “redenção” (apolytrōsis, “redenção”) declara o resgate definitivo que liberta da escravidão e dá futuro. Não se trata de etapas lineares, mas de facetas simultâneas do mesmo dom “em Cristo”. A comunidade aprende, assim, que nada lhe falta fora de Cristo e que nada lhe sobra quando busca fora dele critérios de glória.

Dessa síntese emerge a ética e a espiritualidade do capítulo: a igreja é chamada a viver de modo coerente com o seu princípio gerador. Unidade sem facção decorre de pertencimento comum; humildade pública decorre de uma teologia que anula comparações de mérito; linguagem submissa ao evangelho decorre da convicção de que a forma existe para servir ao evento; gratidão e louvor decorrem da consciência de que “dele” somos, “em Cristo” somos mantidos e “para o Senhor” nos gloriamos. O versículo final sela a regra hermenêutica de toda a vida comunitária — “quem se gloria, glorie-se no Senhor” (ho kauchōmenos en Kyriō kauchasthō, “quem se gloria, glorie-se no Senhor”) — e estabelece o filtro pelo qual 1 Coríntios julgará todos os temas subsequentes da carta: ministérios e líderes, disciplina e culto, dons e conhecimento, ceia e corpo, tudo precisa cheirar a cruz e devolver a glória ao Doador. Quando essa visão governa, a igreja deixa de ser auditório de estilos e volta a ser assembleia de chamados, comunidade cuja sabedoria é Cristo, cuja justiça é Cristo, cuja santidade é Cristo e cuja redenção é Cristo — e, por isso mesmo, comunidade em que toda jactância é convertida em doxologia.

VII. Comentário de 1 Coríntios 1

Minha exposição de 1 Coríntios 1 se caracteriza por uma análise detalhada e multifacetada, que combina rigor exegético, com atenção à sintaxe e aos termos gregos, e uma profunda preocupação pastoral. Cada versículo é explorado não apenas em seu contexto imediato, mas em diálogo com toda a Escritura, culminando em aplicações práticas que desafiam a igreja e o crente individualmente. O comentário inicia estabelecendo o fundamento da autoridade apostólica na vontade soberana de Deus e a identidade da igreja como um corpo universal, santificado em Cristo e unido pela invocação de seu nome. Em seguida, a análise da ação de graças paulina ressalta a suficiência da graça divina, que enriquece a comunidade com todos os dons necessários enquanto ela aguarda a revelação final do Senhor, ancorada na fidelidade de Deus que a confirmará até o fim. A partir daí, a exposição confronta o problema central das divisões, desconstruindo a lógica facciosa ao recentralizar a fé na obra exclusiva do Salvador — o único que foi crucificado e em cujo nome a igreja é batizada. Finalmente, o trecho conclui ao apresentar a “palavra da cruz” como o grande divisor teológico: a “loucura” que revela a sabedoria e o “poder de Deus” para a salvação, estabelecendo o tema central que permeará o restante do capítulo.

A. Saudação Apostólica (1 Coríntios 1:1-3)

1 Coríntios 1:1 Paulo,... (O fato de a carta abrir com o nome do mensageiro não rebaixa a autoridade divina; antes, revela a economia histórica da revelação: Deus fala por meio de agentes humanos, sem anular suas personalidades, mas garantindo que a mensagem seja sua Palavra. A Escritura atesta que “toda Escritura é soprada por Deus” e, no entanto, vem por mãos e vozes particulares [2 Timóteo 3:16; 2 Pedro 1:20–21]; o Novo Testamento, ademais, reconhece as cartas de Paulo como Escritura no mesmo plano das “outras Escrituras” [2 Pedro 3:15–16]. Diferentemente da fórmula profética “Assim diz o Senhor” característica de muitos oráculos do Antigo Testamento [Jeremias 1:4–10; Isaías 1:2], a forma epistolar mostra que, nestes “últimos dias”, Deus falou “pelo Filho” e, por meio do Espírito, através dos apóstolos [Hebreus 1:1–2; 1 Coríntios 2:12–13]. A autoidentificação do líder oferece contexto, responsabilidade e proximidade: quem fala responde perante Deus e diante da igreja, evitando anonimato impessoal e personalismo messiânico; ela ancora a mensagem em história concreta — o ex-perseguidor transformado em servo de Cristo [Atos 9:1–22; Gálatas 1:13–16]. Para a congregação, isso educa a leitura: não veneramos um “nome”, mas reconhecemos o dom de Deus por trás do instrumento, lembrando que “tudo é vosso… seja Paulo… e vós de Cristo, e Cristo de Deus” [1 Coríntios 3:21–23]. Aplicando: líderes que se apresentam com clareza ajudam a comunidade a discernir vida, chamado e limites do ministério, e membros aprendem a receber a Palavra de Deus “não como palavra de homens, mas… como, em verdade, é, a Palavra de Deus” [1 Tessalonicenses 2:13].) ...chamado pela vontade de Deus... (O núcleo grego klētos… dia to thélēma tou theou — “chamado… por meio da vontade de Deus” — indica que sua condição não é fruto de ambição, mas de convocação soberana. Klētos (“chamado/constituído por chamada”) descreve designação efetiva; em Romanos 1:1, Paulo é klētos apóstolos (“apóstolo por chamado”), e em 1 Coríntios 1:24 “os chamados” são os que Deus efetivamente traz à comunhão do Filho [Romanos 1:1; 1 Coríntios 1:24, 1:9]. A preposição dia (“por meio de”) com genitivo em dia thélēmatos marca a causa eficiente: a fonte decisiva é o querer divino, não a eleição de assembleia humana [Gálatas 1:1]. A “vontade de Deus” rege vocações proféticas (Jeremias separado “antes que saísse do ventre” [Jeremias 1:5]; Moisés comissionado apesar de sua relutância [Êxodo 3:1–12]) e apostólicas (o Senhor diz: “Ele é para mim vaso escolhido” [Atos 9:15]). Essa convicção preserva a igreja de dois extremos: a presunção — quando alguém se impõe sem legitimação de Deus — e a insegurança — quando um chamado genuíno é paralisado por medo. O discernimento comunitário reconhece e confirma o que Deus faz: o Espírito separa, a igreja ouve e impõe mãos [Atos 13:2–3; 1 Timóteo 4:14; 2 Timóteo 1:6], sempre julgando segundo caráter e doutrina [1 Timóteo 3:1–7; Tito 1:5–9]. Para cada crente, a linguagem do chamado molda identidade e propósito: fomos chamados das trevas para a sua luz admirável [1 Pedro 2:9], chamados à santidade [1 Tessalonicenses 4:7], chamados à comunhão do Filho [1 Coríntios 1:9], e essa consciência sustenta perseverança nas provações [Romanos 8:28–30]. A sintaxe do versículo, ao colocar a vontade de Deus como a mediação por trás do chamado, enraíza a autoridade ministerial na iniciativa divina, lembrando que é “Deus que opera em vós tanto o querer como o efetuar” [Filipenses 2:13].) ...para ser apóstolo de Jesus Cristo,... (O termo apóstolos — de apostéllō, “enviar” — designa no Novo Testamento um ofício fundacional e irrepetível, ligado a testemunhas autorizadas do Cristo ressuscitado [Lucas 6:13; Atos 1:21–22]. Traços definidores incluem ter visto o Senhor [1 Coríntios 9:1], ser comissionado diretamente por ele [Gálatas 1:1, 1:11–12] e autenticar a mensagem com “sinais de apóstolo” [2 Coríntios 12:12]. Por isso, a igreja é edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo Cristo Jesus a pedra angular” [Efésios 2:20; Efésios 3:5]. O genitivo Iēsou Christou (“de Jesus Cristo”) delimita origem, conteúdo e autoridade: o apóstolo pertence a Cristo, fala de Cristo e fala em nome de Cristo. O caráter do ministério apostólico — fidelidade doutrinária, plantação de igrejas, padecimento por causa do evangelho — fornece princípios perenes aos líderes: guardar o “modelo das sãs palavras” [2 Timóteo 1:13], trabalhar para apresentar todo ser humano perfeito em Cristo [Colossenses 1:28–29], sofrer como “bom soldado de Cristo Jesus” [2 Timóteo 2:3] e recusar glória própria [1 Coríntios 2:1–5]. A igreja contemporânea não cria novos apóstolos no sentido fundacional, mas permanece debaixo da autoridade apostólica normatizada nas Escrituras [Judas 1:17; 2 Pedro 3:2]. Submeter a vida a Cristo por meio de seus apóstolos significa crer e obedecer ao depósito apostólico, discernindo falsos enviados que pregam “outro evangelho” [Gálatas 1:6–9] e aferindo ensinadores pela consonância com o testemunho canônico [1 João 4:1–6]. Na morfossintaxe, note-se a justaposição klētos apóstolos (adjetivo substantivado + núcleo) — “apóstolo por chamado” — intensificando que a identidade deriva do chamado, não de mérito.) ...e o irmão Sóstenes,... (A menção de Sóstenes sublinha a natureza colegiada do ministério. É provável — ainda que não absolutamente certo — que seja o mesmo Sóstenes, principal da sinagoga em Corinto, espancado diante do tribunal de Gálio [Atos 18:17]; se assim for, a presença dele no cabeçalho testemunha a graça reconciliadora que redime antagonistas e os integra na obra de Cristo. O título “irmão” exibe a ontologia familiar da igreja — não só colaboradores, mas família em Cristo [Mateus 12:49–50; Romanos 8:29]. Paulo frequentemente escreve com co-remetentes (Silvano e Timóteo em 1 Tessalonicenses 1:1; Timóteo em 2 Coríntios 1:1; Timóteo novamente em Colossenses 1:1; “todos os irmãos” em Gálatas 1:2), como quem repele personalismo e cultiva consciência de corpo [Romanos 12:4–5]. Em Corinto, onde partidos se formariam em torno de nomes (Paulo, Apolo, Cefas) [1 Coríntios 1:12–13], a visibilidade dada a outro “irmão” já no verso inicial educa a comunidade a valorizar parcerias e a gloriar-se somente no Senhor [1 Coríntios 1:31]. Líderes fariam bem em incluir e nomear irmãos e irmãs em seu labor, encorajando dons diversos [1 Coríntios 12:4–27; Efésios 4:11–16], repartindo responsabilidades e dando crédito de forma generosa (como em Romanos 16). A lembrança de Sóstenes ensina que ninguém é decorativo: Deus usa histórias marcadas por dor para edificar sua igreja; cicatrizes podem se tornar sinais de adoção e serviço [Gálatas 6:17; 2 Coríntios 1:3–7]. Sintaticamente, o artigo com adelphos (ho adelphos, “o irmão”) aponta identificação conhecida do destinatário — um irmão reconhecido entre eles — e a coordenação por kai (“e”) integra Sóstenes ao ato comunicativo, sem diluir a autoridade apostólica já estabelecida.)

1 Coríntios 1:2 à igreja de Deus,... (A expressão ekklēsia tou theou (“igreja de Deus”) afirma pertença: a comunidade não é propriedade de membros, líderes ou siglas, mas do Deus que a chamou para si [Deuteronômio 7:6; Salmo 100:3; 1 Pedro 2:9–10]. Essa verdade guarda contra idolatria institucional e narcisismo eclesial, pois o zelo deve ser pelo nome de Deus, não por prestígio da marca [Isaías 48:11; Jeremias 7:4]. A liderança tem o encargo de recordar continuamente à congregação que ela é “de Deus”, sobretudo quando surgem contendas, autossuficiência ou orgulho corporativo [1 Coríntios 3:5–11; 1 Coríntios 4:7]. Para o coração, pertencer a Deus relativiza frustrações e encanta a visão da comunidade local: mesmo com falhas e virtudes, trata-se do povo que ele comprou com sangue [Atos 20:28; Tito 2:14]. No grego, o genitivo tou theou funciona como genitivo de posse e de origem, pois a assembleia existe porque Deus convoca.) ...que está em Corinto, (A cláusula local tē ousē en Korinthō (“que existe/está em Corinto”) mantém a tensão entre universalidade e particularidade: a mesma igreja que pertence a Deus habita um endereço concreto. O evangelho se encarna em cidades reais — Corinto, cosmopolita e próspera, marcada por tráfego comercial, diversidade cultural e reputação moral ambígua —, e ali Cristo edifica seu povo [Atos 18:1–11]. Isso ensina missão: não há comunidades assépticas alheias ao chão da cidade; antes, luz colocada sobre o velador em meio a vizinhanças específicas [Mateus 5:14–16; Jeremias 29:7]. Fidelidade e relevância não se excluem: a verdade de Cristo molda linguagem, prioridades e serviço contextual, sem cooptar-se aos ídolos locais [Romanos 12:2; 1 João 5:21]. Viver a fé “no bairro” e “na cidade” significa ver ruas, trabalhos e lares como campos onde o Reino irrompe em obras de amor, justiça e testemunho [Miqueias 6:8; Lucas 10:25–37].) ...aos santificados em Cristo Jesus,... (A forma hēgiasmenois en Christō Iēsou é particípio perfeito passivo dativo plural de hagiazo (“santificar, consagrar”), indicando um estado atual resultante de ação concluída: “os que foram santificados e permanecem nessa condição” [Hebreus 10:10, 10:14]. Trata-se de santidade posicional, recebida, não conquistada, e sua esfera é “em Cristo Jesus”, a única realidade onde tal santidade é verdadeira e estável [Efésios 1:4; Colossenses 1:13–14]. Ensinar essa distinção previne legalismo — esforço para fabricar santidade — e complacência — descuido da santidade prática. A mesma graça que declara santo também transforma o caminhar [Romanos 6:11–14; 1 Tessalonicenses 5:23–24]. Saber que já fui “santificado em Cristo” dá segurança para lutar contra o pecado hoje, pois a identidade antecede a batalha e o Espírito opera a nova obediência prometida na aliança [Ezequiel 36:26–27; Gálatas 5:16–25].) ...chamados para ser santos,... (A sequência klētois hagiois pode ser traduzida “santos por chamado” ou “chamados para serem santos”, mostrando que o chamado eficaz de Deus desemboca em santidade vivida [Romanos 8:30; Efésios 4:1]. Não é conselho opcional, mas imperativo da nova aliança: “sede santos, porque eu sou santo” [1 Pedro 1:15–16; Levítico 19:2]. A comunidade cultiva uma cultura de santidade graciosa ao manter Cristo no centro, ao praticar disciplina restaurativa, ao promover disciplinas que formam Cristo em nós — Palavra, oração, mesa do Senhor, mutualidade, serviço — e ao testemunhar um padrão de vida distinto do século [Atos 2:42–47; Hebreus 10:24–25; Tiago 1:27]. Cada pessoa é chamada a discernir áreas de resistência e a ver santidade como liberdade de ser quem Deus nos criou para ser, adotados e conformados ao Filho [Romanos 8:29; 2 Coríntios 3:18].) ...com todos os que em todo lugar... (A expressão amplia o horizonte e estabelece comunhão católica: o que vale para Corinto alcança “todos os que em todo lugar” que partilham a mesma fé. Assim se reforça a doutrina de uma só igreja, santa, universal, apostólica, ligada por um mesmo evangelho e por uma mesma esperança [João 17:20–23; Efésios 4:4–6]. Uma igreja local, portanto, nutre consciência global, ora e coopera com a igreja espalhada, especialmente onde sofre e é perseguida [Hebreus 13:3; 2 Tessalonicenses 1:4–5]. Essa visão combate paroquialismo e etnocentrismo, recordando que pertencemos a uma família que transcende culturas e nações [Apocalipse 5:9–10; Gálatas 3:28].) ...invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo,... (Invocar o nome é mais que pedir; é clamar, adorar, confessar senhorio e depender inteiramente do Salvador. Nas Escrituras, “invocar o nome do Senhor” marca identidade do povo de Deus, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento [Gênesis 4:26; Salmo 116:4; Joel 2:32 — aplicado em Atos 2:21; Romanos 10:13]. A igreja ensina e modela essa prática ao proclamar quem Jesus é, ao orar com fé em seu nome, ao render-se à sua autoridade e ao agir confiando em sua presença [João 14:13–14; Colossenses 3:17]. Vidas marcadas por invocar o nome de Jesus deixam de confiar em outros “nomes” — força, status, sabedoria — e aprendem a descansar no único Nome dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos [Atos 4:12; Filipenses 2:9–11].) ...Senhor deles e nosso: (A cláusula afirma o senhorio universal de Cristo (kyrios autōn kai hēmōn, “Senhor deles e nosso”) e finca o fundamento da unidade. Em uma comunidade dividida, Paulo eleva um único Senhor que possui todos por igual, desfazendo partidarismos e vanglória humana [1 Coríntios 1:10–13; 1 Coríntios 8:6]. A pregação insistente do senhorio de Cristo cura cismas, pois submete preferências, líderes e projetos à vontade daquele que governa a igreja [Colossenses 1:18; Efésios 1:22–23]. Viver como se Cristo fosse Senhor não apenas “meu”, mas também “deles” — inclusive os com quem discordo — disciplina o coração a honrar irmãos, a buscar consenso na verdade e a renunciar contendas pela cruz [Romanos 14:7–9; João 13:34–35].)

1 Coríntios 1:3 graça a vós outros e paz,... (A ordem é teológica: cháris (“graça”, favor imerecido) precede eirēnē (“paz”, reconciliação/shalom), pois a paz com Deus flui da graça recebida pela fé [Romanos 5:1–2; Efésios 2:8–18]. Em um mundo regido por méritos e disputa, a comunidade do Messias ministra graça que reconcilia e cultiva paz que pacifica relações e corações [Tiago 3:17–18; Colossenses 3:12–15]. Áreas de ansiedade, culpas e conflitos se reordenam quando a graça funda a identidade e a paz governa as relações [Filipenses 4:6–7; 2 Coríntios 13:11].) ...da parte de Deus,... (A fonte é explicitada: graça e paz não são bons desejos, mas dádivas “da parte de Deus”. A procedência protege contra reduções sentimentalistas e orienta o povo à dependência e à gratidão [Tiago 1:17; Salmo 29:11]. A liderança aponta continuamente para Deus como origem de todo bem, cultivando súplica humilde e reconhecimento de que “sem mim nada podeis fazer” [João 15:5; Salmo 127:1].) ...nosso Pai,... (A paternidade de Deus revela caráter e relação de aliança: por adoção, clamamos “Aba, Pai” e recebemos herança com o Filho [Gálatas 4:4–7; Romanos 8:15–17]. Essa verdade redefine identidade — não órfãos espirituais, mas filhos amados — e cura feridas ao inserir pessoas numa família real, onde pertencimento e cuidado são concretos [Salmo 68:5–6; 2 Coríntios 6:18]. Comunidades moldadas por essa paternidade refletem acolhimento, disciplina amorosa e cuidado mútuo [Efésios 5:1–2; Hebreus 12:5–11].) ...e do Senhor Jesus Cristo. (A coordenação coloca o Filho no mesmo nível do Pai como doador de graça e paz: um único apo (“da parte de”) governa as duas fontes em ênfase sintática de paridade. Isso supõe a divindade do Filho e sua obra mediadora, por meio de quem a paz é dada e mantida [João 14:27; 2 Tessalonicenses 3:16]. A adoração e o ensino da igreja honram igualmente o Pai e o Filho, na comunhão do Espírito, e a experiência de graça e paz é especificamente cristocêntrica — recebida no Cristo que morreu e ressuscitou e agora reina [2 Coríntios 13:13; Colossenses 3:15].)

B. Ação de Graças pela Graça de Deus em Corinto (1 Coríntios 1:4-9)

1 Coríntios 1:4 Sempre dou graças a [meu] Deus a vosso respeito,... (O verbo principal é eucharistō — presente do indicativo ativo de primeira pessoa — marcando um hábito durativo: Paulo vive em ação de graças. O dativo tō theō mou (“a [meu] Deus”) personaliza a relação da oração, e pantote (“sempre”) intensifica a constância, não como formalidade epistolar, mas como disciplina espiritual que lê a igreja pela lente da obra de Deus antes de confrontar suas falhas. A dupla preposicional peri hymōn (“a respeito de vós”) e epi tē chariti (“por causa da graça”) revela que a gratidão não se apoia na performance dos coríntios, mas no agir divino entre eles. Começar a correção com reconhecimento do bem que Deus fez é um ato que reconhece a soberania da graça sobre o pecado e prepara o coração para receber admoestação — o mesmo padrão se vê quando Jesus elogia antes de exortar nas cartas às igrejas [Apocalipse 2–3]. Tal postura aumenta a receptividade da congregação, pois a verdade chega embalada em amor e esperança [Provérbios 15:1; Filipenses 1:3–6]. A pergunta que retorna é se aprendemos a agradecer por pessoas difíceis, não pelo que elas ainda não são, mas pelo que Deus já começou nelas [Filipenses 1:6; 1 Tessalonicenses 1:2–3].) ...a propósito da sua graça, (O dativo com epi indica base/razão: a ação de graças repousa “por causa da graça” — charis — não em virtudes humanas. Charis é a cadência estrutural de toda a carta: inicia a saudação [1 Coríntios 1:3], pauta o enriquecimento [1 Coríntios 1:5, 7], sustenta a confirmação [1 Coríntios 1:8–9] e, mais adiante, definirá o conteúdo do evangelho [1 Coríntios 15:10]. A graça é o pressuposto da identidade e da vida cristã: fomos salvos por graça, vivemos pela graça e servimos segundo a graça que opera em nós [Efésios 2:8–10; Romanos 5:17; 1 Pedro 4:10–11]. Usar o evangelho da graça como “filtro” para tratar problemas preserva a disciplina da igreja de legalismo e desesperança, pois confronta com verdade, mas sempre com o remédio do Cristo crucificado e ressurreto [Gálatas 6:1; Hebreus 4:16]. O olhar que a graça produz muda o diagnóstico: vemos pecados reais, porém à luz de recursos reais de Deus [Romanos 5:20–21].) ...que vos foi dada em Cristo Jesus; (O particípio aoristo passivo feminino dativo tē dotheisē — de didōmi — afirma a graça como dom já concedido, não ganho; e a expressão locativa en Christō Iēsou estabelece a esfera exclusiva onde esse dom é conhecido e experimentado. Toda bênção espiritual é “em Cristo” [Efésios 1:3]; fora de Cristo não há graça salvadora, apenas dádivas comuns que não reconciliam [João 1:16–17]. A pregação e o aconselhamento que devolvem as pessoas à união com Cristo — morte e ressurreição compartilhadas, nova criação, adoção — tratam a raiz e não apenas sintomas [Romanos 6:3–11; 2 Coríntios 5:17; Gálatas 2:20]. Viver consciente da posição “em Cristo” realinha identidade, desejos e combate espiritual [Colossenses 3:1–4; Romanos 8:1].)

1 Coríntios 1:5 porque, em tudo,... (hoti en panti — “porque, em tudo”): hoti é conjunção causal que introduz o motivo da ação de graças (v. 4); en panti combina a preposição “em” com o dativo de pas (“todo”), indicando abrangência real. A extensão dessa plenitude é dupla e complementar: imediata, porque se conecta semanticamente ao que segue (“palavra” e “conhecimento”), e abrangente, porque, no fluxo da perícope (vv. 4–9), descreve suficiência espiritual para toda a vida comunitária entre a primeira e a segunda vinda. Não promete prosperidade material, mas confirma que, para fé, culto, ensino, disciplina e missão, nada falta aos que estão em Cristo [2 Pedro 1:3; Colossenses 2:9–10]. Essa consciência desmonta o “espírito de miséria” e a ansiedade por aditivos externos (novidades, técnicas, gurus), pois em Cristo a igreja já possui o que precisa para ser fiel [Colossenses 2:8; Gálatas 3:3; Jeremias 2:13]. Na prática, isso chama cada crente a viver como quem tem, em Cristo, suficiência para obedecer hoje — o Senhor é pastor, portanto nada falta [Salmo 23:1]; seu poder se aperfeiçoa na fraqueza [2 Coríntios 12:9]; Deus supre segundo suas riquezas em glória [Filipenses 4:19]. ...fostes enriquecidos nele,... (eploutisthēte en autō — “fostes enriquecidos nele”): eploutisthēte é aoristo passivo indicativo 2ª plural de ploutizō (“tornar rico”), apontando ação pontual realizada por outro — Deus — e en autō localiza a fonte e a esfera: “nele”, isto é, em Cristo. A “riqueza” aqui é espiritual e ministerial, não monetária: partilha das “insondáveis riquezas de Cristo” [Efésios 3:8], do “tesouro” da graça que nos foi dada no Filho [Efésios 1:7; Colossenses 2:3]. A união com Cristo significa co-participação em seus bens — justiça, santificação e redenção [1 Coríntios 1:30], herança com o Filho [Romanos 8:32], o que reconfigura identidade e valores: “sendo pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” [2 Coríntios 6:10]. Como ajudar a igreja a valorizar essa riqueza acima das riquezas do mundo? Pregando o tesouro superior do Reino, treinando generosidade concreta e contentamento santo, e formando práticas que deslocam o coração do dinheiro para Deus [Mateus 6:19–21; 1 Timóteo 6:6–10, 17–19; Hebreus 10:34]. Pessoalmente, isso nos ensina a sentir-nos “ricos em Cristo” mesmo na escassez, aprendendo o segredo de estar contente em toda e qualquer situação [Filipenses 4:11–13; Habacuque 3:17–19]. Onde está o nosso tesouro, aí estará o coração — e a nossa “contabilidade” espiritual [Mateus 6:21]. ...em toda a palavra... (en panti logō — “em toda palavra”): logos no dativo singular, qualificado por panti, pode referir-se tanto à capacidade de falar (proferimento habilitado pelo Espírito) quanto ao conteúdo proclamado (o evangelho). O contexto coríntio — fascinado por eloquência — torna relevante ambos os sentidos, com correção: a igreja foi dotada com “palavra” (dons de ensino, exortação, profecia), mas a medida da “palavra” é a cruz, não a retórica vazia [1 Coríntios 1:17; 1 Coríntios 2:1–5; 1 Coríntios 12:8]. Cristo, o Logos encarnado, é fonte e critério de toda palavra verdadeira [João 1:1, 14; Hebreus 1:1–2]; por isso, uma comunidade “rica em palavra” é aquela em que a Escritura habita abundantemente, transbordando em ensino fiel, cânticos, admoestação mútua e conversas que edificam [Colossenses 3:16; Efésios 4:29; 1 Tessalonicenses 5:11]. Cultiva-se esse bom uso da palavra por meio de pregação expositiva que “maneja bem” a verdade [2 Timóteo 2:15; 2 Timóteo 4:2], treinamento de mestres e discipuladores, liturgia saturada de Bíblia e uma ética da língua que refreia o mal e promove graça [Tiago 3:1–12; Provérbios 25:11]. No exame do coração, perguntamos se nossas palavras refletem a riqueza recebida em Cristo — “nenhuma palavra torpe” saindo da boca, mas as que edificam conforme a necessidade [Efésios 4:29; Mateus 12:34–37; Provérbios 10:19]. ...e em todo o conhecimento;... (kai pasē gnōsei — “e em todo conhecimento”): gnōsis (dativo singular), da raiz ginōskō (“conhecer”), aqui não é especulação que infla, mas conhecimento relacional e obediencial de Deus que transforma. Em Corinto, que idolatrava “sabedoria”, Paulo distinguirá a sabedoria do mundo da sabedoria de Deus, revelada na fraqueza vitoriosa da cruz [1 Coríntios 1:18–25; 2 Coríntios 4:6]. O “conhecimento” que enriquece a igreja é o “pleno conhecimento da vontade” que leva a andar de modo digno, frutificando e crescendo [Colossenses 1:9–10]; é conhecer e experimentar o amor de Cristo que excede o conhecimento, desembocando em doxologia [Efésios 3:18–19; Romanos 11:33–36]. Difere da curiosidade filosófica porque é revelado por Deus, centrado em Cristo e aferido pela obediência: “se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá” [João 7:17; Jeremias 9:23–24]. Para promovê-lo sem arrogância, a igreja ora por iluminação, ancora o ensino no texto bíblico, submete todo saber ao amor que edifica, liga conhecimento a serviço humilde e prova os espíritos pela confissão cristológica [Filipenses 1:9–11; Tiago 3:13–17; 1 João 4:1–3; Atos 20:27]. E, no plano pessoal, isso nos chama a buscar ativamente crescer no conhecimento de Deus por sua Palavra e seus meios, rejeitando a fé superficial e instável [Atos 17:11; 2 Timóteo 3:16–17; 2 Pedro 3:18].

Em síntese morfo-sintática do versículo: hoti introduz a causa da gratidão; en panti demarca a amplitude da suficiência; eploutisthēte (aoristo passivo) atribui a Deus o ato de enriquecer; os complementos dativos en panti logō e pasē gnōsei especificam os eixos dessa riqueza — fala/conteúdo e conhecimento —, tudo “nele” (en autō), isto é, exclusivamente em Cristo. A leitura tecida pelos demais textos confirma: a igreja não carece de aditivos, porque em Cristo recebeu tudo o que necessita para crer, viver e servir até que ele venha [1 Coríntios 1:7–9; 2 Pedro 1:3; Colossenses 2:9–10].

1 Coríntios 1:6 assim como o testemunho de Cristo... (A partícula comparativa kathōs conecta o enriquecimento ao fundamento que o explica: “assim como”. To martyrion tou Christou é melhor entendido como genitivo objetivo — o testemunho acerca de Cristo, isto é, o evangelho —, ainda que o testemunho seja, em última análise, também de Cristo por meio de suas testemunhas [Atos 1:8; Romanos 1:1–4].) ...tem sido confirmado em vós,... (O aoristo passivo ebebaiōthē — de bebaioō — descreve um estabelecer firme: o evangelho foi autenticado “em vós” (en hymin) por sua recepção perseverante e pelos dons que o acompanharam [Hebreus 2:3–4]. A confirmação hoje aparece em frutos coerentes com o evangelho — fé operante, amor abnegado, esperança resistente — e na presença multiforme do Espírito [1 Tessalonicenses 1:3–5; Gálatas 5:22–23]. O ponto é que dons e conhecimento não são troféus, mas selos que apontam para a veracidade da mensagem.)

1 Coríntios 1:7 de maneira que não vos falte nenhum dom,... (hōste hymas mē hysteristhai en mēdeni charismati — “de modo que não vos falte em nenhum dom”): hōste é conjunção de resultado; liga o v. 6 ao efeito concreto na comunidade. hysteristhai é infinitivo presente médio/deponente de hystereō (“carecer, estar em falta”), com (negação para modos não-indicativos), indicando um estado contínuo de não-carência; en mēdeni charismati traz en com dativo de esfera (“no âmbito de”), mēdeni (“nenhum”) e charismati (“dom de graça”), termo formado de charis (“graça”), sublinhando que dons não são capital humano, mas dádivas imerecidas. O enunciado revela a suficiência da graça de Deus para a igreja no tempo presente, entre a primeira e a segunda vinda: enquanto peregrina, ela já recebeu, “em Cristo”, tudo o que é necessário para crer, adorar, ensinar, disciplinar, servir e testemunhar [2 Pedro 1:3; Colossenses 2:9–10; Efésios 1:3]. Isso não significa que cada indivíduo possua todos os dons; o ponto é corporativo: a igreja, como corpo, possui a plenitude necessária porque “a cada um é dada a manifestação do Espírito visando ao bem comum”, e os membros se completam mutuamente [1 Coríntios 12:4–27; Romanos 12:4–8; 1 Pedro 4:10–11]. Essa verdade corrige tanto o orgulho de quem se julga superior por deter certos dons (“Que tens tu que não tenhas recebido?”) quanto a inveja de quem se sente menor por não possuí-los (“O olho não pode dizer à mão: não preciso de ti”) [1 Coríntios 4:7; 1 Coríntios 12:21–26; Tiago 3:16–17]. Para encorajar a igreja a descobrir e usar a plenitude de dons que já possui, o caminho bíblico inclui ensino claro sobre os dons e seu propósito (edificação do corpo) [Efésios 4:11–16], avaliação e reconhecimento de dons pela comunidade (“não desprezes o dom… reaviva o dom”) [1 Timóteo 4:14; 2 Timóteo 1:6], ambientes práticos de serviço onde dons são testados e aprimorados [Atos 6:1–7], e uma cultura de humildade e amor que subordina todo dom ao proveito do outro [1 Coríntios 13:1–7; Filipenses 2:1–4]. A pergunta que fica para o coração é direta: vivo como alguém “em falta”, sempre buscando aditivos fora de Cristo, ou reconheço que, inserido no corpo, tenho acesso — através dos outros — a tudo o que precisamos para viver para Ele, crescendo “em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” [Efésios 4:15–16; Salmo 23:1]? ...aguardando vós a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, (apekdechomenous tēn apokalypsin tou Kyriou hēmōn Iēsou Christou — “aguardando ardentemente a revelação do nosso Senhor Jesus Cristo”): apekdechomenous é particípio presente médio de apekdechomai (“aguardar com anseio perseverante”), qualificando o modo de vida da comunidade enquanto exerce os dons; tēn apokalypsin (acusativo de apokalypsis, “revelação, desvelamento”) indica a manifestação pública do Senhor em sua vinda; o genitivo tou Kyriou hēmōn Iēsou Christou identifica o sujeito dessa revelação. A posse presente dos dons conecta-se intrinsecamente à esperança futura da volta de Cristo: os dons são arras e instrumentos do “entre-tempo”, dados para edificar o corpo até que chegue o “então”, quando o que é parcial dará lugar ao perfeito [1 Coríntios 13:8–12; 1 Coríntios 11:26; Tito 2:11–13]. Por isso a escatologia é o horizonte que dá sentido à vida da igreja no presente: ela purifica prioridades, sustenta perseverança, motiva santidade e relativiza sofrimentos, porque a comunidade vive à luz do Dia que vem [1 Tessalonicenses 1:9–10; 2 Pedro 3:11–14; 1 João 3:2–3]. Para manter expectativa saudável, sem fanatismo nem negligência, a Escritura traça dois trilhos: rejeitar especulações sobre “tempos e épocas” e abraçar a missão (“não vos compete saber… mas recebereis poder e sereis minhas testemunhas”) [Mateus 24:36; Atos 1:7–8]; e unir vigilância sóbria com fidelidade nas responsabilidades ordinárias (“filhos da luz e do dia… sejamos sóbrios”; trabalhar tranquilamente e não viver desordenadamente) [1 Tessalonicenses 5:1–8; 2 Tessalonicenses 3:10–12; Lucas 12:35–40]. Quando essa esperança governa o coração, ela molda prioridades, decisões e a forma de lidar com o sofrimento: faz buscar primeiro o Reino [Mateus 6:33], investir no que permanecerá [Mateus 6:19–21], suportar aflições enxergando “um peso eterno de glória” que supera a tribulação momentânea [Romanos 8:18; 2 Coríntios 4:17–18], e purificar a vida hoje em vista do encontro com o Senhor [1 João 3:3; Hebreus 12:1–2]. Assim, a igreja rica em dons é, ao mesmo tempo, uma igreja com os olhos na vinda; e quem espera, serve — até que Ele se revele.)

1 Coríntios 1:8 o qual também vos confirmará até ao fim,... (hos kai bebaiōsei hymas heōs telous — “o qual também vos firmará até o fim”): hos retoma o Senhor; bebaiōsei é futuro ativo de bebaioō, promessa de sustentação perseverante; heōs telous “até o fim” liga confirmação presente (v. 6) à final. A perseverança está ancorada na mão fiel de Deus, não na força humana [João 10:27–29; 1 Pedro 1:5]. Como pregar isso sem promover passividade? Mostrando que a mesma graça que guarda é a que opera nossa obediência, chamando a “desenvolver a salvação” sob a energia de Deus [Filipenses 2:12–13; Judas 20–21]. Em dúvida e fraqueza, o descanso é que “fiel é quem vos chama, o qual também o fará” [1 Tessalonicenses 5:23–24]. Desenvolvendo cada ponto pedido: a doutrina da perseverança dos santos se fundamenta na fidelidade imutável de Deus que chama, justifica e glorifica, de modo que a cadeia da graça não se rompe pelo braço da carne [Romanos 8:30; 2 Tessalonicenses 3:3]; Cristo preserva suas ovelhas e ninguém as arrebata de sua mão [João 10:28–29], e somos “guardados pelo poder de Deus mediante a fé” [1 Pedro 1:5]. A relação entre a confirmação presente (v. 6) e a final é progressiva e coerente: o ebebaiōthē “foi confirmado” de 1:6 descreve a autenticação atual do evangelho “em vós” por meio do selo do Espírito e seus frutos, enquanto o bebaiōsei “confirmará” projeta o mesmo agir até o termo; o penhor do Espírito é garantia da herança até a redenção final [Efésios 1:13–14; 1 Tessalonicenses 1:3–5]. Para dar segurança sem induzir à indolência moral, anuncia-se a promessa com seus meios: Deus guarda usando exortações, sacramentos, disciplina e a mútua admoestação — os avisos e mandamentos não negam a preservação, são instrumentos dela [Hebreus 3:12–14; 10:23–25; 12:14]. Assim, a certeza não é desculpa para apatia, mas combustível para diligência: “por isso… empregai toda diligência” porque “Deus é quem efetua em vós” [2 Pedro 1:5–10; Filipenses 2:13]. E quando sobrevêm dúvida e fraqueza, o coração repousa precisamente na promessa do texto: não serei sustentado pela minha constância, mas pelo Senhor que começou a boa obra e a completará até o Dia de Cristo [Filipenses 1:6; Judas 24]. ...para serdes irrepreensíveis (eis to anegklētous einai — “para serdes irrepreensíveis”): anegklētous provém de enkaleō “acusar” com alfa privativo, significando “não passível de acusação válida”. Não aponta para perfeccionismo sem pecado aqui e agora, mas para a condição de quem, unido a Cristo, será apresentado sem acusação diante de Deus porque nenhuma acusação subsiste contra os eleitos que Deus justifica e Cristo intercede [Romanos 8:33–34; Colossenses 1:22–23]. Essa esperança move à santidade por gratidão e antecipação, não por pavor: quem espera ser apresentado sem mácula purifica-se agora, alinhando vida e esperança [1 João 3:2–3; 2 Coríntios 7:1; Tito 2:11–14]. Viver hoje com os olhos nesse veredito futuro encoraja integridade prática — transparência, reconciliação, obras de amor — porque o crente deseja que o juízo de Deus apenas revele o que a graça já está operando em secreto [Efésios 5:8–10; Filipenses 2:15]. ...no Dia de nosso Senhor Jesus Cristo. (en tē hēmera tou Kyriou hēmōn Iēsou Christou — “no Dia do nosso Senhor Jesus Cristo”): o “Dia do Senhor” no Antigo Testamento designa intervenção decisiva de Deus em juízo e vindicação — trevas para os soberbos e salvação para o seu povo [Joel 2:31; Amós 5:18–24; Sofonias 1; Isaías 13:6–11; Malaquias 4:1–2]. No Novo Testamento, esse Dia é associado à vinda de Cristo, quando se manifesta o justo juízo, se recompensa a fidelidade e se consuma a esperança da igreja [2 Tessalonicenses 1:7–10; 2 Pedro 3:10–13; 1 Coríntios 3:13; Filipenses 1:10; 2:16]. É, portanto, ambos: juízo e vindicação, condenação do mal e consolação dos que pertencem ao Cordeiro. O ensino desse Dia cultiva urgência sóbria e responsabilidade: lembra que todos compareceremos perante o tribunal de Deus e de Cristo, o que arma a igreja contra indiferença e leviandade e a impulsiona a viver de modo que o “Dia” aprove aquilo que edificamos [Romanos 14:10–12; 2 Coríntios 5:10; 1 Coríntios 3:12–15]. A pergunta final confronta a consciência: vivo como quem prestará contas nesse Dia — ajustando prioridades, reconciliando-se depressa, trabalhando enquanto é dia — ou como se o tempo fosse elástico e o juízo remoto? A promessa de confirmação “até ao fim” e a meta de ser “irrepreensível” existem justamente para formar esse tipo de vida vigilante e cheia de esperança.

1 Coríntios 1:9 Fiel é Deus,... (pistos ho theos — “fiel é Deus”) (a ordem predicativa com pistos anteposto sublinha que a segurança do crente repousa no caráter imutável de Deus e não na performance humana; sua fidelidade pactual — Ele não mente, não volta atrás e cumpre o que promete — é o fundamento último que ancora todas as promessas já afirmadas no contexto: o chamado que não se revoga, os dons concedidos, a confirmação presente e a consumação futura [Números 23:19; Deuteronômio 7:9; Isaías 46:9–11; Lamentações 3:22–23; Hebreus 6:13–19; Hebreus 10:23; Romanos 11:29; 2 Timóteo 2:13]. Proclamar essa fidelidade é bálsamo em um mundo de promessas quebradas porque desloca a esperança do coração de alianças humanas para a Rocha cujo “sim” e “amém” estão em Cristo, firmando passos cansados e curando desconfianças [Salmo 62:5–8; Salmo 33:4; 2 Coríntios 1:20]. Concretamente, essa fidelidade sustenta o chamado que Deus efetuou e garante que Ele levará a obra a termo: “Aquele que começou a boa obra há de completá-la”; “fiel é quem vos chama, o qual também o fará”; “minhas ovelhas… ninguém as arrebatará da minha mão”; “nada poderá separar-nos do amor de Deus em Cristo”; “não te deixarei, nem te desampararei”, inclusive na tentação, pois Ele “não vos deixará tentar além do que podeis” [Filipenses 1:6; 1 Tessalonicenses 5:24; João 10:28–29; Romanos 8:32, 38–39; Hebreus 13:5; Isaías 41:10; 1 Coríntios 10:13]. A pergunta prática é imediata: em qual promessa infalível da Palavra vou repousar hoje — a presença que não abandona, a obra que Ele completa, o amor que não se rompe ou o cuidado que supre?). ...pelo qual fostes chamados à comunhão (di’ hou eklēthēte eis koinōnian — “pelo qual fostes chamados para comunhão”) (di’ hou identifica Deus como agente; eklēthēte é aoristo passivo de kaleō, ato eficaz; eis koinōnian indica direção/ingresso na esfera da koinōnia, de koinos, “o que é comum/compartilhado”) (a natureza dessa koinōnia é simultaneamente vertical, com o Filho, e horizontal, entre os que pertencem ao Filho; a vertical funda e alimenta a horizontal, de modo que “o que temos visto e ouvido anunciamos… para que também vós tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho” [1 João 1:3, 7; João 17:21–23; Atos 2:42–47]. O chamado eficaz de Deus não é mero convite, mas incorporação real no Corpo, unindo-nos a Cristo e, por Ele, uns aos outros [Atos 2:39, 47; Efésios 4:4]. Para estruturar a vida da igreja além de encontros superficiais, a comunidade persevera no ensino apostólico e na mesa, nas orações e na partilha; promove mutualidade e confissão, hospitalidade e serviço; carrega fardos, pratica disciplina que restaura e organiza espaços intencionais (grupos menores, discipulado relacional, ministérios de misericórdia) para que “cada junta e ligamento” efetivamente ministre e edifique “para que o corpo cresça em amor” [Atos 2:42–47; Hebreus 10:24–25; Gálatas 6:1–2; Tiago 5:16; Romanos 12:9–13; Efésios 4:11–16]. Isso confronta o individualismo: fomos “chamados para koinōnia”, não para uma fé solitária; logo, busco ativamente comunhão com Cristo e com os irmãos — presença, vulnerabilidade, serviço — em vez de consumir religião à distância [Salmo 133; 1 Coríntios 12:12–27]). ...de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor. (tou huiou autou Iēsou Christou tou Kyriou hēmōn — “de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor”) (o encadeamento genitivo identifica o centro e o conteúdo da comunhão: é comunhão “do Filho”, especificamente de Jesus, o Ungido, que é “nosso Senhor”. É com o Filho porque somente nele temos acesso ao Pai e participação na vida divina; fora de Cristo, não há koinōnia que seja vida de Deus compartilhada [João 14:6; 1 João 5:11–12; 2 Pedro 1:4]. A centralidade de Cristo define e distingue essa comunhão de qualquer associação religiosa: não é afinidade sociocultural ou projeto humano, mas participação sacramental e vivencial no corpo e no sangue do Senhor, fazendo de muitos “um só pão e um só corpo”, mantidos na dependência da Cabeça [1 Coríntios 10:16–17; Colossenses 2:19]. Para garantir que tudo permaneça centrado em Jesus, a igreja submete doutrina ao padrão apostólico sobre Cristo, estrutura liturgia para exibir o evangelho, orienta aconselhamento e disciplina para reconduzir a Ele, mede ministérios por quanto exaltam o Filho e produzem obediência da fé, e recusa agendas que desloquem sua primazia [Colossenses 1:18; Lucas 24:27, 44–47; 2 Coríntios 4:5]. Exame devocional: meu vínculo com a igreja é movido por pessoas e programas, ou pela comunhão mútua com o Cristo vivo — Aquele que caminha no meio dos candeeiros, sustenta, corrige e consola o seu povo? A resposta honesta reposiciona o coração no Senhor que está presente quando nos reunimos em seu nome [Apocalipse 1:12–18; Mateus 18:20]).

C. O Problema das Divisões e o Apelo à Unidade (1 Coríntios 1:10-17)

1 Coríntios 1:10 Rogo-vos, irmãos,... (A transição do agradecimento ao apelo urgente ocorre porque a gratidão preparou o terreno: Paulo já reconheceu a obra de Deus [1 Coríntios 1:4–9] e, agora, confronta a ferida principal. Parakalō é presente do indicativo ativo, 1ª pessoa do singular, frequentemente usado como fórmula parenética: não é ordem despótica, mas súplica firme que convoca à obediência [cf. Romanos 12:1; Efésios 4:1]. O vocativo adelphoi (“irmãos”) estabelece a base relacional: ele fala de dentro da família de Deus, não de fora; quem exorta partilha a mesma graça e a mesma filiação [Mateus 23:8; Hebreus 2:11]. O equilíbrio entre afirmação e confrontação é modelo: primeiro, reconhecer a graça (1 Coríntios 1:4–9), depois, tratar o pecado (1 Coríntios 1:10ss); isso espelha o modo como o Senhor repreende suas igrejas: “Conheço… porém tenho contra ti” (Apocalipse 2–3). O afeto de “irmãos” torna a correção mais eficaz porque lembra que o objetivo é ganhar o irmão, não vencê-lo (Mateus 18:15; Gálatas 6:1). Líderes devem unir ternura e verdade (2 Timóteo 2:24–26; Provérbios 27:6), e membros precisam estar abertos a rogos e exortações como instrumentos de cuidado mútuo (Hebreus 3:12–13; Hebreus 10:24–25; Provérbios 9:8–9).) ...pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo,... (dia tou onomatos tou Kyriou hēmōn Iēsou Christou) (apelar “pelo nome” aciona a autoridade do próprio Cristo sobre sua igreja; dia com genitivo indica mediação/fundamento: o pedido repousa no senhorio de Jesus, não em preferências pessoais (Colossenses 3:17; Atos 4:12). Unidade, portanto, não é capricho humano, mas ordem do Rei que orou para que os seus fossem um (João 17:20–23) e que é o único Senhor da igreja (Efésios 4:5; Colossenses 1:18). Usar o “nome de Jesus” com reverência significa invocar sua autoridade conforme sua Palavra — nunca manipular o nome para impor agendas (Êxodo 20:7; Jeremias 23:25–32). O caminho é expor a vontade de Cristo nas Escrituras, chamar à obediência humilde, e submeter a própria liderança ao mesmo nome (Mateus 28:18–20; 2 Coríntios 4:5). A pergunta que fere o coração: o nome de Jesus governa minhas opiniões e lealdades — inclusive quando contrariam meu grupo favorito — ou uso o nome para sancionar minhas preferências (Tiago 4:6–10; Lucas 6:46)?) ...que faleis todos a mesma coisa... (hina to auto legēte pantes) (não é uniformidade robótica de pensamento, mas confissão unânime do evangelho fundamental. Hina… legēte traz o subjuntivo presente de legō (“digais”), indicando padrão contínuo; to auto (“a mesma [coisa]”) ecoa a necessidade de concordância no essencial (cf. Filipenses 2:2; 1 Pedro 3:8). A Escritura distingue entre núcleo não negociável — “um só Corpo… um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Efésios 4:4–6; Judas 3; 1 Coríntios 15:1–4) — e áreas de liberdade prudente (Romanos 14:1–9; Colossenses 2:16–17). Uma igreja promove “fala” unificada quando catequiza no evangelho, confessa publicamente (credos, hinos bíblicos; 1 Timóteo 3:16), prega expositivamente, e treina membros para falar a verdade em amor (Efésios 4:12–15; Colossenses 3:16). Exame pessoal: minha fala soma à confissão comum ou semeia discórdia com meias verdades, sarcasmo e boatos (Provérbios 10:19; Efésios 4:29; Tiago 3:5–10)?) ...e que não haja entre vós divisões;... (kai mē ē en hymin schismata) (schismata — neutro plural de schisma, “rasgo”, “cisão”; cf. João 7:43). A construção com mē ē + subjuntivo de eimi (“que não haja”) e o sujeito neutro plural com verbo no singular seguem o uso grego. A gravidade do schisma no Novo Testamento é alta: a divisão visível contradiz a obra de Cristo, que derrubou a parede de separação e criou um só novo homem na cruz (Efésios 2:14–16; João 11:52). Dividir o Corpo expõe falta de maturidade e carnalidade (1 Coríntios 3:1–4) e é pecado a ser admoestado (Romanos 16:17; Tito 3:10–11). Sinais precoces: slogans de partidarismo (“eu sou de…”, 1 Coríntios 1:12), fofoca e difamação (Provérbios 16:28), comparações invejosas (Tiago 3:14–16), espírito de facção (Gálatas 5:20), líderes que amam a primazia (3 João 9–10). Intervenção preventiva inclui: ensino claro sobre o evangelho e o Corpo, vigilância pastoral, correção amorosa, cultura de reconciliação, oração conjunta, e confrontação de falsos ensinos que dividem (Atos 20:28–31; Efésios 4:1–6; Mateus 5:23–24; 2 João 9–11). Pergunta incisiva: alimento atitudes divisionistas — piadas, conversas venenosas, panelinhas, “cancelamentos” — ou busco a paz e a edificação (Romanos 14:19; Hebreus 12:14)?) ...antes, sejais inteiramente unidos,... (ēte de katērtismenoi — “mas sejais ‘ajustados’/‘restaurados’ plenamente”) (ēte é subjuntivo presente de eimi; katērtismenoi é particípio perfeito passivo nominativo plural de katartizō, “reparar, ajustar, restaurar” — termo usado para “consertar redes” (Marcos 1:19) e “restaurar o caído” (Gálatas 6:1); também em 2 Coríntios 13:11). A imagem não é perfeição sem pecado, mas restauração funcional, como recolocar um osso: divisão dói, paralisa e exige tratamento; reconciliação cura, realinha e devolve mobilidade ao Corpo (Salmo 147:3; Colossenses 3:14). Passos práticos: confessar pecados específicos (Tiago 5:16), buscar perdão e oferecer perdão setenta vezes sete (Mateus 18:21–35), nomear feridas e pedir mediação sábia (Filipenses 4:2–3), submeter-se à Palavra e à disciplina (Mateus 18:15–20), praticar atos concretos de honra e serviço mútuo (Romanos 12:10–13), e selar compromissos de paz (Efésios 4:2–3). Sem humildade e mansidão não há sutura que segure (Filipenses 2:1–4; Colossenses 3:12–13). Pergunta direta: estou disposto a ser “agente de ajuste” — dar o passo primeiro, ceder direitos, ouvir, pedir perdão e servir o outro — para que o Corpo volte a funcionar?) ...na mesma disposição mental... (O nous designa a sede da percepção e do julgamento; aqui, a mente comum moldada pelo evangelho. A referência última é a “mente de Cristo” compartilhada pelo povo que discerne à luz do Espírito (1 Coríntios 2:16; Filipenses 2:5). O evangelho cria nova maneira de pensar que transcende diferenças culturais e pessoais: humildade que considera o outro, cruz como sabedoria, Reino como prioridade (Filipenses 2:1–11; Romanos 12:1–2; 2 Coríntios 5:16–17). Discipulado, então, foca formar a mente segundo as Escrituras e não só aparar comportamentos: renovação pela Palavra, cativeiro de pensamentos à obediência de Cristo, treino de discernimento pela prática (Romanos 12:2; 2 Coríntios 10:5; Hebreus 5:14; Salmo 1). Autoexame: minha mente está sendo lavada pela Palavra ou segue moldes do século — pragmatismo, tribalismo, ressentimento, imediatismo (Efésios 4:23; Colossenses 3:2)?) ...e no mesmo parecer. (kai en tē autē gnōmē — “e no mesmo parecer/juízo”) (gnōmē no grego do Novo Testamento frequentemente indica juízo prático, resolução comunitária (1 Coríntios 7:25, 40; 2 Coríntios 8:10). Ter “o mesmo parecer” é chegar a consensos que traduzem a mente comum em direções e decisões. A unidade nos princípios (mente) se desdobra em unidade nas escolhas (parecer): doutrina molda prática (Tiago 1:22–25; João 13:17). Como decidir de modo unificado com opiniões divergentes? O padrão apostólico mostra: oração e jejum, escuta da Palavra, relato honesto de fatos, debate reverente, submissão mútua, e conclusão reconhecida como obra do Espírito — “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (Atos 13:2–3; Atos 15:6–29; Tiago 3:17). A liderança serve catalisando consenso em torno da verdade, não vencendo o povo no cansaço (1 Pedro 5:2–3). Na hora de opinar, busco o bem comum e a edificação, pronto a ceder preferências por amor, ou luto pela vitória do meu parecer (1 Coríntios 10:24, 31–33; Romanos 15:1–7; Filipenses 2:3–4)? Em todo o versículo, a morfossintaxe de 1 Coríntios 1:10 — parakalō… dia tou onomatos… hina to auto legēte… kai mē ē… schismata, ēte de katērtismenoi en tō autō noi kai en tē autē gnōmē — traça um caminho: apelo fraterno sob a autoridade de Jesus; confissão uníssona do evangelho; erradicação de rasgos no tecido comunitário; “redução de fratura” por restauração; formação de uma mente comum; e deliberação convergente. Tudo respira a obra do Crucificado que faz dos muitos, um — para glória de Deus [Efésios 2:14–22; João 17:20–23; Salmo 133].)

1 Coríntios 1:11 Pois a vosso respeito, meus irmãos,... (A partícula pós-positiva gar (“pois”) amarra o apelo do versículo 10 à razão que o motiva: Paulo não corrige por rumor vago, mas porque há causa concreta. A locução peri hymōn (“a respeito de vós”) delimita o assunto, e o vocativo repetido adelphoi mou (“meus irmãos”) suaviza a dureza do que virá: a exortação nasce de um vínculo familiar, não de superioridade fria. Essa reafirmação do relacionamento é crucial antes de apresentar queixas: quem corrige lembra que fala a membros do mesmo corpo (Romanos 12:4–5), alvos do mesmo sangue (Atos 20:28), participantes da mesma adoção (Romanos 8:15–17). Esse padrão — afeto e verdade — percorre a Escritura: “fiel são as feridas do amigo” (Provérbios 27:6); “seguir a verdade em amor” (Efésios 4:15); “se teu irmão pecar, vai e repreende-o entre ti e ele só” (Mateus 18:15). O equilíbrio entre a afirmação (1 Coríntios 1:4–9) e a confrontação (1 Coríntios 1:10ss) espelha o modo do Senhor nas cartas às igrejas: “Conheço… porém tenho contra ti” (Apocalipse 2–3). Aprendo, então, a confrontar lembrando-me de quem tenho diante de mim — “meus irmãos”; isso refreia aspereza, evita sarcasmo e orienta a meta para ganhar o irmão (Gálatas 6:1; 2 Timóteo 2:24–26). E aplico ao meu coração: estou aberto a rogos e exortações de meus irmãos, recebendo-as como cuidado de Deus? “Não rejeite a disciplina do Senhor… porque o Senhor corrige a quem ama” (Provérbios 3:11–12; Hebreus 12:5–11).) ...fui informado,... (edēlōthē moi — aoristo passivo de dēloō, “foi tornado claro para mim”) (Paulo não é onisciente; ele se informa por meios ordinários, e isso ilumina o fluxo de informações e a responsabilidade na igreja primitiva. O uso do passivo sugere que a notícia “lhe chegou” por canais reconhecíveis; a mesma ideia ocorre em 1 Coríntios 5:1 (“geralmente se ouve”) e em 1 Tessalonicenses 3:6 (Timóteo traz “boas novas” sobre a fé e amor deles). Relatar problemas a líderes não é errado; é parte do cuidado do corpo, desde que feito para restaurar, não para difamar: “não andarás como mexeriqueiro… mas repreenderás francamente o teu próximo, para que não participes do seu pecado” (Levítico 19:16–17). A diferença entre informação responsável e fofoca destrutiva aparece na finalidade e no caminho: a informação busca solução segundo Mateus 18:15–17 (etapas de correção), preserva a verdade e a caridade (Efésios 4:25, 29), submete-se ao critério de testemunhas (Deuteronômio 19:15; 2 Coríntios 13:1) e, no caso de presbíteros, evita acusações sem duas ou três testemunhas (1 Timóteo 5:19); já a fofoca espalha contenda, rompe confidência e alimenta o fogo (Provérbios 11:13; 16:28; 26:20–22). Igrejas podem criar canais saudáveis estabelecendo: (1) cultura de Mateus 18 (tratar diretamente antes de escalar), (2) diáconos e presbíteros acessíveis (Atos 6:1–7; 20:28), (3) comitês de cuidado e reconciliação saturados de Escritura e oração (Tiago 3:17–18), e (4) normas claras contra boatos. Quando vejo um problema, sou chamado a buscar solução bíblica — começando em particular, envolvendo testemunhas, e então a liderança — em vez de ventilar irritação (Gálatas 6:1; Romanos 12:18).) ...pelos da casa de Cloe, (hypo tōn Chloēs — “pelos de Cloe”, a preposição hypo com genitivo indica agência: “por” quem trouxe a informação; a expressão “os de Cloe” aponta para gente da esfera/“casa” dela — família, servos ou associados — e mostra que Paulo nomeia sua fonte. Nomear a fonte, presumivelmente com consentimento, ensina transparência e responsabilidade: evita “denúncias” anônimas que encorajam injustiça, permite averiguação, confere coragem e integridade às queixas [cf. 3 João 12, onde o bom testemunho é público]. A Escritura desaconselha acusações sem testemunhas identificáveis [Deuteronômio 19:15; 1 Timóteo 5:19] e louva quem assume posição pela verdade [Provérbios 28:1; Atos 4:19–20]. Vemos, em outras saudações, casas nomeadas no serviço do evangelho [Romanos 16:10–11; Filipenses 4:22; 1 Coríntios 16:15], mostrando que Deus trabalha por famílias e redes. A lição prática: estou disposto a me identificar com as preocupações que levanto, assumindo responsabilidade por minhas palavras, buscando a restauração e não minha proteção pessoal? “Falai a verdade cada um com o seu próximo” [Efésios 4:25].) ...de que há contendas entre vós. (hoti erides en hymin eisin — “que contendas há entre vós”) (o hoti introduz conteúdo da informação; erides é nominativo plural de eris, “contendas, rixas”, termo que o Novo Testamento classifica como “obra da carne” (Gálatas 5:20) e que Paulo lista entre pecados que corroem a comunhão (Romanos 1:29; 2 Coríntios 12:20). O presente eisin com en hymin (“entre vós”) indica estado em andamento dentro da congregação, sinal de imaturidade espiritual (1 Coríntios 3:1–3). Raízes comuns das contendas incluem orgulho (Provérbios 13:10; Filipenses 2:3), inveja e ciúmes (Tiago 3:14–16; 4:1–2), vaidade de gloriar-se em homens (1 Coríntios 3:21), amor à primazia (3 João 9–10) e ambição facciosa (eritheia, primo semântico de eris; Filipenses 2:3; Gálatas 5:20). Tratar somente sintomas (silenciar boatos, trocar líderes) não resolve; é preciso diagnosticar as fontes: que “sabedoria” está governando — a terrena, animal e demoníaca, que produz confusão, ou a do alto, pura e pacífica? (Tiago 3:13–18). O cuidado inclui: (1) centralizar a cruz que destrói vanglória (1 Coríntios 1:18–31; Gálatas 6:14), (2) cultivar humildade e serviço (Marcos 10:42–45; João 13:14–15), (3) ensinar a falar a verdade em amor e a refrear língua (Efésios 4:15, 29; Tiago 1:19; 3:1–12), (4) praticar reconciliação rápida (Mateus 5:23–24; Romanos 12:18), (5) exercer disciplina restauradora quando necessário (Mateus 18:15–20; 2 Tessalonicenses 3:14–15), e (6) orar pela paz e buscar o bem da cidade e da igreja (Salmo 34:14; Jeremias 29:7; Hebreus 12:14). O exame do coração é inevitável: nutro espírito contencioso? Amo mais “estar certo” do que “buscar a paz e a edificação” (Romanos 14:19)? A bem-aventurança do Reino é para pacificadores (Mateus 5:9); o caminho é negar-se, tomar a cruz e seguir o Cordeiro que, acusado, não revidou, mas confiou ao Justo Juiz (1 Pedro 2:21–23).)

1 Coríntios 1:12 Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: (legō de touto, hoti hekastos hymōn legei — “digo isto, que cada um de vós diz”) (a partícula de marca transição: Paulo especifica o problema. A cláusula completiva hoti introduz o conteúdo do relato. O pronome indefinido hekastos (“cada um”) com o genitivo hymōn (“de vós”) e o presente legei (3ª sing.) expõem a raiz do facciosismo: a ênfase no indivíduo que absolutiza sua voz e preferência. O eu hipertrofiado — “hekastos… legei” — substitui o “um só Corpo… um só Senhor, uma só fé” (Efésios 4:4–6). Assim, a identidade pessoal passa a ser definida pela afiliação a um líder em vez da união com Cristo (1 Coríntios 1:9; 3:21–23); isso reencena o padrão veterotestamentário de “cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos” (Juízes 21:25) e o drama do Éden, quando a voz própria eclipsa a Palavra de Deus (Gênesis 3:1–6). O culto à personalidade hoje espelha Corinto quando comunidades se organizam em “tribos” de pregadores, teólogos ou marcas ministeriais, medindo ortodoxia por lealdade de grupo e não pela fidelidade ao evangelho (Gálatas 1:6–9; Colossenses 2:8). Remédio: líderes precisam apontar constante e publicamente para Cristo, como servos e despenseiros (1 Coríntios 3:5–7; 4:1–2), dizendo com João: “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (João 3:30), e com Paulo: “não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor” (2 Coríntios 4:5). Isso envolve: pregação centrada na cruz (1 Coríntios 2:2), estruturas que distribuem ministério e visibilidade (Efésios 4:11–16; Romanos 12:4–8), prestação de contas plural (Atos 13:1–3; 20:28–31), e disciplina do coração que recusa glória humana (Jeremias 9:23–24; 1 Tessalonicenses 2:4–6). O autoexame é inescapável: minha identidade cristã está mais colada a um “time” evangélico do que a Cristo? A Escritura dirige: “Não vos glorieis nos homens… tudo é vosso… e vós de Cristo, e Cristo de Deus” (1 Coríntios 3:21–23; Salmo 146:3; Jeremias 17:5).) Eu sou de Paulo,... (egō men eimi Paulou — “eu, de Paulo”, a anáfora egō [“eu”] repetida com o men… de… de… de estrutura um cardápio de lealdades. O genitivo Paulou funciona como genitivo de pertença/aliança: “sou do partido de Paulo”. Mesmo a lealdade ao fundador é problemática quando desloca o centro: a boa dádiva [um líder fiel] vira ídolo quando recebe o que pertence a Cristo [Efésios 4:11–12; 1 Coríntios 1:30; Atos 14:11–15]. Paulo mesmo desfaz o mito: “Que é Apolo? Que é Paulo? Servos… Eu plantei, Apolo regou; Deus é quem dá o crescimento” (1 Coríntios 3:5–7). Como lidar, pastoralmente, com lealdades pessoais excessivas? (1) Reafirmar publicamente a centralidade de Cristo (Colossenses 1:18); (2) redistribuir palco e responsabilidades para outros dons (1 Coríntios 12:4–27); (3) recusar títulos inflados (Mateus 23:8–10); (4) praticar transparência e prestação de contas (2 Coríntios 8:20–21); (5) celebrar outras igrejas e obreiros (Romanos 16). Aos membros: honrar líderes, sim (Hebreus 13:7, 17), mas sem idolatria; provar tudo pelas Escrituras (Atos 17:11). Examine-se: honro meus líderes sem usá-los como bandeira para me distinguir dos irmãos (Romanos 12:10; 1 Coríntios 4:6–7)?) ...e eu, de Apolo, (egō de Apollō) (Apolo, “varão eloquente” e “poderoso nas Escrituras”, de Alexandria, “instruído no caminho do Senhor”, refutava vigorosamente os judeus, mostrando pelas Escrituras que Jesus é o Cristo (Atos 18:24–28; 19:1). Para parte dos coríntios, Apolo representava um cristianismo intelectualmente polido, retoricamente brilhante — tentação de transformar “estilo” em sinal de superioridade. Paulo corrige: a cruz relativiza a “sabedoria de palavras” (1 Coríntios 1:17; 2:1–5). Como valorizar diferentes estilos sem convertê-los em bandeiras rivais? (1) Reconhecer diversidade legítima de dons e ênfases (1 Pedro 4:10–11); (2) aferir ministérios pelo conteúdo e fruto, não pelo carisma (Mateus 7:16; 1 Tessalonicenses 2:3–8); (3) cultivar uma cultura de complementaridade — Paulo planta, Apolo rega — sob a mesma missão (1 Coríntios 3:8–9; Efésios 4:15–16). Autoexame: sou atraído principalmente pelo brilho do orador, ou pela fidelidade da mensagem de Cristo crucificado e ressuscitado (Gálatas 1:10; 6:14; 2 Coríntios 4:2)?) ...e eu, de Cefas,... (egō de Kēpha) (Cefas é Pedro, apóstolo do Senhor, pilar da igreja em Jerusalém (Gálatas 2:9). Para alguns, ele simbolizava autoridade originária e tradição judaica: risco de usar “Jerusalém” ou “os que vieram de Tiago” (Gálatas 2:12) como selo para preferências culturais, impondo cargas além do evangelho (Atos 15:1–11). A diversidade de influências na igreja primitiva é real — Jerusalém, Antioquia, Alexandria —, mas o Concílio de Atos 15 mostrou como discernir: Escrituras, testemunho do Espírito, e comunhão resultante (“pareceu bem ao Espírito Santo e a nós”, Atos 15:28). Como lidar com facções que se abrigam sob “tradição”? Acolher tradição como testemunha que serve ao evangelho (2 Tessalonicenses 2:15), não como arma para ferir irmãos; submeter práticas herdadas ao critério de Cristo e dos apóstolos (Marcos 7:8–13; 1 João 4:6). Pessoalmente: apoio-me na tradição como alicerce que me ancora em Cristo — a fé “uma vez por todas entregue aos santos” (Judas 3) — ou como clava para desqualificar quem difere em não-essenciais (Romanos 14:1–4; 15:1–7)?) ...e eu, de Cristo. (egō de Christou) (paradoxalmente, até este lema se torna faccioso quando é usado para se sobrepor à comunidade e à liderança ordenada, reivindicando espiritualidade superior: “nós somos os verdadeiros ‘de Cristo’, não precisamos de apóstolos, presbíteros ou irmãos”. É a forma mais sutil de orgulho, porque usa o nome mais alto para dividir (cf. Isaías 58:2–3: “como se fossem…”) e ecoa a independência espiritual que recusa mediações que o próprio Cristo estabeleceu (Efésios 4:11–16; Hebreus 13:7, 17). Como lidar com o “partido de Cristo” hoje? (1) Ensinar que submeter-se uns aos outros e a líderes piedosos é expressão — não negação — do senhorio de Cristo (Efésios 5:21; 1 Pedro 5:5); (2) mostrar que “estar em Cristo” implica estar no corpo (1 Coríntios 12:12–27; 1 João 3:14); (3) lembrar que a verdadeira espiritualidade confessa Cristo encarnado e obedece seus mandamentos de amor (1 João 4:1–3; João 13:34–35). Autoexame final: uso meu relacionamento com Cristo para unir-me aos irmãos — suportando, perdoando, cooperando — ou para isolar-me, julgando-me acima deles (Colossenses 3:12–15; Romanos 12:16–18)? O apelo apostólico reconduz ao centro: “foi Cristo dividido? foi Paulo crucificado por vós? ou fostes batizados em nome de Paulo?” (1 Coríntios 1:13). O único Nome sob o qual vivemos e nos identificamos é Jesus (Atos 4:12); todos os outros nomes — Paulo, Apolo, Cefas — são dons; o Senhor é o Tesouro.)

1 Coríntios 1:13 Acaso, Cristo está dividido? (memeristai ho Christos? — perfectum passivo indicativo 3ª sing. de merizō, “foi dividido/partido”, a forma perfeita memeristai descreve um estado resultante: “estaria Cristo em condição de divisão?” — pergunta retórica cuja resposta é um “não” categórico. Essa construção expõe o absurdo teológico das cisões e choca a consciência: se a igreja é “corpo de Cristo e, individualmente, membros desse corpo” [1 Coríntios 12:27], cindir a comunhão declara, implicitamente, que o próprio Cristo pode ser repartido. A Escritura afirma a indivisibilidade do Messias e da sua obra: há “um só corpo e um só Espírito… um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos” [Efésios 4:4–6]; pelo sangue da cruz, Cristo “fez ambos um… derrubando a parede de separação… para criar, em si mesmo, dos dois, um novo homem” [Efésios 2:14–16]. Quando há schisma no corpo (Paulo usa esse termo mais adiante: “para que não haja schisma no corpo” [1 Coríntios 12:25]), a mensagem prática que emitimos é que a cruz falhou em unificar, negando a oração de Jesus “para que todos sejam um… para que o mundo creia” [João 17:21–23]. A pergunta, portanto, é instrumento de “terapia de choque”: como Natã diante de Davi (“Tu és esse homem” [2 Samuel 12:7]), ela desmascara a gravidade do pecado de divisão, que Deus abomina (aquele que “semeia contendas entre irmãos” [Provérbios 6:16–19]). Aplicação pessoal: quando participo de uma divisão — por vaidade, ressentimento, panelas, slogans —, percebo que, em essência, estou simbolicamente “rasgando” o corpo que Cristo uniu? A Ceia do Senhor adverte: não discernir o corpo (isto é, desprezar a unidade) profana o corpo e o sangue do Senhor [1 Coríntios 11:17–22, 27–29]. O chamado é arrepender-se, buscar reconciliação imediata e “seguir a paz” [Mateus 5:23–24; Hebreus 12:14].) Foi Paulo crucificado em favor de vós... (mē Paulos estaurōthē hyper hymōn? — aoristo passivo 3ª sing. de stauroō com hyper “em favor de, por causa de”, a partícula introduz pergunta retórica que espera “não”: Paulo desloca o foco ao centro inegociável — a obra expiatória do Cordeiro. Quem foi crucificado “por vós”? Somente Cristo: “o qual a si mesmo se entregou por nossos pecados” [Gálatas 1:4]; “levou ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro” [1 Pedro 2:24]; cumprimento do Servo sofredor [Isaías 53:4–6, 10–11]. A identidade do Salvador é a identidade da Igreja: ela pertence a quem a comprou com seu sangue [Atos 20:28], é a noiva por quem o Noivo se entregou [Efésios 5:25–27], é “povo de propriedade exclusiva” de Deus [1 Pedro 2:9]. Por isso, a pregação centrada na cruz é o antídoto mais poderoso contra personalismo e culto à personalidade: “Cristo… não me enviou para batizar, mas para evangelizar, não com sabedoria de palavras, para que não se anule a cruz” [1 Coríntios 1:17]; “nada me propus saber… senão a Jesus Cristo e este crucificado” [1 Coríntios 2:2]; “longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz” [Gálatas 6:14]. A cruz relativiza o mensageiro, glorifica o Redentor e reconcilia facções hostis [Colossenses 1:20–22]. Exame: minha lealdade fundamental está com quem me salvou — Cristo — ou com quem me ensinou e me agrada? A Escritura manda honrar os que presidem [Hebreus 13:7, 17], mas proíbe gloriar-se em homens [1 Coríntios 3:21–23]. O discipulado maduro agradece por Paulo, Apolo, Pedro — e curva-se somente diante do Crucificado e Ressuscitado [Apocalipse 5:9–13].) ...ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo? (ē eis to onoma Paulou ebaptisthēte?ebaptisthēte, aoristo passivo 2ª plural de baptizō; locução eis to onoma “para dentro do nome/autoridade/posse de”. Ser batizado eis to onoma significa ser transferido para a esfera, a posse e a lealdade da pessoa nomeada. Jesus instituiu o batismo “em o nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” [Mateus 28:19], e os Atos falam de ser batizado “em nome de Jesus Cristo” [Atos 2:38; 10:48; 19:5], isto é, sob sua autoridade salvífica. O batismo sinaliza união com Cristo em sua morte e ressurreição — “fomos batizados em sua morte… para que vivamos em novidade de vida” [Romanos 6:3–5; Colossenses 2:12] — e revestimento de Cristo: “todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes” [Gálatas 3:27]. Logo, ele não ata o batizando ao administrador humano, mas ao Deus triúno; reduzir o batismo à marca de um líder humano perverte seu significado. Na própria carta, Paulo agradece por ter batizado poucos em Corinto exatamente para não alimentar partidarismos (ver 1 Coríntios 1:14–17). Como usar a cerimônia para ensinar unidade e lealdade exclusiva a Cristo? (1) Confessar publicamente a Trindade e a centralidade da cruz; (2) recitar a “uma só fé, um só batismo” [Efésios 4:5]; (3) envolver a congregação com votos de acolhimento e responsabilidade mútua [1 Coríntios 12:12–27]; (4) lembrar renúncias (mundo, carne, diabo) e a nova obediência [Tito 2:11–14]. Aplicação pessoal: lembro o meu batismo como chamado a morrer para lealdades facciosas e viver para Cristo? “Considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” [Romanos 6:11]; “já não há grego nem judeu… Cristo é tudo em todos” [Colossenses 3:11]. O selo do batismo nos convoca, não a levantar bandeiras de homens, mas a andar “dignos da vocação”, “suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” [Efésios 4:1–3].)

1 Coríntios 1:14 Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei,... (eucharistō hoti oudena hymōn ebaptisa — “dou graças porque a ninguém dentre vós batizei”. O verbo eucharistō é presente do indicativo ativo, 1ª pessoa, descrevendo um hábito devocional; oudena é acusativo de “ninguém”; ebaptisa é aoristo ativo, 1ª pessoa, de baptizō, indicando ação passada definida. Paulo, que sem dúvida valoriza o batismo — sinal de união com Cristo [Romanos 6:3–5; Gálatas 3:27; Colossenses 2:12] e ordenança do Senhor [Mateus 28:19; Marcos 16:16] — agradece, paradoxalmente, por não ter batizado muitos em Corinto. Por quê? Porque sua prioridade é preservar a centralidade exclusiva de Cristo e evitar qualquer escândalo que desvie a glória da cruz para o ministro humano. Ele mesmo explica: “Cristo não me enviou para batizar, mas para evangelizar; não com sabedoria de palavras, para que não se anule a cruz de Cristo” [1 Coríntios 1:17]. Em um ambiente já inflamado por slogans de facção [1 Coríntios 1:12], quantos mais batismos feitos por suas próprias mãos, tanto maior o risco de verem o rito como “marca paulinista” — precisamente o que ele quer impedir. Isso ecoa o cuidado apostólico de “não dar motivo de escândalo em coisa alguma, para que o ministério não seja censurado” [2 Coríntios 6:3], de “não pôr tropeço ao irmão” [Romanos 14:13], de “não buscar o próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos” [1 Coríntios 10:31–33]. Há aqui uma lição robusta aos líderes: abrir mão de “direitos”, símbolos de prestígio e métricas de sucesso (como “número de batismos feitos por mim”) em favor do bem maior da igreja e da glória de Cristo [1 Coríntios 9:12, 19–23; Filipenses 2:3–8]. A maturidade ministerial mede-se não pelo acúmulo de créditos pessoais, mas por quão invisível o servo consegue ficar para que só Cristo apareça [João 3:30; 2 Coríntios 4:5]. Aplicação ao coração: estou mais preocupado com meu “legado” e com métricas que me favorecem, ou com a glória de Cristo e a saúde do seu povo? “Quem se gloria, glorie-se no Senhor” [1 Coríntios 1:31; Jeremias 9:23–24].) ...exceto Crispo e Gaio; (ei mē Krispon kai Gaion — “exceto Crispo e Gaio”) (ei mē é partícula exceptiva; os nomes aparecem no acusativo direto.) A menção precisa de indivíduos sublinha memória concreta e veracidade histórica. Crispo era o principal da sinagoga em Corinto; “creu no Senhor com toda a sua casa” [Atos 18:8], caso emblemático da graça que alcança lideranças judaicas e influencia muitos. Gaio é muito provavelmente o crente coríntio a quem Paulo se refere como “hospedeiro meu e de toda a igreja” [Romanos 16:23], sinal de hospitalidade que servia a missão (cf. 3 João 5–8, ainda que esse Gaio de 3 João seja outro). A precisão de Paulo (e, no versículo seguinte, a correção honesta ao lembrar também “a casa de Estéfanas” [1 Coríntios 1:16]) mostra integridade: ele não manipula dados para reforçar o ponto, mas nomeia e, se precisa, corrige o próprio registro — marca de verdade e humildade. A lembrança e o reconhecimento de pessoas específicas têm valor espiritual: Escrituras cheias de nomes nos mostram que Deus trabalha por pessoas, famílias e histórias (vide Romanos 16 inteiro; Filipenses 4:2–3; Colossenses 4:7–17). Comunidades sadias celebram conversões e testemunhos particulares, não como troféus de pregadores, mas como vitrines da graça soberana [Salmo 66:16; Marcos 5:19–20; Atos 21:19]. Pergunta prática: valorizo e narro as histórias de conversão na minha igreja — memorizando nomes, orando por lares, celebrando passos de fé —, ou reduzo a vida da comunidade a números impessoais? “Alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha perdida” [Lucas 15:6].)

1 Coríntios 1:15 para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. (hina mē tis eipē hoti eis to emon onoma ebaptisthēte — “para que ninguém diga: fostes batizados no meu nome”; hina introduz propósito; mē tis eipē é aoristo subjuntivo de legō no 3ª sing., prevenindo uma alegação futura; eis to emon onoma — “para dentro do meu nome” — usa eis para transferência de esfera e lealdade; ebaptisthēte é aoristo passivo 2ª plural.) Paulo reforça a distinção entre o agente do rito e o Nome no qual o rito é realizado. Ser batizado “em nome de” alguém significa ser marcado pelo seu senhorio e pertença [cf. eis to onoma em Mateus 28:19]. O mandamento do Senhor é inequívoco: o batismo é “em o nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” [Mateus 28:19]; e o testemunho apostólico resume como “em nome de Jesus Cristo” [Atos 2:38; 10:48; 19:5], isto é, sob a autoridade do Cristo, não do ministro. O batismo sela nossa união com Cristo (morte e ressurreição) e nossa nova lealdade ao Deus triúno [Romanos 6:3–5; Colossenses 2:12], não a um administrador humano. Por isso, cuidados práticos se impõem para que os sacramentos sempre apontem para Cristo: (1) ensino claro e repetido sobre o significado do batismo e sua referência exclusiva ao Nome divino [Efésios 4:4–6]; (2) liturgias que recitem o mandato e a promessa de Cristo (Mateus 28:18–20; Romanos 6:3–11), com ênfase na cruz e na ressurreição; (3) evitar transformar o ministro em protagonista — pode-se, inclusive, envolver outros presbíteros/diáconos no ato, sublinhando que a igreja, sob Cristo, o administra [Atos 13:1–3]; (4) registro e testemunho que deem glória a Deus, não a pessoas [Salmo 115:1]. Para quem participa, a pergunta é: entro nas águas focado em Deus ou fascinado com quem preside? O batismo me lembra que morri para todas as lealdades facciosas e vivo agora para Cristo e seu corpo? [Romanos 6:11; Colossenses 3:1–4; 1 Coríntios 12:12–13]. A cada batismo, a igreja confessa: “um só Senhor, uma só fé, um só batismo” — e renova o compromisso de “preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” [Efésios 4:5, 3].)

1 Coríntios 1:16 Batizei também a casa de Estéfanas;... (ebaptisa de kai ton oikon Stephana — “batizei também a casa [família] de Estéfanas”) (o verbo ebaptisa é aoristo ativo de baptizō, 1ª pessoa do singular; ton oikon é acusativo de objeto direto, de oikos, “casa/lar/household”, abrangendo família nuclear e pessoas vinculadas ao lar — filhos, servos, dependentes; Stephana é nome próprio no acusativo. A menção de “batismo da casa” ilumina a prática batismal e a natureza corporativa da fé no início da igreja. O Novo Testamento registra padrões semelhantes: Lídia “foi batizada, e bem assim a sua casa” (Atos 16:15); o carcereiro de Filipos ouviu a Palavra “ele e todos os de sua casa”, foi batizado “ele e todos os seus”, e “alegrou-se com toda a sua casa, por haver crido em Deus” (Atos 16:31–34); Crispo “creu no Senhor com toda a sua casa” (Atos 18:8); em Corinto, a mesma “casa de Estéfanas” mais tarde é chamada “as primícias da Acaia” e conhecida por “se dedicar ao serviço dos santos” (1 Coríntios 16:15). Esses relatos, sem especificarem idades, mostram o evangelho alcançando unidades domésticas inteiras, o que ressoa com o fio bíblico da aliança que abraça casas: Noé e sua casa salvos (Gênesis 7:1), Abraão recebendo o sinal da aliança para ele e para “todos os de sua casa” (Gênesis 17:12–13), Josué declarando “eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24:15), a instrução contínua dos filhos “quando te deitares e quando te levantares” (Deuteronômio 6:6–7; Salmo 78:5–7). Em Cristo, essa dimensão se aprofunda: um cônjuge crente “santifica” a esfera doméstica e os filhos são considerados “santos” (hagioi), isto é, separados em relação à influência do evangelho (1 Coríntios 7:14), e os códigos domésticos tomam o lar como lugar de discipulado (Efésios 5:22–6:4; Colossenses 3:18–21). Assim, a referência a oikos não resolve sozinha debates posteriores (por exemplo, batismo de crianças), mas certamente afirma que a fé tem alcance familiar e que o anúncio e o discipulado devem mirar casas inteiras: a Palavra foi “falada a todos os que estavam em sua casa” (Atos 16:32), e o fruto foi comunitário (Atos 16:34). Isso ensina que o evangelho deve ser apresentado não apenas a indivíduos isolados, mas a famílias: pais instruindo filhos (Efésios 6:4; 2 Timóteo 3:15), esposas ganhando maridos “sem palavra” pelo testemunho (1 Pedro 3:1–2), lares se tornando bases de missão e hospitalidade (Romanos 16:5; 1 Pedro 4:9; 3 João 5–8). Pergunta devocional: oro e trabalho pela salvação de toda a minha “casa” — intercedendo por nomes, abrindo a Bíblia em casa, praticando hospitalidade que expõe minha família à graça — ou terceirizo tudo ao culto de domingo? O Deus que alcançou a “casa de Estéfanas” continua formando igrejas a partir de mesas de jantar e salas de estar.) ...além destes, não me lembro se batizei algum outro. (loipon ouk oida ei tina allon ebaptisa — “quanto ao mais, não sei se batizei algum outro”) (loipon “quanto ao restante”; ouk oida é perfeito de oida com sentido presente: “não sei/não me recordo”; ei introduz oração indireta; tina allon “algum outro”; ebaptisa repete o aoristo de baptizō.) Essa admissão de esquecimento nos ensina algo precioso sobre a inspiração bíblica: Deus soprou as Escrituras por meio de autores reais, sem apagar suas limitações humanas (2 Timóteo 3:16; 2 Pedro 1:21). A inspiração garante a veracidade e autoridade da mensagem — “não pode falhar a Escritura” (João 10:35) —, mas não transforma o escritor em onisciente; Paulo distingue, inclusive, quando transmite preceito do Senhor e quando oferece conselho apostólico autorizado (1 Coríntios 7:10–12), sempre sob o Espírito (1 Coríntios 7:40). Lucas investigou “tudo cuidadosamente” para escrever “com exatidão” (Lucas 1:1–4), mostrando o componente histórico humano sob a providência divina. Aqui, a honestidade de Paulo (“não me lembro”) longe de enfraquecer a confiança, a fortalece: líderes que admitem limites e falhas de memória inspiram credibilidade — “o nosso orgulho é este: o testemunho da nossa consciência, de que com simplicidade e sinceridade de Deus temos vivido no mundo” (2 Coríntios 1:12); “para que ninguém pense de mim além do que em mim vê ou de mim ouve” (2 Coríntios 12:6). A igreja aprende a valorizar a verdade acima da imagem: “o que encobre as suas transgressões jamais prosperará; o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Provérbios 28:13). Cuidados práticos decorrem: sacramentos e ministérios devem ser organizados de modo que Cristo apareça, não o ministro; registros servem à memória comunitária, não ao culto do pregador (Salmo 115:1; 1 Coríntios 3:5–7). E há uma lição de formação para todos: humildade em dizer “não sei” ou “não me lembro” evita dogmatismos e abre espaço para pesquisa, colegiado e correção (Tiago 3:1; Provérbios 11:14; Atos 15:6–7). Exame pessoal: sinto-me confortável em admitir minhas limitações e não ter todas as respostas, confiando que “conhecemos em parte” (1 Coríntios 13:9), ou fico refém de uma persona infalível? O Deus que usa “vasos de barro” recebe glória justamente pela transparência de servos que apontam para Ele (2 Coríntios 4:7).

1 Coríntios 1:17 Porque não me enviou Cristo para batizar,... (ou gar apesteilen me Christos baptizeinapesteilen, aoristo indicativo ativo 3ª sing. de apostellō, “enviar com missão”; baptizein, infinitivo presente, “batizar”. Paulo estabelece uma hierarquia de prioridades no seu chamado: ele foi “enviado” primariamente para a obra que gera e sustenta a igreja — a proclamação que cria fé — e não para a tarefa, igualmente ordenada, mas derivada, de administrar o sinal dessa fé. Isso não diminui o batismo, que é mandamento do Senhor e sinal de união com Cristo [Mateus 28:19; Romanos 6:3–5; Gálatas 3:27]; antes, protege sua função: o batismo sela o que o evangelho cria. A Escritura mostra esse discernimento de prioridades: Jesus disse “é para isso que vim, para pregar” [Marcos 1:38; Lucas 4:43]; os apóstolos, diante de uma necessidade legítima, recusaram abandonar “a oração e o ministério da Palavra” para servir às mesas, estabelecendo diáconos para que a prioridade da Palavra não fosse sufocada [Atos 6:2–4]. Assim, líderes e igrejas discernem prioridades quando aferem tudo pela missão que Cristo confiou: fazer discípulos por meio da Palavra e dos sacramentos, com a Palavra no lugar de primazia [Mateus 28:18–20; 2 Timóteo 4:2; 1 Tessalonicenses 1:5]. Atividades boas (administração, calendário, eventos, mesmo sacramentos) se tornam danosas quando substituem o principal. O antídoto é cultivar estruturas que preservem o foco: tempo consagrado à oração e ao estudo, pregação expositiva regular, formação de líderes que partilham encargos (para que “não falte” Palavra), e métricas que celebrem fidelidade e fruto espiritual (arrependimento, fé, amor), não apenas números [Efésios 4:11–16; Colossenses 1:28–29; 1 Coríntios 3:5–7]. Isso desce ao chamado pessoal: quais são minhas prioridades como cristão? Amar a Deus e ao próximo [Mateus 22:37–39], buscar primeiro o Reino [Mateus 6:33], guardar tudo quanto Jesus ordenou [João 14:15], participar no testemunho do evangelho [1 Pedro 3:15], perseverar em santidade e comunhão [Hebreus 10:24–25; 1 Pedro 1:15–16]. A pergunta é se estou focado no principal ou distraído por secundários. Paulo podia abrir mão de “direitos” legítimos para que nada impedisse o evangelho [1 Coríntios 9:12, 19–23]. O mesmo zelo guarda nossas agendas para que Cristo — não nossas métricas — seja magnificado [Filipenses 1:18–21].) ...mas para pregar o evangelho;... (alla euangelizesthaialla, adversativa forte; euangelizesthai, infinitivo presente médio de euangelizō, “anunciar boas-novas”. A tarefa definidora do apostolado é proclamar o euangelion. O conteúdo essencial é o que Paulo resume: “o evangelho que vos anunciei… que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu…” [1 Coríntios 15:1–4]; esse evangelho, prometido “de antemão” [Romanos 1:1–4], cumpre as alianças e profecias [Gênesis 12:3; 2 Samuel 7:12–16; Isaías 52:7; 53; Jeremias 31:31–34], revela a justiça de Deus que justifica o pecador pela fé [Romanos 3:21–26], reconcilia e cria nova humanidade [Efésios 2:13–18], chama ao arrependimento e à fé em Jesus como Senhor [Marcos 1:15; Romanos 10:9–10]. A centralidade dessa proclamação em tudo que a igreja faz é questão de vida: o evangelho é “poder de Deus para salvação” [Romanos 1:16], é o que gera, nutre e mantém a igreja [1 Tessalonicenses 2:13; Tiago 1:18, 21]. Como garantir sua centralidade do culto ao serviço social? (1) No culto: leitura pública das Escrituras, sermão que expõe o texto e anuncia Cristo [1 Timóteo 4:13; Lucas 24:27, 44–47]; sacramentos como evangelho visível (batismo e ceia; 1 Coríntios 10:16–17; 11:26); liturgia que confessa o evangelho (pecado, graça, resposta). (2) No discipulado e diaconia: projetos sociais que “ornem a doutrina” [Tito 2:10], apontando para o Cristo que salva; aconselhamento que aplica o evangelho ao coração [Gálatas 2:14; Efésios 4:32]. (3) Na missão: clareza no anúncio (quem é Deus, quem somos, o que Cristo fez, como responder), integridade de vida, e esperança escatológica que sustenta [1 Pedro 2:12; 3:15; 2 Coríntios 5:18–21]. Exame: entendo o evangelho com clareza suficiente para compartilhá-lo? Um bom teste é explicar 1 Coríntios 15:3–4 com duas mãos e ligar à chamada do arrependimento e fé [Atos 2:38; 17:30–31].) ...não com sabedoria de palavra,... (ouk en sophia logousophia no genitivo de qualidade, “sabedoria de palavra/discurso”. Paulo rejeita a sophia logou dos sofistas — a retórica que prioriza forma, aplauso e técnica persuasiva acima da verdade. Em Corinto, cidade sensível à eloquência, sophia virou critério de status; Paulo, porém, veio “não com sublimidade de palavras ou sabedoria”, mas decidindo nada saber “senão a Jesus Cristo e este crucificado” [1 Coríntios 2:1–5]. Isso não é apologia da mediocridade: o mesmo Paulo busca ser “claro” e “persuasivo” no bom sentido [Colossenses 4:4–6; 2 Coríntios 5:11], maneja bem a Palavra [2 Timóteo 2:15], e a sabedoria “do alto” é “pacífica, tratável, plena de misericórdia” [Tiago 3:17]. O ponto é confiança: a eficácia não repousa na pirotecnia retórica, mas no conteúdo Cristo crucificado e na ação do Espírito [1 Tessalonicenses 1:5; Zacarias 4:6]. Como, então, pregar com excelência sem escorregar para a “sabedoria de palavra”? (1) Submeter forma ao texto: a estrutura do sermão servir o fluxo do texto e do evangelho, não o ego do pregador [Neemias 8:8; 2 Coríntios 4:2, 5]. (2) Orar por poder espiritual e simplicidade corajosa [Efésios 6:19–20; Atos 4:29–31]. (3) Evitar adornos que obscurecem a cruz: piadas que distraem, citações para impressionar, manipulação emocional. (4) Buscar linguagem acessível e bela que entregue graça e verdade [João 1:14; Provérbios 25:11]. E o ouvinte também é chamado ao exame: sou atraído principalmente pela performance do orador ou pela palavra da cruz que salva? [1 Coríntios 1:18; 1 João 4:1].) ...para que se não anule a cruz de Cristo. (hina mē kenōthē ho stauros tou Christoukenōthē, aoristo subjuntivo passivo de kenoō, “esvaziar, privar de efeito”) (confiar na sabedoria humana esvazia a cruz quando a apresentação desloca o escândalo necessário da substituição penal, do chamado ao arrependimento e do senhorio exclusivo de Jesus [1 Coríntios 1:23; Gálatas 5:11; Atos 4:12], trocando-a por mensagens palatáveis: autoajuda religiosa, moralismo meritório ou triunfalismo sem Calvário. A cruz tem lógica e glória próprias: revela a justiça e o amor de Deus que salva pecadores à custa do sangue do Filho [Romanos 3:25–26; Efésios 1:7], humilha o orgulho humano [1 Coríntios 1:29–31; Gálatas 6:14], e inaugura o caminho da vida através da morte [Marcos 8:34–35; Filipenses 2:5–11]. Pregações que buscam impressionar tendem a obscurecer essa ofensa, removendo o pecado, a ira, o sangue, o arrependimento e o custo do discipulado. O perigo de tentar tornar a cruz “aceitável” é produzir um evangelho “outro”, sem poder de salvar, que “coça os ouvidos” mas não regenera [2 Timóteo 4:3–4; Gálatas 1:6–9; Jeremias 6:14]. O caminho fiel é manter a totalidade da cruz: (1) a necessidade — todos pecaram [Romanos 3:23]; (2) a provisão — Cristo crucificado por nós [1 Pedro 3:18]; (3) a resposta — arrependei-vos e crede [Marcos 1:15]; (4) o fruto — nova vida santa e cruciforme [Romanos 6:6–14; Gálatas 2:20]. Exame final: abraço a cruz como é — com sua humilhação e esperança — ou procuro esvaziá-la, aparando arestas que confrontam meu orgulho e minhas alianças culturais? “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” [Lucas 9:23]; “eu me glorio na cruz” [Gálatas 6:14]. A cruz, intacta, une a igreja (todos debaixo do mesmo sangue), expulsa o culto à personalidade (ninguém foi crucificado por nós senão Jesus) e mantém o evangelho com seu poder próprio — “não em sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder” [1 Coríntios 2:4–5].)

D. A Sabedoria da Cruz vs. A Sabedoria do Mundo (1 Coríntios 1:18-25)

1 Coríntios 1:18 Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, (ho logos gar tou staurou moria estin tois apollymenoisgar “pois” conecta com 1:17; ho logos sujeito no nominativo, “mensagem/ anúncio”; genitivo tou staurou, “da cruz”; moria “loucura/insensatez”; estin cópula; tois apollymenois particípio presente médio/passivo de apollymi, “os que estão perecendo”, aspecto durativo) (a “palavra da cruz” é o anúncio público de que Jesus, o Messias, morreu sob maldição em substituição a pecadores e ressuscitou ao terceiro dia [1 Coríntios 15:3–4; Gálatas 3:13; 1 Pedro 2:24; Isaías 53:4–6, 10–11; Salmo 22]. É “loucura” (moria) para a lógica natural e para a religiosidade meritória porque desmonta as intuições humanas: Deus salva não por escalada moral, mas por escândalo — o Santo condenado em lugar do culpado [Romanos 3:23–26; 1 Coríntios 1:23; Isaías 55:8–9]. À razão autossuficiente, um Messias crucificado parece derrota; à religião baseada em obras, graça gratuita parece injusta (cf. Lucas 15:11–32). Paulo diz que a resposta à cruz revela o estado espiritual: quem a trata por loucura mostra-se no caminho da perdição (tois apollymenois), sob cegueira que o deus deste século opera [2 Coríntios 4:3–4; 1 Coríntios 2:14; João 3:19–20]. Como preparar os crentes para zombaria e incompreensão? Lembrando que isso foi prometido (Jesus: “se o mundo vos odeia…” [João 15:18–20]; zombaria em Atenas [Atos 17:32]) e treinando respostas piedosas: santificar Cristo no coração e dar razão da esperança com mansidão [1 Pedro 3:15–16], orar por intrepidez [Atos 4:29–31], não se envergonhar do testemunho [2 Timóteo 1:8], abraçar o vitupério de Cristo [Hebreus 13:13–14]. Pergunta ao coração: já senti vergonha da “loucura” da cruz (Marcos 8:38) ou a reconheço como a sabedoria mais profunda, que faz calar a jactância humana [1 Coríntios 1:29–31; Jeremias 9:23–24]?) ...mas para nós, que somos salvos,... (tois de sōzomenois hēminde adversativa; sōzomenois particípio presente de sōzō, “os que estão sendo salvos”, processo em andamento; hēmin dativo de referência, “para nós”) (a mesma mensagem produz dois resultados opostos porque o evangelho é “aroma de morte para morte” para uns e “aroma de vida para vida” para outros [2 Coríntios 2:15–16]; o problema não está na cruz, mas no coração e na obra do Espírito. Sem o Espírito, o homem natural não acolhe as coisas de Deus [1 Coríntios 2:14]; com o Espírito, Deus “resplandece em nossos corações” para dar o conhecimento da glória de Deus na face de Cristo [2 Coríntios 4:6; João 6:44]. Essa verdade encoraja perseverança na pregação: a Palavra não volta vazia [Isaías 55:10–11]; Deus tem um povo nesta cidade [Atos 18:10]; uns zombarão, outros crerão [Atos 17:32–34]. Também robustece a fé na soberania de Deus: se a “loucura” tornou-se “poder” para mim, é porque Ele abriu meu coração (como fez com Lídia) [Atos 16:14]; logo, sigo anunciando com paciência, oração e confiança [Gálatas 6:9; 2 Timóteo 4:2]. A transformação interna — quando a cruz, antes escandalosa, passa a ser meu único orgulho [Gálatas 6:14] — reforça a certeza de que “é Deus quem efetua em vós tanto o querer como o realizar” [Filipenses 2:13].) ...poder de Deus. (dynamis Theou estin — predicativo do sujeito: “é poder de Deus”) (a cruz, símbolo máximo de fraqueza e derrota no mundo romano, é, na economia divina, o ápice do poder (dynamis) porque ali Deus realiza o que nenhum braço humano poderia: salvação do ímpio [Romanos 1:16; 5:6–10], reconciliação de inimigos e derrubada de inimizades [Efésios 2:13–16; Colossenses 1:20–22], destruição do domínio do pecado [Romanos 6:6–14], desarme de potestades [Colossenses 2:14–15], derrota da morte [Hebreus 2:14–15; 1 Coríntios 15:54–57]. O “fraco de Deus” é mais forte que os homens [1 Coríntios 1:25]; o Cordeiro vence [Apocalipse 5:5–10]. Como a igreja demonstra esse poder? Não por espetáculos mundanos, mas por serviço, sacrifício e amor cruciforme: quem quer ser grande serve (Marcos 10:43–45); “por isto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar a vida pelos irmãos” [1 João 3:16]; a graça se aperfeiçoa na fraqueza, e o poder de Cristo repousa sobre quem admite dependência [2 Coríntios 12:9–10]. Comunidades que perdoam ofensas (Colossenses 3:13), suportam perseguição com alegria (Mateus 5:10–12; Atos 5:41), partilham bens (Atos 4:32–35), buscam a paz (Romanos 14:19), acolhem o quebrado (Isaías 58:6–12; Tiago 1:27) tornam visível a energia da cruz. Pergunta devocional: experimento o “poder de Deus” da cruz libertando-me do pecado e do medo no cotidiano? Isso se vê quando digo “não” à velha tirania (Romanos 6:11–12), vivo como adotado e não escravo (Romanos 8:15–17), lanço ansiedades sobre Ele (1 Pedro 5:7), venço o mal com o bem (Romanos 12:21) e participo, na Ceia, do “cálice da bênção”, proclamando a morte do Senhor até que venha [1 Coríntios 10:16–17; 11:26]. A palavra da cruz permanece escândalo para o mundo, mas para os que crêm é a mão de Deus abrindo o mar impossível, conduzindo do Egito do pecado à liberdade do Filho — e essa travessia molda nosso falar, servir e esperar.)

1 Coríntios 1:19 Pois está escrito: (gegraptai gar — perfeito passivo indicativo 3ª sing. de graphō, “está escrito” com valor de estado: “permanece escrito/está escrito e continua valendo”) (Paulo ancora seu argumento em Isaías 29:14, mostrando que o modo de Deus salvar no evangelho não é ruptura, mas cumprimento do que já fora prometido. Ao dizer gegraptai, ele invoca a autoridade permanente da Escritura como fala atual de Deus [Mateus 4:4; Hebreus 3:7]. Isso demonstra a unidade da revelação e a continuidade do plano: o mesmo Deus que, em Isaías, julgou a “sabedoria” orgulhosa de Sião por meio de uma obra surpreendente, agora julga e salva por meio da cruz do Messias [Isaías 29:13–14; 35:8–10; 53:1–6]. O uso do Antigo Testamento para interpretar o Novo (e vice-versa) modela nosso ensino: “as Escrituras… testificam de mim”, disse Jesus [João 5:39], que abriu os olhos dos discípulos para “Moisés, os Profetas e os Salmos” como testemunhas de sua morte e ressurreição [Lucas 24:26–27, 44–47]; “tudo quanto outrora foi escrito, para nosso ensino foi escrito” [Romanos 15:4; 1 Coríntios 10:11]. Assim, pregar cristamente é deixar a Escritura explicar a Escritura, ouvindo o coro inteiro do cânon (Lei, Profetas, Escritos; Evangelhos, Cartas, Apocalipse) e reconhecendo que as “promessas de Deus têm nele o sim e o amém” [2 Coríntios 1:20]. Exame devocional: minha visão do evangelho se nutre de toda a Bíblia — criação, queda, promessa, êxodo, aliança, sabedoria, profecia, encarnação, cruz, ressurreição, Espírito e nova criação — ou depende de versículos favoritos que isolam partes do enredo [Gênesis 1–3; Êxodo 12; Jeremias 31:31–34; Ezequiel 36:26–27; João 1:14; Romanos 8; Apocalipse 21–22]?) Destruirei a sabedoria dos sábios... (Apolō tēn sophian tōn sophōnapolō, futuro ativo 1ª sing. de apollumi, “destruir/aniquilar”; sophia “sabedoria”, sophoi “sábios”) (na citação, Deus mesmo assume o sujeito: “Eu destruirei”. Em Isaías 29, o contexto é o juízo sobre uma cidade religiosa que honra a Deus com lábios, mas tem o coração longe; Deus promete “uma obra maravilhosa” que frustrará os peritos de Jerusalém [Isaías 29:13–16]. Em Paulo, essa “obra” atinge seu auge na cruz: o plano de salvação em Cristo crucificado é, ao mesmo tempo, resgate e juízo sobre a sabedoria autônoma do homem [1 Coríntios 1:21, 23–24]. A cruz invalida tanto a pretensão pagã (sabedoria que ignora Deus [Romanos 1:21–22]) quanto a presunção religiosa que confia em pedigree e méritos [Filipenses 3:4–9; Gálatas 2:16]. Esse veredito nos humilha: não somos admitidos a Deus por sermos “sábios”, mas por nos rendermos à sua revelação — “quem se gloria, glorie-se no Senhor” [1 Coríntios 1:29–31; Jeremias 9:23–24]. A lembrança impede que transformemos o cristianismo em filosofia elegante ou sistema intelectual; o evangelho é anúncio de um ato divino, não invenção humana [Romanos 1:1–4; 1 Coríntios 2:1–5]. A pergunta do coração é direta: aproximo-me de Deus como “sábio” que tem algo a oferecer — currículo, lógica, performance —, ou como pecador que depende da revelação e da graça que desarma meu orgulho [Lucas 18:9–14; Tiago 4:6]?) ...e aniquilarei a inteligência dos instruídos. (kai tēn synesin tōn synetōn athethēsōsynesis “entendimento/insight”, synetoi “instruídos/entendidos”; athethēsō, futuro ativo 1ª sing. de atheteō, “anular, invalidar, tornar sem efeito”) (há nuance entre sophia e synesis: sophia aponta para sabedoria em sentido amplo, arte de viver e pensar; synesis ressalta a capacidade de discernir e conectar verdades. Deus não condena o intelecto ou a educação em si — a Bíblia valoriza sabedoria que começa no temor do Senhor [Provérbios 1:7; 9:10], manda amar a Deus “de todo o entendimento” [Mateus 22:37], exorta a crescer em conhecimento [2 Pedro 3:18], a manejar bem a Palavra [2 Timóteo 2:15], a provar os espíritos [1 João 4:1] e mostra Paulo “discursando e persuadindo” nas sinagogas e na praça [Atos 17:17; 19:8–10]. O que é anulado é a confiança no intelecto como via de acesso a Deus, quando desligado da revelação da cruz [Colossenses 2:8; 1 Coríntios 3:18–20]. A igreja, portanto, incentiva excelência intelectual submissa ao Cristo crucificado e ressuscitado: estudar para amar melhor (Filipenses 1:9–11), pensar cativo a Cristo (2 Coríntios 10:5), buscar sabedoria “do alto” (Tiago 3:13–17), reconhecer que “em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Colossenses 2:3). Práticas saudáveis incluem: pregação que expõe o texto e aponta para Jesus (Lucas 24:27), catequese robusta (Hebreus 5:12–14), vida acadêmica feita como sacrifício vivo (Romanos 12:1–2), diálogo missional que respeita mentes e confronta ídolos (Atos 17:22–31). O exame devocional fecha o círculo: uso meu intelecto para servir a Deus — entendendo a Palavra, ensinando outros, discernindo o bem — ou como fonte de orgulho e autossuficiência que, no fim, “Deus anula”? Se “o conhecimento incha, mas o amor edifica” [1 Coríntios 8:1], peço que a cruz derrube vaidades e converta meu pensar em adoração obediente [Romanos 11:33–36].)

1 Coríntios 1:20 Onde está o sábio? (pou sophos?pou, advérbio interrogativo “onde?”, usado retoricamente; sophos, “sábio”, aqui representante da elite intelectual) (a cascata de perguntas retóricas ecoa provocações proféticas como Isaías 33:18 — “Onde está o escriba? Onde o que pesa as torres?” — e a denúncia de Isaías 29:14, já citada por Paulo, para declarar falida a autoconfiança das categorias de prestígio do mundo diante da revelação de Deus no Messias crucificado e ressuscitado. “O sábio” pode evocar o filósofo grego e, por extensão, toda autossuficiência intelectual que ignora o temor do Senhor — o princípio do verdadeiro saber [Provérbios 1:7; 9:10; Jeremias 9:23–24]. Ao perguntar “onde?”, Paulo não procura endereço; expõe a insolvência: na hora decisiva, a prateleira humana está vazia; o logos da cruz desarma o orgulho (1 Coríntios 1:18, 23–25). A unidade da revelação se vê nisso: o mesmo Deus que zombou dos sábios do Egito (Isaías 19:11–12), frustrou o conselho de Aitofel (2 Samuel 17:14) e reduziu a nada os entendidos (Jó 12:17–20) agora humilha pretensões com a “loucura” que salva. A igreja, portanto, deve ser espaço onde o valor da pessoa não é medido por QI, currículo ou retórica, mas por sua união com Cristo: “não há judeu nem grego… vós todos sois um em Cristo Jesus” [Gálatas 3:28]; Deus escolheu “as coisas fracas… e as desprezadas” para que ninguém se glorie [1 Coríntios 1:27–29]; não façais acepção de pessoas (Tiago 2:1–9). Isso pede práticas concretas: acolhimento sem parcialidade, púlpito e ensino acessíveis, discipulado que eleve os humildes e convoque os eruditos à mansidão (Romanos 12:16; Filipenses 2:3). Exame do coração: ainda me intimido ou me deslumbro com a “sabedoria deste século”, ajustando o evangelho para agradar plateias, ou encontro minha segurança na sabedoria de Deus, que fez da cruz o seu grande “sim” [2 Coríntios 1:20; 1 Coríntios 2:6–8]?) Onde, o escriba? (pou grammateus?grammateus, o “escriba”, especialista da Lei. A cruz desafia especificamente a pretensa suficiência do “escriba” — a leitura legalista e tradicionalista que domina a letra, mas falha em reconhecer o Cristo que a Lei e os Profetas anunciavam [João 5:39–40; Lucas 24:25–27, 44–47]. Muitos escribas sabiam citar, mas tropeçaram na “pedra” que Deus colocou por sinal [Isaías 8:14; 28:16; Romanos 9:32–33]; consultaram as Escrituras em Mateus 2:4–6 para indicar Belém, mas não foram adorar o Rei; reclamaram que Jesus ensinava “como quem tem autoridade” e não como eles (Marcos 1:22), e, presos à tradição dos anciãos, invalidaram a Palavra de Deus (Marcos 7:6–13). O alerta para nós é não reproduzir um “escribismo” moderno — ortodoxia de gabinete que conhece a letra, mas nega o poder (2 Timóteo 3:5): zelo por definições sem amor, disputas por minúcias que deixam o essencial (justiça, misericórdia e fé) (Mateus 23:23). Como evitar isso? Recolocar Cristo como chave hermenêutica e objetivo do estudo bíblico (João 5:46), unir doutrina à prática do amor (1 Timóteo 1:5), buscar a unção do Espírito que escreve a Lei no coração (Jeremias 31:33; Ezequiel 36:26–27; Romanos 8:2–4) e provar que o conhecimento é verdadeiro quando leva à obediência da fé (Romanos 1:5; Tiago 1:22–25). Pergunta devocional: meu conhecimento bíblico me conduz a encontro mais profundo com Cristo — humildade, adoração, obediência — ou virou fim em si, métrica de vaidade que a cruz precisa crucificar [1 Coríntios 8:1; Romanos 11:33–36]?) Onde, o inquiridor deste século? (pou syzētētēs tou aiōnos toutou?syzētētēs, “debatedor/arguidor”; tou aiōnos toutou, “deste século”, o tempo presente em contraste com o vindouro. O “inquiridor” é o debatedor cético que pretende compreender a realidade a partir da razão autônoma, julgando Deus ao banco dos réus (cf. Atos 17:18–21). O evangelho responde e, simultaneamente, julga esse impulso: responde porque é razoável no sentido bíblico — oferece explicação coerente da criação, queda e redenção, ancorada em fatos públicos (encarnação, cruz, ressurreição) [Gênesis 1–3; Lucas 1–2; 24:46–49; 1 Coríntios 15:3–8] — e julga porque expõe a insuficiência da “razão” desligada do temor do Senhor (Provérbios 1:7; Romanos 1:21–23). A igreja dialoga com os inquiridores de hoje seguindo o modelo de Paulo no Areópago: começa onde eles estão, reconhece verdades parciais, confronta ídolos, proclama o Criador e o Juiz, e chama ao arrependimento, ancorando tudo na ressurreição (Atos 17:22–31). Isso pede postura de mansidão e respeito (1 Pedro 3:15), palavras temperadas com sal (Colossenses 4:5–6), compaixão por quem duvida (Judas 22–23) e confiança no Espírito que convence do pecado, da justiça e do juízo (João 16:8–11). A cruz não é o fim da razão; é seu fundamento: nela se revelam a justiça e o amor de Deus que a mente caída jamais deduziria (Romanos 3:25–26; 1 Coríntios 2:7–10). Diante dos mistérios da vida e da fé, minha postura é de cético que só se curva ao que cabe no laboratório do seu século, ou de adorador humilde que pensa cativo a Cristo e recebe o Reino como criança (2 Coríntios 10:5; Marcos 10:15; Salmo 131)? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo? (ouchi emōranen ho theos tēn sophian tou kosmou?emōranen, aoristo ativo de mōrainō, “tornar louco/insensato”) (o aoristo ingressivo aponta para o ato decisivo de Deus que expôs a “sabedoria” do mundo como insânia: principalmente na ressurreição, a confirmação pública de que Jesus é o Filho de Deus com poder (Romanos 1:4), o Juiz designado (Atos 17:31). O mundo diz: “mortos não ressuscitam” (Atos 17:32; 1 Coríntios 15:12); Deus levanta o Crucificado ao terceiro dia e desmoraliza as certezas do século (1 Coríntios 15:3–8, 20). Por isso, podemos proclamar com coragem todas as verdades que a cultura chama de “loucura”: criação por um Deus pessoal (Gênesis 1:1; Hebreus 11:3), pecado original e corrupção universal (Romanos 5:12; Efésios 2:1–3), exclusividade de Cristo (João 14:6; Atos 4:12), juízo final e ressurreição dos mortos (Hebreus 9:27; João 5:28–29; 2 Coríntios 5:10). A confiança não está em consenso acadêmico, mas na Palavra viva de Deus que permanece (Isaías 40:8; 1 Pedro 1:24–25). Essa convicção não nos torna arrogantes; torna-nos intrépidos e compassivos: anunciamos “a loucura” que é poder de Deus, sabendo que Ele mesmo abre corações (Atos 16:14; Romanos 1:16). Exame devocional: creio firmemente que a sabedoria de Deus, revelada na Escritura, é mais verdadeira que a “sabedoria” consensual ao meu redor, de modo que submeto minha cosmovisão à revelação — mesmo quando me custa status? Se sim, seguirei confessando “Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus”, pois “o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens” [1 Coríntios 1:24–25].)

1 Coríntios 1:21 Visto como, na sabedoria de Deus, (epeidē gar en tē sophia tou theou — conjunção causal epeidē “visto que”, com gar explicativo; preposição en com dativo “na esfera/arranjo de”, sophia “sabedoria”, genitivo tou theou) (a expressão indica que o fracasso do mundo em conhecer a Deus não foi acidente, mas ocorreu “dentro” do desenho soberanamente sábio de Deus. En assinala a esfera do decreto: no âmbito do seu plano, Deus permitiu que a “sabedoria” humana, deixada a si mesma, demonstrasse sua insuficiência para chegar ao conhecimento salvador [Isaías 55:8–9; Jó 11:7–9; Romanos 11:33–36]. Assim como Deus, em sua providência, “encerrou a todos debaixo da desobediência” para usar de misericórdia para com todos [Romanos 11:32], aqui Ele deixa patente que a criatura não O alcança por escadas intelectuais ou performances religiosas [1 Coríntios 1:19; 1 Coríntios 1:29–31]. Essa verdade nos liberta da pressão de “provar” Deus por argumentos irrefutáveis: a fé vem do ouvir a Palavra de Cristo, e o “convencer” é obra do Espírito [Romanos 10:14–17; 1 Coríntios 2:1–5, 12–14; João 16:8–11]. Apologética tem lugar (Paulo “persuadia”, Atos 17:2–4; 18:4), mas o eixo permanece: anunciar Cristo crucificado e ressuscitado. No coração devocional, isso convida a descansar: quando não “entendo” tudo de Deus, lembro que Ele escolheu se revelar assim — por promessas, por sua Palavra escrita e, sobretudo, por seu Filho [Hebreus 1:1–2; João 1:18]. Posso adorar sem onisciência, porque a sabedoria do seu plano é melhor do que a minha pressa por mapas totais [Deuteronômio 29:29; Salmo 131].) ...o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, (ouk egnō ho kosmos dia tēs sophias ton theonegnō, aoristo de ginōskō, “conhecer relacionalmente”; dia com genitivo, “por meio de”) (a falha da “sabedoria” humana como via de acesso salvador a Deus é dupla: cognitiva e moral. Cognitivamente, a razão criada é finita; moralmente, está corrompida e suprime a verdade [Romanos 1:18–23]. Paulo descreve: conhecendo a Deus pelos traços da criação, não O glorificaram, antes se tornaram nulos em seus raciocínios; trocaram a glória do Criador por ídolos; professando-se sábios, tornaram-se loucos [Romanos 1:20–25; Sabedoria 13:1–9]. Logo, o problema humano fundamental não é mera ignorância a ser vencida por mais dados, mas rebelião que escurece o entendimento e endurece o coração [Efésios 4:17–19; Jeremias 17:9; João 3:19–20]. Essa diagnose corrige nosso método: não bastam “filosofias” e “tradições de homens”; é necessário novo nascimento e revelação de Cristo [Colossenses 2:8; João 3:3; 2 Coríntios 4:6]. Devocionalmente, reconheço que, sem a revelação graciosa de Deus em Cristo, minha própria “sabedoria” me afastaria — construiria torres de Babel piedosas, mas não chegaria ao céu [Gênesis 11:4; 1 Coríntios 3:18–20]? A gratidão pelo evangelho me mantém humilde: “se alguém pensa que sabe alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” [1 Coríntios 8:2].) ...aprouve a Deus salvar os que crêem... (eudokēsen ho theos sōsai tous pisteuontaseudokēsen, aoristo ativo de eudokeō, “agradou, foi do beneplácito”; sōsai, aoristo infinitivo de sōzō, “salvar”; tous pisteuontas, particípio presente “os que creem”. O verbo eudokeō abre a cortina do coração divino: a salvação nasce do agrado soberano de Deus, não da soma de méritos humanos [Efésios 1:5, 9 “segundo o beneplácito”; Lucas 12:32; Mateus 11:26]. Deus quis, deleitou-se em salvar — esse querer não é capricho, é a livre graça do Deus fiel à sua aliança [Êxodo 33:19; Romanos 9:15–16]. E o modo de apropriação é claro: “os que creem” — fé como mão vazia que recebe Cristo [Romanos 3:22–26; Efésios 2:8–9; João 1:12]. Pregar o beneplácito de Deus produz alegria e segurança na igreja: se a salvação se enraíza no prazer do Pai que não muda, podemos descansar — “aquele que começou boa obra há de completá-la” [Filipenses 1:6; 1 Tessalonicenses 5:24]. Isso fomenta humildade (nada temos que não tenhamos recebido) e ousadia missionária (Deus tem um povo e se agrada em salvá-lo) [1 Coríntios 4:7; Atos 18:9–10]. Exame do coração: minha salvação me enche de admiração e adoração (“ao Senhor aprouve moê-lo… por causa de sua alma veria o fruto” [Isaías 53:10–11]) ou a trato como conquista pessoal? Toda jactância cai; toda glória sobe a Deus [Jeremias 9:23–24; Romanos 11:36].) ...pela loucura da pregação. (dia tēs mōrias tou kērugmatosdia com genitivo, “por meio de”; mōria “loucura”; kērugma “mensagem proclamada”. Gramaticalmente, kērugma aponta primariamente ao conteúdo proclamado, não meramente ao ato (kēryxis). A “loucura” é, pois, a mensagem da cruz — que o mundo chama de insensatez — comunicada por um meio igualmente humilde: anúncio verbal, testemunho público [1 Coríntios 1:18, 23; Romanos 10:14–17; Tito 1:3]. Deus escolhe realizar a obra mais poderosa do universo — salvar — por um método que exalta a sua graça: pela Palavra. Desde o princípio, Deus opera por Palavra criadora [Gênesis 1; Salmo 33:6], e na nova criação Ele regenera por “palavra da verdade” [Tiago 1:18; 1 Pedro 1:23–25]. Portanto, a igreja recebe dessa frase dupla dignidade e urgência para a pregação: é “meio designado” por Deus — não show, não entretenimento — para criar e sustentar fé [2 Timóteo 4:2; 1 Tessalonicenses 2:13]. Isso não elimina excelência: pregadores devem manejar bem a Escritura, buscar clareza e amor [2 Timóteo 2:15; Colossenses 4:3–6], porém confiando no poder do Espírito e na lógica da cruz, não na “sabedoria de palavra” que esvazia a cruz [1 Coríntios 2:4–5; 1:17]. Em uma era de imagem e espetáculo, a igreja resiste à tentação de trocar o kērugma por entretenimento; ela se apega ao que Deus prometeu usar. Devocionalmente, valorizo a pregação fiel como o pão que Deus usa para nutrir minha alma? Vou ao culto sedento da Palavra, certo de que o Senhor fala e age por meio dela [Hebreus 4:12; João 6:63]? A “loucura” do kērugma é nossa glória: por ela Deus derrota o orgulho, abre corações, chama pecadores e edifica santos — “porque o evangelho é poder de Deus para salvação de todo o que crê” [Romanos 1:16].)

1 Coríntios 1:22 Porque tanto os judeus pedem sinais,... (epeidē kai Ioudaioi sēmeia aitousin / var. aitousin ou epizētousin — “os judeus pedem/buscam insistentemente sinais”) (o plural sēmeia aponta para obras poderosas que autenticam um enviado de Deus: milagres no êxodo [Êxodo 7:3; Salmo 105:26–27], o fogo de Elias [1 Reis 18:36–39], os “sinais” messiânicos esperados [Isaías 35:5–6; 61:1–2]. Nos Evangelhos, líderes exigem “um sinal do céu” [Mateus 16:1; Marcos 8:11], mas Jesus designa o “sinal de Jonas”: sua morte e ressurreição ao terceiro dia [Mateus 12:38–40]. Ao fixarem-se em demonstrações de poder segundo suas expectativas políticas e religiosas (um Messias que liberta de Roma, não que morre numa cruz), muitos se cegaram ao sinal supremo — a cruz seguida da tumba vazia [Lucas 24:19–27; Atos 2:22–36]. Como lidar hoje com a demanda por “sinais e maravilhas” que busca o espetacular em vez de Cristo? Reconhecendo que Deus, soberanamente, concede dons e sinais para confirmar a Palavra [Hebreus 2:3–4; 1 Coríntios 12–14; Tiago 5:14–16], mas provando tudo: falsos sinais existem [Deuteronômio 13:1–3; Mateus 24:24]. O critério é: os sinais apontam para Jesus crucificado e ressuscitado, produzem santidade e amor, e submetem-se às Escrituras e à ordem na assembleia [1 Coríntios 14:26–33; Gálatas 5:22–23]. A fé não se ancora em pirotecnia, mas na Pessoa e obra de Cristo reveladas na Palavra [João 20:30–31; Romanos 10:17]. Exame devocional: minha confiança depende de experiências extraordinárias, ou descansa no Cordeiro que morreu e vive, ainda que eu não veja nada espetacular hoje [João 20:29; 2 Coríntios 5:7]?) ...como os gregos buscam sabedoria;... (Hellēnes sophian zētousin — “os gregos buscam sabedoria”) (o presente zētousin indica busca contínua; sophia aqui evoca o ideal greco-romano de um sistema coerente, elegante, racionalmente satisfatório — estoicos, epicuristas, platônicos — que explica o mundo sem o “escândalo” de um Deus encarnado e crucificado [Atos 17:18–21]. Tal busca, quando autônoma, tropeça no paradoxo do evangelho: o Logos tornou-se carne [João 1:14] e venceu sendo moído [Isaías 53:10–12; Filipenses 2:6–11]. A igreja responde ao anseio por sabedoria mostrando que Cristo é a resposta mais profunda às grandes questões: origem (Criador pessoal [Colossenses 1:16–17]), sentido (glória de Deus e comunhão com Ele [1 Coríntios 10:31; Salmo 73:25–26]), mal (queda e corrupção [Gênesis 3; Romanos 5:12]), redenção (cruz e ressurreição [1 Coríntios 15:3–8]), futuro (nova criação [Apocalipse 21–22]). “Em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” [Colossenses 2:3], ainda que Ele não caiba em nossos sistemas [Romanos 11:33–36]. Exame devocional: tento encaixar Deus na minha lógica — alisando a cruz para que não ofenda — ou submeto minha lógica à sabedoria de Deus, deixando que a cruz reeduque meu pensar [2 Coríntios 10:5; Provérbios 3:5–7]?)

1 Coríntios 1:23 mas nós pregamos a Cristo crucificado,... (hēmeis de kērussomen Christon estaurōmenonkērussomen, presente ind. at. 1ª pl., anúncio contínuo; Christon estaurōmenon, particípio perfeito passivo, “o Messias que permanece como o Crucificado”. O “nós pregamos” define a identidade e missão da igreja: não entretenimento, não moralismo, não autoajuda, mas a proclamação pública do Messias crucificado e ressuscitado [1 Coríntios 2:2; Lucas 24:46–47; Romanos 1:16]. O foco é “Cristo” — o Ungido prometido nas Escrituras [Salmo 2; Isaías 9:6–7; 11:1–10] — e, especificamente, sua crucificação, porque ali Deus satisfez a justiça, levou nossa culpa e inaugurou a nova aliança [Isaías 53:4–6; Jeremias 31:31–34; Romanos 3:24–26; Colossenses 2:13–15]. Como um pastor avalia se sua pregação é “Cristo crucificado”? Critérios: o texto é exposto em seu contexto e culmina em Cristo (não forçando, mas seguindo o fio bíblico) [João 5:39; Lucas 24:27]; o pecado real é nomeado e a graça substitutiva é oferecida; há chamado ao arrependimento e fé [Atos 2:37–39]; a obediência é fruto da união com Cristo, não técnica de melhoria [Gálatas 2:20; Tito 2:11–14]. Exame devocional: o centro do meu crer e falar é o Cordeiro morto e vivo, ou outros temas ocupam o trono [Apocalipse 5:9–12]?) ...escândalo para os judeus,... (Ioudaiois skandalonskandalon, “pedra de tropeço/armadilha”) (um Messias crucificado escandaliza expectativas de triunfo político e religioso: a Lei diz que “maldito de Deus é todo aquele que for pendurado em madeiro” [Deuteronômio 21:23], e a cruz parecia contradizer a visão de um rei vitorioso [2 Samuel 7:12–16]. O evangelho mostra que a “maldição” foi levada por Ele “por nós” — “Cristo nos resgatou da maldição da Lei, fazendo-se maldição por nós” [Gálatas 3:13] — cumprindo as profecias do Servo sofredor e do justo rejeitado [Isaías 53; Salmo 22; Zacarias 12:10]. Como ajudar pessoas a superar “escândalos” do evangelho que ofendem suas preconcepções? Caminhando como Jesus e os apóstolos: abrir as Escrituras, mostrar a necessidade do sofrimento do Cristo e sua glória posterior, e convidar à fé [Lucas 24:25–27, 44–47; Atos 3:18; 13:27–39]. Isso requer paciência, oração, e amor que remove tropeços culturais sem remover a pedra angular [1 Coríntios 9:19–23; 2 Timóteo 2:24–26]. Exame devocional: que aspectos do evangelho ainda são “escândalo” para mim — graça para inimigos, amar quem me persegue, perdoar setenta vezes sete, gloriar-me na fraqueza [Mateus 5:44; 18:21–35; 2 Coríntios 12:9–10]?) ...loucura para os gentios;... (ethnesin mōria — “insensatez para as nações”) (à mentalidade greco-romana, deuses são apathē — impassíveis — e glória é poder visível; a cruz, instrumento de escravos e rebeldes, era símbolo máximo de vergonha [Filipenses 2:8; Hebreus 12:2]. Falar que o Deus verdadeiro se fez homem e morreu crucificado soava moria — tolice — e a ressurreição corporal, ainda mais [Atos 17:32; 1 Coríntios 15:12]. Hoje, outras “loucuras” se destacam aos olhos da cultura: a exclusividade de Cristo [João 14:6; Atos 4:12], a ressurreição dos mortos [1 Coríntios 15:20–23], o juízo final [Hebreus 9:27; Atos 17:31], e a ética sexual bíblica que chama à santidade do corpo [1 Tessalonicenses 4:3–5; 1 Coríntios 6:13–20]. Como proclamá-las sem diluição? Com clareza e ternura: “santificai a Cristo… estai sempre preparados para responder… com mansidão e respeito” [1 Pedro 3:15], sem remover o “escândalo da cruz” [Gálatas 5:11], confiando que o Espírito convence [João 16:8]. Exame devocional: abraço com alegria a “loucura” de Deus — que é mais sábia que os homens — ou tento torná-la respeitável, podando aquilo que confronta meu orgulho e minhas alianças culturais [1 Coríntios 1:25; Romanos 1:16]? A verdadeira glória da igreja não é parecer sensata aos olhos do século, mas exibir, em vasos de barro, o poder do Cordeiro que venceu pelo seu sangue [2 Coríntios 4:7; Apocalipse 12:11].)

1 Coríntios 1:24 mas para os que foram chamados,... (autois de tois klētois — dativo plural substantivado de klētos, “os chamados”; de kaleō, “chamar”) (o “chamado” aqui é a vocação interna e eficaz do Espírito que, mediante o evangelho, ilumina o entendimento, inclina o coração e atrai de modo real e doce à fé em Cristo. Essa ação transforma a percepção da cruz: o que antes era skandalon e moria passa a ser reconhecido como dynamis e sophia porque Deus remove o véu e resplandece luz no coração [2 Coríntios 4:4–6; 1 Coríntios 2:14–16; Efésios 1:17–18]. A Escritura descreve esse chamado como soberano e eficaz: “aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou” [Romanos 8:30]; “fiel é Deus, pelo qual fostes chamados” [1 Coríntios 1:9]; “para isto vos chamou mediante o nosso evangelho” [2 Tessalonicenses 2:14]; “ninguém pode vir a mim se o Pai… não o trouxer” [João 6:44]; o exemplo de Lídia confirma: “o Senhor lhe abriu o coração” [Atos 16:14]. Esse chamado resolve o enigma das reações opostas à cruz (1 Coríntios 1:18–23): não é o conteúdo que muda, mas o sujeito que foi vivificado, recebeu coração novo e Espírito novo [Ezequiel 36:26–27; João 3:3–8]. Tal doutrina dá esperança ao evangelista: o resultado não depende da persuasão humana, mas do poder de Deus que acompanha a Palavra [1 Coríntios 3:6–7; 1 Tessalonicenses 1:5; Isaías 55:10–11]. No nível do coração, reconhecer que ver beleza na cruz é dom do chamado de Deus elimina vanglória intelectual e produz gratidão adoradora: “que tens tu que não tenhas recebido?” [1 Coríntios 4:7].) ...tanto judeus como gregos,... (Ioudaiois te kai Hellēsin — pares que abrangem a totalidade do mundo humano na perspectiva paulina) (a cruz cria uma nova humanidade que transcende as distinções étnicas e culturais mais profundas do mundo antigo: “não há judeu nem grego… porque todos vós sois um em Cristo Jesus” [Gálatas 3:28; Colossenses 3:11]. Pela cruz, Cristo derruba a parede de separação, faz dos dois “um novo homem”, reconcilia ambos em um só corpo com Deus [Efésios 2:14–16], agrega “outras ovelhas” num só rebanho sob um só Pastor [João 10:16] e reúne povos de toda tribo e língua num culto comum [Apocalipse 5:9; 7:9–10]. A igreja deve ser demonstração viva dessa unidade: mesa sem acepção de pessoas (Tiago 2:1–4), dons que se servem mutuamente sem hierarquia cultural (1 Coríntios 12:12–27), liderança que acolhe diferenças por amor (Romanos 15:5–7) e missão que derruba barreiras (Atos 10; 15). Valorizar e buscar comunhão com irmãos de origens distintas é evidência do poder do evangelho que pacifica inimizades e cria família nova em Cristo [João 13:34–35; 1 João 3:14].) ...pregamos a Cristo,... (Christon… kērussomen implícito pelo fluxo 1:23–24) (a insistência na repetição mostra que, para os chamados, a mensagem não se altera — continua sendo Cristo mesmo; o que se altera é a percepção produzida pelo chamado. Paulo não oferece uma versão diferente do evangelho para cada público: anuncia sempre Cristo — sua pessoa e obra — adaptando o modo de comunicação, não o conteúdo [1 Coríntios 2:2; Atos 20:21; 26:22–23; 1 Coríntios 9:19–23; Gálatas 1:8–9]. O perigo de adaptar a mensagem para agradar públicos é real: tal ajuste esvazia a cruz, agrada “ouvidos coceiros” e fabrica outro evangelho sem poder de salvar [1 Coríntios 1:17; 2 Timóteo 4:3–4; Gálatas 1:6–7]. A firmeza apostólica é esta: a fé está firmada no Cristo verdadeiro — Verbo encarnado, crucificado e ressuscitado — e não numa versão domesticada moldada por preferências culturais [João 1:14; 1 Coríntios 15:3–4].) ...poder de Deus... (dynamis Theou — os chamados experimentam a cruz como poder de Deus porque, por meio dela, Deus efetivamente liberta da culpa, quebra o domínio do pecado, reconcilia com Si e inaugura vida nova. No plano jurídico, a cruz remove condenação: “agora, pois, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” [Romanos 8:1; Romanos 3:24–26; 2 Coríntios 5:21]. No plano libertador, nossa “velha humanidade” foi crucificada para que o corpo do pecado seja desativado e não sirvamos ao pecado como senhores [Romanos 6:6–14]; poderes e acusações foram desarmados [Colossenses 2:13–15]; o medo da morte foi vencido [Hebreus 2:14–15]. No plano relacional, a inimizade deu lugar à reconciliação e à adoção [Colossenses 1:20–22; Gálatas 4:4–7]. A igreja ajuda pessoas a experimentarem esse poder no cotidiano por meio dos meios de graça e de uma cultura de discipulado: Palavra pregada e ensinada que aplica a cruz às áreas concretas da vida (culpa, vícios, ansiedade) [Hebreus 4:12; Tito 2:11–14], Ceia que proclama e sela a morte do Senhor [1 Coríntios 10:16–17; 11:26], oração perseverante [Hebreus 4:16], mutualidade que carrega fardos e pratica confissão e restauração [Tiago 5:16; Gálatas 6:1–2], disciplina amorosa que reconduz a Cristo [Mateus 18:15–20], e acompanhamento intencional que substitui práticas de pecado por hábitos santos [Efésios 4:22–24; Romanos 12:1–2]. Ver o poder da cruz quebrando vícios, transformando caráter e gerando fruto do Espírito confirma, na experiência, o que Deus prometeu na doutrina [Gálatas 5:22–25; 1 Coríntios 10:13].) ...e sabedoria de Deus. (sophia Theou — os chamados enxergam a cruz como a suprema sabedoria de Deus porque, nela, atributos aparentemente tensionados — justiça e misericórdia, amor e ira — são harmonizados e exibidos em perfeição. Em Cristo crucificado, Deus apresenta publicamente o propiciatório, demonstrando sua justiça ao punir o pecado e, ao mesmo tempo, justificando o pecador que tem fé em Jesus [Romanos 3:25–26]; “a benignidade e a fidelidade se encontraram, a justiça e a paz se beijaram” [Salmo 85:10]. O único Mediador assume nossa causa e nos conduz a Deus [1 Timóteo 2:5; 1 Pedro 3:18]. Essa sabedoria responde às questões mais profundas: sentido (fomos criados e redimidos para glorificar a Deus e gozar Dele para sempre [Isaías 43:7; 1 Coríntios 10:31; Apocalipse 5:9–10]), sofrimento (Deus traz vida por meio da dor do Filho e conforma filhos à imagem do Crucificado, prometendo glória vindoura que supera as aflições presentes [Hebreus 2:10; Romanos 8:17–18, 28–30; 1 Pedro 2:21]), justiça (Deus já julgou o pecado na cruz e julgará o mundo com justiça por meio do Homem que ressuscitou [Atos 17:31; João 5:22–29]; quem crê já não vem a juízo condenatório [João 5:24]). A proclamação e a pedagogia da igreja destacam a cruz como chave hermenêutica da história: toda a Escritura converge para ela e dela irradia (Êxodo, sacrifícios, salmos, profetas, Evangelhos, cartas) [Lucas 24:25–27, 44–47]; a multiforme sabedoria de Deus se torna conhecida “por meio da igreja” aos poderes [Efésios 3:10–11]. Tratar a cruz como a “chave” que destrava sentido pessoal implica interpretar biografias, dores, vocações e esperanças à sua luz: “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” [Gálatas 2:20]; “longe esteja gloriar-me senão na cruz” [Gálatas 6:14]. Assim, a sabedoria da cruz não é apenas conceito; é horizonte que reordena adoração, ética, missão e esperança até o dia em que o Cordeiro, centro da história, for tudo em todos [Apocalipse 21:22–23; 22:1–5].)

1 Coríntios 1:25 Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; (hoti to mōron tou Theou sophōteron tōn anthrōpōn estinto mōron, adjetivo neutro substantivado de mōros, “o que o mundo chama de loucura”; genitivo tou Theou como genitivo de fonte e qualificação, não ontológico; comparativo sophōteron de sophos, “mais sábio”; tōn anthrōpōn, genitivo de comparação; cópula estin) (o paradoxo resume todo o argumento de 1 Coríntios 1:18–24: aquilo que o século classifica como mōria — a cruz de um Messias crucificado — desvela uma sabedoria infinitamente superior à mais brilhante estratégia humana. A sabedoria divina consiste em justificar o ímpio sem violar a justiça, mediante substituição vicária e ressurreição, algo que nenhuma filosofia poderia conceber ou realizar [Romanos 3:21–26; Isaías 53:4–6, 10–11; 1 Coríntios 15:3–4]. O plano que parece “louco” porque abraça humilhação e sofrimento revela-se mais sábio porque satisfaz simultaneamente as exigências da santidade de Deus e a necessidade de misericórdia, transforma inimigos em filhos e derruba todas as vanglórias [Salmo 85:10; Efésios 2:13–18; Jeremias 9:23–24; Romanos 11:33–36]. Essa verdade encoraja a igreja a confiar nos métodos de Deus mesmo quando soam ineficazes ao mundo: a proclamação pública do evangelho como meio primário de salvação [1 Coríntios 1:21; Romanos 10:14–17], o serviço humilde que espelha o Mestre [João 13:12–15; Marcos 10:43–45], o sacrifício e a oração que movem o braço de Deus e não o marketing humano [Zacarias 4:6; Atos 4:31; 2 Coríntios 4:7]. A história bíblica confirma esse padrão: Deus confunde a astúcia dos sábios e leva cativo o conselho dos prudentes [Jó 5:12–13; 1 Coríntios 3:19], escolhe Gideão com trezentos para que ninguém se glorie [Juízes 7:2–7], exalta o pequeno Davi contra Golias [1 Samuel 17:45–47], vence por um madeiro quando Moisés ergue a serpente no deserto, figura do Crucificado [Números 21:8–9; João 3:14–15]. A aplicação pessoal requer confiança prática na “loucura” de Deus em áreas concretas: perdoar inimigos porque o caminho da cruz triunfa sobre o mal [Mateus 5:44; Romanos 12:19–21], dar generosamente porque o Senhor supre e multiplica a semente [2 Coríntios 9:6–11; Provérbios 11:24–25], buscar primeiro o Reino em vez de seguranças visíveis porque o Pai sabe do que necessitamos [Mateus 6:33–34], responder à ofensa com mansidão porque a sabedoria do alto é pacífica e frutífera [Tiago 3:17–18]. Nessas escolhas que o século chama de ingenuidade, a sabedoria de Deus se manifesta e produz fruto que permanece.) ...e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. (kai to asthenes tou Theou ischyroteron tōn anthrōpōn estinto asthenes, neutro substantivado de asthenēs, “o que o mundo chama de fraqueza”; comparativo ischyroteron de ischyros, “mais forte”) (a “fraqueza de Deus” é linguagem irônica para designar a vulnerabilidade assumida pelo Filho na encarnação e, sobretudo, na cruz. O Crucificado, “crucificado em fraqueza”, vive “pelo poder de Deus”, e essa “fraqueza” derrota forças e impérios que a violência humana jamais venceria [2 Coríntios 13:4; Colossenses 2:14–15; Hebreus 2:14–15]. O poder imperial que ergueu a cruz foi desarmado quando o Cordeiro, parecendo vencido, esvaziou o título de dívida, quebrou o ferrão da morte e inaugurou a nova criação [1 Coríntios 15:54–57; Apocalipse 5:5–10]. O padrão percorre toda a Escritura: “não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito” [Zacarias 4:6]; a fraqueza de uma vara abre o mar [Êxodo 14:13–31]; a adoração de Josafá vê o Senhor pelejar [2 Crônicas 20:12, 20–22]; o remanescente pequeno volta do exílio pela mão do Deus grande [Isaías 41:14; Ageu 2:3–9]. Essa verdade conforta e fortalece cristãos que se sentem fracos, pequenos ou perseguidos, porque o Senhor aperfeiçoa o poder na fraqueza e habita onde não há vanglória humana [2 Coríntios 12:9–10; 4:7–11; 1 Pedro 5:10]. Sofrimento, oposição e limitações não anulam a obra; tornam-se palco para o poder de Cristo repousar, para a perseverança ser formada e para a esperança escatológica sustentar [Romanos 5:3–5; 8:17–18; 1 Tessalonicenses 1:6]. A prática diária requer abandonar a autoconfiança e viver na força do Senhor: fortalecer-se “no Senhor e na força do seu poder” [Efésios 6:10], caminhar no Espírito para não cumprir a carne [Gálatas 5:16], lançar ansiedades sobre Ele [1 Pedro 5:7], participar dos meios de graça — Palavra, oração, ceia — onde Cristo comunica seu vigor [Hebreus 4:16; 1 Coríntios 10:16–17], e cultivar a mutualidade que carrega fardos [Gálatas 6:2]. Gloriar-se nas fraquezas, como Paulo, não é celebrar derrota; é confessar dependência para que a força de Cristo se manifeste. Nessa economia, a aparente fragilidade do amor que se entrega e do serviço que se humilha supera as fortalezas humanas, porque o Deus da cruz transforma vasos de barro em portadores de glória e faz do caminho descendente do Cordeiro a via real do Reino [Filipenses 2:5–11; 2 Coríntios 4:7; Mateus 20:25–28].)

E. O Chamado de Deus como Base da Verdadeira Glória (1 Coríntios 1:26-31)

1 Coríntios 1:26 Irmãos, reparai,... (adelphoi, blepete — vocativo adelphoi; blepete, presente imperativo ativo 2ª pl., “considerai/observai”; leitura comum como imperativo, havendo também testemunho indicativo em alguns manuscritos. Paulo convoca os coríntios a olharem para a própria história porque a comunidade é a prova viva do argumento de 1:18–25: Deus frustra a vanglória humana escolhendo e salvando pessoas que o mundo não valoriza. O “olhar” sobre a própria trajetória revela que a fé deles não nasceu de capital cultural, mas do chamado de Deus, e isso confirma a tese de que a cruz é sabedoria superior à dos homens [1 Coríntios 1:18–24]. O testemunho coletivo da igreja — vidas resgatadas de idolatria, promiscuidade, injustiça e agora santificadas — funciona como “carta” legível do evangelho: “vós sois carta de Cristo… escrita… pelo Espírito do Deus vivo” [2 Coríntios 3:2–3; 1 Coríntios 6:9–11]. Ao reunir e narrar histórias reais (como em Romanos 16; Atos 19:18–20), a igreja evangeliza e encoraja, porque a graça concreta edifica a fé (Salmo 66:16; Marcos 5:19–20). No âmbito devocional, parar para “reparar” na própria vocação cultiva assombro grato: “lembra-te de que eras servo… e o Senhor teu Deus te resgatou” [Deuteronômio 5:15; Efésios 2:1–9].) ...pois, na vossa vocação;... (tēn klēsin hymōnklēsis, acusativo sing., “chamado”; cognato de klētos, 1:24) (a natureza do klēsis revela o caráter de Deus: Ele chama soberana e graciosamente, não por causa de status ou mérito, mas “segundo o beneplácito” da sua vontade [Efésios 1:4–9; 2 Timóteo 1:9]. A escolha de Deus demonstra liberdade absoluta (“Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” [Êxodo 33:19; Romanos 9:15–16]) e benevolência que exalta os humildes [Lucas 1:52–53]. Por isso, a igreja celebra a vocação de cada membro — escravo ou livre, homem ou mulher — como ato real de Deus que confere dignidade e missão (1 Coríntios 7:17, 20–24; Gálatas 3:28). A honra do chamado supera o prestígio social: “andai de modo digno da vocação” [Efésios 4:1]; o menor no Reino é maior que os grandes do século [Mateus 11:11]. Devocionalmente, valorizar a vocação em Cristo acima de títulos profissionais ou acadêmicos alinha o coração com o Reino (Filipenses 3:7–9; Colossenses 3:23–24).) ...visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne,... (hoti ou polloi sophoi kata sarkasophoi, “sábios”; kata sarka, “segundo a carne”, isto é, segundo os critérios do século; ou polloi, “não muitos”, não “nenhum”) (Paulo não exclui intelectuais da igreja; ele afirma que a salvação não se baseia em credenciais. “Sábio segundo a carne” é quem possui prestígio intelectual medido por padrões humanos (eloquência, escolas, retórica), ao passo que a “sabedoria do alto” é dom do temor do Senhor que reconhece Cristo como sabedoria de Deus [Provérbios 1:7; Tiago 3:13–17; 1 Coríntios 1:30]. A igreja evita anti-intelectualismo quando ama o Senhor “de todo o entendimento” e forma mentes cativas de Cristo [Mateus 22:37; 2 Coríntios 10:5], e evita idolatria acadêmica quando submete todo saber à cruz e recusa gloriar-se nos homens [Colossenses 2:8; 1 Coríntios 3:18–23]. Devocionalmente, a identidade repousa em Quem chama, não no que se sabe: “se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber” [1 Coríntios 8:2].) ...nem muitos poderosos,... (ou polloi dynatoidynatoi, “influentes/poderosos”) (historicamente, o evangelho encontra mais resistência nas elites porque o poder terreno compete com a submissão ao senhorio de Cristo: quem é forte “segundo o mundo” tende a confiar em si e a proteger privilégios [Marcos 10:23–27; João 12:42–43]. Reinos e tronos erguem-se contra o Ungido, mas o Rei dos reis zomba da autoconfiança dos poderosos [Salmo 2:1–6; Daniel 4:30–37; Atos 12:21–24]. A igreja ministra fielmente a todos: aos poderosos, anunciando arrependimento, desprendimento e justiça (Zaqueu devolvendo e repartindo; Lucas 19:8–10; 1 Timóteo 6:17–19), e aos impotentes, oferecendo dignidade, defesa e esperança (Tiago 1:27; 2:1–7; Lucas 4:18). O poder que importa no Reino emerge do serviço e da fraqueza dependente de Cristo (Marcos 10:42–45; 2 Coríntios 12:9–10). Devocionalmente, buscar influência “segundo o mundo” cede lugar a desejar o poder do Espírito para amar, servir e sofrer por Cristo [Atos 1:8; Efésios 3:16–19].) ...nem muitos de nobre nascimento; (ou polloi eugeneiseugeneis, “bem-nascidos, nobres”) (o chamado de Deus subverte hierarquias de linhagem: Ele não “atenta para a aparência” [1 Samuel 16:7], escolhe o menor para envergonhar o maior [Gênesis 48:17–20; 1 Coríntios 1:27], e redefine nobreza pelo novo nascimento do alto [João 1:12–13; João 3:3–8]. Em Cristo, a verdadeira aristocracia é a dos “reis e sacerdotes” lavados no sangue [Apocalipse 1:5–6; 1 Pedro 2:9–10]. A igreja pratica essa inversão derrubando barreiras de classe: mesa e assembleia sem acepção de pessoas (Tiago 2:1–9), honra aos menos apresentáveis (1 Coríntios 12:22–25), partilha que nivela carestias (2 Coríntios 8:13–15; Atos 4:32–35). Devocionalmente, julgamentos baseados em origem familiar e status cedem à avaliação baseada em identidade em Cristo: “se alguém está em Cristo, é nova criação” [2 Coríntios 5:16–17; Colossenses 3:11].)

1 Coríntios 1:27 pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo... (alla ta mōra tou kosmou exelexato ho theosalla adversativa forte, “ao contrário”; ta mōra neutro plural de mōros, “o que é tido por insensato”; exelexato aoristo médio indicativo, 3ª sing., de eklegomai, “escolher para si”; sujeito expresso ho theos) (o texto descreve uma inversão deliberada e soberana: Deus, agindo em liberdade absoluta, decide preferir o que o século chama de “loucura” para revelar Seus valores — valores que contradizem o sistema de honra do mundo. Essa escolha expõe que a pauta de Deus não é mérito humano, capital cultural ou prestígio, mas graça imerecida que exalta os humildes e derruba os tronos da soberba [1 Samuel 2:7–8; Salmo 113:7–9; Lucas 1:51–53]. Em toda a Escritura, o Senhor age assim: Abel e não Caim [Gênesis 4:4–5], o mais moço Jacó e não Esaú [Gênesis 25:23; Romanos 9:10–13], José vendido que salva muitos [Gênesis 50:20], Moisés “pesado de língua” que confronta Faraó [Êxodo 4:10–12], a vara que abre o mar [Êxodo 14:13–16], a serpente erguida que cura [Números 21:8–9; João 3:14–15], Gideão reduzido a trezentos para que ninguém se glorie [Juízes 7:2–7], Davi, o menor, contra Golias [1 Samuel 16:11–13; 17:45–47], a menina cativa que aponta Naamã para a cura [2 Reis 5:2–3], o burrinho que corrige o profeta [Números 22:28–30], a viúva e sua moedinha que superam os ricos [Marcos 12:41–44], pescadores galileus como colunas da igreja [Atos 4:13; 1 Coríntios 1:26–29], e o ponto supremo: a cruz — escândalo e “loucura” aos olhos do século — por meio da qual Deus salva [1 Coríntios 1:18, 23–24; Colossenses 1:20–22]. A igreja expressa esses valores quando, de fato, dá voz e espaço aos que o mundo julga insignificantes: honra os “menos apresentáveis” (conferindo-lhes maior dignidade) [1 Coríntios 12:22–25], rejeita favoritismo econômico ou de status [Tiago 2:1–9], acolhe órfãos, viúvas e estrangeiros como tesouro de Deus [Deuteronômio 10:18–19; Tiago 1:27], convida pobres e aleijados à mesa [Lucas 14:12–14], equipa “os santos” — todos, não apenas os talentosos — para a obra do ministério [Efésios 4:11–16; Romanos 12:3–8; 1 Pedro 4:10–11]. No plano devocional, assumir a sabedoria de Deus inclui aceitar ser tido por “louco” por causa de Cristo (Atos 26:24–25; 2 Coríntios 5:13), preferindo a obediência humilde à reputação polida, pois “o que é louco de Deus é mais sábio do que os homens” [1 Coríntios 1:25].) ...para envergonhar os sábios... (hina kataischunē tous sophoushina de propósito; kataischunē aoristo subjuntivo ativo, 3ª sing., de kataischunō, “cobrir de vergonha/confundir”; tous sophous, acusativo, “os sábios”) (o efeito visado não é vingança mesquinha, mas a exposição da insuficiência e da vaidade da sabedoria autossuficiente, com vistas a quebrantar e conduzir ao arrependimento. A linguagem “envergonhar” na Escritura frequentemente marca a frustração de uma confiança falsa e a chamada de volta ao Senhor [Isaías 19:11–14; Jeremias 9:23–24; 1 Coríntios 3:18–20]. Quando Deus age por meios “loucos”, Ele desmonta o orgulho para que ninguém se glorie perante Ele [1 Coríntios 1:29, 31]. Na prática eclesial, a fé simples e viva de um novo convertido frequentemente expõe teologias complexas, porém estéreis, porque a cruz não é equação, é poder que transforma: o ex-cego em João 9 “envergonha” o tribunal teológico ao testemunhar o essencial (“eu era cego e agora vejo”) [João 9:24–34]; a pecadora que ama muito “envergonha” o fariseu que não discerne graça [Lucas 7:36–50]; o publicano justificado “envergonha” a justiça própria do fariseu [Lucas 18:9–14]. No coração, a cruz já produziu esse santo constrangimento que derruba vanglória e realinha o saber ao amor [1 Coríntios 8:1; Gálatas 6:14].) ...e escolheu as coisas fracas do mundo... (kai ta asthenē tou kosmou exelexato ho theosta asthenē, neutro plural de asthenēs, “fracos/impotentes”; exelexato novamente aoristo médio) (esse padrão ecoa toda a história bíblica: o Senhor consistentemente opera por instrumentos fracos para que o poder seja reconhecido como Seu. Gideão e o exército reduzido [Juízes 7], Davi com funda e fé, não com armadura [1 Samuel 17:38–47], Baraque e Débora contra Sísera [Juízes 4], a pequena Belém como palco da encarnação [Miqueias 5:2; Mateus 2:6], a comunidade pós-exílio frágil sustentada pela promessa [Ageu 2:3–9; Zacarias 4:6–10], e, no ápice, o Cristo “crucificado em fraqueza” que vive pelo poder de Deus [2 Coríntios 13:4]. O princípio teológico em ação é claro: “temos este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós” [2 Coríntios 4:7]; “a minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” [2 Coríntios 12:9–10]. A igreja capacita membros que se sentem fracos quando (1) ensina identidade e dons em Cristo (cada um recebeu dom para servir) [1 Pedro 4:10–11; 1 Coríntios 12:4–7]; (2) cria trilhas concretas de participação (pequenos serviços que amadurecem vocações) [Atos 6:1–7; Romanos 12:6–8]; (3) oferece mentoria e discipulado que acompanham passos pequenos e fiéis [2 Timóteo 2:2; Tito 2:3–8]; (4) celebra fidelidade escondida, não apenas plataformas visíveis [Mateus 6:1–4; 25:21–23]. Na vida devocional, abraçar fraquezas como locais de manifestação da graça substitui o impulso de escondê-las: confissão, dependência e oração abrem espaço para Cristo operar com poder [Tiago 5:16; Hebreus 4:16].) ...para envergonhar as fortes;... (hina kataischunē ta ischyrata ischyra, neutro plural de ischyros, “fortes/poderosas”) (a dependência total da igreja em Deus expõe a insuficiência da autoconfiança do mundo. Quando o povo de Deus avança “não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito” [Zacarias 4:6], as “fortalezas” humanas são derrubadas [2 Coríntios 10:4–5]; quando a comunidade vive em oração, Palavra e partilha, autoridades percebem um poder que não pode ser detido por prisões ou ameaças [Atos 4:13, 18–31; 5:40–42]. O contraste aparece também em Laodiceia: riqueza e programa sem dependência de Cristo geram miséria espiritual [Apocalipse 3:17–20]; em contrapartida, a igreja pobre de Esmirna é rica aos olhos do Senhor [Apocalipse 2:9]. A avaliação honesta das práticas revela a base real de operação: agendas saturadas de atividades e orçamentos robustos podem coexistir com esterilidade, enquanto comunidades simples, mas rendidas ao Espírito, frutificam para a glória de Deus [Salmo 127:1; João 15:5, 8]. No âmbito devocional, a confiança precisa ser deslocada da própria força para a força de Deus: fortalecer-se “no Senhor e na força do seu poder” [Efésios 6:10], lançar fardos sobre Ele [Salmo 55:22; 1 Pedro 5:7], caminhar no Espírito [Gálatas 5:16], e gloriar-se na fraqueza para que o poder de Cristo repouse. Assim, a igreja e o crente se tornam vitrines vivas do paradoxo da cruz: a fraqueza que vence, a “loucura” que salva, o escondido que edifica — tudo “para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” [1 Coríntios 1:31; Jeremias 9:23–24].)

1 Coríntios 1:28 e Deus escolheu as coisas humildes do mundo,... (kai ta agenē tou kosmou exelexato ho theosta agenē, acusativo neutro plural de agenēs, “de baixo nascimento/sem prestígio”; exelexato, aoristo médio indicativo 3ª sing. de eklegomai, “escolheu para si”; sujeito explícito ho theos) (a “humildade” aqui designa pessoas e realidades sem nome, sem linhagem e sem status; este é um valor central no Reino porque Deus inverte o regime de honra do mundo e exalta os humildes enquanto abate os soberbos [1 Samuel 2:7–8; Salmo 113:7–9; Lucas 1:51–53]. Tal escolha é ato deliberado de liberdade soberana e graça: Deus não olha aparência nem genealogia, mas concede dignidade por seu chamado [1 Samuel 16:7; Efésios 1:4–6; 2 Timóteo 1:9]. A igreja promove cultura de humildade quando mede grandeza por serviço, não por cadeiras e títulos: Jesus lavou pés e ordenou o mesmo padrão entre os seus [João 13:12–15]; no Reino, quem quer ser grande torna-se servo e escravo de todos [Marcos 10:42–45]. Práticas que institucionalizam esse valor incluem honra proporcional aos “membros menos apresentáveis” [1 Coríntios 12:22–25], liderança colegiada e prestação de contas [Atos 13:1–3; 20:28], diaconia que prioriza os vulneráveis [Atos 6:1–7; Tiago 1:27], e liturgia que dá voz ao corpo inteiro (salmos, orações, testemunhos) [Colossenses 3:16; 1 Coríntios 14:26]. Na vida pessoal, buscar oportunidades de serviço humilde em vez de posições de honra expressa a mente de Cristo que se esvaziou e se humilhou até a cruz [Filipenses 2:5–8; Romanos 12:10–16].) ...e as desprezadas,... (kai ta exouthenēmena — particípio perfeito passivo, neutro plural, de exoutheneō, “desprezar/tratar como nada”, funcionando substantivado) (a escolha divina pelos “desprezados” reflete exatamente o ministério de Jesus: Ele comeu com publicanos e pecadores [Marcos 2:15–17], tocou leprosos e os purificou [Marcos 1:40–42], defendeu a mulher desprezada que ungiu seus pés [Lucas 7:36–50], acolheu crianças que os discípulos queriam afastar [Marcos 10:13–16], conversou com uma samaritana marginalizada e fez dela mensageira em sua cidade [João 4:7–30]. A comunidade de Jesus torna-se lugar seguro e acolhedor quando elimina favoritismo e discriminação [Tiago 2:1–9], reparte recursos para que não haja necessitados entre os irmãos [Atos 4:32–35], pratica hospitalidade ampla [Romanos 12:13; 1 Pedro 4:9] e busca ativamente os que estão à margem — pobres, estrangeiros, viúvas, órfãos — como expressão da justiça e misericórdia de Deus [Deuteronômio 10:18–19; Isaías 58:6–12; Lucas 14:12–14]. Tratar pessoas que a cultura despreza com honra, proximidade e compromisso pastoral alinha a igreja ao Cristo que não apagou o pavio que fumega e não esmagou a cana quebrada [Isaías 42:3; Mateus 12:20].) ...e aquelas que não são,... (kai ta mē onta — artigo com a partícula negativa e particípio presente neutro plural de eimi, “as coisas que não são/que não contam”, idiomatizando inexistência social) (Paulo descreve o gesto de Deus que convoca “o que não é” para existir, linguagem que ecoa a criação ex nihilo e a vocação graciosa: o Deus que cria todas as coisas “do nada” [Gênesis 1:1–3; Salmo 33:6, 9; Hebreus 11:3] “chama à existência as coisas que não existem” [Romanos 4:17] e, em Cristo, faz nova criação onde havia morte e vazio [2 Coríntios 5:17; Efésios 2:1–5]. A igreja ministra com esperança em contextos “sem esperança” porque confia nesse poder criador: o Espírito traz luz em trevas e vida em ossos secos [2 Coríntios 4:6; Ezequiel 37:1–14], levanta povos “que não eram povo” para serem povo de Deus [Oséias 2:23; 1 Pedro 2:10]. Tal convicção sustenta plantação de igrejas em lugares áridos, recuperação de cativos em vícios arraigados, reconciliação de famílias destruídas e recomeços onde só restava ruína [Isaías 61:1–4; Lucas 4:18–19]. No íntimo, recordar que, fora da graça, “eu nada era” e que tudo o que sou devo a Ele (por adoção e novo nascimento) enche o coração de gratidão e humildade [João 1:12–13; 1 Coríntios 4:7].) ...para reduzir a nada as que são;... (hina ta onta katargēsēhina de propósito; ta onta, “as coisas que são/que contam” segundo o século; katargēsē, aoristo subjuntivo ativo 3ª sing. de katargeō, “anular/tornar inoperante/reduzir a nada) (o resultado visado por Deus é escatológico e presente-escatológico: as estruturas de poder, sabedoria e status que “são” neste século serão expostas como vãs e transitórias diante da realidade do Reino. Deus já está anulando a “sabedoria deste mundo e dos poderosos que se reduzem a nada” [1 Coríntios 2:6], e, no fim, Cristo destruirá todo principado, potestade e poder, até o último inimigo, a morte [1 Coríntios 15:24–26]. As visões de Daniel mostram reinos esmagados pela pedra não cortada por mãos, que enche toda a terra [Daniel 2:34–35, 44–45]; o Apocalipse canta a queda da Babilônia com todo seu luxo e comércio [Apocalipse 18], ao passo que o Cordeiro reina [Apocalipse 11:15; 19:6]. Tal perspectiva liberta a igreja da necessidade de buscar aprovação das “coisas que são” — aplauso, prestígio, selos de legitimação — e a orienta para o invisível que é eterno [2 Coríntios 4:17–18; 1 João 2:17; Colossenses 3:1–4]. Viver para o que permanece significa gloriar-se na cruz, não em marcas humanas [Gálatas 6:14], servir em secreto confiando na recompensa do Pai [Mateus 6:1–4], agradar a Deus e não a homens [1 Tessalonicenses 2:4], e perseverar na fidelidade mesmo quando os critérios do século chamam isso de irrelevância. O Reino torna obsoletas as hierarquias deste mundo, e os que caminham sob esse horizonte já degustam a liberdade dos cidadãos da Nova Jerusalém [Filipenses 3:20–21; Hebreus 12:28–29].)

1 Coríntios 1:29 a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. (hopōs mē kauchētai sarx enōpion tou theouhopōs introduz cláusula final de propósito; kauchētai, presente subjuntivo médio/deponente, 3ª sing., “gloriar-se/vangloriar-se”; sarx, aqui como “homem na sua condição humana”; enōpion tou theou, locução judicial-cultual, “diante de Deus”.) (O versículo explicita o propósito final de todo o método salvífico: Deus ordenou a eleição dos “loucos, fracos, humildes e desprezados” e a centralidade da cruz para extinguir a jactância humana e reservar para si toda a glória. A anulação da vanglória é indispensável porque somente Deus é a fonte, o meio e o fim da salvação [Romanos 11:36; Efésios 1:3–14]; por isso, “onde está, então, a jactância? Foi de todo excluída” [Romanos 3:27; cf. Efésios 2:8–9]. A Escritura inteira vincula a verdadeira glória a Deus somente e denuncia a glória humana como usurpação [Jeremias 9:23–24; Salmo 115:1; Gálatas 6:14]. Estruturar ministério e adoração para que Deus receba toda a glória implica centramento explícito na Palavra e no evangelho de Cristo (leitura pública, pregação expositiva, orações saturadas de Escritura) [1 Timóteo 4:13; 2 Timóteo 4:2; Colossenses 3:16], administração dos sacramentos como “evangelho visível” que aponta para Cristo, não para oficiantes [1 Coríntios 10:16–17; 11:26; Mateus 28:19], liderança que serve e evita personalismos [Marcos 10:42–45; 2 Coríntios 4:5], pluralidade e prestação de contas que frustram culto à personalidade [Atos 14:23; 20:28], métricas que celebrem fruto espiritual e fidelidade em vez de números [Gálatas 5:22–23; 1 Coríntios 3:5–7], e liturgias que confessem pecado, proclamem graça e respondam com gratidão [Isaías 6:1–8; Hebreus 12:28]. Na prática devocional, o exame do coração identifica focos de vanglória (dons, saber, desempenho, “ministério”) e os submete à cruz: tudo é recebido, logo todo louvor retorna ao Doador [1 Coríntios 4:7; 15:10; Tiago 1:17]. O hábito de gloriar-se no Senhor se cultiva pela confissão regular, ação de graças, serviço escondido e decisão consciente de atribuir créditos a Deus [Jeremias 9:23–24; 1 Pedro 4:11].)

1 Coríntios 1:30 Mas vós sois dele,... (ex autou de hymeis esteex autou, preposição ek com genitivo de origem: “de/por procedência de Deus”; este, presente indicativo de eimi; ênfase na pertença e procedência) (A declaração concentra eleição, regeneração e posse divina: a identidade do crente procede de Deus e pertence a Deus. A fonte é o beneplácito eterno do Pai que elegeu em amor [Efésios 1:4–5], gerou por sua Palavra e Espírito [Tiago 1:18; 1 Pedro 1:3, 23], adotou como seu povo [Isaías 43:1; João 1:12–13]. A segurança nasce daí: quem é “dele” não é descartado por insuficiências ou rejeições humanas, pois está nas mãos do Pai [João 10:28–29; Romanos 8:31–39]. Na vida devocional, a identidade fundamental deixa de ser o fazer, o parecer ou o aplauso alheio e fixa-se na pertença: “sou de Deus”.) ...em Cristo Jesus,... (en Christō Iēsou — dativo locativo-esferal, “na esfera/união com Cristo”) (A posse “dele” ocorre exclusivamente na união com Cristo: todas as bênçãos espirituais são dadas “em Cristo” [Efésios 1:3], somos batizados “em Cristo” e “revestidos de Cristo” [Gálatas 3:27], morremos e ressuscitamos com Ele [Romanos 6:3–5], permanecemos nEle e frutificamos [João 15:4–5]. A igreja mantém os membros focados nessa união quando catequiza nessa doutrina, expõe as Escrituras cristocentricamente [Lucas 24:27], usa a Ceia e o Batismo como sinais e selos da união [1 Coríntios 10:16–17; Romanos 6:3–4], e aplica a união a cada área (ansiedade, culpa, vocação, relacionamentos) [Colossenses 3:1–4; 2 Coríntios 5:17]. Devocionalmente, “estar em Cristo hoje” significa interpretar a própria rotina a partir dessa realidade: aproximar-se do Pai com ousadia por causa do Filho [Hebreus 4:14–16], lutar contra o pecado a partir da morte e vida com Cristo [Romanos 6:11–14], servir como membro de seu corpo [1 Coríntios 12:12–27].) ...o qual se nos tornou,... (hos egenēthē hēminegenēthē, aoristo indicativo passivo/deponente de ginomai, 3ª sing., “tornou-se/veio a ser para nós”; dativo de vantagem hēmin) (A gramática destaca que Cristo não apenas dons; Ele é para nós tudo o que necessitamos. A salvação é pessoal e participativa: receber Cristo é receber, nEle, o conjunto dos benefícios [João 1:12, 16; Colossenses 2:9–10]. Essa verdade reconfigura o aconselhamento e a formação: o chamado deixa de ser “tente produzir virtudes” e passa a ser “apegue-se a Cristo, que é sua suficiência”, com implicações para culpa, hábito, esperança e missão [Mateus 11:28–30; Gálatas 2:20].) ...da parte de Deus,... (apo theou — genitivo de origem) (Toda a obra que Cristo é para nós provém do Pai: a Trindade age inseparavelmente — o Pai planeja, o Filho executa, o Espírito aplica [Efésios 1:3–14; 1 Pedro 1:2; Tito 3:4–6]. Reconhecer a salvação “da parte de Deus” suscita adoração e gratidão, elimina orgulho e sustenta a vida de oração e louvor [Salmo 115:1; 2 Coríntios 1:20]. Na devoção diária, agradecer ao Pai pelo dom do Filho e do Espírito mantém o coração na fonte [João 3:16; Romanos 8:32].) ...sabedoria,... (sophia) (Cristo se tornou para nós sabedoria porque nEle estão “todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” [Colossenses 2:3]; Ele é a sabedoria personificada de Deus prometida e superior à sabedoria do século [Provérbios 8; 1 Coríntios 1:24]. A sabedoria que Ele é revela Deus, interpreta a história (criação–queda–redenção–consumação) e dirige escolhas concretas [1 Coríntios 2:7–16; Tiago 3:17]. Ajudar pessoas a buscar respostas em Cristo inclui formar cosmovisão bíblica, saturar-se da Palavra de Cristo, pedir sabedoria a Deus e ouvir a comunidade de fé [Colossenses 3:16; Tiago 1:5; Provérbios 11:14]. Devocionalmente, a corrida por decisões sábias leva à presença de Cristo e à sua Palavra como referência primeira.) ...e justiça,... (dikaiosynē — Cristo se tornou nossa justiça no sentido jurídico do evangelho: Deus nos declara justos pela fé porque a justiça de Cristo é imputada ao crente [Romanos 3:21–26; 4:5–8; 5:18–19; 2 Coríntios 5:21; Filipenses 3:9]. O peso de estabelecer justiça própria é removido; a pregação dessa justiça liberta do moralismo esmagador e abre caminho para obediência grata [Gálatas 2:16; 5:1]. Na devoção, a confiança para estar diante de Deus repousa na perfeição do Filho e não na performance mutável do coração.) ...e santificação,... (hagiasmos — Cristo se tornou nossa santificação tanto como estado quanto como processo. Em Cristo, fomos santificados de uma vez por todas — separados para Deus [1 Coríntios 1:2; 6:11; Hebreus 10:10] — e, pela união com Ele e o dom do Espírito, somos progressivamente conformados ao seu caráter [1 Tessalonicenses 4:3; Romanos 6:19, 22; 8:29]. Essa realidade motiva a luta contra o pecado não como esforço solitário, mas como apropriação, pela fé e pelos meios de graça, do que já somos nEle: mortos para o pecado, vivos para Deus [Romanos 6:11–14; Gálatas 5:16–25]. Na prática, dependência diária de Cristo, confissão, Palavra, oração, Ceia e mutualidade sustentam o crescimento santo [Hebreus 4:16; Tiago 5:16; 1 Coríntios 10:16–17].) ...e redenção,... (apolytrōsis — Cristo se tornou nossa redenção como libertação por preço pago. No presente, temos redenção, isto é, perdão dos pecados pelo seu sangue [Efésios 1:7; Colossenses 1:14; 1 Pedro 1:18–19]; no futuro, aguardamos a “redenção do corpo”, quando a adoção se consumará e a criação será libertada [Romanos 8:18–23; Efésios 1:14]. O “resgate” (cf. lytron em Marcos 10:45; 1 Timóteo 2:6) define a identidade: libertos do domínio do pecado e da morte para servir ao Deus vivo [Hebreus 9:12–14]. Essa esperança sustenta em sofrimento e mortalidade porque fixa o olhar na glória vindoura e na vitória final de Cristo [2 Coríntios 4:16–18; 1 Coríntios 15:50–57]. Na devoção, viver como redimido significa rejeitar o jugo antigo, praticar obras de liberdade (amor, justiça, misericórdia) e manter viva a esperança do retorno do Senhor [Gálatas 5:1, 13; Tito 2:11–14].)

1 Coríntios 1:31 para que, como está escrito: (hina kathōs gegraptaihina introduz propósito/resultado: “a fim de que”; kathōs “como”; gegraptai, perfeito passivo de graphō, valor estativo: “está e permanece escrito”.) (Paulo conclui com Jeremias 9:24 para amarrar todo o argumento em uma âncora canônica: desde os Profetas, Deus determinou que toda glória legítima fosse nEle, não no homem. Isso demonstra continuidade da revelação: o princípio que rege o êxodo, a aliança, a sabedoria e o retorno do exílio — gloriar-se só no Senhor — é o mesmo que rege a cruz e a igreja [Jeremias 9:23–24; Deuteronômio 8:11–18; Salmo 115:1; Isaías 42:8; Romanos 3:27]. Em Jeremias, Deus desautoriza três capitais humanos (sabedoria, poder, riquezas) e prescreve um único motivo de glória: conhecer o Senhor em sua hesed (benignidade), justiça e retidão; em Paulo, Deus desautoriza os mesmos capitais via escolha dos “loucos/fracos” e via cruz que anula vanglória (1 Coríntios 1:18–29), culminando na mesma prescrição. A igreja cultiva cultura de desvio da glória humana e direção a Deus quando estrutura tudo para que Cristo, não pessoas, esteja no foco: leitura pública e pregação que exaltem a suficiência de Cristo [1 Timóteo 4:13; 2 Coríntios 4:5], orações e cânticos saturados de atributos e obras de Deus [Salmo 96; Efésios 5:19–20], sacramentos administrados como “evangelho visível” que aponta para o Doador [1 Coríntios 10:16–17; 11:26], liderança colegiada e prestação de contas que evitam personalismo [Marcos 10:42–45; Atos 14:23], métricas que celebrem fruto do Espírito e fidelidade, não vaidade numérica [Gálatas 5:22–23; 1 Coríntios 3:5–7], e testemunhos que destacam a graça de Deus mais do que o herói humano [Salmo 66:16; 2 Coríntios 12:9–10]. Aplicação devocional final: a citação exige que a minha autopercepção, meus alvos e minhas celebrações diárias sejam reinterpretados — abandono vanglória (conhecimento, conquistas, status) e passo a “gloriar-me” no Senhor, atribuindo-Lhe toda a honra nas vitórias e buscando nEle consolo e direção nas fraquezas [Jeremias 9:23–24; Gálatas 6:14; 1 Pedro 4:11].) Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor. (ho kauchōmenos en Kyriō kauchasthōho kauchōmenos, particípio presente médio de kauchaomai, “o que se gloria/jacta”; en Kyriō, dativo locativo “no Senhor” como esfera e objeto; kauchasthō, presente médio imperativo 3ª sing.: mandado contínuo de gloriar-se em Deus. Gloriar-se no Senhor significa localizar valor, identidade, alegria e “jactância” exclusivamente na pessoa, obra e caráter de Deus revelados em Cristo. Em termos bíblicos, é transferir o “centro de gravidade” da glória: não no eu (sabedoria, poder, riqueza), mas no Senhor que se deu por nós e que é “sabedoria, justiça, santificação e redenção” para o Seu povo [1 Coríntios 1:30; Jeremias 9:23–24; Salmo 34:2–3; Filipenses 3:3, 7–9]. A pessoa que se gloria no Senhor apresenta marcas discerníveis: humildade prática (reconhece que “tudo é dom” [1 Coríntios 4:7; Tiago 1:17]), dependência de oração (atribui a Deus causas e resultados [Colossenses 4:2; Efésios 3:20–21]), obediência alegre (gloriar-se no caráter de Deus leva a praticar justiça, misericórdia e fidelidade [Miqueias 6:8; João 14:15]), linguagem de gratidão e confissão (menos autopromoção, mais soli Deo gloria [Salmo 115:1; 1 Tessalonicenses 5:18]), unidade e ausência de partidarismo (quando a glória é do Senhor, desaparece o culto à personalidade [1 Coríntios 3:21–23; Gálatas 6:14]), generosidade sacrificial (confia no Provedor, não nas riquezas [2 Coríntios 9:6–11; 1 Timóteo 6:17–19]) e coragem santa (busca agradar a Deus, não a homens [Gálatas 1:10; Atos 5:29]). Numa igreja que verdadeiramente se gloria no Senhor, o púlpito exalta Cristo crucificado e ressuscitado [1 Coríntios 2:2], a liturgia conduz do ai de mim à doxologia [Isaías 6:1–8; Romanos 11:33–36], os sacramentos proclamam a morte do Senhor até que Ele venha [1 Coríntios 11:26], os líderes servem como escravos por amor [Marcos 10:45], e os relatos de ministério terminam em louvor a Deus [Atos 11:18; 21:19–20]. No exame devocional, o objeto real da minha glória é aferido por onde repousam meu orgulho e minha segurança ao “final do dia”: se repousam na carreira, na família ou nas conquistas, o coração ainda busca glória criada; quando repousam no Senhor — no que Ele é e fez —, a alma aprende a dizer: “a minha alma se gloriará no Senhor” [Salmo 34:2; Gálatas 6:14]. Essa conversão da glória é o selo de toda a seção: Deus salvou de modo que “ninguém se vanglorie” e para que toda glória retorne ao Trono — “Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas; glória, pois, a Ele eternamente. Amém” [Romanos 11:36; Efésios 1:6, 12, 14; Apocalipse 4:11].)

VIII. Devocional de 1 Coríntios 1

O devocional abaixo inicia destacando a abordagem pastoral de Paulo, que introduz a carta aos Coríntios com uma ação de graças teológica, afirmando a graça de Deus e a confirmação do Evangelho na vida da igreja antes de tratar de seus problemas. Essa confirmação se manifestou de forma interna, pelo Espírito, gerando duas marcas principais nos crentes: uma mente iluminada com o conhecimento experimental de Cristo, que corresponde ao testemunho interno do crente mencionado em 1 João 5:10, e um espírito que espera ativamente a vinda do Senhor. O texto ressalta a fidelidade de Deus como a garantia da preservação e aceitação final dos santos, assegurando que nada poderá separá-los do amor de Deus, conforme Romanos 8:38-39, e que Ele completará a boa obra que começou.

A mensagem central do Evangelho, segundo o texto, é “Cristo crucificado”, uma proclamação que gera uma divisão fundamental: para judeus, que buscam sinais, é um “escândalo”, e para os gregos, que buscam sabedoria, é “loucura” (1 Coríntios 1:23). No entanto, para os que são chamados, esta mesma mensagem é o “poder de Deus para a salvação” (Romanos 1:16) e a manifestação da sabedoria divina. A cruz não é apenas um evento histórico, mas o sacrifício vicário prefigurado em todo o Antigo Testamento, como no Servo Sofredor de Isaías 53, e o único fundamento da esperança cristã. A análise enfatiza que a pregação da cruz é o único caminho que, ao mesmo tempo, ofende o orgulho humano e oferece consolo e salvação, revelando um Deus que é justo e, ao mesmo tempo, justificador daquele que crê, como aponta Romanos 3:26.

Por fim, o texto explora a lógica da graça soberana de Deus, que deliberadamente escolhe o que o mundo considera fraco, tolo e desprezível — “não muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento” (1 Coríntios 1:26) — com o propósito supremo de anular a vanglória humana, “para que nenhuma carne se glorie na presença dele” (1 Coríntios 1:29). Toda a carência humana (ignorância, culpa, impureza e escravidão) é plenamente suprida em Cristo, que se tornou da parte de Deus “sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” para nós (1 Coríntios 1:30). Consequentemente, o foco da pregação e da vida cristã deve ser unicamente “Jesus Cristo, e este crucificado” (1 Coríntios 2:2), de modo que toda a glória retorne a Deus, cumprindo o princípio de Jeremias 9:23-24, reafirmado por Paulo: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1 Coríntios 1:31).

A. Graça Confirmada e Esperança até o Fim

Dou graças a Deus por esse retrato inicial que Paulo nos oferece da igreja em Corinto 1:1-3, não porque ali não houvesse feridas a tratar, mas porque o apóstolo encontra um caminho pastoral que une franqueza e afeto. Ele precisa tocar em verdades ásperas ao ouvido de muitos; ainda assim, abre a carta com uma ação de graças que não disfarça a fidelidade, antes a torna suportável, como quem unge a lâmina com bálsamo antes da incisão necessária. Corinto, afinal, não era celeiro de virtudes antes da conversão; seu nome já fora sinônimo de dissolução, e não surpreende que, após abraçarem a fé, alguns ainda carecessem de exortações em pontos que julgavam veniais, quando não indiferentes. Paulo, porém, não mede a igreja pelos seus piores membros; sabe que, se havia entre eles quem precisasse de correção, havia também – e em maioria – gente sincera, e por isso abrange a todos na saudação inicial, conquistando assim maior espaço no coração daqueles cujos passos pretende endireitar. Dessa postura aprendemos também a ler com caridade as expressões generosas pelas quais, em nossas liturgias, falamos da condição do povo de Deus: não é preciso esticar cada palavra até o último limite, mas conceder ao discurso devocional a mesma latitude caridosa com que Paulo envolve os coríntios na sua gratidão. O que ele faz, no entanto, não é mero ornamento retórico: é teologia em forma de ação de graças. E é aqui que desponta o tema: as bênçãos que o Evangelho comunica e as que, por promessa divina, ele assegura aos que foram chamados à comunhão de seu Filho.

O Evangelho, diz Paulo, é um testemunho acerca de Jesus. Essa era a seiva que corria por toda a profecia, e é a pulsação que anima cada página do Novo Testamento. João a resume sem rodeios: “Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está em seu Filho; quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1 João 5:11–12). Em Corinto, esse testemunho havia sido confirmado de duas maneiras. Primeiro, exteriormente, por meio de sinais e prodígios; não por acaso, nenhuma igreja os excedeu na variedade de dons. Depois, e sobretudo, interiormente, pelo operar do Espírito de Deus no coração, transformando a vida e imprimindo graça onde antes reinava a culpa. É desta confirmação interna que Paulo se lembra quando agradece “pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus”: a notícia do Filho não lhes chegara como rumor distante, mas como ato presente de Deus em suas almas.

Duas marcas, em particular, exibiam o vigor salutar do Evangelho entre eles. A primeira é uma mente iluminada. Eles haviam sido “enriquecidos em toda palavra e em todo conhecimento”. Convém distinguir aqui os dons extraordinários dos ordinários: além de qualquer carisma miraculoso, todo crente recebe um saber de outra ordem, experimental, que nasce do coração e não apenas da cabeça, e que, por isso mesmo, encontra expressão clara na boca. É o que o sábio percebe quando afirma que “o coração do prudente instrui a sua boca e acrescenta ensino aos seus lábios”. João fala do mesmo quando declara que “quem crê no Filho de Deus tem em si o testemunho” (1 João 5:10). Há, entre o registro divino acerca de Cristo e a experiência íntima do crente, uma correspondência pacificadora: ele sente a necessidade do que Cristo oferece e descobre em Cristo suficiência para toda necessidade. E, ao falar dessas coisas, todos os crentes do mundo, apesar de diferenças menores, reconhecem-se numa mesma confissão: somos pecadores salvos pela graça mediante o sangue do Redentor. Outros poderão recitar igual credo, mas não o têm gravado no peito, nem podem narrá-lo a partir da própria história; falta-lhes a substância que só a obra do Espírito concede. Essa porção, que faz da verdade uma vida, vale mais do que toda ciência acumulada e eclipsa os tesouros das Índias – tudo se torna, em comparação, escória e lixo, como confessou o próprio apóstolo ao preferir “o conhecimento de Cristo Jesus” a qualquer ganho terreno.

A segunda marca é um espírito que espera. Os coríntios “não ficavam atrás em nenhum dom, aguardando a vinda do Senhor Jesus Cristo”. Os santos da antiga aliança esperaram o primeiro advento; os da nova esperam o segundo, quando o Senhor virá com poder e grande glória para congregar os seus e introduzi-los na herança plena. Os primeiros cristãos julgavam próxima essa hora; nós, passados tantos séculos, vemos ainda muitas promessas por cumprir e, por isso, a colocamos adiante. Contudo, para cada pessoa, esse dia está sempre “à porta”, porque, ao partir do corpo, somos levados à presença daquele que julga e fixa para sempre a nossa porção. O crente, assim, aprende a olhar para a morte não como fuga amarga, mas como início de sua alegria interminável. Outros podem desejá-la como cessação de dores; o crente a deseja como consumação de sua esperança, apressa-se para o “dia de Cristo” não por desespero do presente, mas por saudade do futuro, e almeja o céu não apenas como descanso de problemas, mas como descanso em Deus. Por isso vive sóbrio e, “até o fim, espera inteiramente na graça que lhe será trazida na revelação de Jesus Cristo”. É uma espera que educa os afetos, reordena os amores e sustém a perseverança.

Mas Paulo não se contenta em nomear o que o Evangelho comunica; ele celebra também o que o Evangelho garante. O Deus que nos chama ao conhecimento de seu Filho nos chama, ao mesmo tempo, à comunhão com ele – e quem concede a primeira dádiva, compromete-se com a última. É nessa base, na fidelidade de Deus, que o apóstolo assegura duas promessas inseparáveis: a preservação contínua e a aceitação final.

Quanto à preservação, ele afirma: “Ele vos confirmará até o fim”. Se estivéssemos entregues a nós mesmos, nenhuma esperança razoável teríamos de chegar incólumes à meta, tão numerosos e graves são os embaraços do caminho. Mas Deus toma a si a custódia de seus filhos, guardando-os “pelo seu poder, mediante a fé, para a salvação”. Ele se compromete em duas direções: por si, prometendo não se afastar deles para lhes fazer o bem; por eles, prometendo pôr o seu temor em seus corações para que não se apartem dele (Jeremias 32:40). E, se porventura o ofendem, ele os visita com vara e açoites, sem, contudo, retirar a sua benignidade, porque jurou por sua santidade que não faltará à sua promessa (Salmos 89:30–35). Tão persuadido estava Paulo dessa verdade ao falar aos filipenses, que disse estar certo de que “aquele que começou boa obra” haveria de completá-la “até ao dia de Cristo”. A mesma certeza podemos nutrir a respeito de todo verdadeiro crente: nada o separará do amor de Cristo (Romanos 8:38–39). Deus empenha a própria palavra em nosso favor, não permitindo que sejamos tentados além do que podemos suportar, e aperfeiçoando tudo quanto nos diz respeito. Por isso, quando suplicamos que “todo o nosso espírito, alma e corpo sejam conservados irrepreensíveis” até o Reino, podemos acrescentar, com santa confiança: “Fiel é o que nos chama, o qual também o fará”.

Quanto à aceitação, Paulo declara que seremos preservados “para sermos irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo”. Em certo sentido, já agora somos irrepreensíveis, porque o Filho nos lavou em seu sangue e nos declarou limpos (João 15:3). No último dia, porém, seremos irrepreensíveis também em nós mesmos, não somente justificados pelo sangue, mas plenamente santificados pelo Espírito, conformes à imagem perfeita do nosso Deus. Então Cristo se apresentará a si mesmo a sua igreja gloriosa, “sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante”, santa e sem defeito (Efésios 5:27). Enquanto esse dia não chega, a sua graça onipotente nos fortalece, confirma e firma até o fim, como o apóstolo Pedro testemunha ao falar do Deus de toda graça que, depois de breve sofrimento, nos aperfeiçoa, confirma e estabelece.

Nada disso, entretanto, dispensa o crente do santo cuidado. Deus jamais cumpre suas promessas à revelia dos meios pelos quais ele mesmo as determinou. Exige de nós todo empenho, como se tudo dependesse apenas de nossos esforços; e, ao mesmo tempo, condiciona as dádivas prometidas ao exercício desses meios. Se desejamos ser achados irrepreensíveis naquele dia, é necessário permanecer na fé, “fundados e firmes, não nos desviando da esperança do Evangelho” (Colossenses 1:22–23). É necessário crescer em amor, “aumentando e abundando em amor uns para com os outros”, a fim de que os nossos corações sejam confirmados irrepreensíveis em santidade perante o Pai, “na vinda de nosso Senhor Jesus” (1 Tessalonicenses 3:12–13). É necessário, ainda, diligência constante, porque é com diligência que tornamos “firme a nossa vocação e eleição” e somos, ao fim, “achados por ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis” (2 Pedro 1:10; 2 Pedro 3:14). Os fins que Deus estabeleceu caminham juntos com os meios que Deus prescreveu: sem fé, amor e diligência, o alvo não será alcançado; com a prática perseverante desses meios, o alvo está seguro, pois “Deus não pode negar a si mesmo” (2 Timóteo 2:13), e sua palavra, confirmada por aliança e juramento, é impossível de falhar (Hebreus 6:18). “Céus e terra passarão”, mas o que ele disse não passará (Mateus 24:35).

À luz de tudo isso, três apelos se impõem ao coração. Primeiro, sejamos agradecidos se participamos dessa graça. Se Paulo “dava graças a Deus” em favor dos coríntios por aquilo que eles haviam recebido, quanto mais convém que os próprios beneficiários elevem ações de graças. Possuir esse conhecimento experimental da salvação e desfrutar dessas perspectivas benditas de imortalidade e glória é a mais alta felicidade à qual a criatura pode aspirar; tendo conosco “as coisas que acompanham a salvação”, nada precisamos invejar aos homens, nem nos amedrontam os males do tempo, pois já nos foram confiados os dons mais ricos que o próprio Deus pode conceder.

Segundo, vivamos de modo digno de tão grande favor. As misericórdias de Deus pedem resposta adequada, e a resposta que ele deseja é a entrega total de nós mesmos como sacrifício vivo (Romanos 12:1). Se Deus, ao nos comunicar sua graça, visa manter-nos irrepreensíveis até a vinda do Senhor, façamos dessa mesma meta o norte da nossa vida: “irrepreensíveis e simples, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrupta e perversa, entre a qual resplandecemos como luminares no mundo” (Filipenses 2:15). Que nossa fala e nosso conhecimento, enriquecidos por Cristo, sirvam à edificação; que nossa esperança, orientada para a sua vinda, purifique os afetos; que nossa comunhão com o Filho transborde em serviço humilde e amor perseverante.

Por fim, lembremo-nos de onde procede toda a nossa força. De nós mesmos, nada podemos. É Deus – e somente Deus – quem nos confirma até o fim. O Autor deve ser também o Consumador da salvação; ele é quem opera em nós tanto o querer quanto o realizar, e é nele que se encontram todas as nossas fontes. “Aquele que é poderoso para nos guardar de tropeçar e para nos apresentar com exultação, imaculados diante de sua glória” (Judas 24) assim o fará, se nele confiarmos, porque “fiel é o Senhor, que nos fortalecerá e guardará do mal” (2 Tessalonicenses 3:3). A ele, portanto, “ao único Deus sábio, nosso Salvador”, sejam “glória e majestade, domínio e poder, agora e para sempre”. Amém.

B. A Cruz: Poder e Sabedoria para Quem É Chamado

Há no coração humano a inclinação soberba de dizer a Deus como ele deveria agir, em vez de receber humildemente o que ele, em sua soberania, se digna a conceder (Romanos 9:20–21; Isaías 45:9; Jó 40:2). Pastores e mestres não devem estimular tal presunção, ainda que, por amor, procurem ganhar as pessoas “para o seu bem”, agradando-as naquilo que favorece a edificação sem jamais negociar a verdade (Romanos 15:2; 1 Coríntios 9:19–23; Gálatas 1:10; 2 Coríntios 4:2). Foi nesse espírito que Paulo se recusou a ajustar a mensagem aos desejos culturais de judeus e gregos, preferindo anunciar aquilo que o próprio Deus selou como centro do Evangelho: “pregamos Cristo crucificado”, ainda que tal proclamação soasse pedra de tropeço para uns e insensatez para outros (1 Coríntios 1:23; 1 Coríntios 1:18; 1 Coríntios 2:2). A missão apostólica não era oferecer curiosidades religiosas, mas testemunhar a Palavra da cruz, “poder de Deus” para salvar todo o que crê, sem distinção (Romanos 1:16; 1 Coríntios 1:24).

Anunciar Cristo crucificado não é narrar apenas um fato histórico emocionante, mas interpretar, a partir da revelação, a natureza do seu morrer, os frutos que dele dimanam e o chamado urgente para que cada pessoa se aproprie desses benefícios pela fé (Lucas 24:27; Atos 17:2–3; 2 Timóteo 4:2). A morte de Jesus não foi um infortúnio igual ao dos malfeitores que padeceram ao seu lado; foi um sacrifício verdadeiro, oferecido a Deus em nosso lugar (João 10:11; 2 Coríntios 5:21; 1 Pedro 3:18). Toda a economia levítica prefigurou essa oblação, como atestam os holocaustos, expiações e o Dia da Expiação, sombras que apontavam para a realidade substancial do Cordeiro que tira o pecado do mundo (Levítico 1–7; Levítico 16; João 1:29). Os profetas anteciparam esse caráter vicário e propiciatório: o Servo ferido por nossas transgressões, moído por nossas iniquidades, sobre quem recai a culpa de muitos, ofertando-se em sacrifício pela culpa (Isaías 53:5–6, 10; Daniel 9:26). O próprio Senhor interpretou seu sangue como “derramado em favor de muitos para remissão de pecados”, e os apóstolos repetiram esse testemunho ao explicar que ele apareceu “para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” e que sua entrega foi “oferta e sacrifício a Deus” em aroma suave (Mateus 26:28; Hebreus 9:26; Efésios 5:2; 1 Coríntios 5:7).

Dessa cruz brotam todos os dons espirituais de que necessitamos: perdão que apazigua a consciência, paz com Deus que põe fim à inimizade, santidade que nos separa para a vontade divina e glória que nos aguarda na consumação (Efésios 1:7; Romanos 5:1; Colossenses 1:20; Hebreus 10:10, 14; Tito 2:14; Romanos 8:30; 2 Coríntios 4:17). Sem sangue derramado não há remissão, mas, tendo Deus não poupado o seu próprio Filho, com ele nos concede graciosamente todas as coisas necessárias à vida e à piedade (Hebreus 9:22; Romanos 8:32; 2 Pedro 1:3). Por isso, a verdadeira pregação não apenas expõe doutrina: ela suplica, persuade, raciocina, chama à reconciliação e alcança tanto o entendimento quanto os afetos, implorando que as pessoas se apropriemon pessoalmente de Cristo e de sua obra (2 Coríntios 5:11, 20; Atos 18:4; Atos 19:8; Atos 26:28–29; Romanos 12:1; Atos 20:31).

Contudo, a mesma mensagem que consola uns escandaliza outros; desde os dias de Jesus houve quem o chamasse de bom e quem o acusasse de enganador, e o padrão se repete com o seu Evangelho (João 7:12; 2 Coríntios 2:16). Para muitos judeus, a cruz foi escândalo, porque, ignorando a justiça de Deus e pretendendo estabelecer a sua própria, tropeçaram na “pedra de tropeço” ao imaginar que a fé em Cristo abolisse a Lei, quando, na verdade, Cristo é o fim da Lei para justiça de todo o que crê (Romanos 9:31–33; Isaías 8:14–15; 1 Pedro 2:7–8; Romanos 10:3–4). Ainda que pedissem sinais e os tivessem em abundância — curas, exorcismos, ressurreição e, sobretudo, a própria ressurreição de Cristo — persistiram em alegar falta de prova, cumprindo paradoxalmente as Escrituras que anunciavam sua incredulidade (Mateus 12:38; João 12:37; Atos 2:22–24; Lucas 24:25–27). Entre os gregos, formados em debates e filosofias, o Evangelho soou tolice porque não adulava o orgulho da razão autossuficiente, antes desmontava a vanglória humana ao proclamar que Deus salvou o mundo pela loucura da pregação (Atos 17:21–32; Colossenses 2:8; 1 Coríntios 1:20–21). Até hoje, em nome de “moralidade”, alguns veem a cruz como ameaça às boas obras, e, em nome de “racionalidade”, outros a rejeitam por ferir seus pressupostos de religião natural; uns tropeçam, outros zombam (Efésios 2:8–9; Romanos 3:28; Tiago 2:18; 1 Coríntios 2:14; Gálatas 5:11). E se a nossa exposição do Evangelho nunca provoca essa tensão — consolo para os humildes e ofensa para o orgulho — talvez não estejamos anunciando a cruz como Paulo a proclamou (1 Coríntios 1:18; Gálatas 6:14).

Entretanto, onde a chamada eficaz de Deus irrompe, os olhos se abrem e a mesma cruz outrora desprezada resplandece como poder e sabedoria (Romanos 8:30; 2 Tessalonicenses 2:14; João 6:44). Para os chamados — de origem judaica ou gentílica — Cristo crucificado não é mais fraqueza, mas o braço estendido de Deus que subjuga corações e estabelece uma nova criação (1 Coríntios 1:24; Isaías 53:1; 2 Coríntios 5:17). Eles reconhecem que essa mensagem, e só ela, é a energia divina que converteu multidões, promoveu o triunfo da Palavra e explica a sua própria transformação interior (Atos 6:7; Atos 19:20; Romanos 1:16; 1 Tessalonicenses 1:5). Percebem também a sabedoria multifacetada de Deus: na cruz, justiça e paz se beijam, Deus permanece justo e, ao mesmo tempo, justificador do que tem fé em Jesus; nenhuma perfeição é eclipsada, todas brilham simultaneamente (Salmos 85:10; Romanos 3:26; Efésios 3:10–11). E veem ainda quão universal é esse caminho: serve ao moralista e ao pecador notório, ao que tem “muitos anos pela frente” e ao ladrão que encontra a graça no último suspiro; não há caso sem esperança, porque a salvação repousa no que Cristo fez, não no que ainda podemos fazer (João 3:16; Lucas 23:39–43; Romanos 5:6–8). Acima de tudo, contemplam o milagre dos milagres: do maior crime da história — a crucificação do Santo e Justo — Deus fez nascer o maior bem concedido à humanidade, conforme seu desígnio eterno (Atos 2:23–24; Atos 4:27–28; Gênesis 50:20). Não admira que, à luz dessa excelência, tenham por perda todo o resto, se for para ganhar Cristo (Filipenses 3:8–9).

Diante disso, cabe falar ternamente a quem preza a razão como suprema. Agradeça a Deus pelo vigor intelectual, mas lembre-se de que a verdadeira sabedoria começa na reverência e se expressa em confiar no Senhor de todo o coração, sem pretensão de sondar os seus segredos inescrutáveis (Provérbios 1:7; Provérbios 3:5–7; Jó 11:7–9; Romanos 11:33–34). A fé cristã não pede que renuncie à razão, e sim que a submeta a Deus, levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, tornando-se como criança para ser ensinável (2 Coríntios 10:5; Mateus 18:3; 1 Coríntios 14:20). Se alguém se recusa a essa humildade, Deus mesmo “apanha os sábios na própria astúcia” e desfaz as sabedorias que pretendem julgar o seu conselho (Jó 5:13; 1 Coríntios 3:19; 1 Coríntios 1:19, 25).

É preciso também dialogar com quem teme pela moralidade quando ouve da justificação pela fé. A vida de Paulo e dos primeiros cristãos mostra que a graça educa para a piedade e a sobriedade no presente século, gerando um zelo real por boas obras, e que os discípulos eram frequentemente criticados não por licenciosidade, mas por santidade incômoda aos padrões de sua época (1 Tessalonicenses 2:10; Tito 2:11–14; 1 Pedro 2:12; 1 Pedro 4:4). Onde a cruz é calada, a moralidade degringola, como se vê quando Deus é desalojado do pensamento e os homens são entregues a paixões aviltantes (Romanos 1:18–32). Não permita, pois, que Cristo seja pedra de tropeço para você; receba-o como santuário, o único refúgio seguro (Isaías 8:14; 1 Coríntios 1:18). Se alguém rejeita o Evangelho, por melhores que pareçam suas intenções, permanece cego para a glória de Cristo e sujeito à condenação que repousa sobre quem não crê no Filho (2 Coríntios 4:4; João 3:36).

E aos que abraçam e se gloriem no Salvador crucificado, a exortação é que mergulhem ainda mais fundo na contemplação desse mistério, onde estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, e que deixem transparecer, na vida cotidiana, a beleza da doutrina que professam (Colossenses 2:3; Efésios 3:18–19; Tito 2:10). Que por vossa prudência se perceba que o Evangelho é a verdadeira sabedoria, e por vossa piedade se veja que ele é a fonte de toda boa obra, para que ninguém blasfeme por vossa causa e, antes, glorifique ao Pai pelas vossas obras (Tiago 3:13; Mateus 5:16; Efésios 2:10; 2 Samuel 12:14; Romanos 14:13).

Assim, não nos envergonhemos de pregar, crer e viver a palavra da cruz. Ainda que o mundo a julgue escândalo ou loucura, ela é para os chamados o braço onipotente que salva e o conselho perfeito que reconcilia (1 Coríntios 1:23–24). No Cristo crucificado e ressurreto, Deus nos dá tudo o que a alma de fato procura: verdade que ilumina a mente, graça que perdoa a culpa, poder que transforma a vida e esperança que não decepciona (João 14:6; Romanos 5:5; Hebreus 7:25; 1 Pedro 1:3–5). E, enquanto aguardamos o dia em que a mesma sabedoria que foi escarnecida será admirada por todos os que creram, perseveremos na fé operosa, no amor sacrificial e na esperança paciente, certos de que aquele que começou boa obra em nós há de completá-la até o dia de Cristo (2 Tessalonicenses 1:10; 1 Tessalonicenses 1:3; Filipenses 1:6). Porque “dele, por meio dele e para ele são todas as coisas; a ele, pois, a glória eternamente. Amém” (Romanos 11:36).

C. Quando Deus Exalta o que Não É: a Lógica da Graça no Chamado

É notório, mesmo a quem observa de passagem, que a mesma mensagem do Evangelho provoca respostas opostas: uns a julgam loucura, outros a reconhecem como sabedoria e poder de Deus para salvação (1 Coríntios 1:23–24; Romanos 1:16). A responsabilidade por rejeitar a verdade recai sobre o próprio ser humano, porque a condenação está em amar mais as trevas do que a luz e em repelir a palavra da vida, como fizeram muitos que se julgaram indignos da vida eterna (João 3:19–20; Atos 13:46). Ao mesmo tempo, o amor à verdade não nasce do solo natural do coração; é dom que Deus concede quando atrai eficazmente, ilumina e inclina a vontade, de modo que ninguém pode vir ao Filho se o Pai não o trouxer e se do alto não lhe for dado crer (João 6:44–45, 65; Filipenses 1:29; Efésios 2:8–9). Assim, toda diferença entre incredulidade pertinaz e fé humilde deve ser atribuída à graça que faz o coração vencer a corrupção nativa e abraçar a salvação oferecida, de modo que ninguém se glorie em si, mas confesse: “Que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4:7; Romanos 9:16).

À luz dessa tensão, a Escritura nos convida a considerar quem, em geral, se vê alcançado por esse chamado. Os pensamentos e caminhos de Deus não apenas excedem os nossos; muitas vezes seguem direção contrária às preferências humanas, que olham aparências e prestígios, enquanto o Senhor vê o coração e toma para si aquilo que o mundo desdenha (Isaías 55:8–9; 1 Samuel 16:7; Lucas 16:15). Por isso Paulo aponta um traço verificável na história da igreja: “não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres” (1 Coríntios 1:26). Isso não significa que foram excluídos; Deus chama todos por meio do convite do Evangelho e não tem prazer na morte de ninguém, antes conclama ao arrependimento, e a quem tem sede diz: “Venha!” (Ezequiel 33:11; 1 Timóteo 2:3–4; Apocalipse 22:17). A própria narrativa apostólica registra pessoas de projeção que creram: em Corinto, Crispo e Sóstenes, principais da sinagoga; em Cencreia e Corinto, Gaio, hospedeiro de muitos, e Erasto, tesoureiro da cidade; em Jerusalém, José de Arimateia, conselheiro rico e honrado; em Chipre, Sérgio Paulo, procônsul que buscava entendimento (Atos 18:8, 17; Romanos 16:23; Mateus 27:57; Marcos 15:43; Atos 13:7, 12). Ainda assim, o próprio texto afirma que “não muitos” pertencem a esse estrato, lembrando que a porta é estreita e poucos a encontram, ao passo que larga é a via preferida pela soberba do coração (Mateus 7:13–14; 1 Coríntios 1:26).

O padrão dominante, ao longo das gerações, é outro: Deus tem prazer em escolher o fraco, o humilde, o sem nome, a fim de envergonhar a pretensa suficiência do sábio e do forte (1 Coríntios 1:27–28; Tiago 2:5). Os primeiros mensageiros foram, em sua maioria, pescadores e artesãos, homens tidos como “sem letras e indoutos”, mas cheios do Espírito e firmes no testemunho (Mateus 4:18–22; Atos 4:13). O próprio Paulo, embora excelso em formação, recusou-se a fundar a fé dos coríntios na retórica humana, preferindo a fraqueza que deixa transparecer o poder de Deus (Filipenses 3:4–8; 1 Coríntios 2:1–5; 2 Coríntios 4:7). É entre os simples que a palavra encontra, com frequência, acolhida reverente: eles anseiam por instrução, examinam as Escrituras com avidez como os bereanos, suportam deslocamentos e desconfortos para ouvir a verdade, alegram-se quando a consciência é alcançada e se deixam advertir quanto ao perigo, provando o chamado eficaz ao “se voltarem das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus” (Atos 17:11; Salmos 119:97, 130; Atos 26:18). É como nos dias do Senhor: “os pobres são evangelizados”, “o povo o ouvia de boa mente”, enquanto líderes orgulhosos rejeitavam o conselho de Deus contra si mesmos (Mateus 11:5; Marcos 12:37; Lucas 7:29–30). Vê-se, portanto, a vocação: Deus se inclina aos contritos e não despreza o coração quebrantado (1 Coríntios 1:26; Salmos 51:17; Isaías 57:15).

Esse modo de agir produz um efeito imediato: as escolhas da graça desmantelam as certezas altivas do século. Como a fé de Noé, ao construir a arca, “condenou o mundo” por revelar-lhe a incredulidade, assim a vida dos chamados expõe a vaidade do orgulho intelectual, a servidão ao mundo e a aridez de uma religião apenas formal (Hebreus 11:7; 2 Timóteo 3:5; Tiago 4:4). Em primeiro lugar, os humildes recebem discernimento espiritual que excede a competência meramente técnica de muitos eruditos. Muitos conhecem a letra, investigam tratados, dominam idiomas sagrados e sistemas, e supõem que, por isso, tenham a substância; mas “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus”, ao passo que Deus revela aos pequeninos o que permanece velado aos sábios aos seus próprios olhos (João 5:39–40; 1 Coríntios 2:14–16; Mateus 11:25–26). Quando o Senhor abre os olhos, a sua palavra torna-se clara e reta, e o coração passa a dizer: “Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei” (Provérbios 8:9; Salmos 119:18). Essa experiência humilha a presunção intelectual e, não raro, inflama oposição, como no debate do cego curado que foi enxotado por ousar honrar quem lhe abriu os olhos (João 9:24–34; Provérbios 28:11).

Em segundo lugar, os chamados aprendem a tratar o mundo como crucificado e a si mesmos como crucificados para o mundo; o que antes dominava a imaginação — prazeres, riquezas, honras — perde o brilho, porque “a nossa pátria está nos céus” e a vida agora corre na direção da “cidade que há de vir” (Gálatas 6:14; Filipenses 3:20–21; Hebreus 13:14). Enquanto muitos, especialmente os bem-posicionados, tornam-se escravos do que possuem e do que desejam possuir, os nascidos de Deus vencem o mundo pela fé, suportam escárnios, recusam concessões e perseveram como forasteiros que buscam “uma pátria superior, isto é, celestial” (1 Timóteo 6:9–10; 1 João 2:15–17; 1 João 5:4–5; Hebreus 11:13–16; 1 Pedro 4:4). Essa liberdade desconcerta quem vive cativo do aplauso e do conforto, e, por contraste, torna visível a fragilidade das esperanças mundanas (Salmos 39:5–7; 1 João 2:17).

Em terceiro lugar, os humildes passam a se deleitar no que antes lhes parecia árido: oração, leitura, comunhão, adoração. Enquanto muitos mantêm uma piedade sociológica — costumes religiosos sem vida de Deus —, os regenerados se firmam “na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações”, alegram-se quando se diz: “Vamos à casa do Senhor”, e encontram nessas práticas consolo e vigor para a estrada (Isaías 29:13; Atos 2:42, 46–47; Salmos 1:2; Salmos 122:1; Romanos 12:12). De fora, isso é julgado entusiasmo irracional ou hipocrisia; de dentro, reconhece-se o cumprimento da promessa: “Porei o meu Espírito em vós e farei que andeis nos meus estatutos” (Atos 26:24; 1 Pedro 2:12; Ezequiel 36:27). Assim se cumpre a palavra: Deus toma “as coisas que não são” — gente sem prestígio, antes “não povo” — e por elas reduz a nada as pretensões das “coisas que são”, fazendo dos outrora excluídos o seu povo amado (1 Coríntios 1:28; Oséias 2:23; 1 Pedro 2:10; Romanos 4:17).

Por trás desse desígnio há um fim supremo, digno de Deus: “para que nenhuma carne se glorie na presença dele” (1 Coríntios 1:29). Toda glória deve convergir ao Senhor, pois dele procede nossa existência, nele vivemos e nos movemos, e é por sua iniciativa salvífica que o caído é restaurado, pelo sangue do Filho e pela operação do Espírito (Atos 17:25, 28; Tito 3:4–7; Hebreus 13:20–21; Filipenses 2:13). O Senhor não cederá sua glória a outro, e quem se gloria deve gloriar-se no Senhor, não em sabedoria, força ou riquezas (Isaías 42:8; 48:11; Jeremias 9:23–24; 1 Coríntios 1:31). A maneira como ele chama e ajunta seu povo impede a vanglória humana: se a igreja fosse composta, prioritariamente, pelos sábios e nobres, prontamente se atribuiria a conversão à própria capacidade ou a supostos méritos; mas, quando os pobres são preferidos, toda ocasião de jactância é cortada, e tanto ricos quanto humildes precisam confessar: “Quem te distingue? E que tens tu que não hajas recebido?… Pela graça de Deus sou o que sou” (Deuteronômio 8:17–18; Lucas 1:52–53; Tiago 2:5; 1 Coríntios 4:7; 15:10).

Dessa verdade derivam lições decisivas. Primeiro, Deus age soberanamente na distribuição de seus dons. Ninguém estranharia que um benfeitor decidisse, com liberdade, como e a quem distribuir seus próprios recursos; quanto mais o Senhor do universo pode fazer o que quer com o que é seu (Mateus 20:15; Salmos 115:3). Não há lugar para murmuração, pois não temos direito adquirido a nenhuma dádiva — os anjos caídos, superiores em ordem à humanidade, não foram alcançados por redenção, enquanto Deus se inclinou a filhos de Adão, e a Escritura afirma que o Filho “não socorre anjos, mas a descendência de Abraão” (Hebreus 2:16). Ele mesmo dirige a estrada do Evangelho, fechando portas e abrindo outras, desviando apóstolos daqui e enviando-os para acolá, e mostrando que a multiplicidade de chamados não anula o fato de que poucos são escolhidos (Atos 16:6–10; 18:9–10; Mateus 22:14). O que resta à criatura é calar a contenda com o Oleiro, prostrar-se e suplicar: “Tem misericórdia de mim”, confessando que a eleição da graça depende daquele que usa de misericórdia, e não da vontade ou esforço humano (Jeremias 18:6; Romanos 9:15–23; Lucas 18:13).

Segundo, a desigualdade aparente das providências se compensa quando ampliamos o horizonte. Um pode nascer cercado de conforto e outro em privação; em tempos de doença e prova, a distância salta aos olhos. Contudo, a parábola do rico e de Lázaro recorda que ter “os seus bens” agora pode significar miséria depois, ao passo que carências presentes podem ser seguidas de consolo eterno na presença de Deus (Lucas 16:19–25). O Senhor adverte os ricos a não confiarem nas riquezas, mas a serem ricos em boas obras, e exalta os pobres que são ricos em fé e herdeiros do Reino; por isso, amar o mundo é perder-se, e ter Deus como porção é maior bem do que qualquer herança terrena (1 Timóteo 6:17–19; Tiago 2:5; Salmos 73:25–26; Salmos 16:5–6). Não se trata de regra mecânica — há pobres ímpios e ricos piedosos —, mas do testemunho constante de que “as coisas que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas”, e de que a “leve e momentânea tribulação” produz “eterno peso de glória”, vantajosamente superior a qualquer vantagem temporária (2 Coríntios 4:17–18).

Terceiro, sabedoria verdadeira é desejar os dons mais excelentes e buscar primeiro o Reino de Deus e a sua justiça. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; sem ele, todo brilho intelectual é loucura aos olhos de Deus, e todo lucro deste mundo não compensa a perda da alma (Provérbios 9:10; Salmos 111:10; Mateus 6:33; Marcos 8:36–37). Melhor estar entre os “fracos, vis, desprezados” deste século e, ao fim, participar da vida eterna, do que contar-se entre os “sábios, poderosos e nobres” e desfrutar apenas de bens passageiros (1 Coríntios 1:27–29; Lucas 16:25; 1 João 2:17). Ainda assim, convém repetir: os ricos não serão excluídos se não se excluírem pela incredulidade e pela idolatria, e os pobres não serão admitidos por serem pobres; importa “esforçar-se por entrar pela porta estreita”, manter a lâmpada acesa com azeite da graça, e ser achado entre as virgens prudentes no dia do Esposo, porque “os loucos não subsistirão diante dele; ele odeia a prática da iniquidade” (Lucas 13:24; Mateus 25:1–13; Salmos 1:5; Salmos 5:5).

Assim se manifesta a sabedoria da cruz na escolha de Deus: ele confunde as medidas do século, honra quem nada era, e estabelece um povo que o adore em santidade, para que toda a glória redunde a ele. Quem se vê incluído nesse chamado renda graças, ande humilde, desapegue-se da vanglória, e descanse na promessa de que “quem se gloria, glorie-se no Senhor”, pois dele, por meio dele e para ele são todas as coisas (1 Coríntios 1:31; Romanos 11:36).

D. Cristo, Nossa Sabedoria, Justiça, Santificação e Redenção

Desde cedo nos habituamos a ouvir e a ler as Escrituras, e ainda assim muitas vezes passamos por elas como quem cruza um jardim sem perceber o perfume das flores. Não é que a revelação seja obscura; é que raramente detemos o coração para ponderar o que está implícito no que está dito. O próprio Senhor demonstrou como a verdade se revela quando buscamos o que as palavras implicam: interrogado pelos saduceus sobre a ressurreição, apelou ao nome com que Deus se apresentou a Moisés — “Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó” — e, do simples título, deduziu a certeza de que aqueles patriarcas, vivos para Deus, haveriam de ressurgir, porque a aliança não se desfaz (Êxodo 3:6; Mateus 22:31–32). Essa mesma atenção ao sentido profundo nos guia em 1 Coríntios 1:30: “Dele é que estais em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção.” Paulo vinha desfazendo toda vanglória humana, lembrando que Deus escolheu o que é fraco e desprezado para que “ninguém se glorie na presença do Senhor” (1 Coríntios 1:27–29). E então condensa a boa-nova: tudo quanto necessitamos para viver e morrer em paz com Deus foi concentrado em Cristo e nos é dado, não por mérito, mas “da parte de Deus” (1 Coríntios 1:30–31; Romanos 11:36).

Se atentamos ao que esse versículo implica, percebemos, primeiro, nossa carência absoluta de qualquer bem em nós mesmos. Não conhecemos a nós mesmos, nem a Deus, como convém. O coração é “enganoso… e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?”, pergunta o profeta (Jeremias 17:9). A vida testemunha que “não há quem entenda, não há quem busque a Deus”, pois “Deus não está em todos os seus pensamentos” (Romanos 3:11; Salmos 10:4; Salmos 53:2–3). Também não apreendemos por natureza a santidade que odeia o mal, a justiça que pune o pecado e a fidelidade que executa o que ameaça (Habacuque 1:13; Romanos 1:18; Números 23:19). Enganamo-nos julgando-nos ricos, quando, na verdade, somos “miseráveis, pobres, cegos e nus” sem a graça (Apocalipse 3:17). Ao lado da ignorância, pesa a culpa: “toda boca se cala e todo o mundo é culpado”, porque deliberadamente “pisamos o Filho de Deus” e resistimos ao Espírito, multiplicando transgressões (Romanos 3:19; Hebreus 10:29; Efésios 4:30). Soma-se a isso a impureza: mente e consciência maculadas, afetos desordenados, vontade rebelde — “não há saúde” em nós (Tito 1:15; Efésios 2:3; Salmos 38:3–4). E, por fim, a escravidão: “presos nos laços do diabo, cativos para fazer a sua vontade”, enquanto “o príncipe da potestade do ar opera nos filhos da desobediência” (2 Timóteo 2:26; Efésios 2:2; João 8:34).

Em segundo lugar, o texto implica que somos incapazes de, por nossas próprias forças, suprir o que nos falta. A sabedoria do alto não se arranca por engenho humano; “o Senhor dá a sabedoria” e só ele pode abrir “os olhos do coração” para conhecermos as coisas que nos conduzem à paz (Provérbios 2:6; Efésios 1:18; Lucas 19:42). O homem natural não acolhe o que vem do Espírito, e até Paulo, erudito entre seus pares, precisou que “caíssem dos olhos como que escamas” e que Cristo lhe abrisse as Escrituras, como também abriu o entendimento dos discípulos (1 Coríntios 2:14; Atos 9:18; Lucas 24:45). Quanto à culpa, não a apagamos com lágrimas nem com obras: “todos os nossos atos de justiça são trapo de imundícia”; nosso melhor carece de purificação, e por isso o apóstolo quis ser achado “não tendo justiça própria, mas a que há pela fé em Cristo” (Isaías 64:6; Salmos 19:12; Filipenses 3:9; Romanos 3:21–26). A santidade também não se autogera: “pode o etíope mudar a pele ou o leopardo as manchas?”, assim também não podemos nós, por nós mesmos, voltar ao “primeiro amor” da imagem divina; é necessário “nascer de novo” e ser “nova criação” (Jeremias 13:23; João 3:3–8; 2 Coríntios 5:17; Efésios 4:24). E a libertação do jugo do pecado não se conquista a golpes de disciplina carnal; mesmo o santo clama: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará?”, até que agradece “a Deus por Jesus Cristo” (Romanos 7:24–25; João 8:36).

É justamente sobre esse pano de fundo que o que o versículo expressa resplandece: Deus concentrou em Cristo, como em uma fonte inesgotável, todo o bem de que carecemos — e o confere a todo aquele que crê. O Pai “pôs o socorro sobre um valente” e “aprouve… que nele residisse toda a plenitude”, constituindo-o cabeça sobre todas as coisas para a Igreja, a fim de que “da sua plenitude todos recebamos” (Salmos 89:19; Colossenses 1:19; Efésios 1:22–23; João 1:16). A imagem é vívida: ele é a videira; nós, ramos. Separados dele, secamos; unidos a ele, frutificamos (João 15:1–5). “Nossa vida está escondida com Cristo, em Deus”, e é por isso que ousamos esperar aparecer com ele em glória (Colossenses 3:3–4). Ele ascendeu “para encher todas as coisas” — luz que ilumina, vida que vivifica (Efésios 4:10; Salmos 36:9; João 8:12; João 6:57).

Assim, Cristo se torna, da parte de Deus, “sabedoria”. Ele nos dá “a mente de Cristo”, ungindo-nos “com o Santo” para discernirmos o que antes nos era loucura: o pecado se nos torna amargo, a santidade, bela; a cruz, sabedoria; e o amor de Deus, “derramado no coração pelo Espírito”, passa a ser realidade degustada (1 Coríntios 2:16; 1 João 2:20; 1 Coríntios 1:18–24; Romanos 5:5; 2 Coríntios 4:6; Efésios 3:18–19). Cristo se torna “justiça”: seu próprio nome é “Senhor, nossa Justiça”, e sua obediência perfeita, imputada a nós, nos veste de um traje sem mancha, aceitos “no Amado” (Jeremias 23:6; Romanos 5:18–19; Efésios 1:6; Isaías 61:10; Efésios 5:26–27). Cristo se torna “santificação”: pelo Espírito, nos faz morrer para o velho homem e viver em novidade de vida, transformando-nos “de glória em glória” enquanto contemplamos seu rosto (Romanos 6:4–11; Efésios 4:22–24; 2 Coríntios 3:18; 1 Tessalonicenses 5:23). E Cristo se torna “redenção”: liberta-nos do domínio do pecado e do medo, introduz-nos na liberdade dos filhos, fortalece-nos na batalha até que “o Deus de paz esmague Satanás debaixo dos nossos pés” (Romanos 6:14; Gálatas 5:1; Romanos 8:15; João 8:36; Romanos 16:20; Colossenses 1:13–14). Sob essa graça, os deveres deixam de ser fardo e se tornam deleite: “a minha alma se farta como de tutanos e de gordura… com lábios jubilosos te louva a minha boca” (Salmos 63:5; Atos 2:42–47; Filipenses 4:4).

Diante de promessa tão rica, a pergunta se impõe pastoralmente: isso é verdadeiro em você? Você foi conduzido à consciência de sua indigência — ignorância, culpa, impureza, cativeiro — e ao reconhecimento de sua impotência? Viu a plenitude que há em Cristo e tem recebido, dia após dia, “graça sobre graça”, de modo que Cristo é seu tudo em todos (João 1:16; Colossenses 3:11)? Não estamos lidando com mera teoria doutrinária, mas com o coração do evangelho que salva: “Se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus” (João 3:3), e “quem tem o Filho tem a vida” (1 João 5:12). Deixar esta vida sem esse Cristo é “perder a alma”, por mais que se tenha “ganho o mundo” (Marcos 8:36–37; Hebreus 2:3).

Convém, porém, ir mais fundo: tudo, do começo ao fim, é graça. Note o duplo “de Deus” do versículo: “Dele [do Pai] estais em Cristo Jesus; o qual, da parte de Deus, se fez para nós…” (1 Coríntios 1:30). É o Pai, o lavrador, quem nos desencaixa do velho tronco de Adão e nos enxerta na Videira viva; é o Pai quem nos deu o Filho e nos deu ao Filho; é o Pai quem aceitou o sacrifício e, nele, estabeleceu o Cabeça que comunica vida aos membros (João 15:1–2; João 6:37–39; Romanos 5:12–19; Efésios 1:22–23). Portanto, “quem se gloria, glorie-se no Senhor” (1 Coríntios 1:31). No céu, ninguém canta outra canção senão esta: “Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor…”, “Ao que nos ama e nos lavou… a ele a glória” (Apocalipse 5:13; Apocalipse 1:5–6; Apocalipse 7:10–12). Deus é zeloso da sua glória e não a dá a outrem (Isaías 42:8).

Como, então, buscar essa salvação? Busque-a exatamente pelo caminho que Deus traçou. Busque-a em toda a sua extensão: sabedoria para crer e viver, justiça para justificar, santificação para purificar, redenção para libertar (Tiago 1:5; Romanos 3:24; Hebreus 12:14; Romanos 8:23). Não selecione um aspecto e despreze outro: a “sabedoria” que é Cristo desmonta o orgulho intelectual; a “justiça” que é Cristo destrói a autoconfiança farisaica; a “santificação” que é Cristo refuta o antinomianismo; a “redenção” que é Cristo sustenta até o fim (1 Coríntios 3:18; Gálatas 2:21; 1 João 3:3; 2 Timóteo 4:18). Busque-a na ordem própria: primeiro, o ensino do alto — “unge os meus olhos com colírio” —; depois, o refúgio na justiça do Filho — “sendo justificados gratuitamente pela graça” —; a seguir, a santidade que evidencia a fé — “segui a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” —; e, em todo o percurso, a esperança firme de que aquele que começou a boa obra a completará na redenção final (Apocalipse 3:18; Romanos 3:24–26; Hebreus 12:14; Filipenses 1:6; Romanos 8:30). Busque-a para o fim certo: “para que em tudo Deus seja glorificado por meio de Jesus Cristo”, lançando coroas aos pés do Cordeiro (1 Pedro 4:11; Apocalipse 4:10–11). E busque-a com santa confiança: Deus não diz “buscai-me em vão”; até em Corinto, onde muitos haviam sido tudo quanto a lista de vícios descreve, o evangelho os encontrou — “mas fostes lavados, santificados e justificados no nome do Senhor Jesus e no Espírito do nosso Deus” (Isaías 45:19; 1 Coríntios 6:9–11).

Tal confiança repousa no próprio Cristo que se nos tornou “sabedoria, justiça, santificação e redenção”. Se lhe falta luz, ele é sua sabedoria: “se alguém necessita de sabedoria, peça-a a Deus”, que a dá liberalmente por meio do Filho, em quem “todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” estão ocultos (Tiago 1:5; Colossenses 2:3). Se sua consciência o acusa, ele é sua justiça: “Deus é quem justifica”, e o pecador que crê está coberto pelo sangue e pela obediência do Cordeiro (Romanos 8:33–34; Romanos 5:9). Se luta contra pecados arraigados, ele é sua santificação: “andai pelo Espírito e jamais satisfareis à carne”; contemplando o Senhor, será transformado (Gálatas 5:16; 2 Coríntios 3:18). Se teme o jugo e o fim, ele é sua redenção: “para a liberdade Cristo nos libertou”, e “ele nos livrará de toda obra maligna e nos levará salvos para o seu Reino celestial” (Gálatas 5:1; 2 Timóteo 4:18; Romanos 8:21–23). Em tudo, “sede fortes na graça que há em Cristo Jesus” (2 Timóteo 2:1).

Então, examinai-vos com honestidade diante de Deus: onde estais? Se ainda confiais no entendimento natural, tornai-vos como crianças; se ainda ergueis vossa justiça, vinde sem dinheiro e sem preço, comprai de graça; se desdenhais a santidade, lembrai que “sem santidade ninguém verá o Senhor”; se temeis não perseverar, erguei os olhos para o Autor e Consumador da fé (Mateus 18:3; Isaías 55:1; Hebreus 12:14; Hebreus 12:2). E quando ele vos der sabedoria, justiça, santificação e redenção, guardai esse tesouro no vaso da humildade, para que, em tudo, ressoe esta confissão: “De Deus é que estou em Cristo Jesus; e de Deus é que Cristo se fez para mim sabedoria, justiça, santificação e redenção; assim, como está escrito: aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1 Coríntios 1:30–31; Jeremias 9:23–24). Que essa seja nossa canção hoje e por toda a eternidade: “Àquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou… a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!” (Apocalipse 1:5–6).

E. Só Cristo, e Este Crucificado: o Coração da Religião Evangélica

Ao longo da história, Deus se revelou de muitos modos—por visões, por voz audível, por inspirações de seu Espírito—mas, tendo-se completado o cânon, é sobretudo por meio da sua Palavra escrita, explicada e aplicada por mensageiros que ele mesmo chama, que hoje ele dá luz e salva (Hebreus 1:1–2; 2 Timóteo 3:16–17; Romanos 10:14–17). Mesmo quando poderia falar diretamente, o Senhor honrou o ministério público: foi assim com o eunuco etíope, a quem enviou Filipe para abrir as Escrituras; e com Cornélio, a quem dirigiu até Pedro, removendo-lhe os escrúpulos, para que a igreja reconhecesse na pregação ordenada um meio privilegiado de edificação (Atos 8:29–35; Atos 10:1–20, 33). Por isso, os lábios dos ministros devem guardar o conhecimento, e o povo deve buscá-lo em sua boca, provando, contudo, tudo pela Escritura, a fim de reter o que é bom e rejeitar qualquer corrupção do Evangelho (Malaquias 2:7; Atos 17:11; 1 Tessalonicenses 5:21; 2 Coríntios 2:17; 2 Coríntios 4:2; Tiago 3:1).

Nesse horizonte, importa perguntar: o que é a verdade que os ministros devem proclamar e que o povo deve ouvir? O apóstolo responde sem rodeios: “Propus-me nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (1 Coríntios 2:2). Paulo recusou cativar os ouvintes com sutilezas filosóficas ou brilho retórico; decidiu centrar-se no Cristo da cruz, sabedor de que ali Deus concentra sua sabedoria e poder para salvar (1 Coríntios 2:1, 4–5; 1 Coríntios 1:23–24).

Não se trata de repetir o relato histórico do Gólgota como um drama comovente, e sim de expor a doutrina da cruz “em todas as suas conexões”, como o apóstolo fazia quando “pintava” Cristo crucificado diante dos gálatas (Gálatas 3:1; 1 Coríntios 1:18). Essa doutrina tem dois ângulos inseparáveis. Primeiro, a cruz é o fundamento único da nossa esperança: “todos pecaram” e estão sob condenação; por isso, nenhum de nós será justificado pelas obras da lei, mas somente pela fé em Jesus, a quem Deus propôs como propiciação em seu sangue, para ser ao mesmo tempo justo e justificador do que crê (Romanos 3:19–26; Gálatas 2:15–16; Gálatas 3:22–24). A Escritura inteira, do sistema sacrificial ao Cântico do Servo, aponta para o Cordeiro que leva a culpa e abre um novo e vivo caminho (Levítico 16; Isaías 53:5–6, 10; João 1:29; Hebreus 10:19–22). E essa exclusividade é zelada com santo ciúme: se qualquer outro fundamento ou complemento for acrescentado—mesmo um rito bíblico como a circuncisão—anula-se a graça; quem faz isso “cai da graça” e torna a cruz inoperante (Gálatas 5:2–4; Romanos 11:6; Efésios 2:8–9). Por isso, Paulo amaldiçoa qualquer “outro evangelho”, ainda que anunciado por anjo, pois outro fundamento ninguém pode lançar (Gálatas 1:8–9; 1 Coríntios 3:11). Na verdade, toda bênção espiritual nos é dada “em Cristo”: eleição, adoção, aceitação, redenção, herança, selo do Espírito—tudo “nele”, “por ele” e “para ele” (Efésios 1:3–14; Colossenses 1:19–20).

Segundo, a cruz é o grande impulso para a obediência. Quem crê morre para a lei como método de justificação, mas permanece “debaixo da lei de Cristo” para viver em santidade (Gálatas 2:19; 1 Coríntios 9:21; 1 Pedro 1:15–16). A graça jamais licencia o pecado; ela nos educa a renegar impiedade e paixões mundanas, e a viver sóbria, justa e piedosamente, porque Jesus veio “salvar o seu povo dos pecados” e “remir-nos de toda iniquidade, purificando para si um povo zeloso de boas obras” (Romanos 6:1–2, 15; Mateus 1:21; Tito 2:11–14; Efésios 2:10). O motor dessa vida nova é o amor de Cristo derramado no coração: “o amor de Cristo nos constrange”, de modo que já não vivamos para nós, mas para aquele que por nós morreu e ressuscitou (Romanos 5:5; 2 Coríntios 5:14–15; João 14:15).

Essa resolução de “nada saber” além de Cristo crucificado é, pois, sensata e necessária. Primeiro, porque contém tudo que fomos comissionados a proclamar: somos “embaixadores” de uma reconciliação já realizada em Cristo, e nossa missão é anunciá-la a toda criatura, chamando todos ao arrependimento e ao perdão dos pecados em seu nome (2 Coríntios 5:18–21; Lucas 24:46–47; Marcos 16:15; Atos 26:17–18). É isso, e não outro assunto, que a Escritura chama de “evangelho”; e quando ele é pervertido—seja por legalismo que divide a glória com as obras, seja por licenciosidade que divorcia a graça da santidade—deixamos de ser evangélicos no sentido apostólico (Gálatas 1:6–7; Romanos 3:28; Judas 4).

Segundo, porque só esse evangelho alcança a felicidade real do ser humano. Fale-se de méritos e penitências, e a consciência sincera continuará incerta—qual a medida suficiente?—; mas anuncie-se Cristo que recebe o que vem, perdoa todo pecado pelo sangue, reveste com sua justiça e faz superabundar a graça onde abundou o pecado, e o aflito encontra rocha firme (João 6:37; 1 João 1:7; Romanos 5:20–21; Isaías 28:16; Romanos 10:11). O mesmo ocorre na santificação: ameaças movem por um tempo, mas o amor do Crucificado dilata o coração e põe os pés a correr no caminho dos mandamentos; seu jugo torna-se suave, e seu fardo, leve (Salmos 119:32; 1 João 5:3; Mateus 11:28–30; Colossenses 1:10–13). É desse amor que nasceu o zelo incansável de Paulo, que não se deixou deter por prisões ou morte, contanto que completasse o ministério recebido (Atos 20:24; 2 Coríntios 11:23–28).

Terceiro, porque nada pode ser acrescentado sem enfraquecer, quando não destruir, a eficácia da cruz. Se alguém tenta reforçar o fundamento com qualquer “plus” humano—seja rito, seja obra—faz da morte de Cristo algo desnecessário e invalida o evangelho (Gálatas 5:2–4; Romanos 4:4–5). E mesmo a forma do anúncio importa: o Senhor não quis que a fé repousasse na sedução da oratória, mas no poder de Deus; por isso, o apóstolo rejeitou a ostentação do “saber” e a “excelência de palavras”, para que a cruz não fosse esvaziada (1 Coríntios 1:17; 1 Coríntios 2:1, 4–5; 1 Coríntios 1:21).

Diante disso, duas exortações se impõem com urgência. Primeiro: conheçamos a Cristo crucificado. Não basta o hábito cultural de chamá-lo “Salvador”; é preciso ver a largura, comprimento, altura e profundidade desse amor, a ponto de termos por perda tudo o mais para ganhar Cristo e gloriar-nos apenas em sua cruz (Efésios 3:18–19; Filipenses 3:8–9; Gálatas 6:14). Há, sim, muita ignorância do evangelho em terras cristãs; o deus deste século segue cegando o entendimento dos incrédulos (Oséias 4:6; 2 Coríntios 4:4). Peçamos, então, olhos abertos e coração ardente nas Escrituras, como em Emaús (Lucas 24:31–32, 45).

Segundo: adotemos a resolução apostólica para a vida inteira. Há ofícios seculares a cumprir, e devemos fazê-lo com excelência; mas, como discípulos, podemos e devemos “determinar” que Cristo crucificado seja o centro da mente, o tema da confissão, a medida das escolhas (Colossenses 3:23; Provérbios 22:29; 1 Coríntios 2:2). Os anjos desejam perscrutar esse mistério, e Paulo, após décadas de ministério, ainda ansiava “conhecer” mais a Cristo; quanto mais nós (1 Pedro 1:12; Filipenses 3:10–14).

Essa determinação provar-se-á sábia quando se manifestar em santidade prática. O mundo chamará loucura, como chamou ao próprio apóstolo; mas “pela prática do bem” calaremos a ignorância dos insensatos, deixando brilhar a luz e dando glória ao Pai (Atos 17:18; 1 Pedro 2:15; Mateus 5:16). A cruz crucifica-nos para o mundo e transforma nosso culto em entrega viva, santa e agradável; não nos conformeis a este século (Gálatas 6:14; Romanos 12:1–2; 1 João 2:15–17).

Por fim, lembremo-nos de onde vem a força para tudo isso. Sem Cristo nada podemos fazer, e nossa suficiência não é de nós; mas “nele temos justiça e força”, e “todas as coisas” podemos naquele que nos fortalece (João 15:5; 2 Coríntios 3:5; Isaías 45:24; Filipenses 4:13). De sua plenitude recebemos graça sobre graça; sua graça nos basta; nele estão “todas as nossas fontes” (João 1:16; 2 Coríntios 12:9; Salmos 87:7). Portanto, vivamos pela fé no Filho de Deus, que nos amou e a si mesmo se entregou por nós, tendo-o sempre por nossa sabedoria, nossa justiça, nossa santificação e nossa redenção (Gálatas 2:20; 1 Coríntios 1:30).

Assim, confiantes na suficiência e na centralidade da cruz, confessemos com a igreja de todas as eras: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”; e, com a igreja glorificada, cantemos: “Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, o louvor, a honra, a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!” (1 Coríntios 1:31; Apocalipse 5:13; Apocalipse 1:5–6).

IX. Concordância Bíblica Comentada

“Paulo, chamado apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus, e o irmão Sóstenes” — a abertura de 1 Coríntios 1:1 já estabelece a gramática teológica do capítulo inteiro: vocação que procede de Deus, missão apostólica dada por Cristo e comunhão fraterna no Evangelho. Quando Paulo se apresenta como “chamado” (klētos apostolos, “apóstolo por chamado”), ele se alinha à própria forma como Cristo instituiu e enviou os Doze — primeiro, escolhendo-os dentre os discípulos (Lucas 6:13); depois, comissionando-os com o seu “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (João 20:21); e, por fim, conduzindo a Igreja a reconhecer, sob sua direção, a sucessão desse encargo (Atos 1:2; Atos 1:25–26). Esse chamado, no caso de Paulo, não é intriga humana nem diplomacia eclesiástica: “não da parte de homens, nem por intermédio de homem, mas por Jesus Cristo e Deus Pai” (Gálatas 1:1); é “graça e apostolado” recebidos para a obediência da fé entre as nações (Romanos 1:5). Daí a consciência de que os “sinais do apóstolo” o acompanharam (2 Coríntios 11:5; 2 Coríntios 12:12), ainda que ele se considere “o menor dos apóstolos” (1 Coríntios 15:9). A expressão “pela vontade de Deus” (dia thelēmatos theou) ecoa a fórmula de suas demais cartas (2 Coríntios 1:1; Efésios 1:1; Colossenses 1:1), mas sobretudo interpreta sua história pessoal: “quando, porém, ao que me separou desde o ventre de minha mãe e me chamou pela sua graça, aprove revelar seu Filho em mim” (Gálatas 1:15–16). Assim, a autoridade de Paulo é simultaneamente cristocêntrica e teocêntrica: Cristo o envia; o Pai o quer. E a menção de “Sóstenes, o irmão” não é periférica: em Corinto houve um chefe da sinagoga chamado Sóstenes, espancado pelos gregos diante do tribunal (Atos 18:17). Se se trata do mesmo homem agora achado em Cristo, sua presença no cabeçalho é um troféu da graça no solo coríntio; de todo modo, a fórmula “nosso irmão” sublinha que a autoridade apostólica não paira distante da fraternidade — ela a serve e a edifica.

“À igreja de Deus que está em Corinto” (1 Coríntios 1:2) faz convergir duas coordenadas: pertence a Deus (ekklēsia tou theou) e está situada “em Corinto”. O genitivo “de Deus” guarda a identidade última da comunidade: ela não é clube de afinidades, escola de retórica ou partido religioso, mas a “casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade” (1 Timóteo 3:15). A localização “em Corinto” relembra o início da obra ali: Paulo chega (Atos 18:1), muitos “ouvindo, criam e eram batizados”, e o Senhor o anima com a promessa missional — “tenho muito povo nesta cidade” —, sustentando-o por dezoito meses de ensino (Atos 18:8–11). A epígrafe “igreja de Deus… em Corinto” também previne um equívoco recorrente: não existe “a igreja de Corinto” como propriedade da cidade; existe a igreja de Deus presente em Corinto. Por isso, na sequência, Paulo a descreve em termos de identidade redentora e vocacional, não de predicados sociológicos.

“[Aos] santificados em Cristo Jesus, chamados santos” articula a obra objetiva de Deus e seu chamado eficaz. “Santificados em Cristo Jesus” (hēgiasmenois en Christō Iēsou) não aponta primeiro para um esforço moral, mas para uma consagração real produzida por Cristo: ele é feito “para nós… santificação” (1 Coríntios 1:30); “fostes lavados, fostes santificados, fostes justificados… pelo Espírito do nosso Deus” (1 Coríntios 6:11). O próprio Senhor, que “se santifica” por nós (João 17:19), santifica o povo “na verdade” (João 17:17), purifica corações pela fé (Atos 15:9), confere “herança entre os santificados pela fé” (Atos 26:18), e se entregou “para santificar” a igreja “pela lavagem de água pela palavra” (Efésios 5:26). Hebreus coroará essa teologia: “o que santifica e os que são santificados vêm todos de um só” (Hebreus 2:11); “temos sido santificados mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo” (Hebreus 10:10); ele “padeceu fora da porta, para santificar o povo pelo seu próprio sangue” (Hebreus 13:12). Nessa base, “chamados santos” (klētois hagiois) não é etiqueta honorífica, mas vocação divina: “chamados para serdes santos” (Romanos 1:7); “Deus não nos chamou para a impureza, e sim para a santificação” (1 Tessalonicenses 4:7); “nos salvou e nos chamou com santa vocação” (2 Timóteo 1:9); e, porque “santo é aquele que vos chamou”, “sede santos em todo o vosso procedimento… pois está escrito: Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1:15–16). O que Paulo faz, portanto, é lembrar à igreja a sua origem (em Cristo), o seu status (consagrada) e o seu chamado (santidade prática).

“Com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” amplia o horizonte de Corinto à catolicidade da fé. “Invocar o nome” é fórmula bíblica de culto e confiança pessoal: desde os primórdios, “então se começou a invocar o nome do Senhor” (Gênesis 4:26); Abrão “edificou ali um altar ao Senhor e invocou o nome do Senhor” (Gênesis 12:8; ver também Gênesis 13:4). A Septuaginta verte essa expressão de modo ativo — epikalēsatai en onomati Kyriou (“invocará o nome do Senhor”) —, e Paulo toma exatamente esse uso ao descrever os cristãos como os que “invocam” (tois epikaloumenois to onoma, “os que invocam o nome”) de Jesus: Estevão morre clamando “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” e intercede “Senhor, não lhes imputes este pecado” (Atos 7:59–60); Ananias reconhece que os discípulos “invocam este nome” (Atos 9:14; Atos 9:21); e o próprio chamado à fé é selado com “invocando o seu nome” no batismo (Atos 22:16). Joel havia prometido: “acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” — promessa que Pedro aplica à era do Espírito (Atos 2:21) e que Paulo universaliza: “o mesmo Senhor é Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” (Romanos 10:12). Quando o apóstolo diz “em todo lugar”, ele afirma a unidade e a abrangência dessa adoração: há “um só Senhor” (Efésios 4:5), “Jesus Cristo é Senhor de todos” (Atos 10:36), aquele a quem “pertencemos” vivendo e morrendo (Romanos 14:8–9), aquele que proclamamos — “não a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor” (2 Coríntios 4:5) —, a quem o Pai deu “o nome que está acima de todo nome” para que toda língua confesse “Jesus Cristo é Senhor” (Filipenses 2:9–11), “Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Apocalipse 19:16). A expressão “Senhor deles e nosso” dissolve qualquer pretensão paroquial: o mesmo Cristo governa Corinto e todas as igrejas; a mesma invocação os irmana; a mesma santidade os chama. Desse modo, 1 Coríntios 1:1–2 costura a teologia do chamado — do apóstolo e dos santos —, a eclesiologia da pertença — igreja de Deus, não de facção — e a doxologia prática de um povo que, espalhado “em todo lugar”, vive de invocar, confessar e obedecer ao único Senhor.

Em 1 Coríntios 1:3, a saudação apostólica “graça e paz” condensa o evangelho que Paulo anunciará e o remédio de que a igreja dividida necessita. Quando ele escreve “charis hymin kai eirēnē” (“graça a vós e paz”), não adota um cumprimento social, mas imprime o selo da bênção pactuai: a paz vem da promessa sacerdotal antiga — o Senhor “abençoará o seu povo com paz” — e do gesto divino de fazer resplandecer o rosto sobre o seu povo (Números 6:23; Salmos 29:11; compare Juízes 19:20). Agora, porém, essa paz tem fonte e mediação messiânicas: o Ressuscitado legou aos seus “a minha paz” (João 14:27) e ensinou-os a dizer “Pai nosso” (Lucas 11:2), de modo que a “paz” não é ausência de conflito, mas o shalom restabelecido em Cristo, que exige reconciliação concreta num corpo dilacerado por facções. Por isso a fórmula paulina aparece como padrão entre as igrejas (Romanos 1:7; 2 Coríntios 1:2; Efésios 1:2; 1 Pedro 1:2) e vem explicitamente “de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (Apocalipse 1:4 ecoa o mesmo tom doxológico), confessando a honra devida ao Filho “para que todos honrem o Filho como honram o Pai” (João 5:23). Assim, logo no limiar da carta, a graça que perdoa e a paz que reconcilia são anunciadas como dádiva divina e como atmosfera necessária para todo o adiante, inclusive as admoestações sobre unidade e caridade.

No versículo 4, Paulo abre o coração em ação de graças: “dou graças ao meu Deus sempre a vosso respeito pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus”. Sua eucharistia é teológica, não diplomática: ele enxerga, por trás de cada evidência em Corinto, a operação da graça. É a mesma postura que adota quando louva a Deus pela fé disseminada (Romanos 1:8), pela obediência de antigos escravos do pecado (Romanos 6:17), pela obra visível do evangelho nas igrejas (Atos 11:23; Atos 21:20). A “graça… dada em Cristo Jesus” é a plenitude da qual todos recebem “graça sobre graça” (João 1:16), mediação do Filho que, sendo um com o Pai (João 10:30), envia o Consolador para aplicar as riquezas dessa graça “para sempre” e “ensinar todas as coisas” (João 14:14–16; João 14:26; João 15:26). Por isso Paulo consegue agradecer “sempre” — o hábito que transparece em suas cartas (Efésios 5:20; Filipenses 1:3; Colossenses 1:3; 1 Tessalonicenses 1:2; 2 Tessalonicenses 1:3). O ponto decisivo, porém, é que a gratidão não cega o apóstolo para os vícios coríntios; ela os enquadra: antes de corrigir, Paulo reconhece a dádiva. Todo reparo que fará adiante será, então, uma chamada para que vivam à altura da graça recebida (2 Coríntios 8:9; 2 Coríntios 9:14), e não um esforço para “merecê-la”.

O versículo 5 especifica o que Paulo vê: “porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e todo conhecimento”. A formulação grega, “hoti en panti eploutisthēte en autō, en panti logō kai pasē gnōsei” (“porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e todo conhecimento”), junta abundância e direção: a riqueza é “nele” — Cristo é o tesouro —, e os campos dessa riqueza são o falar e o conhecer. Em Corinto, os dons de palavra se multiplicaram: profecia, línguas, interpretação, ensino, exortação (1 Coríntios 12:8, 10; 1 Coríntios 14:5–6, 26; Atos 2:4). Ao mesmo tempo, um vigor cognitivo se expandia: entendimento das Escrituras, sabedoria espiritual, discernimento do mistério (2 Coríntios 4:6; Efésios 1:17; Filipenses 1:9; Colossenses 1:9–10; Colossenses 2:3; Colossenses 3:10; Tiago 3:13; 2 Pedro 3:18). Essa “enriquecida” igreja comprova a generosidade de Deus que “enriquece em tudo” para toda boa obra (2 Coríntios 9:11) e manifesta as “insondáveis riquezas de Cristo” (Efésios 3:8), as mesmas “riquezas” cuja difusão entre as nações Paulo contempla (Romanos 11:12) e que Deus há de exibir “nos séculos vindouros” (Efésios 2:7). Mas a lista de referências já pressente a tensão que Paulo tratará: falar e conhecer, sem amor, incham e destroem (1 Coríntios 8:11; 1 Coríntios 13:2, 8); e a prosperidade carismática pode degenerar em triunfalismo — “já estais fartos, já estais ricos… já reinais” —, ironia que Paulo corrigirá chamando-os de volta ao padrão cruciforme (1 Coríntios 4:7–10). Por isso, quando o apóstolo diz que foram “enriquecidos nele”, ele não está aprovando vaidades locais, mas relembrando a fonte e o propósito: “nele”, o Cristo que abre “porta da palavra” e concede “ousadia” para anunciá-la (Efésios 6:19; Colossenses 4:3–4), o Cristo em quem se encontra toda a “gnōsis” verdadeira, que edifica em amor. Assim, 1:3–5 costura a moldura de toda a carta: graça que reconcilia e pacifica; gratidão que reconhece a operação divina antes de corrigir; e dons de palavra e conhecimento que, por serem riqueza “nele”, devem servir à unidade, à santidade e à edificação do corpo.

Em 1 Coríntios 1:6, Paulo explica por que pode afirmar que os coríntios foram “enriquecidos… em toda palavra e todo conhecimento”: “o testemunho de Cristo foi confirmado em vós”. A expressão remete ao conteúdo e ao selo desse testemunho. Conteúdo: Paulo não pregou sofismas, mas o próprio Cristo crucificado (ton Christon estaurōmenon), e nada quis saber “senão Jesus Cristo” (Iēsoun Christon), como lembrará na sequência (1 Coríntios 2:1–2). Em Corinto ele se dedicou “inteiramente à palavra” (Atos 18:5) e, ao longo do ministério, definiu a própria vida como serviço de “testemunhar o evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24), chamando judeus e gregos “ao arrependimento para com Deus e à fé em nosso Senhor Jesus” (Atos 20:21). Esse “testemunho” (martyrion) não é mera opinião religiosa: é o anúncio público de um fato salvífico que o próprio Senhor exige que se proclame (Atos 22:18; Atos 23:11; Atos 28:23), que define a missão como “testemunho a seu tempo” (1 Timóteo 2:6) e do qual não devemos nos envergonhar (2 Timóteo 1:8). É também o que Deus mesmo atesta: “esta é a testemunha, que Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu Filho… para que saibais que tendes a vida eterna” (1 João 5:11–13). Por isso, no horizonte do Novo Testamento, “o testemunho de Jesus” torna-se a própria marca da igreja fiel (Apocalipse 1:2; Apocalipse 1:9; Apocalipse 6:9; Apocalipse 12:11; Apocalipse 12:17; Apocalipse 19:10). Selo: esse testemunho foi “confirmado” (ebebaiōthē) entre os coríntios pelo agir de Deus. O Senhor “cooperava… confirmando a palavra com os sinais que se seguiam” (Marcos 16:20); “a mão do Senhor era com eles, e muitos… creram” (Atos 11:21), e Pedro reconhece que Deus dera “o mesmo dom” (Atos 11:17). Paulo pôde dizer que “desde Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico tenho divulgado o evangelho… com o poder de sinais e prodígios” (Romanos 15:19), que “os sinais do apóstolo foram operados” (2 Coríntios 12:12), que Deus “supre o Espírito… e opera milagres entre vós” (Gálatas 3:5). Hebreus resume a dinâmica: a grande salvação foi “primeiro anunciada pelo Senhor”, “confirmada” pelos que a ouviram, “testificando Deus juntamente com eles, por sinais, prodígios e vários milagres e dons do Espírito Santo” (Hebreus 2:3–4). É o próprio Espírito prometido por Cristo quem dá testemunho dele (João 15:26). Assim, “o testemunho de Cristo” não ficou no papel: foi autenticado pela obra do Espírito na conversão, nos dons e na perseverança do povo.

Daí o versículo 7: se o testemunho foi confirmado, o efeito é que “não vos falte nenhum dom” enquanto aguardais “a revelação” (apokalypsin) do Senhor. Paulo lembra que a igreja de Corinto, apesar de suas deformações, não ficou “inferior” às demais no que concerne a dons (2 Coríntios 12:13). A abundância carismática, porém, não é fim em si; ela serve a um povo que vive em estado de espera ativa. A comunidade cristã é, por definição, uma noiva vigilante (Mateus 25:1), servos “como os que esperam o seu senhor voltar das bodas” (Lucas 12:36), uma família que “aguarda dos céus” o Filho (1 Tessalonicenses 1:10) e cujo coração, com Jacó, diz: “a tua salvação espero, ó Senhor” (Gênesis 49:18). A criação inteira “aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus” (Romanos 8:19), e a igreja, cidadã do céu, “aguarda o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20). Essa esperança tem nomes e promessas: “a bem-aventurada esperança e manifestação da glória” (Tito 2:13); Cristo “aparecerá segunda vez… para a salvação” aos que o aguardam (Hebreus 9:28); “porque, ainda em bem pouco tempo, aquele que há de vir virá e não tardará” (Hebreus 10:36–37); “sede, pois, irmãos, pacientes até a vinda do Senhor… fortalecei os vossos corações” (Tiago 5:7–8); “aguardando e apressando a vinda do dia de Deus” (2 Pedro 3:12); “conservai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia… para a vida eterna” (Judas 1:21). Falar em “revelação de Jesus Cristo” é confessar que haverá um desvelamento público de sua glória: “no dia em que o Filho do Homem se manifestar” (Lucas 17:30); “quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então vós também sereis manifestados com ele em glória” (Colossenses 3:4); o Senhor “há de se manifestar” trazendo recompensa (1 Timóteo 6:14–15; 1 Pedro 5:4), de modo que devemos “cingir os lombos do vosso entendimento… esperando inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo” (1 Pedro 1:13). Essa mesma esperança purifica agora: “quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele… e todo o que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo” (1 João 3:2). Enquanto espera, a igreja usa bem os dons que recebeu — dons de palavra, de conhecimento, de serviço (Êxodo 35:35) — e aprende, sob a instrução do Senhor (Salmos 119:33), a perseverar, “fitando os olhos em Jesus, autor e consumador da fé” (Hebreus 12:2), sem cair em “engenhosamente inventados mitos” (2 Pedro 1:16), mas permanecendo em Cristo para “não sermos envergonhados na sua vinda” (1 João 2:28).

Por fim, 1:8 fecha o arco com a promessa que sustenta a admoestação de toda a carta: o próprio Cristo “vos confirmará até o fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo”. O mesmo verbo de 1:6 reaparece agora como garantia futura: ele “confirmará” (bebaiōsei) os seus. A estabilidade do santo não repousa em sua autoconfiança, mas na fidelidade de Deus: “o Senhor sustenta os justos” (Salmos 37:17) e “não desampara os seus santos” (Salmos 37:28); “para o seu próprio senhor está em pé… pois poderoso é Deus para o firmar” (Romanos 14:4); “àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho” (Romanos 16:25); “é Deus quem nos confirma convosco em Cristo” (2 Coríntios 1:21); “o Senhor é fiel; ele vos firmará e guardará do Maligno” (2 Tessalonicenses 3:3). Essa confirmação mira um alvo: apresentar o povo “irrepreensível” (anegklētous), isto é, inculpável diante do tribunal de Cristo. É o que Deus decretou “antes da fundação do mundo”: termos sido escolhidos “para sermos santos e irrepreensíveis perante ele” (Efésios 1:4); é o que Cristo realiza agora, reconciliando-nos “para perante ele vos apresentar santos, inculpáveis e irrepreensíveis” (Colossenses 1:22); é o que o Espírito opera, tornando-nos “irrepreensíveis… filhos de Deus inculpáveis” no meio de uma geração corrompida (Filipenses 2:15). Paulo ora nesse sentido para os tessalonicenses — “confirmar os vossos corações irrepreensíveis em santidade… na vinda” (1 Tessalonicenses 3:13) — e confia: “fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (1 Tessalonicenses 5:23–24). A mesma confiança perpassa 1 Pedro 5:10 (“o Deus de toda graça… vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar”) e se derrama em doxologia quando Judas celebra “àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar e apresentar irrepreensíveis… com alegria” (Judas 1:24–25). Tudo converge para “o dia de nosso Senhor Jesus Cristo”, expressão paulina que olha tanto para a consumação quanto para o crivo presente: Deus “há de completar a boa obra até ao dia de Cristo” (Filipenses 1:6), por isso pede que sejamos “sinceros e inculpáveis para o dia de Cristo” (Filipenses 1:10) e vivamos “gloriando-nos… no dia de Cristo” por serviço que não foi vão (Filipenses 2:16). Esse “dia” é, para a igreja, esperança e exame: “o dia o demonstrará” (1 Coríntios 3:13); um transgressor obstinado poderá ser entregue “a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus” (1 Coríntios 5:5); e, para todos, ele chegará “como ladrão” (2 Pedro 3:10). Entre a confirmação inicial (1:6) e a final (1:8), o caminho é o da perseverança que Deus mesmo sustenta: “quem perseverar até o fim será salvo” (Mateus 24:13); Cristo “amou os seus até o fim” (João 13:1); os apóstolos “confirmavam as almas… exortando-as a permanecer na fé” (Atos 14:22; Atos 15:32); e a igreja caminha sob esta certeza: “o Senhor vos confirme… e cumpra todo propósito de bondade” (2 Tessalonicenses 1:11; 2 Tessalonicenses 2:17), “guardando o mandamento… até à manifestação de nosso Senhor” (1 Timóteo 6:14), de olhos em Jesus, “autor e consumador” (Hebreus 12:2), “aguardando e apressando” o grande encontro (2 Pedro 3:12).

Em 1 Coríntios 1:7, Paulo solda dois temas que estruturam toda a carta: a abundância carismática e a esperança escatológica. Quando afirma que os coríntios “não carecem de nenhum dom”, ele retoma a constatação de que aquela igreja não ficou “inferior” a nenhuma outra quanto às dádivas do Espírito (2 Coríntios 12:13), e o faz para lembrar que os dons existem como provisão de Deus para o tempo da espera, não como combustível de vanglória. A cláusula seguinte explica o horizonte dessa abundância: “aguardando a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo”. O termo não é genérico; Paulo escreve apokalypsis, “desvelamento”, o momento em que a glória do Filho será publicamente manifestada — “o dia em que o Filho do Homem se manifestar” (Lucas 17:30), quando “Cristo, que é a nossa vida, se manifestar” e então “vós também sereis manifestados com ele em glória” (Colossenses 3:4), “quando o Senhor Jesus for revelado desde o céu” (2 Tessalonicenses 1:7). Por isso a igreja vive em postura de noiva vigilante: “as dez virgens… saíram ao encontro do noivo” (Mateus 25:1); os servos “esperam o seu senhor voltar das bodas” (Lucas 12:36); a comunidade aprende a dizer com Jacó: “a tua salvação espero, ó Senhor” (Gênesis 49:18), e com toda a criação “aguarda com ardente expectativa” (Romanos 8:19). Essa expectativa é chamada de “a bem-aventurada esperança e manifestação da glória” (Tito 2:13), promessa de que Cristo “aparecerá segunda vez… para a salvação” aos que o aguardam (Hebreus 9:28), e por isso requer perseverança: “em bem pouco tempo, aquele que há de vir virá e não tardará” (Hebreus 10:36–37); “sede, pois, irmãos, pacientes… fortalecei os vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima” (Tiago 5:7–8); “aguardando e apressando o dia de Deus” (2 Pedro 3:12); “conservai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia… para a vida eterna” (Judas 1:21). A mesma esperança modela a ética diária: “cingi os lombos do vosso entendimento… esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo” (1 Pedro 1:13); ela purifica agora — “quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele… e todo o que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo” (1 João 3:2) — e convoca à permanência “para que, quando ele se manifestar, não sejamos envergonhados” (1 João 2:28). Nesse intervalo entre dons e aparição, Deus mesmo treina e equipa: assim como dotou Bezalel e Aoliabe com habilidade para a obra (Êxodo 35:35), abre “porta da palavra” e ensina o seu povo no caminho (Salmos 119:33); e a esperança não repousa em mitos engenhosos, mas no testemunho apostólico da “vinda e poder” de Cristo (2 Pedro 1:16). Em suma, 1:7 declara que a igreja é simultaneamente enriquecida e expectante: os dons a sustentam enquanto ela espera a apokalypsis do Senhor, e a própria espera disciplina os dons para a edificação até “o dia” em que o Rei aparecer.

Em 1 Coríntios 1:8, Paulo amarra a esperança escatológica à fidelidade de Deus na história concreta da igreja: “ele vos confirmará até o fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo”. O verbo “confirmar” ecoa a experiência veterotestamentária do Deus que sustém os seus — “o Senhor sustém os justos” e “não desampara os seus santos” (Salmos 37:17; Salmos 37:28) — e se projeta na certeza apostólica de que é o próprio Deus quem “pode confirmar-vos” no evangelho (Romanos 16:25). Por isso, onde a consciência frágil vacila, Paulo lembra: “para o seu próprio Senhor está em pé… pois poderoso é Deus para o firmar” (Romanos 14:4); e quando pensa pastoralmente na saúde da igreja, confessa que “é Deus quem nos confirma convosco em Cristo” (2 Coríntios 1:21), exatamente o que roga aos tessalonicenses: que ele “confirme os vossos corações” (1 Tessalonicenses 3:13) porque “fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (1 Tessalonicenses 5:23–24; ver também 2 Tessalonicenses 3:3). Pedro canta o mesmo refrão: “o Deus de toda graça… vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar” (1 Pedro 5:10). O alvo dessa confirmação é expresso pelo adjetivo “irrepreensíveis”: o Pai elegeu um povo “para que fôssemos santos e irrepreensíveis” (Efésios 1:4); o Filho, por sua morte, nos reconcilia “para, perante ele, vos apresentar santos, inculpáveis e irrepreensíveis” (Colossenses 1:22); e o Espírito opera agora essa pureza prática, para que brilhemos “irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis” no meio de uma geração corrompida (Filipenses 2:15), diligentes para “serdes achados por ele… sem mácula e irrepreensíveis” (2 Pedro 3:14), até o clímax em que “àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar e apresentar irrepreensíveis, com exultação” recebe a glória (Judas 1:24–25). Tudo isso converge para o horizonte do “dia” — o “dia de Cristo” que inicia já o exame do presente e culmina a obra iniciada (Filipenses 1:6, 10; Filipenses 2:16), o mesmo “dia do Senhor” que virá “como ladrão” (2 Pedro 3:10). Entre a promessa e o dia, o caminho é de perseverança sustentada: Jesus amou “até o fim” (João 13:1); os apóstolos “confirmavam as almas… exortando-as a permanecer na fé” (Atos 14:22; cf. Atos 15:32); e o próprio Paulo lembra que “o dia” provará a obra (1 Coríntios 3:13) e até a disciplina extrema visa a salvação “no dia do Senhor Jesus” (1 Coríntios 5:5).

É nesse fundamento que repousa 1 Coríntios 1:9: “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor.” A âncora é a fidelidade divina. Não é possível que Deus minta, falhe ou revogue sua palavra: “Deus não é homem, para que minta” (Números 23:19); ele é “o Deus fiel” que guarda a aliança (Deuteronômio 7:9), “a Rocha… Deus de fidelidade” (Deuteronômio 32:4); “não violarei a minha aliança” (Salmos 89:33–35); “a sua fidelidade estende-se de geração em geração” (Salmos 100:5). Sua palavra permanece quando céu e terra passam (Mateus 24:35); sua compaixão se renova a cada manhã — “grande é a tua fidelidade” (Lamentações 3:22–23); seu Cristo é “Fiel e Verdadeiro” (Apocalipse 19:11). Por isso, as promessas se erguem como certezas: “fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (1 Tessalonicenses 5:23–24); “o Senhor é fiel; ele vos firmará e guardará do Maligno” (2 Tessalonicenses 3:3); “retenhamos firmemente a confissão… porque fiel é o que prometeu” (Hebreus 10:23); a própria fé de Sara floresceu porque ela “considerou fiel aquele que prometeu” (Hebreus 11:11). Dessa fidelidade nasce o chamado eficaz: Deus “vos chamou segundo o seu propósito” (Romanos 8:28, 30); chamou “de entre judeus e gentios” (Romanos 9:24); separou e chamou “pela sua graça” (Gálatas 1:15); chama “para o seu reino e glória” (1 Tessalonicenses 2:12), “pelo nosso evangelho” (2 Tessalonicenses 2:14), “com santa vocação… segundo a sua graça” (2 Timóteo 1:9); é “chamada celestial” que compartilhamos (Hebreus 3:1) e que culmina quando “o Deus de toda graça… vos chamou à sua eterna glória em Cristo” (1 Pedro 5:10). O destino desse chamado é “a comunhão de seu Filho” — koinonia real com Cristo. Essa participação é objetiva e sacramental (“o cálice da bênção… não é a comunhão do sangue de Cristo?” 1 Coríntios 10:16), vital e orgânica (“permanecei em mim, e eu, em vós… sem mim nada podeis fazer” João 15:4–5), trinitária (“para que todos sejam um… em nós” João 17:21), e eclesial: ramos enxertados na oliveira (Romanos 11:17), pedras vivas edificadas como morada de Deus (Efésios 2:20–22), co-herdeiros e co-participantes da promessa (Efésios 3:6), participantes de Cristo (Hebreus 3:14), em comunhão com o Pai e o Filho e, por isso, uns com os outros (1 João 1:3, 7; 1 João 4:13). Em suma, 1:8–9 apresenta o caminho inteiro da igreja: chamada à comunhão do Filho por um Deus absolutamente fiel; confirmada por ele até o fim; moldada agora para ser irrepreensível no “dia” — e, por isso mesmo, convocada a viver hoje a perseverança que ele mesmo opera.

Em 1 Coríntios 1:10, Paulo passa do prólogo agradecido à primeira exortação concreta e o faz com delicadeza pastoral e autoridade cristológica: “Rogo-vos” — parakalō — não é mandonismo, mas súplica persuasiva que ele repete em outras cartas quando quer alcançar a vontade pelo afeto e pela razão (1 Coríntios 4:16; Romanos 12:1; 2 Coríntios 5:20; 2 Coríntios 6:1; 2 Coríntios 10:1; Gálatas 4:12; Efésios 4:1; Filemom 1:9–10; 1 Pedro 2:11). O fundamento invocado é “pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo”: a apelação não é ornamental, é juramento de lealdade e ponto de convergência da igreja, como quando ele suplica “pelas misericórdias de Deus” (Romanos 12:1), exorta “no Senhor Jesus” (1 Tessalonicenses 4:1–2) e conjura “pela vinda de nosso Senhor” (2 Tessalonicenses 2:1), ou quando ordena “diante de Deus… e de Cristo Jesus” (1 Timóteo 5:21; 2 Timóteo 4:1). A unidade pedida, portanto, não é partidária; é cristológica.

O conteúdo do apelo vem em três linhas. Primeiro: “que digais todos a mesma coisa”. Não se trata de uniformidade mecânica, mas de confissão comum que expressa um mesmo evangelho e um mesmo amor. É o “bom e agradável” de “habitar os irmãos em união” (Salmos 133:1), o “um só coração e uma só vereda” que Deus promete dar ao seu povo (Jeremias 32:39), a marca do discipulado pelo amor recíproco (João 13:34–35) e o alvo da oração sacerdotal: que sejam “aperfeiçoados em unidade, para que o mundo creia” (João 17:23). Por isso a igreja primitiva aparece “de um só coração e de uma só alma” (Atos 4:32). Paulo pede “o mesmo sentir” e “o mesmo pensar” (Romanos 12:16), ora para que Deus conceda “um mesmo sentir” para, “a uma só voz”, glorificarem a Deus (Romanos 15:5–6), adverte a “evitar os que promovem divisões” contrárias à doutrina (Romanos 16:17) e conclui: “sede de um mesmo parecer… vivei em paz” (2 Coríntios 13:11). A mesma pauta perpassa Efésios 4:1–7 — “conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz… um só corpo… um só Senhor, uma só fé, um só batismo” — e se traduz em atitudes concretas: abandonar amargura e ira, revestir-se de benignidade e perdão (Efésios 4:31–32). Em Filipos, o pedido assume forma positiva (“permanecei firmes em um só espírito”, “completai a minha alegria… tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo”, Filipenses 1:27; 2:1–4) e prudente (“andemos de acordo com a mesma regra, sintamos a mesma coisa”, Filipenses 3:16). Também em Tessalônica a paz interna é critério de amadurecimento (1 Tessalonicenses 5:13). É a “sabedoria do alto” que é “primeiramente pura, depois pacífica, moderada, tratável… pacificadora” (Tiago 3:13–18), e o perfil fraterno exortado por Pedro: “sede todos de um mesmo sentimento… não retribuindo mal por mal” (1 Pedro 3:8–9).

Segundo: “e não haja entre vós divisões” — schísmata. O termo evoca rasgo de tecido e casa a imagem com a realidade: um corpo com fissuras não pode funcionar. Mais adiante, Paulo denunciará schísmata nas assembleias (1 Coríntios 11:18) e lembrará que Deus dispôs os membros “para que não haja schisma no corpo” (1 Coríntios 12:25). Os evangelhos registram como opiniões sobre Jesus produziram “divisão” (schisma) entre os ouvintes (João 7:43; 9:16; 10:19), e as parábolas sobre remendo novo em pano velho ilustram como certos “ajustes” apressados acabam por rasgar mais (Mateus 9:16; Marcos 2:21). A advertência, portanto, não é apenas “não briguem”, mas “não consintam em lógicas que rasgam o tecido do corpo”.

Terceiro: “antes sejais inteiramente unidos no mesmo entendimento e no mesmo parecer” — katērtismenoi en tō autō noi kai en tē autē gnōmē. O verbo katartízō sugere “ajustar, consolidar, restaurar, recompor” (o mesmo usado para “consertar redes”); a imagem bíblica da coesão é antiga: as tábuas do tabernáculo “acopladas” e “justapostas” (Êxodo 26:24; 36:10, 29), o povo “como um só homem” na adoração (Esdras 3:1), os vigias “vendo olho a olho” e cantando juntos (Isaías 52:8). Ezequiel fala de um novo coração que unifica (Ezequiel 11:19). No Novo Testamento, a metáfora do corpo prossegue: “bem ajustado e consolidado por juntas e ligamentos” (Colossenses 2:19), e a exortação prática é “seguir… a paz” (2 Timóteo 2:22) e “segui a paz com todos” (Hebreus 12:14). Em termos paulinos, “o mesmo entendimento” (nous) e “o mesmo parecer” (gnōmē) não exigem unanimidade de gostos ou de detalhes secundários, mas convergência de mente e critério sob o senhorio de Cristo, conforme a régua do evangelho (Filipenses 1:27; 3:16). Quando há conflitos concretos, como entre Evódia e Síntique, o antídoto não é tribunal de facções, mas “o mesmo sentir no Senhor” (Filipenses 4:2).

Assim, 1 Coríntios 1:10, lido à luz das referências, ergue um arco que vai da bênção antiga de um povo unido, passa pela oração de Jesus por uma unidade que testemunhe ao mundo e desemboca na ética apostólica de uma comunhão “ajustada” por dentro. Paulo roga “pelo nome do Senhor” porque só esse nome sustenta a unidade; pede “falar a mesma coisa” porque a confissão comum costura o tecido; rejeita os schísmata porque rasgos matam o corpo; e busca o “mesmo entendimento e parecer” porque o evangelho dá à igreja mente compartilhada e critérios comuns. Onde isso floresce, a igreja não apenas evita contendas; ela se torna sinal vivo de um só Senhor, uma só fé e um só amor.

A transição para 1 Coríntios 1:11 revela como Paulo toma ciência da ferida comunitária e por que precisa tratá-la imediatamente. “Pois a respeito de vós, irmãos meus, fui informado pelos da família de Cloé que há contendas entre vós.” O procedimento é bíblico e prudente: quando o pecado ou o conflito ameaça o povo de Deus, alguém fiel precisa levar o relato aos responsáveis espirituais, como Rebeca alertou sobre a ira de Esaú (Gênesis 27:42), como José levou a Jacó o relatório do comportamento de seus irmãos (Gênesis 37:2) e como o servo de Abigail descreveu a Nabal a gravidade de sua insensatez para que se tomassem providências (1 Samuel 25:14–17). Paulo não trabalha com boatos; ele nomeia a fonte, tal como mais tarde fará ao dizer que “ouviu” de divisões nas assembleias (1 Coríntios 11:18). O que chega aos seus ouvidos são “contendas”, e a Bíblia inteira interpreta o fenômeno: onde há inveja e carnalidade, ali há dissensões (1 Coríntios 3:3), que facilmente transbordam para litígios vergonhosos entre irmãos (1 Coríntios 6:1–7). A sabedoria antiga já advertira que “da soberba só provém a contenda” (Provérbios 13:10) e que “os lábios do insensato entram em contenda” (Provérbios 18:6). No horizonte neotestamentário, Paulo teme “contendas, ciúmes, iras, facções, detrações, intrigas e tumultos” (2 Coríntios 12:20), e diagnostica a carne com seus frutos: mordem-se e devoram-se (Gálatas 5:15), fabricam inimizades e dissensões (Gálatas 5:20), inflacionam a vanglória que provoca e inveja (Gálatas 5:26). A terapia, por sua vez, é comunitária e espiritual: “fazei tudo sem murmurações” (Filipenses 2:14); recusai o “ensoberbecido” e “doente por questões” (1 Timóteo 6:4); rejeitai “contendas de palavras” e, quando houver de instruir o contradizente, que seja “com mansidão” (2 Timóteo 2:23–25); reconhecei que “as guerras e contendas” procedem das paixões (Tiago 4:1–2). Ao registrar o informe de Cloé, Paulo imita a diligência reformadora de Neemias, que “entendeu” o mal e o enfrentou (Neemias 13:7), e aplica ao corpo de Cristo a ética do administrador chamado a prestar contas (Lucas 16:2): o que foi “noticiado” (1 Coríntios 5:1) precisa ser tratado para que a consciência fraca não permaneça ferida (1 Coríntios 8:7).

O versículo 12 expõe a anatomia do problema: “quero dizer com isto, que cada um de vós afirma: Eu, na verdade, sou de Paulo; e eu, de Apolo; e eu, de Cefas; e eu, de Cristo.” O espírito faccioso converte líderes legítimos em bandeiras identitárias. Mais à frente Paulo mostrará que esse sloganismo espiritual é infantilidade: “quando alguém diz: eu sou de Paulo, e outro: eu, de Apolo, não sois carnais?” Os dois, afinal, são apenas servo-plantador e servo-regador; Deus dá o crescimento (1 Coríntios 3:4–6). Por isso o apóstolo esvazia os rótulos, para que a igreja se glorie não em homens, mas “no Senhor”, reconhecendo que “tudo é vosso… vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1 Coríntios 3:21–23). Ele mesmo já “figurou” em si e em Apolo, “por amor de vós”, o princípio de não ir “além do que está escrito”, para que ninguém se ensoberbeça “a favor de um contra outro” (1 Coríntios 4:6). Os nomes citados tinham, contudo, peso genuíno: Apolo era “eloquente e poderoso nas Escrituras”, útil em Corinto, e Paulo o incentivou, ainda que ele, prudentemente, tenha decidido ir “em ocasião oportuna” (Atos 18:24–28; 19:1; 1 Coríntios 16:12). Cefas é Pedro, reconhecido como coluna (Gálatas 2:9), testemunha do Ressuscitado (1 Coríntios 15:5), casado e itinerante no ministério (1 Coríntios 9:5; João 1:42). A tentação de organizar “partidos” em torno de tais líderes é antiga como os reinos divididos (1 Reis 16:21) e afronta a palavra do Mestre: “todos vós sois irmãos” e “um só é o vosso Mestre” (Mateus 23:8). O perigo não é apenas sociológico; é pastoral: homens surgirão “falando coisas pervertidas para arrastar discípulos após si” (Atos 20:30). A resposta apostólica é dupla: cada um examine “a sua própria obra” e glorie-se só nela, não em comparação (Gálatas 6:4), e a igreja “não ande mais como andam os gentios… na vaidade da sua mente” (Efésios 4:17), mas se eduque na doutrina fundamental, os “princípios elementares” que fundam a unidade (Hebreus 6:2).

A refutação culmina em 1:13 com três perguntas que desarmam o partidarismo à raiz: “Está Cristo dividido?” “Foi Paulo crucificado por vós?” “Ou fostes batizados em nome de Paulo?” A primeira interroga a própria cristologia da igreja: não há dois Cristos — outro “Jesus” ou outro “evangelho” seriam distorção (2 Coríntios 11:4; Gálatas 1:7). A unidade da fé repousa em “um só Senhor” (Efésios 4:5). A segunda pergunta desloca o foco para a cruz: quem nos comprou não foi apóstolo algum; pertencemos a Cristo porque “morreu e ressuscitou para ser Senhor de mortos e vivos” (Romanos 14:9), “morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Coríntios 5:14–15); ele “se deu a si mesmo por nós, para nos remir… e purificar para si um povo” (Tito 2:14). A terceira pergunta atinge o sinal de entrada na igreja: o batismo é em nome da Trindade e sela a união com Cristo (Mateus 28:19; Atos 2:38; 10:48; 19:5); ser “batizado em Moisés” foi, tipologicamente, ser identificado ao mediador da antiga aliança (1 Coríntios 10:2), mas na nova aliança a única identificação legítima é com o Senhor. Nenhum ministro — Paulo, Apolo ou Pedro — pode ocupar esse lugar. É por isso, aliás, que o próprio Senhor, embora seu ministério gerasse batismos, “não batizava, mas os seus discípulos” (João 4:2). A resposta correta ao nome de qualquer servo é: “não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor” (2 Coríntios 4:5).

Nesse espírito Paulo diz em 1:14–16: “Dou graças a Deus porque a nenhum de vós batizei, a não ser Crispo e Gaio… e batizei também a casa de Estéfanas.” A gratidão aqui não é indiferença ao batismo — ele o ordena e presume —, mas alívio pastoral: Deus poupou-o de oferecer munição à idolatria de nomes. Sua vida é ritmo de ação de graças por toda boa dádiva (1 Coríntios 1:4; 14:18; 2 Coríntios 2:14; Efésios 5:20; Colossenses 3:15, 17; 1 Tessalonicenses 5:18; 1 Timóteo 1:12; Filemom 1:4). Os dois batizados nomeados carregam significado em Corinto: Crispo, antigo principal da sinagoga, creu “com toda a sua casa”, e muitos, ouvindo, creram e foram batizados (Atos 18:8); Gaio, hospedeiro da igreja, símbolo de hospitalidade e fidelidade, aparece como saudador dos santos (Romanos 16:23) e modelo de caminhar “na verdade” (3 João 1:1–4). Quanto a Estéfanas, sua casa foi “as primícias da Acaia” e se “consagrou ao serviço dos santos”, presença que alegra o apóstolo (1 Coríntios 16:15, 17). As menções a Lídia e ao carcereiro de Filipos, ambos com “toda a sua casa” batizados (Atos 16:15, 33), mostram o padrão missionário de Deus alcançando famílias inteiras. Ao registrar poucos batismos feitos por suas mãos, Paulo não desvaloriza o rito, mas impede que alguém conclua que foram “batizados em seu nome” (1 Coríntios 1:15), preservando a glória exclusiva do Noivo: ele é apenas “amigo do noivo”, que se regozija com a voz do Noivo (João 3:28–29) e que não busca “a sua própria glória” (João 7:18); zela, antes, por apresentar a igreja “como virgem pura a um só esposo, Cristo” (2 Coríntios 11:2).

Por isso 1:17 define o eixo do seu mandato: “Cristo não me enviou para batizar, mas para evangelizar; não com sabedoria de palavras, para que não se torne vã a cruz de Cristo.” Não que o batismo seja secundário — o Senhor o ordenou e os apóstolos o administravam (Atos 10:48) —, mas o comissionamento específico de Paulo é abrir olhos, converter das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, para que recebam remissão e herança pela fé (Atos 26:17–18). O modo também pertence ao conteúdo: ele não veio “com sublimidade de palavras” nem com “sabedoria” que se apoia em técnicas persuasivas, mas “em demonstração do Espírito e de poder”, para que a fé não se apoie em sabedoria humana, e sim no poder de Deus (1 Coríntios 2:1, 4–5, 13). Por isso renuncia “às coisas ocultas da vergonha” e à “astúcia” que adultera a Palavra (2 Coríntios 4:2), combate com armas espirituais, não carnais (2 Coríntios 10:3–4), aceita ser tido como “rude na palavra” (2 Coríntios 11:6) e distancia-se de “fábulas engenhosamente inventadas” (2 Pedro 1:16). Tudo para que a cruz não seja esvaziada por ornamentos retóricos: a eficácia não reside no brilho do mensageiro, mas no Cristo crucificado que salva. Assim, a seção inteira (1:11–17) encaixa as referências em um quadro coerente: relatos fidedignos expõem contendas; a carne fabrica slogans; o evangelho responde com a indivisibilidade de Cristo, a centralidade da cruz, o batismo em seu nome e a pregação no poder do Espírito; e o ministro, longe de colecionar seguidores, trabalha para que toda a igreja pertença, sem rasgos nem rivais, a um só Senhor.

Em 1 Coríntios 1:18, Paulo põe em cena a linha de fratura que atravessa a humanidade: “a palavra da cruz”, para os que estão “perecendo”, soa como loucura; para os que estão “sendo salvos”, é o poder de Deus. A expressão não é um slogan retórico, mas o conteúdo que o próprio apóstolo decidiu anunciar “nada… senão Jesus Cristo, e este crucificado” (1 Coríntios 1:23–24; 1 Coríntios 2:2; Gálatas 6:12–14). Por que uns chamam de “loucura”? Porque o coração que rejeita a verdade considera “estranhas” as coisas de Deus (Atos 17:18, 32), e o “homem natural” não pode acolher o que é do Espírito (1 Coríntios 2:14); o evangelho permanece “encoberto” para os que se perdem (2 Coríntios 4:3), que “não acolheram o amor da verdade para serem salvos” (2 Tessalonicenses 2:10), tal como os escarnecedores de que falava o profeta (Atos 13:41; Isaías 53:1). Neles se cumpre a ironia bíblica: “dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” (Romanos 1:22). Por que, porém, a mesma palavra é “poder de Deus” para os salvos? Porque o evangelho é “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16); ele chega “não somente em palavra, mas também em poder e no Espírito Santo” (1 Tessalonicenses 1:5), maneja armas não carnais que “poderosamente” destroem fortalezas (2 Coríntios 10:4), e sua própria Palavra é viva e eficaz, penetrante para converter e julgar (Hebreus 4:12). É por isso que Paulo pode dizer que, para os chamados, Cristo crucificado é “poder de Deus e sabedoria de Deus” (1 Coríntios 1:24) e que, por esse evangelho, somos efetivamente salvos (1 Coríntios 15:2). Desde o cântico do Êxodo, quando um “madeiro” adoça águas amargas (Êxodo 15:25), passando pelo sal que cura a fonte (2 Reis 2:21) e pela “flecha da salvação do Senhor” (2 Reis 13:17), Deus salva por meios que o mundo julga frágeis; o padrão culmina na cruz, escândalo para uns, poder para outros. Não surpreende, então, que o Pai esconda “estas coisas aos sábios e entendidos e as revele aos pequeninos” (Mateus 11:25), fazendo com que a fé surja “pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo” (Romanos 10:17), e garantindo que sua Palavra “não voltará vazia” (Isaías 55:11). Assim, a “loucura” da cruz denuncia a cegueira de quem perece e, ao mesmo tempo, revela a energia salvadora com que Deus subjuga, como no Salmo messiânico, “no meio dos teus inimigos” (Salmos 110:2–3).

É isso que 1 Coríntios 1:19 confirma ao citar Isaías 29:14: “Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos inteligentes.” Paulo lê a cruz como o cumprimento do padrão veterotestamentário em que Deus reduz a nada os projetos autossuficientes. Jó já cantara o Deus que “frustra os intentos dos astutos” e “apanha os sábios na sua própria astúcia” (Jó 5:12–13; cf. 1 Coríntios 3:19); Isaías zombou dos oráculos do Egito e de seus “conselheiros estúpidos” (Isaías 19:3, 11); Jeremias expôs escribas envergonhados porque “rejeitaram a palavra do Senhor” (Jeremias 8:9) e advertiu: “não se glorie o sábio na sua sabedoria” (Jeremias 9:23). A Escritura inteira repete: “o Senhor conhece os pensamentos dos homens, que são vaidade” (Salmos 94:11); o brilho de Tiro se corrompeu pelo orgulho (Ezequiel 28:12, 17); a luz em quem confiam pode ser trevas (Lucas 11:35). No Novo Testamento, Paulo pergunta com santa ironia: “Onde está o sábio?” (1 Coríntios 1:20), e explica que a “sabedoria deste século” está “reduzida a nada” (1 Coríntios 2:6); por isso derruba “sofismas e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus” (2 Coríntios 10:5), adverte contra “filosofia e vãs sutilezas” (Colossenses 2:8) e contra as “contradições do falsamente chamado conhecimento” (1 Timóteo 6:20). Tiago acrescenta que há uma sabedoria “terrena, animal e demoníaca”, reconhecível por inveja e ambição (Tiago 3:15), o exato caldo que alimenta as contendas em Corinto. A narrativa bíblica, de conselhos frustrados como o de Aitofel (2 Samuel 17:14) a interpretações que os sábios do Egito não puderam dar (Gênesis 41:8), mostra que Deus rebaixa pretensões humanas para exaltar a sua salvação. Na cruz, esse veredito se torna definitivo: o lugar onde o mundo viu fraqueza é o palco em que Deus destrói a “sabedoria” que não se curva e instala, para sempre, a sua própria sabedoria — Cristo crucificado — como juízo contra a vanglória e como vida para os que creem.

Em 1 Coríntios 1:24, Paulo dá nome ao que os “chamados” experimentam quando ouvem o evangelho: Cristo é, para eles, “poder de Deus e sabedoria de Deus”. “Chamados” não designa meros ouvintes ocasionais, mas aqueles a quem Deus efetivamente convoca para a salvação — o mesmo movimento que une propósito, chamado, justificação e glorificação (Romanos 8:28–30) e que inclui “de entre judeus e gentios” (Romanos 9:24). A própria “sabedoria” se vindica nos seus filhos (Lucas 7:35): quem é alcançado pelo chamado passa a reconhecer, no Crucificado, a energia divina que salva e a mente divina que ordena tudo. Por isso o anúncio da cruz não é uma estética do fracasso, mas a irrupção do poder (1 Coríntios 1:18; Romanos 1:16) do Filho declarado com poder pela ressurreição (Romanos 1:4) e a revelação da sabedoria eterna na qual Deus estruturou a criação e o plano redentor (Provérbios 8:1, 22–30; 1 Coríntios 1:30; Colossenses 2:3). O ministério apostólico caminha nessa clave: a Palavra vive e opera (Hebreus 4:12), o Reino se evidencia “em poder” (1 Coríntios 4:20) e as armas de Deus autenticam o testemunho (2 Coríntios 6:7).

O versículo 25 explica por que o mundo tropeça: até aquilo que, do ponto de vista humano, pareceria “loucura” em Deus é mais sábio do que toda a sapiência humana; e a “fraqueza” que se imagina ver em Deus é mais forte que todos os seus bravos. Essa é a assinatura de Deus na história: ele vence por caminhos que a prudência secular despreza. Israel não foi conduzido pelo atalho estratégico (Êxodo 13:17), mas levado à beira do mar para que o orgulho de Faraó fosse abatido (Êxodo 14:2–4); Jericó ruiu não por aríetes, mas por trombetas e obediência (Josué 6:2–5); Gideão triunfou não com massa humana, mas com um punhado reduzido para que ficasse claro “não por força, nem por poder, mas pelo meu Espírito” (Juízes 7:2–8; Zacarias 4:6–7); Sansão feriu com uma queixada (Juízes 15:15–16); Davi venceu com funda e fé (1 Samuel 17:40–51); Israel resistiu com contingentes improváveis (1 Reis 20:14–22). O mesmo Deus promete fortalecer o mais fraco até que “o menor será como Davi” (Zacarias 12:7–8). A doxologia de Paulo sela a lógica: “ó profundidade… quão insondáveis os seus juízos” (Romanos 11:33–36). À luz disso, a cruz — “escândalo” e “loucura” aos olhos do século — é, na verdade, a demonstração suprema de sabedoria e poder.

Daí a prova empírica que Paulo apresenta em 1:26: “Vede, pois, a vossa vocação.” A própria composição social da igreja de Corinto confirma o padrão: “não foram muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento.” Deus ama plantar sua glória em solo humilde (Sofonias 3:12) e esconder dos “sábios e entendidos” o que revela aos pequeninos (Mateus 11:25–26; Lucas 10:21). Os especialistas que desprezaram Jesus perguntavam com desdém: “acaso creu nele alguma das autoridades?” (João 7:47–49); e, de fato, a riqueza e o status erguem barreiras reais (Lucas 18:24–25; Tiago 1:9–11; 2:5). “Não muitos”, porém, não significa “nenhum”: há o oficial de Cafarnaum que crê (João 4:46–53), José de Arimateia e Nicodemos que honram o Corpo (João 19:38–39), Sérgio Paulo que crê (Atos 13:7, 12), Dionísio, Dâmaris e outros (Atos 17:34), gente “da casa de César” (Filipenses 4:22). Ainda assim, a regra é clara: o chamado de Deus desfaz a vanglória humana (1 Coríntios 1:20; 2:3–6, 13; 3:18–20), substitui a “sabedoria terrena” pela que “vem do alto” (Tiago 3:13–17) e compõe um povo em que a cruz — e não o currículo — decide quem é sábio, forte e nobre. É assim que 1:24–26 costura o argumento: os chamados reconhecem, no Crucificado, o poder e a sabedoria de Deus; a história mostra que Deus triunfa por vias que parecem frágeis; e a própria igreja, marcada por “não muitos” segundo a carne, é um quadro vivo da sabedoria que humilha o orgulho e exalta a graça.

Em 1 Coríntios 1:27, Paulo intensifica o contraste iniciado nos versículos anteriores repetindo três vezes o verbo “escolheu” para exibir o desígnio divino que humilha o orgulho humano: Deus escolheu “as coisas loucas” para envergonhar os sábios, “as fracas” para envergonhar as fortes, e — como mostrará a seguir — “as ignóbeis e desprezadas”. Essa lógica percorre toda a Escritura. O Senhor abate “a cidade exaltada” para que seja pisada “pelos pés dos pobres” (Isaías 26:5–6) e promete deixar “no meio de ti um povo humilde e pobre” que confia no nome do Senhor (Sofonias 3:12). A “sabedoria” que o mundo idolatra é desmascarada quando Deus tira “força da fraqueza”: “da boca de pequeninos e lactentes estabeleceste força” (Salmos 8:2), palavra que Jesus aplica aos louvores infantis no templo (Mateus 21:16) ao mesmo tempo em que bendiz o Pai por esconder “estas coisas aos sábios e entendidos” e revelá-las aos pequeninos (Mateus 11:25; Lucas 10:21). O chamado dos primeiros discípulos, pescadores anônimos e um cobrador de impostos (Mateus 4:18–22; 9:9), já antecipava esse paradoxo que atravessa a missão: Deus dá aos seus uma “boca e sabedoria” que adversários não podem resistir (Lucas 21:15), como ocorreu com Pedro e João, homens “sem instrução” que confundiram o Sinédrio (Atos 4:11–21), e com Estêvão, cuja sabedoria oponentes “não podiam resistir” (Atos 6:9–10). Os sofistas de Atenas ridicularizaram Paulo (Atos 17:18), Félix tremeu diante de sua palavra sobre justiça e juízo (Atos 24:24–25) e, embora sua presença fosse tida como “fraca” e sua palavra “desprezível” (2 Coríntios 10:10), o apóstolo sabia que trazia “tesouro em vasos de barro” para que o excelso poder fosse de Deus e não dele (2 Coríntios 4:7), e lutava com “armas poderosas em Deus” que derribam sofismas (2 Coríntios 10:4–5). Assim, a “loucura” e a “fraqueza” escolhidas por Deus não são defeitos do evangelho, mas instrumentos da sabedoria divina que desmonta a autossuficiência dos sábios e a autoconfiança dos fortes (Isaías 29:14).

O movimento avança em 1:28: além de “loucas” e “fracas”, Deus escolhe “as ignóbeis e desprezadas… e as que não são” para reduzir a nada “as que são”. O Deus que “chama à existência as coisas que não são como se fossem” (Romanos 4:17) decide reescrever a história a partir do que o século considera irrelevante. É seu modo de agir: ele não apenas exalta humildes (cf. Sofonias 3:12), mas também derruba os “que são” aos olhos do mundo. Reis e impérios murcham como relva de um dia para o outro (Jó 34:19–20, 24; Salmos 37:35–36); os olhos altivos são abatidos (Isaías 2:11, 17); exércitos colossais evaporam “da tarde para a manhã” (Isaías 17:13–14; 37:36); a maldade prospera por um instante, e logo “não mais se acha” (Salmos 32:10; 37:35–36). O sonho de Nabucodonosor viu uma pedra “cortada sem auxílio de mãos” esmiuçar os reinos deste mundo (Daniel 2:34–35, 44–45), prenúncio do juízo que fará Babilônia cair “numa hora” (Apocalipse 18:17). Quando Deus “se agrada” de executar seu juízo, “se regozijará sobre vós para vos fazer perecer” (Deuteronômio 28:63) — veredito que explica por que a “sabedoria” deste século é “reduzida a nada” (1 Coríntios 2:6). A própria fraqueza apostólica — que levou Paulo a parecer “insensato” por Cristo (2 Coríntios 12:11) — é palco dessa inversão: o desprezado se torna veículo da glória, e o celebrado se vê anulado. Tudo converge para o mesmo ponto: Deus, por meio do que o mundo despreza, “traz a nada” o que se exalta (cf. Gálatas 4:14; 2 Coríntios 4:7).

O propósito fica explícito em 1:29: “para que nenhuma carne se glorie perante Deus.” Esse refrão corta o nervo do orgulho coríntio. Desde os dias de Gideão, o Senhor evita caminhos que permitam vanglória humana: “para que Israel não se glorie contra mim, dizendo: a minha própria mão me salvou” (Juízes 7:2). A Escritura inteira ecoa: “não se glorie o sábio na sua sabedoria” (Jeremias 9:23), “os que confiam nas suas riquezas” estão iludidos (Salmos 49:6), o machado não pode gloriar-se contra quem o maneja (Isaías 10:15). No evangelho, a jactância é calada: “toda boca esteja fechada” (Romanos 3:19); “onde está a jactância? Foi de todo excluída” (Romanos 3:27); se Abraão tivesse sido justificado por obras, “teria de que se gloriar, mas não diante de Deus” (Romanos 4:2); a salvação é “pela graça… não por obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:9). O apóstolo só admite um tipo de glória: “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1 Coríntios 1:31; 2 Coríntios 10:17), “longe esteja… gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gálatas 6:14). Tudo o que o homem tem recebeu de Deus; por isso, “que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4:7). Em Corinto — onde a tentação era gloriar-se em mestres, dons e status —, esses três versículos reinstalam a régua do céu: Deus escolhe o que o mundo chama de “louco”, “fraco”, “desprezível” e “nada” para derrubar pretensões de sabedoria, força e nobreza; e faz assim para que, diante dele, toda carne renda a glória ao único digno.

Em 1 Coríntios 1:30, Paulo concentra todo o argumento precedente numa só afirmação cristocêntrica: “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nós se tornou sabedoria da parte de Deus, e justiça, e santificação, e redenção.” Primeiro, a origem e a esfera: “vós sois dele” lembra que tudo provém de Deus e retorna a Deus — “dele, por ele e para ele são todas as coisas” — de modo que a reconciliação e o ministério que a anuncia têm Deus como autor (Romanos 11:36; 2 Coríntios 5:18–21). E “em Cristo Jesus” declara a união que define o cristão: não há vida fora da videira (João 15:1–6); não há condenação “em Cristo” (Romanos 8:1); formamos “um só corpo em Cristo” (Romanos 12:5; 1 Coríntios 12:18, 27); quem está “em Cristo” é nova criação (2 Coríntios 5:17); todas as bênçãos espirituais foram-nos dadas “em Cristo”, escolhidos “nele” antes da fundação do mundo, e o plano divino é “reunir em Cristo todas as coisas” (Efésios 1:3–4, 10); por essa união, fomos criados “em Cristo Jesus para boas obras” (Efésios 2:10). Assim, a vida “em Cristo” é o eixo da identidade e da missão.

Nessa união, Cristo “se tornou” para nós “sabedoria de Deus”. Contra a pretensa sapiência do século, o chamado eficaz faz os crentes reconhecerem no Crucificado a própria sabedoria divina (1 Coríntios 1:24). Não por acaso, a Bíblia atribui a Deus a fonte da sabedoria: “da sua boca procedem a sabedoria e o entendimento” (Provérbios 2:6; cf. Provérbios 1:20; 8:5), ele “dá sabedoria aos sábios” (Daniel 2:20), e o Filho, que “declarou” o Pai e é “a luz do mundo”, torna-se o caminho, a verdade e a vida para o nosso entendimento (João 1:18; 8:12; 14:6; 17:8, 26). Por isso Paulo ora por “espírito de sabedoria e de revelação… iluminados os olhos do coração” (Efésios 1:17–18), pregando o “mistério” que torna conhecida “a multiforme sabedoria de Deus” (Efésios 3:9–10); afirma que, em Cristo, “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Colossenses 2:2–3) e que a “palavra de Cristo” deve habitar ricamente em nós (Colossenses 3:16). A luz do conhecimento do Deus que disse “resplandeça” brilha “no rosto de Cristo” (2 Coríntios 4:6), e até a Escritura que nos instrui para a salvação o faz “pela fé em Cristo Jesus” (2 Timóteo 3:15–17). Se alguém tem falta de sabedoria, peça a Deus (Tiago 1:5), certo de que o Cristo vivo dá “boca e sabedoria” aos seus (Lucas 21:15).

Cristo é também “justiça”. O Antigo Testamento já anunciara um Rei justo, chamado “O SENHOR Justiça Nossa”, e um povo que diria: “No SENHOR temos justiça e força” (Jeremias 23:5–6; 33:16; Isaías 45:24–25; cf. Salmos 71:15–16; 54:17). Em Cristo, a justiça de Deus se manifesta “à parte da lei” e nos é imputada pela fé (Romanos 1:17; 3:21–24; 4:6). Ele “foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Romanos 4:25); pela obediência do Segundo Adão, muitos são constituídos justos e “a graça reina pela justiça” para a vida eterna (Romanos 5:19, 21). O grande intercâmbio da cruz sella tudo: “aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21). Por isso, o crente quer ser achado “nele, não tendo justiça própria… mas a que procede de Deus, baseada na fé” (Filipenses 3:9), recebendo “uma fé igualmente preciosa pela justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 1:1).

Cristo é “santificação”. O mesmo Deus que nos santificou em Cristo (1 Coríntios 1:2) operou um tríplice ato: “fostes lavados, fostes santificados, fostes justificados” (1 Coríntios 6:11). O Filho, que venceu o pecado, “salvará o seu povo dos pecados” (Mateus 1:21); ele mesmo “se santifica” por nós e nos santifica “na verdade” (João 17:17–19), concedendo herança “entre os santificados pela fé” (Atos 26:18). Essa santificação é aplicada pelo Espírito que habita (Romanos 8:9), produz fruto (Gálatas 5:22–24), nos recria para boas obras (Efésios 2:10) e purifica a igreja “com a lavagem de água pela palavra” (Efésios 5:26). É também a obra do Pai, “segundo a presciência… em santificação do Espírito” (1 Pedro 1:2), em consonância com o testemunho do Espírito que é a verdade (1 João 5:6). Em suma, a santidade não é um adendo moral à fé, mas o efeito inevitável de estar “em Cristo”: nele, Deus nos separa, nos habilita e nos conforma.

Por fim, Cristo é “redenção”. A obra é passada, presente e futura. Fomos “justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Romanos 3:24); “em quem temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Efésios 1:7; Colossenses 1:14); ele “se deu a si mesmo… para nos remir de toda iniquidade” (Tito 2:14). Ao preço de seu próprio sangue, o Sumo Sacerdote entrou no Santo dos Santos e obteve “eterna redenção” (Hebreus 9:12); não fomos resgatados por ouro ou prata, mas “pelo precioso sangue de Cristo” (1 Pedro 1:18–19). Essa redenção já nos arrancou “deste presente século mau” (Gálatas 1:4) e da maldição da lei (Gálatas 3:13), mas aguarda consumação: “gememos… aguardando a adoção, a redenção do nosso corpo” (Romanos 8:23), “até o dia da redenção” (Efésios 4:30). No fim, os remidos de todas as tribos cantarão: “com o teu sangue compraste para Deus” (Apocalipse 5:9; cf. 14:4), e a taunt de Oseias se cumprirá: “onde está, ó morte, as tuas pragas?” (Oséias 13:14; 1 Coríntios 15:54–57).

Tudo se resolve, portanto, “em Cristo” e “de Deus”: união vital com o Filho, iniciativa absoluta do Pai, aplicação pelo Espírito. A igreja de Corinto precisava ouvir que Cristo não é apenas o meio de entrada na fé, mas o conteúdo total da vida cristã: nossa sabedoria para ver, nossa justiça para estar de pé, nossa santificação para viver, nossa redenção para terminar. Assim, 1:30 prepara o golpe final do versículo seguinte: se tudo nos chega “de Deus, em Cristo”, “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” — e somente nele.

Em 1 Coríntios 1:31 Paulo coroa o argumento dos versículos 29–30 com a citação programática de Jeremias: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.” O alvo é transferir toda a jactância do homem para Deus, em perfeita continuidade com Jeremias 9:23–24, onde o profeta desmonta as três colunas do orgulho humano — sabedoria, força e riquezas — para afirmar que o único motivo legítimo de glória é “entender e conhecer” o Senhor. Essa relocação da glória explica por que “nenhuma carne” pode vangloriar-se “diante de Deus” (1 Coríntios 1:29) e por que Cristo se tornou para nós “sabedoria… justiça, santificação e redenção” (1 Coríntios 1:30): se tudo procede “de Deus, em Cristo”, só ele deve ser celebrado. Por isso o próprio Paulo, ao tratar de “gloriar-se” no seu ministério, não cria exceções para si, mas repete a mesma régua: “aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (2 Coríntios 10:17). A tradição devocional de Israel já ensinava esse reflexo: “gloriai-vos no seu santo nome” é o refrão litúrgico tanto em 1 Crônicas 16:10 como em Salmos 105:3, e quando Davi pede libertação ele o faz “para que louvemos o teu santo nome e nos gloriemos no teu louvor” (1 Crônicas 16:35). Isaías aplica essa teologia à vivência do povo humilde: “te alegrarás no Senhor e te gloriarás no Santo de Israel” (Isaías 41:16), e amplia a promessa quando diz que “no Senhor será justificada e se gloriará toda a descendência de Israel” (Isaías 45:25), linguagem que dialoga diretamente com 1 Coríntios 1:30, onde a justificação é dom em Cristo. Jeremias 4:2 antecipa, inclusive, a universalidade coríntia: quando Israel jurar “Vive o Senhor…”, “nele se bendirão as nações e nele se gloriarão”; a igreja de Corinto, formada de judeus e gentios, é o palco dessa bênção em que todos aprendem a gloriar-se somente em Deus.

No Novo Testamento, esse princípio desmascara as formas religiosas de vanglória. Gálatas 6:13 denuncia os que “querem gloriar-se na vossa carne”, isto é, converter marcas externas em capital espiritual; Paulo opõe a isso o padrão da cruz: “longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gálatas 6:14). A verdadeira “circuncisão” é descrita como a comunidade que “se gloria em Cristo Jesus e não confia na carne” (Filipenses 3:3), exatamente o que 1 Coríntios 1:31 exige de uma igreja tentada a gloriar-se em mestres, carismas e status. Assim, quando Paulo manda “gloriar-se no Senhor”, ele não está pedindo uma emoção subjetiva, mas reinstalando uma política do coração que mede tudo por Cristo crucificado e ressuscitado.

As referências correlatas reforçam o trilho. A glória pertence ao Senhor e é concedida por ele a serviço do culto, como mostram as vestes “de glória e de ornamento” do sacerdócio (Êxodo 28:2), sinal de que qualquer “esplendor” legítimo procede de Deus e retorna a Deus. Quando os homens deslocam a glória, degradam-na: “até quando transformareis a minha glória em vexame?” (Salmos 4:2). O caminho certo é o dos justos que se alegram no Senhor (Salmos 33:1), cuja alma “se gloriará no Senhor” (Salmos 34:2), que confessam: “em Deus está a minha salvação e a minha glória” (Salmos 62:7) e “o justo se alegrará no Senhor” (Salmos 64:10). A razão é clara: “tu és a glória da sua força” (Salmos 89:17); portanto, se há força, ela é emprestada. Eclesiastes 2:26 confirma a economia da graça: “ao homem que é bom diante dele, dá Deus sabedoria, conhecimento e alegria”; se sabedoria e frutos são dádivas, toda glória deve regressar ao Doador. Isaías 28:5 promete que “naquele dia o Senhor… será por coroa de glória” ao seu povo, e Isaías 45:17 declara que “Israel será salvo no Senhor… com salvação eterna” — dois modos de dizer que a glória do povo é o próprio Deus salvando-o. O cântico de Maria obedece a essa mesma lógica devocional: “a minha alma engrandece ao Senhor” (Lucas 1:46), e o hino do velho Simeão enxerga em Cristo “a glória de Israel” e “luz para revelação aos gentios” (Lucas 2:32), isto é, o foco legítimo de toda exultação. Do lado apostólico, a consequência é prática: se “estais completos nele” (Colossenses 2:10), não há espaço para vanglória humana; e, como o versículo imediatamente anterior já lembrou, Deus estruturou a salvação para que “ninguém se glorie diante dele” (1 Coríntios 1:29). Em suma, 1 Coríntios 1:31 recolhe o coro das Escrituras — de Crônicas e Salmos a Isaías e Jeremias, de Maria e Simeão a Paulo — para ensinar Corinto e a igreja de todos os tempos que gloriar-se é inevitável: ou nos gloriaremos em dons, obras, líderes e marcas, ou, rendidos à cruz, diremos com todo o coração: “No Senhor me gloriarei”.

Índice: 1 Coríntios 1 1 Coríntios 2 1 Coríntios 3 1 Coríntios 4 1 Coríntios 5 1 Coríntios 6 1 Coríntios 7 1 Coríntios 8 1 Coríntios 9 1 Coríntios 10 1 Coríntios 11 1 Coríntios 12 1 Coríntios 13 1 Coríntios 14 1 Coríntios 15 1 Coríntios 16

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GALVÃO, Eduardo. 1 Coríntios 1: Significado, Explicação e Devocional. In: Comentário Bíblico Online (S. l.), nov. 2015. Disponível em: [Cole aqui o link sem colchetes]. Acesso em: [Coloque a data que você acessou este estudo, com dia, mês abreviado, e ano, também sem colchetes. Ex.: 22 ago. 2025].

               

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